quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A crise e a cartilha anti-liberal

André Azevedo Alves, no Publico

As referências ao “neo-liberalismo” funcionam, desde os anos 1980, quase sempre como uma espécie de papão indefinido que é agitado ciclicamente para assustar a opinião pública.

Não espanta por isso que, no contexto da actual crise, o discurso sobre a falência das ideias “neo-liberais” esteja a servir para ocultar os falhanços da política monetária e da regulação. Aqui, convirá recordar que foram os bancos centrais a gerar condições para a bolha de crédito (através da manutenção de taxas de juro artificialmente baixas) e não esquecer as falhas dos reguladores do sistema financeiro, que se revelaram incapazes de cumprir com independência (do poder político e económico) as funções que justificam a sua existência.

Tanto na Europa como nos EUA, o peso do Estado (absorvendo na maior parte dos casos entre um terço e metade da riqueza produzida) está muito longe do que se poderia considerar um Estado pequeno. Mesmo assim, a regulação não funcionou.
As falhas dos Estados tiveram um papel crucial na geração da actual crise internacional mas, infelizmente, serão os contribuintes actuais e futuros a pagar as consequências dessas falhas. E tanto mais quanto se insistir nas velhas receitas keynesianas de aumento da despesa pública, endividamento do Estado e expansionismo monetário.

Assim sendo, não deixa de ser surpreendente que o rebentamento da bolha gerada por anos de crédito fácil estimulado pelos Bancos Centrais (acompanhado pelo evidente falhanço das entidades de supervisão e regulação) seja repetidamente apresentado como um produto do livre funcionamento da economia de mercado. A forma como a cartilha anti-liberal de muitos comentadores e jornalistas ignora as múltiplas formas de intervenção estatal na economia pode interpretar-se como pura má-fé ou simples ignorância. Mas, seja como for, há que reconhecer o seu eficiente contributo para a criação de um ambiente propício à ascensão de discursos e medidas populistas estatizantes (incluindo os famigerados “planos de salvação” que socializam os prejuízos de grupos e sectores politicamente influentes). Felizmente, ao contrário do que desejariam os arautos da cartilha anti-liberal, o modelo de economia de mercado (mais ou menos intervencionada) que tem caracterizado os países mais desenvolvidos não deverá estar em causa. A memória do absoluto desastre de todas as experiências de “socialismo real” está ainda demasiado próxima, e deverá impedir que o discurso anti-capitalista mais radical se propague para além dos grupos extremistas.

Existe, no entanto, a ameaça bem real de assistirmos – no âmbito do actual modelo – a um aumento do intervencionismo estatal a nível nacional e do proteccionismo a nível internacional. Infelizmente, se tal se vier a verificar, serão os mais pobres e as pequenas economias mais dependentes da integração na economia internacional – como a portuguesa – quem mais sofrerá com a crise.

Uma ameaça que, no contexto português, tende a ser fomentada pela nossa histórica hostilidade ao funcionamento dos mercados, bem manifesta no corporativismo do Estado Novo e nas desastrosas políticas do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.

Compreende-se assim que, num olhar retrospectivo, só o CDS de Lucas Pires tenha estado em alguns aspectos próximo do liberalismo, ainda que a crédito do PSD de Cavaco Silva se possam contar algumas importantes reformas liberalizantes.

Mesmo assim, temos de reconhecer que nenhum dos dois partidos alguma vez chegou a adoptar uma plataforma próxima da tradição do liberalismo clássico. O PSD, talvez pelas circunstâncias históricas da sua génese, sempre se assumiu como social-democrata e o CDS-PP tradicionalmente adoptou uma matriz de democracia cristã..

Importa no entanto frisar que seria um erro querer encaixar a ameaça do populismo estatizante promovido pela cartilha anti-liberal nos estritos moldes da tradicional dicotomia esquerda/direita. Será que, no contexto da reacção à crise, se poderá classificar – por exemplo – Gordon Brown como sendo mais estatista do que Sarkozy? Ou esquecer que George W. Bush – nos anos que precederam o rebentar da actual crise – foi um dos Presidentes norte-americanos que mais aumentou o peso do Estado, por contraponto a Bill Clinton que privilegiou o equilíbrio orçamental?

Quem sabe se, daqui por algum tempo, Obama não irá começar a ser acusado pelos arautos da cartilha anti-liberal de – também ele – ser um agente do “neo-liberalismo”? Seria, apesar de tudo, um bom sinal.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Katrina passou na janela, e a Carolina barbuda não viu

O furacão Ike matou quatro pessoas em Cuba. As chuvas já fizeram, em números oficiais, provavelmente subestimados porque deve haver corpos soterrados, 69 vítimas fatais em Santa Catarina.

Duas tragédias, dois presidentes. Para responder à emergência cubana, com seus quatro mortos, Luiz Inácio Castro da Silva convocou uma reunião de emergência com sete ministérios e editou uma MP determinando ajuda humanitária ao país. Para Santa Catarina, por enquanto, ele pediu um minuto de silêncio. Ah, sim: determinou que quatro ministros dêem uma espiadela na tragédia que acomete o estado. O governo ofereceu helicópteros para resgate e alguns colchões. E só. Nada de Medida Provisória liberando dinheiro.

Vamos entender as coisas na sua devida dimensão. A presença de ministros no local da tragédia, se não tiverem recursos a oferecer, é inútil. O papel da solidariedade política cabe ao chefe da nação — que é Lula. Ele, sim, já deveria ter pisado em solo catarinense para evidenciar que a população não está só. Tratar-se-ia de um simbolismo, enquanto seus auxiliares, em Brasília, viabilizariam os recursos. E olhem que nem seriam necessários sete ministros...

É o lado Bush de Lula. Katrina passou na janela, e a Carolina barbuda não viu.

O povo de Santa Catarina já se ergueu de outras tragédias. E o fará de novo. Que isso não sirva para esconder a lentidão do governo federal em prestar socorro àqueles brasileiros.

sábado, 22 de novembro de 2008

Neopatrimonialismo racista

no Resistência

Diz o chavão que no Brasil tudo acaba em samba. Mentira, é claro: muita gente por aqui detesta qualquer tipo de batucada. Mas há, sim, algo de que todo brasileiro gosta: benesses do Estado. Conseguir uma bocada paga com dinheiro público é o verdadeiro esporte nacional, mais popular até que o futebol, ao qual a população da Terra dos Papagaios se dedica com um afinco que ela não costuma demonstrar por mais nada - excetuando-se, talvez, o carnaval e o futebol. Tudo aqui acaba em boquinha.

O patrimonialismo - esta mania de tratar o estado e a coisa pública como se fossem propriedade particular - é o fenômeno atávico subjacente a essa mania nacional da boquinha. Ele é o segredinho sujo por trás da proliferação de "movimentos" de defesa de pretensas minorias - negros, indígenas, gays, travestis, mulheres, pois no horizonte dos indivíduos que participam desses movimentos está sempre a possibilidade de se apropriar de renda ou propriedade estatal.

O movimento pelos direitos civis liderado por Martin Luther King buscava o que já está explícito em seu nome: o fim da discriminação, direitos iguais para os negros norte-americanos. O que quer o "movimento negro" brasileiro (entre aspas porque isso não existe na vida real, fora da luta por verbas públicas)? Direitos iguais não pode ser: nossa legislação não só nunca discriminou (até agora...) ninguém pela cor da pele como, pelo contrário, pune severamente o crime de racismo.

O que se busca, na verdade, é simples: a apropriação privada de bens públicos. Assim, nosso movimento contra o "racismo" (onde? de quem contra quem?) quer vastas extensões de terra (distribuição de propriedades rurais e urbanas que teriam sido parte de quilombos imaginários), indenizações em dinheiro vivo e as famigeradas "cotas": carguinhos públicos (cotas cargos em comissão), empregos públicos (cotas em concursos públicos), vagas em universidades públicas (cotas raciais para o ensino superior estatal) e até cotas para a participação de "afrodescendentes" em comerciais de televisão (lembre-se de que a emissão televisiva é uma concessão pública).

Não é à toa que no "estatuto da igualdade racial" que tramita no Congresso (uma aberração que pisoteia a igualdade e institui o racismo no país) consta a obrigatoriedade da remuneração - com verba pública, é óbvio - das "lideranças" do movimento negro. Uma verdadeira pérola do patrimonialismo de corte racial misturado com doses generosas de clientelismo.

É por isso que sempre que passamos por uma data comemorada por algum desses movimentos de defesa de minorias oprimidas, eu me preparo para ler notícias sobre a aprovação de alguma lei absurda. O dia de Zumbi, ou da tal consciência negra de que fala logo abaixo o Fabiano - esse nunca me decepciona. Ontem, confirmando a tradição, a Câmara dos Deputados aprovou um festival de cotas "sociais" e raciais que praticamente expulsa o mérito acadêmico individual como critério de entrada na universidade estatal (não dá mais para chamar de pública uma universidade que discrimina oficialmente uma parcela da população).

Patrimonialismo e clientelismo (as benesses estatais sempre vêm pela mão de alguém, certo?) têm meio milênio de história no Brasil: eles chegaram ao país com as caravelas do Cabral. Sempre foram esportes nacionais muito populares. O que deprime é ver adicionado a essas mazelas uma nova, o racismo. Como quase ninguém tem coragem de se pronunciar publicamente contra essa "novidade" por medo de um possível massacre politicamente correto, o neopatrimonialismo racista avança sem obstáculos.

Que tristeza.

*

Com relação aos deputados que aprovaram essa lei racista e anti-republicana, dizer o quê? Os caras aprovam qualquer coisa, desde que o governo os pague por isso. De mais a mais, como aquele bando de boçais semi-alfabetizados pode dar valor à universidade? Para eles o ensino superior não passa de mais uma oportunidade para se fazer demagogia barata.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Da Consciência adjetivada

no Resistência

Ontem foi comemorado o Dia da Consciência Negra. A data foi estabelecida em homenagem a Zumbi dos Palmares, morto em 20 de novembro de 1695. Zumbi, se não lembram, era um escravo que, revoltado contra as condições realmente desumanas a que eram submetidos os negros, rebelou-se, fugiu e fundou o Quilombo dos Palmares -- onde também havia escravidão. Segundo li neste verbete da Wikipédia, devidamente referenciado (grifos meus):

"A luta de Palmares não era contra a iniqüidade desumanizadora da escravidão. Era apenas recusa da escravidão própria, mas não da escravidão alheia".

Ou então:

"Se algum escravo fugia dos Palmares, eram enviados negros no seu encalço e, se capturado, era executado pela ‘severa justiça’ do quilombo".

Sacaram a homenagem a Zumbi? Eu não...

Também não saquei até hoje essa história de "consciência negra". Como assim? Consciência tem cor? Desde quando? Quem a pintou? Com que tinta? Com brocha, pincel ou spray? Do alto da minha ignorância, sempre imaginei que a consciência, como a água, fosse incolor, inodora e insípida. Vivendo e aprendendo...

Mas se a consciência suporta adjetivos, também quero brincar disso. Lanço aqui uma campanha pela adoção do Dia da Consciência Pesada. Uma homenagem aos obesos, nossos irmãos. (E, se eu não me cuidar, em breve entrarei para a catchiguria.) Poderia cair no dia do nascimento do Faustão. Ou do Jô Soares, sei lá...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Aquecendo as notícias sobre o Aquecimento

por Reinaldo Azevedo

A questão, obviamente, não vai ganhar o mundo. E nem será tratada como deveria: um escândalo. Mas vocês poderão ler tudo no texto de Christopher Booker no Telegraph.co.uk. Na segunda-feira, 10 de novembro, o Instituto Goddard de Estudos Espaciais (GISS), um órgão da NASA chefiado por James Hansen, um homem de Al Gore, anunciou que o mês de outubro fora o mais quente da história. Muita gente ficou um tanto espantada porque, vejam só!, isso contrariava a experiência e os satélites. Mas vocês sabem: como desconfiar de gente tão séria? E, sobretudo, como levantar alguma dúvida se há quem sustente que o mundo vai arder? É pecado. É proibido. Se os crentes de Al Gore falam, a gente tem de dizer amém.

Não obstante, a agência oficial da China havia noticiado que o Tibete tivera a pior tempestade de neve da história. Nos EUA, a National Oceanic and Atmospheric Administration registrou 63 áreas com queda recorde de neve e 115 outras com recordes de baixa temperatura para o mês de outubro. E constatou que 2008 teve apenas o 70º outubro mais quente em 114 anos.

E o que explicava, então, o “outubro mais quente da história” anunciado pelo amigo de Al Gore? Ah, é que haviam colhido dados sobre temperaturas mais altas do que o normal na maior parte da Rússia. Dois blogs dos chamados céticos do Aquecimento Global, Watts Up With That e Climate Audit, decidiram detalhar os números do GISS. Pois é... Eles diziam respeito ao mês de setembro, quando ainda era verão...

No dia 29 do mês passado, nevou em Londres — a primeira neve em outubro desde 1922. Enquanto isso, o Parlamento do país debatia o aquecimento global. Ninguém precisa puxar a faca. Não estou negando o aquecimento global com a mesma certeza estúpida com que se anuncia o fim do mundo "provocado pelo homem". O que me causa espécie, aí sim, é que se faça tamanho estardalhaço com um erro — na hipótese benevolente — e se procure esconder as notícias que não endossam as teses escatológicas. Divirtam-se lá com o texto.

Para Lula, se desemprego crescer, a culpa é nossa

por Reinaldo Azevedo

Vi Lulovsky Apedeutakoba ontem na TV. Muito ponderado, ele sugeriu que o sujeito que já está endividado não se meta em mais dívidas. Já aos não-endividados, ele recomendou que não temam o crediário e partam para os compras. Não parou por aí.

Exercitando o que aprendeu na aula de Massinha I do pré-primário de como funciona o mercado interno, afirmou que, se ninguém comprar, o país produz menos, e, se o país produz menos, o desemprego aumenta.

É uma lógica realmente interessante. FHC era culpado não apenas pelas crises externas — já Lula cobra de George W. Bush a solução — como pelo desemprego. Alguém soprou ao Apedeuta uma nova verdade: caso alguém seja demitido, a culpa será dos brasileiros que não foram às compras.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Che, o Filme

No Imprensa Marrom, o Gravataí Merengue criou o blogueiro perfeito da petistosfera: o Miro Carrera, uma mistura de Charles Bronson com Heloísa Helena. Uma crítica ácida e inteligente sobre o pensamento esquerdista que se comporta como torcida organizada de futebol.

No post de ontem, ele me sai com essa:

Che, o Filme
Não vi e não gostei o filme do ícone Che Guevara. Dizem que na película ele é violento. Inapropriada tal abordagem, pois o revolucionário seria incapaz de ferir uma mosca. Ele feria, quando muito, os dissidentes desarmados e já rendidos, com os olhos devidamente vendados e ajoelhados. Mas as moscas, ah, nelas ele não punha os dedos. Era defensor da natureza.

Perfeito!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Pais não têm competência...

via O Insurgente

A República de Weimar - a boa...

Comentário de um leitor publicado no Blog do Reinaldo Azevedo, o qual fez questão de destacar na página principal:

Eles têm os leitores deles, aquelas coisas... Eu tenho os meus, como Weimar. Ele escreve e eu sempre "subscrevo embaixo", reproduzindo uma graça do próprio.
*
Vou tentar ser Claro. Não o Claro, coisa que jamais poderia ser; apenas ser CLARO.

É realmente verdade que uma boa parte da população esteja percebendo as críticas ao delegado e ao juiz como defesa de privilegiados. É verdade, lamentável e preocupante que assim se pense.

Agora, vejamos por que a garantia dos direitos individuais, velha questão, torna-se mais urgente e preocupante quando o mal chega a parte da elite.

A história da civilização (queremos acreditar que assim seja, mas há controvérsias) vem, de modo geral, num crescendo de justiça, liberdade e democracia. Sabemos que esta nossa sociedade, a brasileira, tem graves deficiências nessas áreas, mas sabemos também que já foi pior, muito pior. Os direitos individuais que só atingiam uma pequeníssima parte da população passaram a chegar a novas faixas, ou classes. E isso nos dava esperança de que, em breve, estariam garantidos os direitos individuais a todos os cidadãos.

Nesse caso de D.D. e outros elementos (vai aqui uma concessão aos linchadores, já que mais correto seria dizer “cidadãos”), o que se vislumbra é que a tendência inverte-se: em lugar de direitos o que avança é uma perigosa nuvem negra de ilegalidades, injustiças e tirania. O que não muda, em relação aos piores tempos, é que a alteração ocorra em benefício de outra, pequeníssima, parte da elite, dos privilegiados, dos donos do poder.

Não há como deleitar-se com o fato de que injustiças, ilegalidades sejam cometidas contra quem quer que seja. Na há como alegrar-se com o pensamento doentio de: “Agora, sim, estamos todos sob o império do arbítrio!” Faz-se justiça com esse jeito torto? Não! Beneficia-se a democracia? Não, ela contrai-se! Até porque, é claro, lógico, natural, incontroverso, sabido pela história que para haver tirania é preciso que haja tiranos, sempre intocáveis pela lei. Lei que será deles. A estes a lei não ameaça. Não se acaba o arbítrio com mais arbitrariedade. O remédio que resta, doloroso, fica por conta da bala do fuzil ou da forca. Remédio sempre terrível, com enormes efeitos colaterais.

E por que parte da população vê com maus olhos essa luta pela defesa dos direitos individuais? Em grande parte, pelo trabalho da imprensa vendida e da imprensa covarde, formadas, por sua vez, pelo desastre que são nossas universidades.

A briga aqui não é por privilégios; é pelo processo civilizatório.

Weimar

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lula-aqui, Evo-ali, Obama-lá

Augusto de Franco
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O reforço dessas condições extrapolíticas, conquanto possa ter efeito simbólico importante, conspira contra a política (democrática)

Em parte por concepção, em parte por esperteza, Lula resolveu contrair a obamania. Nas vésperas da eleição americana, ele declarou: "da mesma forma que o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia, um índio, a Venezuela, o Chávez, e o Paraguai, um bispo, seria um ganho extraordinário se a maior economia do mundo elegesse um negro". É ruim.

Salva-se nessa lista de admirações só o próprio Obama. Os outros são ou serão protoditadores ou ditadores, com exceção de Lula, que é apenas um líder neopopulista manipulador. É ruim também. Mas é menos pior.A esperteza de Lula é usar a obamania para legitimar a lulomania. Ou a evomania. Ou a chavezmania. São manias de não gostar da democracia.

Isso é tão óbvio que não pode estar em discussão. Se Lula gostasse de democracia, não teria declarado tantas vezes que Chávez "peca por excesso de democracia".

Para entender, é preciso ver que Lula não quer ser chefe de governo.Nunca quis. Ele quer ser condutor de rebanhos, guia de povos. Quer palanques extraordinários, não a ordinária rotina das tarefas administrativas.

Frans de Waal já nos cansa há anos com suposições sobre uma "Chimpanzee Politics". Ele está redondamente enganado, é claro. Mas suas hipóteses vêm a calhar para a comparação seguinte: quanto mais você se parece com um chimpanzé, mais precisa de líderes extraordinários, machos alfa e outros condutores de rebanho.

Na democracia, cada um que pense com sua cabeça, faça suas escolhas e ande com as próprias pernas. Quem precisa ser conduzido como rebanho é gado, não gente. Quem gosta de conduzir o povo pela mão são os sociopatas (e genocidas, como Mao, o "guia genial dos povos") e os vigaristas (como certos pastores e palanqueiros).

A democracia não precisa de líderes extraordinários, superhomens, caudilhos carismáticos que eletrizam as multidões e arrebatam as massas em nome de um porvir radiante. A democracia, como dizia John Dewey, é o regime das pessoas comuns; sim, das ordinárias, não das extraordinárias.

Mas Lula, significativamente, tem especial predileção pela palavra: assim como a vitória de Obama seria "extraordinária", aquele seu primeiro ministério, detonado pelas suspeitas e acusações formais de crime, roubo e formação de quadrilha, ele também o qualificava como "extraordinário".

Quem precisa de coisas extraordinárias, mitos fundantes (líderes ungidos, predestinados a cumprir um papel redentor), utopias fantásticas (reinos milenares de seres superiores ou regimes universais de abundância) são autocracias, não democracias.

Quase dois terços dos americanos não foram votar no mulato Obama.

Dos que foram votar, quase a metade preferiu o macho branco caucasiano McCain. Obama, com superávits de melanina em relação a McCain, não por isso vai conduzir as massas para qualquer paraíso. E nem vai governar o tempo todo lembrando a sua condição extraordinária de negro. Se fizesse isso, seria um negro de araque.Já Evo é um índio de araque, nesse particular, igualzinho a Lula, um metalúrgico de araque. Sim, ele o foi, mas não é mais. Há muito tempo. Aliás, já passou mais tempo como profissional do palanque, sustentado "sem produzir um botão" (a expressão é dele) por dinheiro partidário e de financiadores privados, do que como metalúrgico de chão de fábrica.

Quem pode viver disso não é a política (democrática), mas aquela ideologia sociológica que pretendia encontrar na extração social alguma razão para explicar e legitimar o comportamento do agente. O lugar de onde ele fala não seria então o lugar que ocupa quando fala, senão um lugar pretérito, originário, abstrato, capaz de lhe condicionar a trajetória e absolvê-lo de todos os erros passados e futuros.

A empulhação se generalizou, em parte baseada na visão equivocada de que a origem de classe ou de raça ou cor tem alguma coisa a ver com a democracia. Não tem, pelo contrário: o reforço dessas condições extrapolíticas, conquanto possa ter um efeito simbólico importante, conspira contra a política (democrática). Uma pessoa deve ser escolhida pelas suas opiniões, não por sua extração, origem, identificação antropológica.

Lula-aqui, Evo-ali e Obama-lá são movimentos regressivos. Obama não tem culpa. Ao contrário de Lula e de Evo, ele está convertido à democracia. Mas a obamania, assim como a lulomania e a evomania, aborrece a democracia.

AUGUSTO DE FRANCO , 58, é autor, entre outros livros, de "Alfabetização Democrática". Foi conselheiro e membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária durante os governos FHC (1995-2002).

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Chineses celebram o fim da exploração capitalista

via O Insurgente


Factories Shut, China Workers Are Suffering
For decades, the steamy Pearl River Delta area of southern Guangdong Province served as a primary engine for China’s astounding economic growth. But an export slowdown that began earlier this year and that has been magnified by the global financial crisis of recent months is contributing to the shutdown of tens of thousands of small and mid-size factories here and in other coastal regions, forcing laborers to scramble for other jobs or return home to the countryside.

Furthermore, the slowdown inhibits China’s ability to work with other nations in alleviating the worldwide crisis.

The Pearl River Delta, known as the world’s factory, powered an export industry that pushed China’s annual growth rate into the double digits and provided work for migrants from interior provinces with poor farmland. But circumstances have changed quickly. The slowdown in exports contributed to the closing of at least 67,000 factories across China in the first half of the year, according to government statistics(…)

The social problems arising from the slowdown have stirred anxiety in the top leadership of the Communist Party, whose legitimacy is based on maintaining economic growth.

Puxa, que surpresa!

Lei de estágio causa queda em número de vagas

SÃO PAULO - Em 45 dias, desde que a nova lei de estágio foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o número de vagas oferecidas no País caiu 40%, de acordo com levantamento da Associação Brasileira de Estágios (Abres). A oferta caiu de 55 mil postos mensais para 33 mil.


É o nanny-state gerando empregos. Alguém ainda duvida o quanto um burocrata pode fazer este país andar pra trás?

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Individualismo versus racismo

por Rodrigo Constantino, via Ordem Livre

"A longo prazo, a única forma de superar o racismo é através da filosofia do individualismo, a qual tenho promovido por toda a minha vida."
(Ron Paul)



Em seu mais famoso discurso, Martin Luther King Jr. fala do sonho de viver num país onde as pessoas deixem de ser julgadas pela cor da pele e passem a ser julgadas pelo seu caráter. MLK ressalta a importância das "magníficas palavras" contidas na Declaração de Independência Americana, que defende o direito inalienável à liberdade para todos os indivíduos. Essa é exatamente a postura de Ron Paul, assim como a de vários libertários que rejeitam qualquer tipo de mentalidade coletivista. Como diz Ron Paul em The Revolution, não temos direitos porque pertencemos a algum grupo, mas porque somos indivíduos. E é como indivíduos que devemos julgar uns aos outros.

O racismo nada mais é do que um tipo de coletivismo que enxerga a cor da pele como a característica predominante em cada um. Ron Paul afirma: "O racismo é uma forma particularmente odiosa de coletivismo m que os indivíduos são tratados não por seus méritos, mas pela identidade de grupo". Para Ron Paul, a filosofia do individualismo é o maior desafio intelectual que o racismo já enfrentou. Por outro lado, a politização do tema pode ser um empecilho para o término desta "desordem do coração", como Ron Paul chama o racismo. Os "pais fundadores" dos Estados Unidos, entre eles os autores da mesma Declaração de Independência admirada por Martin Luther King Jr., ficariam chocados ao observar como a sociedade americana se tornou politizada, passando a tratar cada assunto sobre o qual há divergências como um problema federal a ser solucionado em Washington. O meio adotado pode ser muitas vezes contraproducente, afastando ainda mais o desejado fim.

Ron Paul explica que o governo exacerba o pensamento racista e ataca o individualismo, porque sua própria existência encoraja a organização das pessoas em linhas raciais para fazer lobby por benefícios e privilégios ao seu grupo. No fundo, isso vale não apenas para a questão racial, mas para todas as outras. Vemos os homossexuais se organizando para exigir privilégios também, e inúmeros outros grupos que ignoram o indivíduo para abraçar algum coletivismo qualquer. Mas o que deveria importar mesmo não é a preferência sexual, ou então a cor da pele de alguém, e sim seu caráter, sua conduta, seus valores e princípios. Uma pessoa pode ser íntegra ou não, e isso claramente não tem relação alguma com a cor da pele ou a preferência sexual.

É espantoso ter de repetir uma obviedade dessas em pleno século XXI, mas infelizmente essa obviedade ainda não é parte do senso comum, mesmo que seja puro bom senso. A mentalidade racista, que separa e julga pessoas usando como critério a cor da pele, ainda é uma triste realidade no mundo em que vivemos. E isso vale para ambos os lados, é importante lembrar. O regime de cotas é uma prova disso. Assim como a postura de muitos americanos dos guetos que "acusam" um negro de estar "agindo como branco" caso ele não aceite as regras locais de conduta, muitas vezes prejudiciais ao indivíduo. Se o negro do gueto rejeita as letras agressivas do rap ou a forma de falar do grupo, ele pode acabar sendo vítima da hostilidade dos demais, um ato claro de racismo com sinal invertido. No Brasil, o mesmo comportamento já pode ser observado em favelas, onde a vulgaridade do funk deve ser a norma seguida para merecer a aceitação do grupo.

Deixo a conclusão com Ron Paul (tradução livre): "Não devemos pensar em termos de brancos, negros, hispânicos, e outros grupos do tipo. Este tipo de pensamento apenas nos divide. O único pensamento 'nós-versus-eles' que podemos nos permitir é o de povo – todo o povo – versus o governo, que rouba e mente para todos nós, ameaça nossas liberdades, e rasga nossa Constituição".

Imprensa americana chapa-branca

por Diogo Mainardi, na Veja

Barack Obama foi eleito por jornais e TVs. Menos pelos editoriais de apoio, pela cobertura parcial, pelas fotografias enaltecedoras e pelos quadros satíricos que eles fizeram, e mais pelo que eles deixaram de fazer: reportagens, reportagens, reportagens.

A ombudsman do Washington Post analisou as matérias do próprio jornal. Em primeiro lugar, ela destacou a gritante disparidade de tratamento reservada aos candidatos - as matérias sobre Barack Obama e Joe Biden, uma moleza; as matérias sobre John McCain e Sarah Palin, uma paulada, como elas de fato devem ser numa disputa presidencial. Em seguida, a ombudsman tocou no ponto que mais me interessa: a absoluta falta de interesse do Washington Post em investigar temas potencialmente danosos para a campanha de Barack Obama. Em particular, ela citou dois desses temas: seu envolvimento com drogas nos tempos da faculdade e seus negócios com Anthony Rezko, o empresário corruptor que financiou a carreira política e a vida privada de Barack Obama, tendo-o ajudado a comprar sua casa. Anthony Rezko foi condenado criminalmente durante a campanha eleitoral, mesmo assim ninguém deu bola para o caso.

A Economist também tratou desse jogo sujo da imprensa para eleger Barack Obama. Uma das principais vantagens que sua campanha teve sobre a de John McCain foi a esmagadora superioridade financeira. Essa vantagem só foi obtida porque Barack Obama, em vez de recorrer ao financiamento público, conforme ele prometera durante as primárias, serviu-se de dinheiro privado, arrecadando 600.000.000 de dólares, boa parte dos quais pela internet, de origem desconhecida. A Economist perguntou retoricamente: o que diria o New York Times se o contrário tivesse ocorrido? Se John McCain, depois de aplicar um golpe em Barack Obama, dispusesse de duas vezes mais dinheiro para financiar sua campanha, inclusive podendo comprar, a menos de uma semana das eleições, meia hora de publicidade na TV aberta? Eu respondo a pergunta retórica da Economist. Cinco dias depois de Barack Obama ser eleito - cinco dias -, o New York Times publicou um editorial recomendando enfaticamente ao prefeito Michael Blooomberg que ele recorresse ao financiamento público em sua próxima campanha eleitoral. Pelo visto, isso vale para todos os políticos, exceto um: Barack Obama.

A imprensa escrita e televisiva dos Estados Unidos continua a perder público e faturamento. A temporada de Barack Obama na presidência tem tudo para afundá-la de vez. A única saída para a imprensa é voltar a fazer aquilo que só ela sabe fazer: reportagens, reportagens, reportagens.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Reflexões no alto do banquinho

por Percival Puggina, no Mídia Sem Máscara

Uma sociedade que se mostra desatenta ou tolerante em relação aos abusos do poder central está passando a corda no próprio pescoço e subindo num banquinho que logo mais desaparecerá de sob seus pés. Isso está em curso no Brasil, e fica para sua escolha crer se ocorre como parte de uma estratégia ou se é algo que os fatos, por si mesmos, espontânea e descontroladamente, se encarregam de desencadear. Em qualquer das possibilidades, saiba: somente a atenção social, a percepção para a natureza do problema, a rejeição de suas conseqüências e a mobilização política podem interromper o que vem por aí.

Muito tenho escrito sobre o desequilíbrio que marca as relações entre os membros da federação brasileira na repartição dos recursos fiscais, que concentra na União mais de dois terços de tudo que o poder público arrecada no país.

Essa dinheirama, que abarrota os cofres federais em sucessivos recordes de arrecadação, transforma a presidência da República num poderoso patronato junto ao qual todos os demais entes federados e seus representantes mendigam verbas para atender, minimamente, as demandas de suas comunidades. O presidente e a ministra ungida circulam por aí distribuindo recursos, assinando convênios e recolhendo afagos. São a versão moderna, em dois gêneros, dos antigos mecenas, de cujos gostos flui dinheiro grosso. Assim, algo que sequer deveria existir (e que, existindo, precisaria ser puramente institucional) se torna subjetivo, pessoal. Não mais se trata, sequer, da velha relação amigo-inimigo – “para os amigos os favores e para os inimigos os rigores”. Não. É coisa bem diferente: sumiram os inimigos, cooptados no indispensável balcão das súplicas, longe do qual nada acontece. Por incontornável exigência dos fatos, ninguém antagoniza o governo federal porque isso prejudica a saúde financeira do Estado ou município que o fizer. E foi assim que subimos no banquinho.

A recente campanha eleitoral serviu para tornar evidente que poucos candidatos se situavam distante da mão indulgente do Planalto. Para os mais chegados, aliás, a expressão “buscar recursos federais” era a palavra mágica de onde derivavam as soluções para quaisquer dificuldades dos municípios. Era como se estes estivessem dispensados de ter recursos próprios e o orçamento da União fosse a fonte inesgotável que podia irrigar com abundância os programas locais. Quando isso pareceu muito natural a todos e quando nenhuma voz se ergueu para apontar o absurdo da situação, a corda da tirania envolveu nosso pescoço.

Onde foi parar o espírito libertário da nossa gente? Onde o senso de justiça? Estamos submetidos a uma condição servil, a uma sujeição obscena, que se caracteriza pelo aspecto monolítico do poder federal e por sua sedutora e irresistível capacidade de compra. “De todas as tiranias, aquelas exercidas para o bem de suas vítimas acabam sendo as mais opressivas”, ensina-nos o novelista irlandês Clive Staple Lewis. Há que refletir com urgência sobre isso enquanto as autonomias não afundarem totalmente sob o peso das hipotecas políticas depositadas nos cofres da União. Ali há de tudo, créditos bons e podres, derivativos e subprimes, formando perigosa e faminta bolha de poder. Saiba, leitor: pode haver democracia sem Federação. No entanto, havendo Federação, tornar ridícula a autonomia dos seus membros é acabar com a democracia. É chutar o banquinho.

Um otimismo razoável

por Pedro Sette Câmara, no Ordem Livre

Uma das vantagens subjetivas de ser contagiado pelo otimismo é bastante simples: ele é mais motivador e é mais gostoso ser feliz do que ser infeliz. É melhor torcer para o time que vence do que para o time que perde. Se um liberal é obrigado a um certo pesar pela inflação das expectativas (não sem precedentes!) que Obama causou em torno de si e do papel do presidente, isso não significa que só lhe reste um sentimento apocalíptico, como se a luta pela liberdade fosse quixotesca. Eu até acho que, se o preço da liberdade é a eterna vigilância, é claro que jamais teremos um sistema tão perfeito que nos dispense de ser bons (parafraseando T.S. Eliot), e que vamos sempre ter de querer a liberdade e renovar o ato da consciência individual que compreende seu valor.

Mesmo pessoas que, como eu, acham simpática a idéia de um presidente americano negro – admitindo algum contágio – , não resistem a ironizar a expectativa de que alguma coisa radicalmente diferente e positiva venha a acontecer. Mais ainda, é irresistível ironizar as expectativas messiânicas que o próprio Barack Obama gerou em torno de si mesmo e o quanto as pessoas que se julgam mais “esclarecidas” se deixam levar pela retórica da batalha do bem contra o mal no poder executivo americano. Alexander Herzen teria reclamado – ao menos é o que aparece em The Coast of Utopia, a trilogia teatral de Tom Stoppard – que o que as pessoas querem é “uma tirania que esteja do lado delas”. Ora, uma das principais diferenças entre um liberal e um não-liberal está exatamente aí: na expectativa de que o governo seja limitado, não de que ele seja ilimitado e promova políticas com as quais se concorde. Por isso, “esclarecido” ou não, o obamista é um crente no Estado, um não-liberal, ainda que certamente um liberal no sentido mais Hillary Clinton da palavra.

Aliás, pensando no discurso de Barack Obama após a eleição, fiquei assustado (mas não surpreso) ao ouvi-lo falar em “união” e “sacrifício”, porque não concebo que caiba ao presidente pedir essas coisas. Enquanto liberal, creio que é minha obrigação tolerar civilmente uma série de coisas de que não gosto ou que considero até moralmente repugnantes, por isso eu não teria uma reação negativa se Obama pedisse aos americanos que simplesmente não se matassem ou parassem de tentar usar o sistema judiciário para promover seus próprios valores “conservadores” ou “progressistas”. Se fosse para reduzir a questão a um slogan, seria “tolerância é o suficiente”, não só porque ela pode ser traduzida em atitudes tangíveis como porque não é possível fazer com que toda a população aprove alguma conduta. Quanto ao sacrifício, só me cabe perguntar: o que mais você quer que o cidadão faça além de pagar impostos e ser honesto e ordeiro? Mesmo que eu acredite num dever moral de praticar alguma caridade, creio que essa é uma questão privada. Não que eu acredite que John McCain fosse pedir algo diferente do povo americano: seria igualmente ingênuo esperar o contrário.

Agora, o que pode dar causa para algum otimismo é, antes de tudo, uma mudança de escala e de foco. O poder executivo americano pode estar inflando, mas o relatório Liberdade econômica no mundo deste ano do Fraser Institute diz que em muitos lugares do mundo a pobreza diminui, graças ao aumento de liberdade econômica. Aqui mesmo na América Latina podemos ter Hugo Chávez, mas o Chile já está entre os 10 primeiros colocados em liberdade econômica, com prosperidade evidente. Podem existir miríades de ONGs dedicadas a causas pontuais e esquerdistas, mas o número de ONGs – think tanks e outras instituições – devotadas à promoção da liberdade enquanto ausência de coerção por parte do governo só aumenta. Devagar, mas aumenta. Mesmo algumas expectativas em relação a Obama são boas, como a de que ele torne os EUA menos imperiais. Creio que ele dificilmente atenderá a essas expectativas, mas é bom que elas existam: no mínimo, servem como premissas retóricas para diminuir o poder da presidência.

São dados como esses que colocam a política do dia-a-dia em perspectiva e nos lembram do que Hayek falou sobre os políticos não serem verdadeiros líderes, mas meros seguidores de idéias presentes no senso comum. Se algum otimismo político é necessário para o seu bem-estar emocional, ao menos tente tirá-lo de causas mais verdadeiras, ainda que menos contagiosas e oceânicas do que o messianismo do presidente americano.

O Socialismo que desconfia das pessoas

Rodrigo Adão da Fonseca, no Insurgente

Se há comportamento que marca as políticas mais recentes deste governo socialista, aquele que se mostrou com mais clareza nos últimos dias é o de desconfiança, desconfiança do governo na capacidade dos cidadãos, da sociedade civil, e da iniciativa privada: o Governo entende que é ele, e os agentes por si escolhidos, que devem carregar com o país às costas, porque os portugueses não são capazes de o fazer.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Laranjada de esperança

por Guilherme Fiúza

Barack Obama foi eleito, e o mundo ficou bonzinho. Que bom. Estava na hora mesmo de um final feliz.

Para completar a festa, daqui a pouco chega Papai Noel. É hora de acreditar. É hora de simplificar. É o novo dia, de um novo tempo, o futuro já começou. Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa etc etc.

É emocionante ver intelectuais ao redor do mundo descobrindo um estadista genial nas palavras vazias e cheias de clichês politicamente corretos do presidente eleito. Assim é, se lhes parece.

Entre outras mesuras catitas, Obama dirigiu-se aos “deficientes e não-deficientes”. É curioso como essa paranóia de não discriminar se torna cada vez mais discriminatória. Como pode um presidente categorizar cidadãos de acordo com a sua saúde corporal?

Mas dá para entender, vindo de um cidadão que tem vastos serviços prestados ao seu país, é senador da República, e quando é eleito presidente os aplausos vão para a cor da sua pele. Os politicamente corretos só pensam naquilo.

E ainda surge uma teoria incrível de que a guerra civil americana só terminou agora, com a eleição de Obama. Pelo visto, já está vigorando o sistema de cotas para sociólogos de plantão.

Os mais ousados ainda dão um jeito de botar o piloto inglês Lewis Hamilton no mesmo balaio teórico. Não é um campeão. É um campeão negro. Isso lembra uma entrevista do cantor Seu Jorge ao programa Roda Viva, em que ele, dada a fixação racial das perguntas, sugeriu: “Podemos falar de música?”

Mas a opinião pública deve estar certa. É comum ela atirar no que viu e acertar no que não viu. No Brasil, elegeu Lula para afirmar a ética e inaugurar um modelo econômico de esquerda. Veio o mensalão e a manutenção do modelo liberal. E o povo parece satisfeito.

Foi assim também com Kennedy, que fez a guerra do Vietnã e quase uma guerra mundial com a invasão de Cuba. Passou à história como um mito democrata.

Obama, o pacificador, quer abrir conversas com o tarado do Irã. Israel já está de prontidão. Como se sabe, esse negócio de happy end não tem tradução no Oriente Médio. Da lua-de-mel entre Clinton, Rabin e Arafat restou só um retrato na parede. Chamuscado.

Mas viva Obama. A esperança é a última que morre. A inocência é a penúltima.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Julgadores facciosos dos direitos humanos

Jarbas Passarinho, na Folha de São Paulo

Guardo a lição de Franklin Delano Roosevelt quando afirmou que as liberdades fundamentais estão sintetizadas em não ter fome, não ter medo, livre culto religioso e respeito à privacidade das pessoas. A liberdade de não ter medo embasa-se no direito de expressar livremente o pensamento.

As facções que desencadearam a luta armada de 1967 a 1974 (todas comunistas, exceto Caparaó) lutaram pela ditadura do proletariado, segundo a cartilha marxista. Mais recentemente, diziam ter lutado pela democracia, contra o que se insurgiu, indignado com a mentira, Daniel Aarão Reis, ex-guerrilheiro, preso e exilado, hoje professor universitário: "Nenhum documento das guerrilhas tratou de democracia", contestou.

Claro, pois, marxistas, visavam à ditadura do proletariado. De resto, se vencedoras, teriam erigido um regime de partido único, como o fez Lênin. É paradoxal o defensor do partido único invocar direitos humanos se nega a liberdade de expressão e a pluralidade partidária quando no poder.

O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) foi militante da Ação Libertadora Nacional, liderada por Marighella, cujo manual de guerrilha defendia o terrorismo, diferentemente de Che Guevara, que o condenava.

Se o ministro fosse um Sobral Pinto ou um Paulo Brossard, eu teria certeza de sua imparcialidade. Reconheceria que a tortura e o terrorismo são irmãos xifópagos, a primeira, uma praga existente desde priscas eras, presente em todas as guerras, e o segundo, não tão antigo. Afinal, a Constituição trata ambos como crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça.

Já que o ministro faz diferença, teoricamente ao menos, julgo-o um revanchista, do tipo que, derrotado, está hoje no governo de um presidente que não foi guerrilheiro.

Antecessor seu na Comissão de Anistia foi outro militante de guerrilha comunista vencida. O objetivo deles tem sido muito claro: queixar-se de torturas na luta armada e esconder o terrorismo que praticaram. Falta-lhes, pois, substância moral para a queixa mesclada de ódio, a despeito dos benefícios já recebidos.

Só em indenizações, já receberam mais de R$ 2 bilhões. Nem um centavo para as famílias dos mortos e mutilados no atentado terrorista no aeroporto de Recife, em 1966, primeiro ato da luta armada que desencadearam. Pensão vitalícia, remuneração por atrasados e emprego livre de Imposto de Renda, tudo foi obtido por um dos terroristas que lançaram carro-bomba contra o quartel do Exército em São Paulo, cuja explosão estraçalhou o corpo de um soldado. Os filhos do povo, os vigilantes de bancos, os seguranças de embaixadores, os oficiais estrangeiros mortos à traição (e até por engano), esses não tinham pais, mães, esposas, filhos.

A emenda constitucional nº 11, de outubro de 1967, revogou o AI-5 e restabeleceu os direitos fundamentais.

Seguiu-se-lhe a anistia, mais ampla que o substitutivo do MDB, que não anistiava Brizola e Arraes. Reconhecendo que houve excessos de ambas as partes, o projeto de lei da anistia incluiu na graça os crimes conexos, assim tidos pelo Congresso em 1979, como a tortura e o terrorismo.

FHC acrescentou as indenizações que privilegiam os derrotados na luta armada. Inverteram o humanitismo de Quicas Borba e o princípio: aos vencedores as batatas. As batatas foram para os vencidos. Millôr Fernandes não pôde conter o chiste: "Os guerrilheiros não fizeram guerra, mas um bom investimento".

Bem pagos, cresceu-lhes a ambição de derrogar unilateralmente a anistia.

Imitando Janus, são bifrontes: um rosto é dedicado à tortura, que é o mal, e o outro, ao terrorismo, sobre o qual silenciam. Apareceram "juristas" doutrinando sobre a imprescritibilidade da tortura, mas omitem o terrorismo. Um jurista de esquerda tradicional, indelicadamente, chamou de "burocratas jurídicos" o ministro da Defesa e o advogado-geral da União, que dele discordam. O menosprezo evidencia a marca da ideologia, e não a do saber jurídico.

A propósito, declarou o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes: "Repudio qualquer manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente casos de direitos humanos. Eles não podem ser ideologizados. É uma discussão com dupla face, porque o texto constitucional também diz que o crime de terrorismo é imprescritível".

Vannuchi, arrogante, exibe o vezo do totalitarismo de que foi militante: ameaça demitir-se (que perda para o país!) se o parecer da AGU, reconhecendo a anistia para os crimes conexos, for mantido. Aprendeu de Lênin e seu centralismo democrático: "quem não estiver comigo é contra mim". Ousa constranger, publicando declaração do presidente que se refere aos cadáveres de comunistas desaparecidos há 40 anos no clima quente e úmido da Amazônia, e não à anistia.

O presidente João Baptista Figueiredo disse que a anistia não implicava perdão, que pressupunha arrependimento não pedido, mas esquecimento recíproco, em favor da reconciliação da família brasileira. Perto de 30 anos passados, o esquecimento é unilateral. O ódio ideológico, o mais perverso dos ódios, prevalece.

JARBAS PASSARINHO, 88, é coronel da reserva. Foi governador do Pará (1964-65) e senador por aquele Estado em três mandatos (1967-74, 1975-82 e 1987-95), além de ministro da Educação (governo Médici), da Previdência Social (governo Figueiredo) e da Justiça (governo Collor).

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Regresso à Idade da Inocência

Uma fina ironia do O Insurgente:

Hoje a América acordou reconciliada com o mundo. “Hope”, “Change”, “Future”. E com três palavras mágicas, chegamos ao Nirvana, a tocha da Estátua da Liberdade voltou a ser a luz em redor da qual gira a Terra. A América conseguiu, de uma só penada, limpar a face de um país desprestigiado na cena internacional, levando o american dream aos setes cantos do planeta. Hoje, a Uncle Sam acordou bem disposto; à distância, olha no alpendre a sua nanny, matrona, que sentada na cadeira de baloiço toma no seu colo e embala com as suas canções uma esquerda renascida, que baba e ri, com a alegria própria da idade da inocência.

Agora, é só esperar ansiosamente pelo momento em que todos os líderes do mundo vão dar as mãos, em plena comunhão e experiência evangélica. Vai ser curioso vê-los, de olhos fechados, ao som do gospel, a gritar: “Hope”, “Change”, “Future”, “Hope”, “Change”, “Future”, “Hope”, “Change”, “Future”. Que cantem, não sete vezes, mas setenta vezes sete. As vezes que forem precisas. O mundo inteiro aguarda por este momento místico. E agradece.