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sábado, 22 de novembro de 2008

Neopatrimonialismo racista

no Resistência

Diz o chavão que no Brasil tudo acaba em samba. Mentira, é claro: muita gente por aqui detesta qualquer tipo de batucada. Mas há, sim, algo de que todo brasileiro gosta: benesses do Estado. Conseguir uma bocada paga com dinheiro público é o verdadeiro esporte nacional, mais popular até que o futebol, ao qual a população da Terra dos Papagaios se dedica com um afinco que ela não costuma demonstrar por mais nada - excetuando-se, talvez, o carnaval e o futebol. Tudo aqui acaba em boquinha.

O patrimonialismo - esta mania de tratar o estado e a coisa pública como se fossem propriedade particular - é o fenômeno atávico subjacente a essa mania nacional da boquinha. Ele é o segredinho sujo por trás da proliferação de "movimentos" de defesa de pretensas minorias - negros, indígenas, gays, travestis, mulheres, pois no horizonte dos indivíduos que participam desses movimentos está sempre a possibilidade de se apropriar de renda ou propriedade estatal.

O movimento pelos direitos civis liderado por Martin Luther King buscava o que já está explícito em seu nome: o fim da discriminação, direitos iguais para os negros norte-americanos. O que quer o "movimento negro" brasileiro (entre aspas porque isso não existe na vida real, fora da luta por verbas públicas)? Direitos iguais não pode ser: nossa legislação não só nunca discriminou (até agora...) ninguém pela cor da pele como, pelo contrário, pune severamente o crime de racismo.

O que se busca, na verdade, é simples: a apropriação privada de bens públicos. Assim, nosso movimento contra o "racismo" (onde? de quem contra quem?) quer vastas extensões de terra (distribuição de propriedades rurais e urbanas que teriam sido parte de quilombos imaginários), indenizações em dinheiro vivo e as famigeradas "cotas": carguinhos públicos (cotas cargos em comissão), empregos públicos (cotas em concursos públicos), vagas em universidades públicas (cotas raciais para o ensino superior estatal) e até cotas para a participação de "afrodescendentes" em comerciais de televisão (lembre-se de que a emissão televisiva é uma concessão pública).

Não é à toa que no "estatuto da igualdade racial" que tramita no Congresso (uma aberração que pisoteia a igualdade e institui o racismo no país) consta a obrigatoriedade da remuneração - com verba pública, é óbvio - das "lideranças" do movimento negro. Uma verdadeira pérola do patrimonialismo de corte racial misturado com doses generosas de clientelismo.

É por isso que sempre que passamos por uma data comemorada por algum desses movimentos de defesa de minorias oprimidas, eu me preparo para ler notícias sobre a aprovação de alguma lei absurda. O dia de Zumbi, ou da tal consciência negra de que fala logo abaixo o Fabiano - esse nunca me decepciona. Ontem, confirmando a tradição, a Câmara dos Deputados aprovou um festival de cotas "sociais" e raciais que praticamente expulsa o mérito acadêmico individual como critério de entrada na universidade estatal (não dá mais para chamar de pública uma universidade que discrimina oficialmente uma parcela da população).

Patrimonialismo e clientelismo (as benesses estatais sempre vêm pela mão de alguém, certo?) têm meio milênio de história no Brasil: eles chegaram ao país com as caravelas do Cabral. Sempre foram esportes nacionais muito populares. O que deprime é ver adicionado a essas mazelas uma nova, o racismo. Como quase ninguém tem coragem de se pronunciar publicamente contra essa "novidade" por medo de um possível massacre politicamente correto, o neopatrimonialismo racista avança sem obstáculos.

Que tristeza.

*

Com relação aos deputados que aprovaram essa lei racista e anti-republicana, dizer o quê? Os caras aprovam qualquer coisa, desde que o governo os pague por isso. De mais a mais, como aquele bando de boçais semi-alfabetizados pode dar valor à universidade? Para eles o ensino superior não passa de mais uma oportunidade para se fazer demagogia barata.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um otimismo razoável

por Pedro Sette Câmara, no Ordem Livre

Uma das vantagens subjetivas de ser contagiado pelo otimismo é bastante simples: ele é mais motivador e é mais gostoso ser feliz do que ser infeliz. É melhor torcer para o time que vence do que para o time que perde. Se um liberal é obrigado a um certo pesar pela inflação das expectativas (não sem precedentes!) que Obama causou em torno de si e do papel do presidente, isso não significa que só lhe reste um sentimento apocalíptico, como se a luta pela liberdade fosse quixotesca. Eu até acho que, se o preço da liberdade é a eterna vigilância, é claro que jamais teremos um sistema tão perfeito que nos dispense de ser bons (parafraseando T.S. Eliot), e que vamos sempre ter de querer a liberdade e renovar o ato da consciência individual que compreende seu valor.

Mesmo pessoas que, como eu, acham simpática a idéia de um presidente americano negro – admitindo algum contágio – , não resistem a ironizar a expectativa de que alguma coisa radicalmente diferente e positiva venha a acontecer. Mais ainda, é irresistível ironizar as expectativas messiânicas que o próprio Barack Obama gerou em torno de si mesmo e o quanto as pessoas que se julgam mais “esclarecidas” se deixam levar pela retórica da batalha do bem contra o mal no poder executivo americano. Alexander Herzen teria reclamado – ao menos é o que aparece em The Coast of Utopia, a trilogia teatral de Tom Stoppard – que o que as pessoas querem é “uma tirania que esteja do lado delas”. Ora, uma das principais diferenças entre um liberal e um não-liberal está exatamente aí: na expectativa de que o governo seja limitado, não de que ele seja ilimitado e promova políticas com as quais se concorde. Por isso, “esclarecido” ou não, o obamista é um crente no Estado, um não-liberal, ainda que certamente um liberal no sentido mais Hillary Clinton da palavra.

Aliás, pensando no discurso de Barack Obama após a eleição, fiquei assustado (mas não surpreso) ao ouvi-lo falar em “união” e “sacrifício”, porque não concebo que caiba ao presidente pedir essas coisas. Enquanto liberal, creio que é minha obrigação tolerar civilmente uma série de coisas de que não gosto ou que considero até moralmente repugnantes, por isso eu não teria uma reação negativa se Obama pedisse aos americanos que simplesmente não se matassem ou parassem de tentar usar o sistema judiciário para promover seus próprios valores “conservadores” ou “progressistas”. Se fosse para reduzir a questão a um slogan, seria “tolerância é o suficiente”, não só porque ela pode ser traduzida em atitudes tangíveis como porque não é possível fazer com que toda a população aprove alguma conduta. Quanto ao sacrifício, só me cabe perguntar: o que mais você quer que o cidadão faça além de pagar impostos e ser honesto e ordeiro? Mesmo que eu acredite num dever moral de praticar alguma caridade, creio que essa é uma questão privada. Não que eu acredite que John McCain fosse pedir algo diferente do povo americano: seria igualmente ingênuo esperar o contrário.

Agora, o que pode dar causa para algum otimismo é, antes de tudo, uma mudança de escala e de foco. O poder executivo americano pode estar inflando, mas o relatório Liberdade econômica no mundo deste ano do Fraser Institute diz que em muitos lugares do mundo a pobreza diminui, graças ao aumento de liberdade econômica. Aqui mesmo na América Latina podemos ter Hugo Chávez, mas o Chile já está entre os 10 primeiros colocados em liberdade econômica, com prosperidade evidente. Podem existir miríades de ONGs dedicadas a causas pontuais e esquerdistas, mas o número de ONGs – think tanks e outras instituições – devotadas à promoção da liberdade enquanto ausência de coerção por parte do governo só aumenta. Devagar, mas aumenta. Mesmo algumas expectativas em relação a Obama são boas, como a de que ele torne os EUA menos imperiais. Creio que ele dificilmente atenderá a essas expectativas, mas é bom que elas existam: no mínimo, servem como premissas retóricas para diminuir o poder da presidência.

São dados como esses que colocam a política do dia-a-dia em perspectiva e nos lembram do que Hayek falou sobre os políticos não serem verdadeiros líderes, mas meros seguidores de idéias presentes no senso comum. Se algum otimismo político é necessário para o seu bem-estar emocional, ao menos tente tirá-lo de causas mais verdadeiras, ainda que menos contagiosas e oceânicas do que o messianismo do presidente americano.

O Socialismo que desconfia das pessoas

Rodrigo Adão da Fonseca, no Insurgente

Se há comportamento que marca as políticas mais recentes deste governo socialista, aquele que se mostrou com mais clareza nos últimos dias é o de desconfiança, desconfiança do governo na capacidade dos cidadãos, da sociedade civil, e da iniciativa privada: o Governo entende que é ele, e os agentes por si escolhidos, que devem carregar com o país às costas, porque os portugueses não são capazes de o fazer.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Li'l Obama

via A Arte da Fuga

O muro caiu, mas a amoralidade da esquerda sobrevive

por Reinaldo Azevedo

A campanha a que o PT recorreu contra o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, indagando se ele tinha mulher e filhos é expressão da amoralidade de seus promotores. Mas também é fruto de uma mentalidade que antecede os amorais da hora: nela, o indivíduo está morto. Voltarei a este ponto. Antes, convido o leitor a um passeio pela paisagem ideológica que abriga esta narrativa. Na semana passada, em entrevista a um jornal paulistano, a petista disfarçada de intelectual Maria Victoria Benevides explicou a reeleição do prefeito do DEM segundo a ótica da patologia social: para ela, estivesse o eleitor mais bem informado sobre os seus próprios interesses, e fossem as elites paulistanas menos reacionárias, a eleita teria sido a petista Marta Suplicy. Para essa senhora, ou os vitoriosos são de seu partido, ou a democracia está com uma doença regressiva. Algo a estranhar?

Não. A história da esquerda é a história do esmagamento do indivíduo e do homem que há, com suas precariedades, em nome do homem a haver, livre de "deformações". Seus utopistas nunca viram o horror, o massacre e a morte de milhões como empecilhos para construir esse "novo homem". "Só a esquerda?", logo indagaria um inconformado. Não. A direita também cometeu crimes hediondos. A diferença, o que não a perdoa moralmente, é que nunca reivindicou a condição de um novo humanismo. Em termos um tanto especulativos, pode-se dizer que a direita reacionária – já que existe a reformista – matou para tentar reconstruir o passado, e a esquerda revolucionária, dezenas de vezes mais para construir o futuro. Outra diferença nada ligeira é que o fascismo, felizmente, não deixou senão defensores residuais e sem importância. Já os epígonos intelectuais do socialismo homicida, como se nota acima, estão na academia, na imprensa, nos governos e integram o establishment das democracias, construídas à sua revelia. Afinal, o regime democrático é obra do liberalismo. "Que papo mais antigo, Reinaldo! O muro já caiu!" É fato. Mas a amoralidade da esquerda sobreviveu aos escombros.

Aquele mesmo aparelho intelectual que sustentou a sua facinorosa trajetória continua vivo, ainda que se adapte às circunstâncias de cada país e consiga disfarçar o seu caráter deletério. A débâcle socialista obrigou os "engenheiros de gente" a procurar outro lugar onde pôr a sua "luta de classes". Os esquerdistas desviaram o foco das relações econômicas para a esfera das relações sociais. De certo modo, inverteu-se a equação clássica segundo a qual, para ser muito sintético, seria preciso fazer a revolução na economia para mudar as mentalidades. Incapazes de operar na base econômica, decidiram tentar o contrário: "Primeiro mudamos as mentalidades; o resto vem como conseqüência". Bem, "o resto" não veio nem virá. O máximo que esse esquerdismo bocó consegue é tornar o mundo mais xucro. De comum com o seu passado remoto, o mesmo desprezo pelos indivíduos.

Comecemos a ligar os fios. Mergulhemos, ainda que com o devido cuidado, na mentalidade do PT, caudatário desse pensamento que aposta na reengenharia do homem. Uma das vertentes formadoras do partido são os chamados "movimentos sociais", onde se incluem as "minorias organizadas", antigamente chamadas de "coletivos": havia o das mulheres, o dos negros, o dos homossexuais etc. Hoje, converteram-se em ONGs subordinadas ao partido. Os petistas, sabemos, não viram mal nenhum em fazer ilações sobre a vida pessoal de Kassab. Tentaram ainda conferir ao que pretendiam ser uma pecha o caráter de coisa escusa, sub-reptícia, ilegal.

Por que o partido que um dia se notabilizou pela defesa dos chamados "direitos dos homossexuais" atribui tal condição a um adversário, fazendo-o de maneira oblíqua, covarde e com o óbvio objetivo de desqualificá-lo? Essa gente sabe que, diante do preconceito, todas as respostas se igualam: negar, ignorar ou confirmar têm peso idêntico. O que se quer é disparar a máquina do medo ou da repulsa irracionais. Nas batalhas mediadas por uma ética – e até as guerras têm a sua –, há coisas que não podem ser feitas. Mas, para tanto, é preciso ter uma ética. Trata-se daquele conjunto de interdições e permissões que tanto eu como meu adversário reconhecemos como aceitáveis e justas. Se esse acordo entre desiguais está presente até na guerra, isso significa que, sem ele, também não se faz a paz – e a democracia se torna impossível. A ditadura nada mais é do que um desequilíbrio de valores: "Eu posso fazer o que ao outro é vedado". O PT substituiu a ética pela administração das necessidades da hora, pelo presente eterno. Retomo a questão na conclusão do texto.

Creio ter a resposta para a pergunta que abre o parágrafo anterior. Os petistas não reconhecem os direitos de um sujeito na sua particularidade. Aceitam, por exemplo, a homossexualidade, mas como condição geradora de demandas, o que está longe de ser sinônimo de respeito ao homossexual na sua especificidade. Assim, o gay, para ser admitido no mundo dos justos, precisa ser um militante: exposto, "assumido", porta-voz de uma causa, carregando bandeira. Um negro tem de trazer a escravidão estampada na alma. Ou negará a si mesmo. Também à mulher cabe se organizar contra o seu feitor. Não existem indivíduos, mas categorias. É uma espécie de sindicalização do espírito, de corporativismo anímico. É preciso que as "minorias" sejam dotadas de um rancor escravo que as torne dependentes existenciais de seus algozes. O ódio impotente, que tem de conquistar na marra o que supostamente lhe falta, está na origem de uma nunca contada história sentimental das esquerdas. Uma das filhas de Karl Marx relata que o pai lhes ensinava que Cristo era o filho de um carpinteiro pobre assassinado pelos ricos... Não tinha como dar em boa coisa.

Estaria eu surpreso ou chocado com a baixaria do PT? Não. Como vêem, considero isso um ponto numa longa trajetória. E o partido repetirá o procedimento, com conteúdo novo, tão logo considere necessário. Nessa mesma campanha, os valentes fizeram coisa ainda pior: acusaram a prefeitura de São Paulo de discriminar negras na hora do parto. E que fique claro: não me alinho àqueles que acreditam ou defendem que a política deva ter receio de tratar deste ou daquele tema. Em princípio, todas as questões são "politizáveis" e podem passar pelo escrutínio popular. Num país em que a nova aristocracia sindical, ora abraçada ao velho mandonismo, pretende chamar de vida privada o que não passa de vício público, é preciso tomar especial cuidado ao estabelecer as justas fronteiras entre o individual e o coletivo.

Se a amante de um parlamentar com poder de interferência nos negócios da República tem a pensão alimentícia paga por uma empreiteira; se uma concessionária de serviço público faz negócio com o filho de um político com autoridade sobre essa empresa; ou, ainda, se a vida privada de um homem público influente está em flagrante contradição com sua pregação, tanto o jornalismo como os adversários desses "representantes do povo" têm o direito – e o dever – de levar a questão à arena, à ágora da democracia. Errado é silenciar. Se, no sentido em que trato, todos os assuntos cabem à política, isso não significa ausência de medidas.

E qual é a régua? Justamente a ética, que estabelece as regras, muitas delas não escritas, da convivência pública entre as diferenças. Não se vendo o PT, no entanto, obrigado a dispensar ao outro o respeito que exige para si mesmo, também não se sente comprometido com a sua própria trajetória, rendendo-se à lei da necessidade: "Perca-se a vergonha, mas não a eleição". Nesse juízo perturbado, o escrúpulo é uma herança da cultura que deve incomodar apenas as sandálias da "direita", assim como a coerência é uma cruz que deve pesar exclusivamente sobre os seus ombros. De um modo muito particular, o PT acerta neste caso: ter princípios é mesmo algo próprio da direita democrática, tanto quanto não os ter constitui a verdadeira tradição das esquerdas.

Mas São Paulo disse "não" à campanha suja. E Maria Victoria Benevides considerou isso uma coisa de direita. Talvez ela esteja certa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pensamentos sobre o “colapso” do comunismo soviético

por Sergio Biasi no Indivíduo

Algo que por vezes parece escapar a muitos comentaristas políticos que falam entusiasticamente do “colapso” do comunismo soviético é que este não se deu exatamente e nível ideológico, e sim por ter se tornado economicamente insustentável. A fragilidade econômica interna do sistema, associada à necessidade de responder a programas armamentistas estratosféricos promovidos pela administração Reagan levou o império soviético à bancarrota.

Tal falência, porém, se deu basicamente a nível material, de recursos, e não a nível de idéias. Não se deu através de nenhuma “revolução” motivada por anseios de liberdade, justiça e indendência individual, mas pelo muito menos transcendente problema de que o estado ficou sem dinheiro para manter de forma eficaz e organizada seus sistemas de repressão interna. Por um lado, parece claro que o plano de derrotar o império soviético através de conflito armado direto seria não só inviável como a tentativa resultaria em suicídio coletivo de grande parte da humanidade. Por outro, o plano que concretamente “funcionou” de derrotá-los através de sufocação econômica derrotou apenas uma certa manifestação externa de um problema muito mais profundo.

A questão (pelo menos para alguém que acredita que as pessoas devem tanto quanto possível serem deixadas em paz para administrarem suas vidas como quiserem) é que a idéia básica de que seja moralmente aceitável e/ou socialmente desejável que o governo (ou qualquer outra entidade coletiva) controle irrestritamente a vida individual das pessoas não passou nem perto de ser derrotada, e continua bastante forte. E isso não só por lá nos confins da Ásia. Em quase todo o mundo, me parecem serem pouquíssimas as pessoas que acreditam atualmente que suas próprias consciências individuais devam ter precedência moral sobre quaisquer preceitos receitados pelo governo, pelas igrejas, pela família, pelas escolas ou por quem quer que seja. Não acredito ter havido qualquer vitória realmente significativa ou duradoura sobre tais idéias despersonalizantes. Muito pelo contrário, após um revolucionário período histórico em que a humanidade parecia destinada a libertar-se dos grilhões da opressão violenta e organizada ao pensamento individual divergente, vejo no horizonte as nuvens de um retorno ao obscurantismo massificante.

Inclusive, note-se que mesmo economicamente, o sistema soviético não era intrinsecamente “inviável”, afiinal sempre é uma opção logicamente disponível escolher voluntariamente viver na miséria por burrice, ignorância ou fanatismo (ou mesmo por preguiça, falta de ambição ou - num caso mais sofisticado - escolha consciente ao invés de acidental). O problema não foi tanto uma implosão espontânea quanto uma competição direta com economias um pouco mais eficientes (ou pelo menos eficazes), associada à não-passividade de tais economias diante de um projeto muito real de serem assimiladas.

O governo da China atual percebeu isso claramente e construiu um modelo divergente do soviético no qual o desrespeito mais desprezível às liberdades individuais é amplamente tolerado tanto internamente como externamente através da implementação de politicas econômicas pragmáticas. Por esse ponto de vista, pode-se argumentar que, muito ironicamente, o colapso do império soviético se deu não por ser opressivo, mas sim por não sê-lo suficientemente. Ao apegar-se a uma bagagem idealista e fantasiosa de estar cumprindo uma missão semi-divina cujo resultado eventual seria a construção de uma utopia na terra em que todos os seres humanos teriam (mesmo que à força) dignidade, felicidade, segurança, etc…, o governo soviético perdeu a chance de usufruir de diversos caminhos pragmáticos para obter progresso econômico concreto, recusando oportunidades que acreditava não poder coerentemente aproveitar.

O governo chines, por sua vez, despindo-se de tais vernizes e melindres, alavanca suas possibilidades econômicas ao máximo enquanto destrói sistematicamente qualquer tentativa de preservar a autonomia individual de pensamento, expressão e administração da própria vida. A sustentabilidade dessa estratégia a longo prazo descobriremos ao longe do resto do século, mas a noção de que tal sistema seja economicamente viável é preocupante.

O que nos leva à seguinte questão. Sou em princípio sim a favor do “livre” mercado em sua acepção mais ampla. Mas *não* porque esse sistema seja necessariamente o mais eficaz ou o que gera mais riqueza, e sim como efeito colateral da minha convicção de que as pessoas devem ser em princípio deixadas em paz para fazerem o que bem entenderem com suas vidas. Mesmo aceitando a premissa de que o “mercado” maximize ou de alguma forma otimize a “produção de riqueza” (por exemplo investindo trilhões na China), não acho que maximizar a produção de riqueza coincida automaticamente com maximizar as coisas que eu gostaria de vez maximizadas. Prefiro ter um carro um pouco pior mas não precisar ter medo de ser preso ou punido por expressar idéias impopulares.

Mas isso sou eu, e talvez essa posição não seja nem representativa nem evolutivamente ótima. Por um lado, talvez uma grande parte das pessoas se importe muito mais com ter carro um pouco melhor do que com poder dizer livremente o que pensa. Por outro, talvez maximizar a produção de riqueza seja o que efetivamente determina a sobrevivência material de um grupo humano, então os grupos que escolhem ao invés disso alguma noção abstrata de dignidade talvez estejam fadados a serem constantemente sendo varridos para fora da história.

O fato é que objetivamente somos máquinas biológicas descartáveis replicantes, e o domínio numérico de um certo perfil genético / cultural está inexoravelmente ligado em última instância à habilidade de se reproduzir. Especialmente num contexto em que conquistas científicas e tecnológicas facilmente se espalham universalmente, dignidade ou independência de pensamento do ser humano médio talvez pouco tenham a ver com sucesso material do grupo como um todo. Uma casta intelectual pode facilmente - e talvez até mais eficientemente - produzir toda a ciência que uma horda de zumbis “suficientemente inteligentes” se põe então a colocar em ação.

Talvez seja o caso de que o modelo economicamente mais eficiente seja de fato sermos todos descartáveis, substituíveis e intercambiáveis, abandonando qualquer noção de dignidade - seja isso atingido com ou sem um planejamento central. E se gostamos disso ou não (eu pessoalmente detesto), talvez não importe no grande esquema das coisas, porque o grupo mais eficiente em se reproduzir é o que vai predominar seja qual for a sua maravilhosa justificativa filosófico-político-ideológica. Talvez nem tentar ter uma justificativa e sim friamente e objetivamente enxergar toda a questão como um xadrez Darwiniano seja o próximo passo evolutivo/histórico. Não porque isso seja o “certo” ou o “bom”, mas porque talvez seja a estratégia que com mais eficácia aumente sua própria representatividade.

Claro que aqui não estou dizendo nada de realmente novo. O receio de que este seja o caso pode ser encontrado em um grande número de autores e obras mais ou menos óbvios. Mesmo assim, tais questões parecem por vezes se perderem nos discursos de quem associa automaticamente a pura “eficiência econômica” a um mundo no qual um ser com uma consciência que reconheceríamos (ou que atualmente idealizamos) como humana desejaria viver. Ignorar que recursos não podem ser criados do nada leva a um certo tipo de desvio perverso; achar que então a solução seja maximizar a geração de recursos a todo custo leva a outro. Infelizmente a segunda idéia talvez funcione.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Estado da Crise

por de Luciano Amaral
via O Insurgente


Vale a pena começar pelo início: esta é uma crise financeira e bancária, e o sector é provavelmente o mais regulado e intervencionado pelo Estado dos sectores privados. É um sector cujo “produto” (o dinheiro), em primeira instância, é produzido em condições de monopólio pelo Estado, o qual, de resto, define o seu preço arbitrariamente. É também um sector cujas empresas dependem de autorização discricionária do Estado: não se abre um banco como uma loja de ferragens; é o Estado quem autoriza a sua abertura e quem define as condições de operação, impondo regras e regulação muito estritas. Mais: toda a regulação bancária conduz a uma intervenção constante do Estado. Nos EUA, por exemplo, o problema do subprime tem origem em décadas de uma política habitacional cujo objectivo foi garantir a propriedade de uma casa para o maior número, mas através de uma curiosa forma de “desorçamentação”: em vez de o dinheiro sair das contas públicas, passou a sair do mercado de capitais, onde as operações das instituições financeiras eram “garantidas” por entes públicos ou semi-públicos. Mas não se trata de um exclusivo americano: com métodos diferentes, todo o mundo ocidental seguiu a mesma ideia. Não admira, por isso, o trânsito de pessoal entre instituições financeiras e públicas. Hank Paulson é já o segundo secretário do Tesouro vindo da Goldman Sachs. Mas, mais uma vez, não se trata de um exclusivo americano.

Se dependessem apenas das contas públicas, os Estados ocidentais praticamente não conseguiriam fazer políticas sociais. Caso se aplicassem as regras actuariais privadas aos Estados, a Bélgica, a Itália ou o Japão já teriam falido muito antes da Lehman Brothers. Vale a pena perguntar: é o fim do “ultra neoliberalismo” (que ninguém sabe o que seja) ou do Estado-Providência como o conhecemos?

Killing the American Dream

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Os Bárbaros Ocidentais

Rodrigo Constantino



“Quando você quer ajudar as pessoas, você diz a verdade a elas; quando você quer se ajudar, você diz a elas aquilo que elas querem escutar.” (Thomas Sowell)

Os impérios sempre sofreram ameaças vindas de fora, como os romanos tendo que enfrentar os hunos de Átila. Atualmente, a civilização Ocidental precisa lidar com os riscos do fanatismo islâmico, cujo ícone Bin Laden deixa evidente o desejo de destruir tudo aquilo que o Ocidente representa. Mas nem toda a ameaça vem de fora. Muitos ocidentais mesmo lutam para destruir os principais valores ocidentais. Com esses inimigos em mente, Thomas Sowell reuniu no livro Barbarians Inside the Gates vários artigos refutando inúmeras falácias repetidas com freqüência. Sua tese é que os grandes inimigos da civilização ocidental não estão fora dos portões, mas sim dentro, e possuem títulos acadêmicos, poderes judiciais, contam com verbas públicas e controlam o meio artístico e a mídia. Em resumo, são os criadores da agenda “politicamente correta” que busca sempre atacar os pilares da civilização moderna.

Sowell escolhe diversos alvos diferentes, separando os capítulos por temas como economia, política, educação e a questão racial. Seus artigos são sempre muito objetivos, e logo na introdução ele deixa claro que o livro é para aquelas pessoas comuns que entendem o que se quer dizer quando se afirma que o céu é azul. Herdeiros do “desconstrutivismo” de Jacques Derrida fazem parte justamente dos alvos de Sowell, intelectuais que têm bastante facilidade para manipular palavras, mas que ignoram o fato de que a realidade não é maleável como a linguagem. Sowell adota o caminho oposto: linguagem simples e direta, mas em sintonia com os fatos da realidade. Em outras palavras, Sowell apela ao bom-senso, contra as “grandes idéias” da intelligentsia, que costumam deixar rastros enormes de sangue no caminho.

Não podemos esquecer que os experimentos mais terríveis do século XX – o comunismo e o nazismo – foram criações de intelectuais, defendidas por muitos outros intelectuais. Tanto Pol-Pot como seus principais seguidores estudaram o marxismo em Paris, por exemplo, e o filósofo Sartre defendeu a “Revolução Cultural” de Mao Tse Tung, responsável por uma das maiores atrocidades já realizadas pelo homem. Vários intelectuais defendem o regime cubano até hoje. Muitos genocidas e ditadores receberam o apoio desses “pensadores”, e chegaram ao poder graças às suas idéias. Como resume o próprio Sowell, o “totalitarismo foi um fenômeno intelectual”. O socialismo, mesmo com seus gritantes fracassos em todos os lugares onde foi testado, continuou e continua encantando muitos intelectuais. Conforme Sowell coloca, o seu fracasso é tão evidente que apenas um intelectual poderia ignorar um fato desses.

Os inimigos internos da cultura ocidental utilizam várias táticas distintas para atingir o mesmo objetivo: detonar todos os principais pilares da civilização moderna. O multiculturalismo, por exemplo, é uma dessas táticas. Sowell aponta a hipocrisia do discurso em prol do relativismo cultural, lembrando que seus adeptos costumam ser aqueles que desfrutam dos benefícios que a tecnologia moderna oferece, enquanto desdenham dos processos que podem produzi-los. A palavra mágica é “diversidade”, que quando utilizada parece impedir o uso da razão, cedendo lugar às emoções. Há diversidade entre a social-democracia e o nazismo, mas nem por isso os relativistas parecem dispostos a defender o nazismo, apenas em nome da tal “diversidade”. Outra palavra adorada é “mudança”, mas como Sowell lembra, aqueles que falam incessantemente sobre mudança costumam ser bem dogmáticos, e querem apenas mudar os outros, na verdade. A questão que poucos param para perguntar é: mudar em qual direção? Afinal de contas, entrar em guerra é uma mudança, assim como sucumbir a uma ditadura.

A idolatria ao governo é um dos grandes sintomas desse câncer moderno. Sowell dedica vários artigos a este tema, derrubando o mito de que as soluções para os problemas existentes passam sempre por mais governo. Os intelectuais adoram falar em “direitos”, esquecendo que os bens e serviços em questão não caem do céu. “A única forma de alguém ter um direito a algo que deve ser produzido é forçar algum outro a produzir para ele”, afirma Sowell. Eis algo bastante evidente, mas curiosamente sempre ignorado por aqueles que adoram pregar o altruísmo com o esforço alheio. Poucas coisas são mais perigosas do que deixar algumas pessoas decidirem por aquilo que outros terão que arcar com os custos. No entanto, esses “bárbaros” não querem saber de custos, mas sim de posar de nobres altruístas e chegar ao poder. Eles tratam palavras como “compaixão” como se fossem monopólio deles, tentando inviabilizar qualquer debate sobre os meios.

Se alguém é contra o uso da força através do governo para alguma meta, então é assumido automaticamente que ele é contra a meta em si. Apenas esses intelectuais são “pacifistas”, “altruístas” ou “sensíveis”, ainda que os meios por eles pregados sempre levem a resultados opostos a tais fins. Mas quem liga para os resultados? O objetivo é apenas conquistar o poder ou se sentir bem por mergulhar numa “cruzada moral”, enquanto os outros são vistos como seres inferiores, egoístas gananciosos que não possuem uma alma tão pura como eles. Como Sowell afirma, é complicado entender porque seria ganância desejar manter o próprio dinheiro ganho, mas não seria ganância querer tomar o dinheiro dos outros. Enquanto esses intelectuais prometem salvar a humanidade, o governo vai exigindo mais e mais recursos, criando novos problemas para demandar mais impostos e poder. O paternalismo serve como uma camuflagem para a busca do poder ou uma “ego trip” para seus defensores. Os indivíduos são sempre tratados como mentecaptos indefesos, que necessitam do governo e desses intelectuais para lhes dizer como viver. A esquerda jamais compreendeu que, ao darmos poder suficiente para o governo criar a tal “justiça social”, então damos também poder suficiente para ele criar um despotismo. Ou talvez tenha entendido e defenda mesmo assim...

O livro segue com excelentes artigos sobre educação, violência e racismo, sempre combatendo a visão “politicamente correta” que impede qualquer debate honesto sobre temas delicados. Sowell rebate a idolatria à mediocridade, por exemplo, daqueles que falam em “igualdade” na educação, querendo dizer igualdade de resultados, e não melhores oportunidades para todos. Ele lembra que só é possível ensinar todos no mesmo ritmo se o ritmo cair para aquele do menor denominador comum. Seria a morte da meritocracia, um dos objetivos desses intelectuais. A responsabilidade individual é também defendida por Sowell, já que é um dos alvos prediletos dos “bárbaros”, sempre ávidos por culpar a “sociedade” por todos os atos irresponsáveis dos indivíduos. Os crimes, por exemplo, são vistos como culpa do “sistema”, e nunca dos criminosos. Os intelectuais pregam o desarmamento de civis como solução, ignorando que o crime já foi banido, mas nem por isso os criminosos seguem a regra.

A ação afirmativa é outra bandeira adorada pelos intelectuais, e totalmente condenada por Sowell, que afirma não conhecer um único argumento convincente para as cotas. Sua defesa costuma ser apenas através de retórica emocional, sem conteúdo concreto. Sowell conclui que os negros viraram “mascotes” para a elite branca de intelectuais, que consegue verbas e poder, além da sensação de superioridade moral, através da defesa de algo claramente racista. A inveja ao sucesso alheio também é um dos motivadores que Sowell cita para a defesa de programas como as cotas. Novamente, não é com o resultado de suas idéias que esses intelectuais estão preocupados. Adotando uma visão coletivista, eles criam mais ressentimento entre indivíduos, segregando a sociedade e estimulando o racismo que alegam combater.

Em suma, a civilização ocidental e todo o progresso que ela possibilitou estão sob ataque, e boa parte das munições vem do “fogo amigo”, ou seja, de dentro do próprio Ocidente. São pessoas que usufruem das vantagens desses avanços, enquanto cospem em cada fator que permite sua continuação ou mesmo sobrevivência. São manipuladores de palavras e conceitos que ignoram os resultados concretos de suas idéias. São intelectuais com uma agenda “politicamente correta”, que dizem pregar a “pluralidade de idéias” enquanto condenam com agressividade qualquer opinião que não esteja de acordo com a ditadura do “consenso”. No fundo, a “tolerância” defendida com veemência é apenas a tolerância com os intolerantes. A defesa de valores mais tradicionais e de conceitos “antiquados” como honestidade, integridade e objetividade são duramente atacados pelos “tolerantes”. É proibido julgar as atitudes dos outros indivíduos, somente se forem atitudes irresponsáveis e inadequadas. Esses intelectuais são os primeiros a julgar e condenar aqueles que discordam de suas idéias. Tudo aquilo que vai contra os principais valores ocidentais é “apenas uma opinião diferente”, mas os valores ocidentais podem ser condenados objetivamente.

A degradação moral patrocinada por esses intelectuais é apenas um estilo de vida alternativo. Ações de vândalos e baderneiros viram apenas atos de “protesto”, enquanto a reação da polícia é uma agressão. A corrupção na política é apenas algo inerente e natural ao processo decisório. Assaltantes são vítimas da sociedade. Reagir à violência com violência é um absurdo, pois eles encaram a equivalência física como uma equivalência moral. Doutrinar crianças ideologicamente nas escolas é educação, mas reclamar disso é censura. Quem sabe o que é certo ou errado, afinal? Ninguém sabe! À exceção, claro, desses intelectuais, os “bárbaros ocidentais” que querem implodir a civilização ocidental de dentro dos seus portões. Com amigos assim, ninguém precisa de inimigos...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sobre o socialismo


detalhe da capa de publicação socialista francesa

por Alexis de Tocqueville
via Ordem Livre


***

O texto a seguir reproduz o discurso de Alexis de Tocqueville na Assembléia Constituinte francesa em 12 de setembro de 1848. Os socialistas da época defendiam o direito ao trabalho, e que o governo deveria implementar políticas que criassem empregos assalariados para todos. Apesar de parecer lugar comum para os nossos dias, as idéias socialistas eram novidade na França de Tocqueville, e foram denunciadas por ele por ser contrárias aos ideais democráticos da república francesa. Mesmo prematura, a crítica de Tocqueville atinge o alvo dos problemas morais e políticos do socialismo.

***

Nada poderemos ganhar ao não discutir questões que põem em dúvida as raízes de nossa sociedade, questões essas que, mais cedo ou mais tarde, deverão ser enfrentadas. No fundo do projeto que está em discussão, talvez sem o conhecimento de seu autor – mas eu a percebo claramente – , está a questão do socialismo. [Longa excitação – murmúrios da esquerda.]

Sim, cavalheiros, mais cedo ou mais tarde, a questão do socialismo, que todos parecem temer e que ninguém até agora ousou debater, deverá ser discutida, e essa assembléia deverá decidi-la. Somos obrigados a esclarecer essa questão, que pesa sobre o peito da França. Confesso ser esse o meu principal motivo para subir à tribuna hoje: que a questão do socialismo seja finalmente resolvida. Eu preciso saber, a Assembléia nacional precisa saber, toda a França precisa saber – a Revolução de Fevereiro é uma revolução socialista ou não? [“Excelente!”]

Não é minha intenção analisar aqui os diferentes sistemas que possam ser classificados como socialistas. Apenas quero tentar revelar características comuns a todos eles e verificar se podemos dizer que a Revolução de Fevereiro as apresentou.

A primeira característica de todas as ideologias socialistas, creio eu, é um apelo vigoroso, extremo, às todas as paixões materiais dos homens. [Sinais de aprovação.]

Assim, alguns disseram: “Vamos reabilitar o corpo”; outros, que “o trabalho, mesmo os mais pesados, não deve ser apenas útil, mas prazeroso”; outros dizem que “os homens devem ser pagos não de acordo com seu mérito, mas de acordo com sua necessidade”; por fim, disseram aqui que o objetivo da Revolução de Fevereiro, do socialismo, seria proporcionar riquezas infinitas para todos.

Uma segunda característica, sempre presente, é um ataque, direto ou indireto, ao princípio da propriedade privada. Desde o primeiro socialista que disse, há 50 anos, que “a propriedade é a origem de todos os males do mundo”, ao socialista que falou dessa tribuna e que, menos generoso que o primeiro, passando da propriedade para seu proprietário, exclamou que “propriedade é roubo,” todos os socialistas, insisto, todos, atacam, direta ou indiretamente, a propriedade privada. [”É verdade, é verdade.”] Não pretendo afirmar que todos que o fazem agem da forma franca e brutal que um de nossos colegas adotou. Mas digo que todos os socialistas, por meios mais ou menos diretos, se não destroem o princípio sobre o qual ela se baseia, transformam-no, diminuem-no, obstruem-no, limitam-no e moldam-no como algo completamente estranho ao que nós conhecemos e com que nos familiarizamos, desde o começo dos tempos, como propriedade privada. [Sinais de concordância.]

Agora, a terceira e final característica, a qual, aos meus olhos, melhor descreve os socialistas de todas as escolas e nuances, é a profunda oposição à liberdade individual e o desprezo à liberdade de pensamento, ou seja, um total desrespeito ao indivíduo. Eles incessantemente tentam mutilar, restringir, obstruir a liberdade individual de toda e qualquer maneira. Afirmam que o Estado não deve agir apenas como diretor da sociedade, mas ser o mestre de cada homem, e não apenas o mestre, mas o guardião e instrutor. [“Excelente.”] Por medo de permitir ao homem que erre, o Estado deve se colocar para sempre a seu lado, acima dele e em torno dele, para melhor guiá-lo e preservá-lo, ou seja, para confiná-lo. Na verdade, eles clamam pelo confisco da liberdade humana, em graus maiores ou menores, [Mais sinais de aprovação.], de forma que, se eu estivesse tentando resumir o que é o socialismo, diria que ele é simplesmente um novo sistema de servidão. [Grande aprovação.]

Não entrarei na discussão dos detalhes desses sistemas. Apenas indiquei o que é o socialismo, apontando suas características universais. Elas são suficientes para permitir sua compreensão. Em qualquer lugar que você encontrar essas características, certamente encontrará o socialismo, e onde quer que o socialismo esteja, essas características são encontradas.

Cavalheiros, será que o socialismo, como tantos disseram, é a continuação, a conclusão legítima, o aperfeiçoamento da Revolução Francesa? Será que ele é, como fingem alguns, o desenvolvimento natural da democracia? Não, ele não é um nem outro. Lembrem-se da Revolução! Reexaminem as impressionantes e gloriosas origens da nossa história moderna. Como insistia ontem um orador, foi através do apelo às necessidades materiais do homem que a Revolução Francesa realizou aqueles grandes atos que maravilhou todo o mundo? Vocês acreditam que a Revolução falava de salários, de bem estar, de riquezas ilimitadas, de satisfação das necessidades materiais?

Cidadão Mathieu: Eu não disse nada desse tipo.

Cidadão de Tocqueville: Você acredita que, ao falar dessas coisas, toda uma geração de homens se levantaria para lutar por elas nas fronteiras, se exporia aos riscos da guerra, enfrentariam a morte? Não, cavalheiros. A Revolução realizou aquilo tudo por falar sobre coisas grandiosas, sobre o amor a um país, sobre honrar a França, por falar de virtude, generosidade, abnegação, glória. Estejam certos, cavalheiros, que apenas através do apelo aos sentimentos mais nobres que se pode alcançar as alturas mais elevadas. [“Excelente, excelente.”]

E em relação à propriedade, cavalheiros: é verdade que a Revolução Francesa resultou em uma guerra dura e cruel contra alguns proprietários. Porém, em relação ao princípio da propriedade privada, a Revolução sempre o respeitou. Ela o colocou no topo da lista em suas constituições. Nenhum povo tratou esse princípio com maior respeito. Ele estava gravado na fachada de suas leis.

A Revolução Francesa fez ainda mais. Não apenas consagrou a propriedade privada, ela a universalizou. A Revolução viu um número ainda maior de pessoas terem acesso à propriedade. [Exclamações variadas. “Exatamente o que queremos!”]

É graças a isso, cavalheiros, que hoje não precisamos temer as conseqüências fatais das idéias socialistas que estão espalhadas por todo o país. É porque a Revolução Francesa povoou o território francês com dez milhões de proprietários que nós podemos, sem perigo, permitir que essas doutrinas apareçam entre nós. Elas podem, sem dúvida, destruir a sociedade, mas graças à Revolução Francesa, elas não prevalecerão e não nos causarão danos. [“Excelente.”]

E finalmente, cavalheiros, a liberdade. Há uma coisa que me choca mais do que qualquer outra. É que o Antigo Regime, que sem dúvida diferia em muitos aspectos do sistema de governo que os socialistas reivindicam (e precisamos compreender isso), estava, em sua filosofia política, muito mais próximo do socialismo do que se pensa. Muito mais próximo do que estamos hoje. Na verdade, o Antigo Regime assegurava que somente o Estado era sábio e que os cidadãos são seres fracos e debilitados que devem ser eternamente guiados pela mão para que não se machuquem. Afirmava que era necessário obstruir, conter e restringir a liberdade individual; que, para assegurar a abundância dos bens materiais, era imperativo organizar a indústria e impedir a livre competição. Sob esse aspecto, o Antigo Regime propunha as mesmas coisas que os socialistas de hoje. Foi a Revolução Francesa que negou isso.

Cavalheiros, o que foi isso que quebrou as correntes que, de todos os lados, impediam a livre movimentação dos homens, dos bens e das idéias? O que restabeleceu a individualidade do homem, que é a sua verdadeira grandeza? A Revolução Francesa! [Aprovação e clamor] Foi a Revolução Francesa que aboliu todos esses obstáculos, que arrebentou as correntes que vocês trariam de volta sob um novo nome. E não foram apenas os membros dessa assembléia imortal – a Assembléia Constituinte, a assembléia que fundou a liberdade, não apenas na França, mas em todo o mundo – que rejeitaram as idéias do Antigo Regime. Foram os homens eminentes de todas as assembléias que a seguiram!

E após essa grande revolução, o resultado será aquela sociedade que os socialistas nos oferecem, uma sociedade formal, organizada, fechada, onde o Estado é responsável por tudo, onde o indivíduo não conta, onde a comunidade acumula todo o poder, toda a vida, onde o fim designado para um homem é apenas o seu bem estar material – essa sociedade em que o próprio ar sufoca e em que a luz mal consegue penetrar? Foi para essa sociedade de trabalhadores incansáveis, antes animais capacitados do que homens livres e civilizados, que a Revolução Francesa aconteceu? Foi por isso que tantos homens morreram no campo de batalha, na forca, que tanto sangue nobre molhou a terra? Foi por isso que tantas paixões foram inflamadas, que tanta inteligência, tanta virtude andou por essa terra?

Não! Eu juro pelos homens que morreram por essa grande causa! Não foi por isso que morreram. Foi por algo muito maior, mais sagrado, que merecia mais dedicação, deles e da humanidade. [“Excelente.”] Se ela aconteceu apenas para criarmos um sistema como esse, a Revolução foi um desperdício terrível. Um Antigo Regime aperfeiçoado teria servido adequadamente. [Clamor prolongado.]

Mencionei agora há pouco que o socialismo fingia ser a continuação legítima da democracia. Não pesquisei pessoalmente, como alguns de meus colegas fizeram, pela etimologia real dessa palavra, a democracia. Não vou revirar o jardim das raízes gregas, como foi feito ontem, para procurar a origem dessa palavra. [Risos.] Procuro pela democracia onde eu a vi, viva, ativa, triunfante, no único país da terra onde ela existe e no único lugar onde ela possivelmente poderia ter-se estabelecido com estabilidade no mundo moderno – na América. [Sussurros.]

Lá se encontra uma sociedade na qual as condições sociais são ainda mais iguais do que entre nós; em que a ordem social, os costumes, as leis, são todas democráticas; onde todos os tipos de pessoas entraram e onde cada indivíduo ainda possui uma completa independência, mais liberdade do que se tem notícia em qualquer outro lugar ou tempo; um país essencialmente democrático, as únicas repúblicas completamente democráticas que o mundo já conheceu. E nessas repúblicas procurar-se-á em vão o socialismo. Não apenas as teorias socialistas não cativaram a opinião pública, como possuem um papel tão insignificante na vida intelectual e política dessa grande nação que não se poderia nem ao menos dizer que as pessoas as temem.

Os Estados Unidos são, hoje, o único país no mundo onde a democracia é completamente soberana. Além disso, é o país onde as idéias socialistas, as quais os senhores presumem estar de acordo com a democracia, tiveram menor influência, o país onde aqueles que apóiam as causas socialistas estão, por certo, um uma posição de desvantagem. Eu, pessoalmente, não acharia inconveniente, se fossem para lá propagar sua filosofia, mas para seu próprio bem, eu não os aconselharia. [Risos]

Um deputado: As mercadorias deles estão sendo vendidas agora.

Cidadão de Tocqueville: Não, cavalheiro. A democracia e o socialismo não são conceitos interdependentes. Eles não são apenas diferentes, mas filosofias opostas. É compatível com a democracia instituir um governo intrometido, superabrangente e restritivo, desde que ele tenha sido escolhido pela população e aja em nome do povo? Será que o resultado não seria a tirania, sob o disfarce de um governo legítimo que, ao se apropriar dessa legitimidade asseguraria para si o poder e a onipotência que de outra forma lhe faltaria? A democracia expande a esfera da independência pessoal; o socialismo a confina. A democracia valoriza o que o homem tem de melhor; o socialismo faz de cada homem um agente, um instrumento, um número. A democracia e o socialismo só possuem uma coisa em comum – a igualdade. Mas percebam bem a diferença. A democracia visa a igualdade através da liberdade. O socialismo busca a igualdade pela força e a servidão. [ “Excelente, excelente.”]

Dessa forma, a Revolução de Fevereiro não deve ser “social”, e se é exatamente isso que ela não deve ser, devemos ter a coragem de dizê-lo. Se ela não deve ser isso, devemos ter energia para proclamar em voz alta que ela não deveria sê-lo, como faço agora. Quando alguém se opõe aos fins, deve se opor aos meios pelos quais se chega a esses fins. Quando alguém não possui nenhum desejo em relação ao fim, não deve entrar pelo caminho que levará até ele. O que foi proposto hoje foi a nossa entrada nesse caminho.

Não deveremos seguir aquela filosofia política que Baboeuf abraçou com tanto entusiasmo [gritos de aprovação] – Baboeuf, o avô de todos os socialistas modernos. Não devemos cair na armadinha que ele indicou, ou melhor, sugeriu, através de seu pupilo e biógrafo Buonarotti. Ouça às palavras de Buonarotti. Elas merecem atenção, mesmo depois de cinqüenta anos.

Um deputado: Não há babovistas aqui.

Cidadão de Tocqueville: “A abolição da propriedade individual e o estabelecimento da Grande Economia Nacional era o objetivo final de seus [de Baboeuf] trabalhos. Mas ele compreendeu bem que tal ordem não poderia ser estabelecida imediatamente após a vitória. Ele acreditava que seria essencial que o Estado agisse de tal forma que todas as pessoas aboliriam a propriedade privada através da realização de suas próprias necessidades e interesses.” Aqui estão os principais métodos que ele concebeu para realizar seu sonho. (Veja bem, ele é seu próprio panegirista, estou apenas citando.) “Para estabelecer, através das leis, uma ordem pública na qual os proprietários, provisoriamente autorizados a manter seus bens, descobririam que não possuiriam riquezas, nem o direito de dispor de seus bens ou receber por eles, em que, forçados a gastar uma grande parte de sua renda em investimentos ou impostos, esmagados sob o peso da tributação progressiva, afastados das questões públicas, privados de qualquer influência, formando, dentro do Estado, nada além de uma classe de estranhos suspeitos, seriam forçados a deixar o país, abandonar os seus bens ou limitar-se a aceitar o estabelecimento da Economia Universal.”

Um deputado: Nós já estamos nesse ponto!

Uma voz da esquerda: Sim! [ “Não! Não!” (interrupção)]

Cidadão de Tocqueville: Aqui está, senhores, o programa de Baboeuf. Espero sinceramente que esse não seja o programa da República de Fevereiro. Não, a República de Fevereiro deve ser democrática e não socialista.

Uma voz da esquerda: Sim! [ “Não! Não!” (interrupção)]

Cidadão de Tocqueville: E se não for socialista, o que ela deverá ser?

Um deputado da esquerda: Monarquista!

Cidadão de Tocqueville (se virando para a esquerda): Ela poderá ser, talvez, se o Sr. deixar que isso aconteça, [ grande aprovação], mas ela não será.

Se a Revolução de Fevereiro não é socialista, o que, então, ela é? Será ela, como muitas pessoas dizem e acreditam, um mero acidente? Será que ela não necessariamente acarreta uma mudança completa no governo e nas leis? Eu acho que não.

Quando discursei em janeiro na Câmara dos Deputados, na presença da maioria dos delegados, que murmuravam em suas mesas, embora por diferentes razões, da mesma forma que vocês murmuravam agora a pouco – [ “Excelente, excelente”]

(O orador se vira à esquerda)

– eu lhes disse: cuidem-se. A Revolução está no ar. Será que vocês não conseguem senti-la? A Revolução se aproxima. Será que vocês não conseguem vê-la? Estamos sentados sobre um vulcão. Ficará registrado que eu disse isso. E por quê? – [Interrupção vinda da esquerda.]

Será que eu tive a fraqueza mental de supor que a revolução se aproximava porque esse ou aquele homem estava no poder, ou porque esse ou aquele acontecimento provocaram a raiva política da nação? Não, cavalheiros. O que me fez acreditar que a revolução se aproximava, o que realmente produziu a revolução, foi isso: eu vi a negação básica dos princípios mais básicos que a Revolução Francesa espalhou pelo mundo. O poder, a influência, as honras, e por que não, a própria vida, estavam sendo confinados dentro dos limites estreitos de uma só classe, como nenhum outro país do mundo antes fizera.

Foi isso que me fez acreditar que a revolução estava à nossa porta. Eu vi o que aconteceria a essa classe privilegiada, o que sempre acontece quando existem aristocracias pequenas e exclusivas. O papel de estadista não existia mais. A corrupção crescia a cada dia. A intriga tomou o lugar da virtude pública e tudo se deteriorou.

Como a classe mais alta.

E entre as classes mais baixas, o que estava acontecendo? Cada vez mais se libertando, tanto intelectual quanto emocionalmente, daqueles cuja função era liderá-los, o povo em sua maioria se encontrou naturalmente inclinado em direção àqueles que lhes eram amigáveis, entre os quais estavam demagogos perigosos e utopistas inúteis daquele tipo com o qual temos nos ocupado aqui.

Por eu ter visto essas duas classes, uma pequena, outra numerosa, separando-se pouco a pouco uma da outra – uma imprudente, insensível e egoísta, outra cheia de inveja, resistência e raiva, por eu ter visto essas duas classes isoladas e avançando em direções opostas, eu disse – e tinha razões para isso – que a revolução estava levantando a sua cabeça e logo estaria sobre nós. [ “Excelente!”]

Era para estabelecer algo parecido com isso que a Revolução de Fevereiro aconteceu? Não, cavalheiros. Recuso-me a acreditar nisso. Tanto quanto qualquer um de vocês, acredito no contrário. Desejo o oposto, não apenas pelos interesses da liberdade, mas também pela segurança pública.

Eu admito que não trabalhei pela Revolução de Fevereiro, porém, tendo ela ocorrido, desejo que ela seja uma revolução séria e comprometida, porque desejo que seja a última. Sei que apenas revoluções dedicadas perduram. Uma revolução que não defende nada, que, contaminada com a esterilidade desde seu nascimento, que destrói sem construir, não faz nada além de dar à luz novas revoluções. [Aprovações.]

Assim, desejo que a Revolução de Fevereiro tenha um significado, claro, preciso e grande o suficiente para que todos vejam.

E qual é esse significado? Em resumo, a Revolução de Fevereiro deve ser uma continuação real, uma execução sincera e honesta daquilo que a Revolução Francesa defendia, deve ser a atualização daquilo que nossos pais ousaram sonhar. [ Grande concordância.]

Cidadão Ledru-Rollin: Peço permissão para falar.

Cidadão de Tocqueville: É isso que a Revolução de Fevereiro deve ser, nem mais nem menos. A Revolução Francesa defendia a idéia que, na ordem social, não deve haver classes. Ela nunca incentivou a divisão dos cidadãos em proprietários e proletários. Não se encontrará essas palavras, carregadas de ódio e guerra, em nenhum dos grandes documentos da Revolução Francesa. Pelo contrário, ela foi baseada na filosofia de que, politicamente, não devem existir classes; a Restauração, a Monarquia de Julho, defendiam o oposto. Devemos permanecer com nossos pais.

A Revolução Francesa, como já disse, não possuía a pretensão absurda de criar uma ordem social que colocava nas mãos do Estado o controle sobre o destino, o bem estar, a afluência de cada cidadão, que substituía a altamente questionável “inteligência” do Estado pela inteligência prática e útil dos governados. Ela acreditava que essa tarefa era grande o suficiente para garantir a cada cidadão esclarecimento e liberdade. [“Excelente”.]

A Revolução teve essa crença firme, nobre, orgulhosa, de que vocês parecem carecer, que é suficiente para homens corajosos e honestos ter essas duas coisas, esclarecimento e liberdade, e para não pedir nada mais daqueles que o governam.

A Revolução foi baseada nessa crença. Ela não determinava tempo ou meios de viabilizá-la. É nosso dever permanecermos com ela e, dessa vez, cuidar para que ela se realize.

Por fim, a Revolução Francesa desejava – e foi isso que a fez não apenas ser beatificada, mas santificada aos olhos da população – introduzir a caridade na política. Ela concebeu a noção de dever em relação aos pobres, aos que sofrem, algo mais extenso, mais universal do que qualquer coisa já implementada. É essa idéia que deve ser recapturada, não, repito, trocando a inteligência individual pela do Estado, mas agindo para ajudar aqueles que têm necessitades, aqueles que, após ter esgotado seus recursos, seriam jogados à miséria caso não lhes fosse oferecido auxílio, através de meios que o Estado já possui à sua disposição.

Essencialmente, é isso que a Revolução Francesa buscava, e é o que nós devemos fazer.

Então, eu pergunto?

Será que isso é socialismo?

Grito da esquerda: Sim! Sim, o socialismo é exatamente isso.

Cidadão de Tocqueville: De forma alguma!

Não, isso não é socialismo, mas cristianismo aplicado à política. E não há nada que...

(Interrupção...)

Cidadão Presidente: Você não pode ser ouvido. É obvio que você não possui a mesma opinião. Você terá a sua chance de falar da tribuna, mas não interrompa.

Cidadão de Tocqueville: Não há nada que dê aos trabalhadores o direito de fazer reivindicações ao Estado. Não há nada na Revolução que force o Estado a colocar-se no lugar da do cuidado individual, no lugar do mercado, no lugar da integridade individual. Não há nada que autorize o Estado a interferir nas questões industriais ou a impor suas regras à indústria, a tiranizar o indivíduo para governá-lo melhor, ou, como se afirma audaciosamente, para salvá-lo de si mesmo. Não há nada além do cristianismo aplicado à política.

Sim, a Revolução de Fevereiro deve ser cristã e democrática, mas ela não deve ser, sob qualquer circunstância, socialista. Essas palavras resumem o que eu penso e encerro aqui o que eu tinha a dizer.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

"Os mais iguais"

"A Revolução dos Bichos", de George Orwell, via Janaína, no Arrastão.

"Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.

Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado devido à falta de prática em manter seu volume naquela posição, mas em perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois, saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. Uns melhor que os outros, um ou dois até meio desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de uma bengala, mas todos fizeram a volta ao pátio bastante bem. Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó esganiçado do garnisé e emergiu Napoleão, majestosamente, desempenado, largando olhares arrogantes para os lados, com os cachorros brincando à sua volta.

Trazia nas mãos um chicote.

Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto aos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente em redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o choque e a despeito de tudo - a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importava o que sucedesse -, poderiam lançar uma palavra de protesto. Porém, exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas. em uníssono, estrondaram num espetacular balido:

- Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

Baliram durante cinco minutos sem cessar. E, quando se calaram, fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já haviam voltado para dentro da casa. Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco.

Minha vista está falhando - disse ela finalmente. - Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim?

Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS
MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS
IGUAIS DO QUE OS OUTROS

Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes nas patas. Nem estranharam ao saber que os porcos haviam comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas."

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Como a esquerda ficou oca

por Alexandre Barros, no Ordem Livre

Imaginem como a esquerda vai viver agoniada com uma China capitalista na qual Mao Tsé-tung se limita a enfeitar as notas de 20 yuans. A China tem mais milionários e mais bilionários que o Brasil.

Adeus às longas reuniões para discutir qual das linhas é mais válida: a chinesa, mais radical, ou a russa, que queria tomar o poder pela burguesia nacional. Os comunistas da linha chinesa e da linha russa viviam às turras para ver quem mais legitimamente representava o interesse dos oprimidos. Quem saiu do socialismo quer mesmo é melhorar de vida e consumir, tanto na Rússia, e em seus antigos satélites, quanto na China.

A China gera lucros, prazeres e empregos no Brasil, importando e exportando todo o tipo de coisas. Tem US$ 1 trilhão em reservas internacionais, obtido por meio de vendas capitalistas para países capitalistas. A cada ano alguns milhões de chineses entram no mercado consumidor.

Fidel é carta fora do baralho. Ainda vivo, mas fora do poder, não tem mais saúde para viajar e não despertará o fascínio que, confesso, nunca entendi, em suas visitas internacionais e em sua arenga.

A esquerda adorava a capacidade que Fidel tinha de entreter as massas com discursos de cinco horas. Achava isso fascinante. Passou despercebido um livro de um economista sueco sobre a economia do uso do tempo (Staffan Burenstam Linder, The Harried Leisure Class, NY: Columbia University Press: NY, 1970), no qual ele dá a resposta com muita simplicidade: isso só era possível porque não havia nenhuma alternativa em Cuba. Ninguém tinha mais nada para fazer em Cuba. Entre não fazer nada e ouvir Fidel, ouviam Fidel. Tenho dúvida se, de barriga vazia, gostavam do que ouviam.

Já pensaram: um presidente do Brasil falando por cinco horas na televisão? Ninguém iria assistir, porque o povo tem mais o que fazer.

O sistema de saúde era fantástico, até que alguém perguntou: como a saúde pode ser excelente num lugar em que as pessoas não têm o que comer? A esquerda perdeu a chance de ser politicamente correta dizendo que, em Cuba, não havia obesos...

Li, em algum jornal, que a última vitória de Fidel foi ter colocado o embargo cubano como tema central na eleição americana. Ora, esse argumento só se sustenta quando as pessoas ignoram que o dinamismo do capitalismo o leva rapidamente para onde está o lucro. Com Fidel fora, Cuba será um paraíso de lucros. Os capitalistas já estão cuidando disso. E os cubanos, certamente, viverão muito melhor.

Revolucionários voltavam de Cuba dizendo que o país era maravilhoso. Deliravam com a pobreza, a miséria, as casas e os carros caindo aos pedaços. Chamavam de beleza do socialismo. Quando questionados sobre os problemas, admitiam que, realmente, la revolución tinha uns probleminhas.

Poucos direitistas iam a Cuba, mas, mesmo os esquerdistas, depois de meia hora de elogios, se diziam chocados com um probleminha: a extensão da prostituição. Alguém inventou a anedota sobre a suposta genialidade retórica de Fidel. Quando confrontado com alguém que lhe disse: 'Mas, comandante, em Cuba as universitárias são obrigadas a prostituir-se.' Fidel teria respondido: 'Mentira capitalista! No és que las universitarias tienem que ser prostitutas. La verdad és que en Cuba las prostitutas van a la Universidad.'

Felizmente não teremos de conviver mais com agentes do Dops convocando na época um jovem professor da Universidade de Brasília (UnB) de quem haviam apreendido um livro que ele recebera pelo correio chamado Cuba: est il socialiste? Comparecendo ao Dops expliquei que o livro criticava o regime cubano e dizia que ele não passava de um autoritarismo barato. Cuba de socialista não tinha nada. O policial fez-me uma concessão. Disse que, como eu era professor da Universidade de Brasília, eu precisava saber das coisas. Ele ia liberar os livros. Ao outro livro nem prestou atenção, sorte minha. Chamava-se Manuel de Cryptographie.

Mudaram o Brasil e Cuba. Ainda bem.

Duros tempos em que Cuba chamava mais atenção da polícia do que a ciência de escrever em códigos. Mas também, naquele tempo, sem cartões corporativos, o açúcar da UnB era menos doce e o lixo era menos sujo.

E agora que não poderão mais pichar muros com as sete letras fatídicas: 'Fora FMI!' O FMI hoje é um ator em busca de um papel. Aposentam-se os funcionários que têm tempo suficiente e enxugam os quadros porque o FMI não tem mais clientes. Os países que mais tomavam emprestado do FMI aprenderam as lições do próprio Fundo. Não gastar mais do que ganham, realisticamente.

Acho que o FMI é um caso único de burocracia autodestrutiva: acabou com os problemas que o mantinham vivo e hoje batalha para encontrar um novo papel.

O prato final da esquerda também se esvaziou. Acabou a dívida externa, temperada com as perdas internacionais.

Que horror vai ser a vida daqui para adiante.

Nixon estava certo quando disse que o caso Watergate consumiu muitas toneladas de papel na década de 1970, nos anos 80 talvez rendesse uns livros, nos 90, alguns artigos e nos anos 2000 seria apenas algumas notas de rodapé.

Destino parecido terão os quatro temas prediletos da esquerda: o comunismo virou o capitalismo mais dinâmico do mundo nos anos 2000.

Fidel não é mito. Caminha para virar nota de rodapé.

O FMI batalha para sobreviver. Os países sensatamente, seguiram a receita, pararam de dar lucros ao Fundo e, controlando a inflação, melhoraram a vida de seu pobres.

Para a esquerda, 1968 foi o ano do protesto. 2008 é o do desalento. Pela primeira vez a esquerda não tem mais nada para celebrar com sua crítica.

Em tempo: nunca fui a Cuba, achava perda de tempo. Daqui a algum tempo, talvez vá.

Originalmente publicado em O Estado de S. Paulo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Por que ninguém intervêm?

no Blog do Cético

Morgan Tsvangirari, candidato da oposição à presidência do Zimbábue, anunciou hoje que desiste de concorrer ao pleito depois de dezenas de partidários seus serem encontrados mortos país afora. O subsecretário de seu partido está preso, acusado de "traição", e o próprio Tsvangirai não passa um dia de sua campanha sem ser ameaçado por autoridades governamentais.

O Zimbábue já foi considerado o celeiro da África, grande produtor agrícola que freqüentemente doava alimentos a vizinhos castigados pela fome devido a secas, enchentes ou guerras. Há 28 anos governado por Robert Mugabe, um ditador insano com manias de perseguições, iniciou no começo dessa década um processo de reforma agrária radical, expropriando terras de fazendeiros, em sua maioria brancos, para, no mais polido e pomposo jargão de esquerda, fazer "justiça social".

Os resultados da reforma agrária e da "justiça social" zimbabuana são os seguintes: o país que antes era auto-suficiente em alimentos, exportava e ainda ajudar vizinhos em dificuldades, hoje não colhe sequer um quarto do necessário para satisfazer suas próprias necessidades alimentares. A economia está em frangalhos, corroída por uma inflação que esse ano deve bater na casa dos 200 000%. Faltam itens básicos nas prateleiras dos supermercados. Desesperados e sem perspectivas, os zimbabuanos fogem em massa do país, em direção à África do Sul, onde já são tão numerosos que motivam ondas de violência xenofóbica contra a sua presença. Mugabe, na melhor tradição conspiracionista, diz que é vítima de um complô das grandes potências para desestabilizar seu governo. Já disse que "só Deus" o retirará do poder e faz ouvidos de mercador a todos os apelos internacionais por democracia e racionalidade econômica. Opositores são ostensivamente intimidados, e mesmo assassinados. A ajuda humanitária enviada ao país foi suspensa no começo deste mês, e a pouca que chega se transforma em suprimentos para o exército e membros do Zanu-PF, o partido de Mugabe.

Não vou falar nada a respeito de reforma agrária porque a história está aí para provar a sua ineficiência: na melhor das hipóteses, torna o país que a adota importador de alimentos e subsidiador de agricultores improdutivos. Na pior, provoca fome generalizada. Quero mesmo chamar a atenção para a falta de intervenção direta das potências ocidentais. Por que elas não fazem nada efetivo?

Simples: se o fizerem, serão chamadas de "imperialistas" e "intervencionistas" e "neocolonialistas". Como não fazem nada, são chamados de omissos. Ou seja, as potências ocidentais estão sempre erradas. Ditadores insanos e corruptos, especialmente se forem não-brancos e adotarem chavões políticos e econômicos de esquerda, são sempre inocentes vítimas de conspirações que buscam acabar com suas políticas sociais.

Enquanto isso, o drama dos zimbabuanos se arrasta sem perspectiva de solução. Deixem que Mugabe conclua a sua obra e termine de destruir o país. Quero ver quem vai dizer que a culpa é do Ocidente... Ora, que ingenuidade, a minha. Claro que a culpa será sempre do Ocidente! Ditadores africanos com discurso anti-ocidental são inimputáveis perante a opinião pública internacional. Sempre o foram.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Os Democratas (de lá) enlouqueceram...

Comuno-populistas: produto de exportação latino-americana fazendo sucesso na América.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Você já foi pra Cuba, por acaso?

Gravataí Merengue, no Imprensa Marrom

É assim que muitos pró-Cuba "argumentam" em favor da ditadura castrista. Como muito pouca gente foi até a ilha, eles invariavelmente prosseguem o "raciocínio" com coisas do tipo: "...então não diga que lá é uma ditadura!".

Pois bem: eu digo. Lá é, sim, uma ditadura.

Em primeiro lugar, vamos esclarecer o seguinte: esse povo que vai pra Cuba faz passeio turístico, e só. Inclusive - ou principalmente! - quando narram o manjadíssimo roteiro "onde nenhum turista vai", que é uma variante cubana do trajeto "com aventura" proporcionado pelos condutores de buggy em Genipabu.

Os brasileirinhos tapados acham que estão descobrindo a América e agindo como subversivos pelas vielas de Havana, mas estão fazendo uma espécie de "City Tour B". Os cubanos só não dão risada desses patetas porque não é fácil para um cubano dar risada.

Além disso, as viagens a Cuba são inócuas porque ninguém vai lá para acompanhar algum processo judicial, fiscalizar a execução de uma pena de regime fechado ou testemunhar um execução. Isso nunca!

Eles vêem meia dúzia de sobrados velhos, conhecem algum sujeito que diz "eu sou feliz aqui", e então voltam falando que lá não é uma ditadura, pois "puderam conhecer a realidade cubana".

É mentira? Fazem exatamente assim.

O ridículo apoio irracional que uma parcela da esquerda dá a Cuba meio que contamina todo o esquerdismo brasileiro. Se bem que neste país é possível defender o stalinismo ou o maoísmo sem ser preso (como se houvesse muita diferença entre isso e o hitlerismo - a não ser o fato de que Stálin matou mais gente e Mao mais ainda).

Bom, querem apoiar uma ditadura? Então apóiem. Mas não venham com a conversa mole de que "conhecem Cuba" ou "a verdadeira Havana", porque aí entramos no terreno da desonestidade intelectual.

E o nanismo do intelecto é compensado pelo gigantismo da desonestidade.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Plebiscito é liberdade?

Democracia plebiscitária é a glória de todo totalitário que se julga forte o suficiente para submeter seu povo ao teste supremo da obediência canina – e que, garantido da certeza de que quanto mais seu povo é levado a interpretar essa especiosa liberdade de escolher entre coisas que não são do seu interesse nem de sua vontade, como demonstração de madura democracia, mais esse povo estará perto do fim de todos os seus direitos.

Carlos Reis

terça-feira, 8 de abril de 2008

A Verdadeira Direita

Escrito por Olavo de Carvalho

Se nas coisas que escrevo há algo que irrita os comunas até à demência, é o contraste entre o vigor das críticas que faço à sua ideologia e a brandura das propostas que lhe oponho: as da boa e velha democracia liberal. Eles se sentiriam reconfortados se em vez disso eu advogasse um autoritarismo de direita, a monarquia absoluta ou, melhor ainda, um totalitarismo nazifascista. Isso confirmaria a mentira sobre a qual construíram suas vidas: a mentira de que o contrário do socialismo é ditadura, é tirania, é nazifascismo.

Um socialista não apenas vive dessa mentira: vive de forçar os outros a desempenhar os papéis que a confirmam no teatrinho mental que, na cabeça dele, faz as vezes de realidade. Quando encontra um oponente, ele quer porque quer que seja um nazista. Se o cidadão responde: "Não, obrigado, prefiro a democracia liberal", ele entra em surto e grita: "Não pode! Não pode! Tem de ser nazista! Confesse! Confesse! Você é nazista! É!" Se, não desejando confessar um crime que não cometeu, muito menos fazê-lo só para agradar a um acusador, o sujeito insiste: "Lamento, amigo, não posso ser nazista. No mínimo, não posso sê-lo porque nazismo é socialismo", aí o socialista treme, range os dentes, baba, pula e exclama: "Estão vendo? Eis a prova! É nazista! É nazista!"

Recentemente, cem professores universitários, subsidiados por verbas públicas, edificaram toda uma empulhação dicionarizada só para impingir ao público a lorota de que quem não gosta do socialismo deles é nazista. Não se trata, porém, de pura vigarice intelectual. A coisa tem um sentido prático formidável. Ajuda a preparar futuras perseguições. Consagrado no linguajar corrente o falso conceito geral, bastará aplicá-lo a um caso singular para produzir um arremedo de prova judicial. Para condenar um acusado de nazismo, será preciso apenas demonstrar que ele era contra o socialismo. Hoje esse raciocínio já vale entre os esquerdistas. Quando dominarem o Estado, valerá nos tribunais. Valerá nos daqui como valeu nos de todos os regimes socialistas do mundo.

Intimidados por essa chantagem, muitos liberais sentem-se compelidos a moderar suas críticas ao socialismo. Mas isso é atirar-se na armadilha por medo de cair nela. Já digo por que.
Socialismo é a eliminação da dualidade de poder econômico e poder político que, nos países capitalistas, possibilita - embora não produza por si -- a subsistência da democracia e da liberdade. Se no capitalismo há desigualdade social, ela se torna incomparavelmente maior no socialismo, onde o grupo que detém o controle das riquezas é, sem mediações, o mesmo que comanda a polícia, o exército, a educação, a saúde pública e tudo o mais. No capitalismo pode-se lutar contra o poder econômico por meio do poder político e vice-versa (a oposição socialista não faz outra coisa). No socialismo, isso é inviável: não há fortuna, própria ou alheia, na qual o cidadão possa apoiar-se contra o governo, nem poder político ao qual recorrer contra o detentor de toda riqueza. O socialismo é totalitário não apenas na prática, mas na teoria: é a teoria do poder sintético, do poder total, da total escravização do homem pelo homem.

A formação de uma "nomenklatura" onipotente, com padrão de vida nababesco, montada em cima de multidões reduzidas ao trabalho escravo, não foi portanto um desvio ou deturpação da idéia socialista, mas o simples desenrolar lógico e inevitável das premissas que a definem. É preciso ser visceralmente desonesto para negar que há uma ligação essencial e indissolúvel entre elitismo ditatorial e estatização dos meios de produção.

O socialismo não é mau apenas historicamente, por seus crimes imensuráveis. É mau desde a raiz, é mau já no pretenso ideal de justiça em que diz inspirar-se, o qual, tão logo retirado da sua névoa verbal e expresso conceitualmente, revela ser a fórmula mesma da injustiça: tudo para uns, nada para os outros.

Porém, no próprio capitalismo, qualquer fusão parcial e temporária dos dois poderes já se torna um impedimento à democracia e ameaça desembocar no fascismo. Não há fascismo ou nazismo sem controle estatal da economia, portanto sem algo de intrinsecamente socialista. Não foi à toa que o regime de Hitler se denominou "socialismo nacional". Stalin chamava-o, com razão, "o navio quebra-gelo da revolução". Por isso os socialistas, sempre alardeando hostilidade, tiveram intensos namoros com fascistas e nazistas, como nos acordos secretos entre Hitler e Stalin de 1933 a 1941, na célebre aliança Prestes-Vargas etc. Já com o liberalismo nunca aceitaram acordo, o que prova que sabem muito bem distinguir entre o meio-amigo e o autêntico inimigo.

Por isso mesmo, é uma farsa monstruosa situar nazismo e fascismo na extrema-direita, subentendendo que a democracia liberal está no centro, mais próxima do socialismo. Ao contrário: o que há de mais radicalmente oposto ao socialismo é a democracia liberal. Esta é a única verdadeira direita. É mesmo a extrema direita: a única que assume o compromisso sagrado de jamais se acumpliciar com o socialismo.

Nazismo e fascismo não são extrema-direita, pela simples razão de que não são direita nenhuma: são o maldito centro, são o meio-caminho andado, são o abre-alas do sangrento carnaval socialista. Os judeus, perseguidos em épocas anteriores, podiam usar do poder econômico para defender-se ou fugir: o socialismo alemão, estatizando seus bens, expulsou-os desse último abrigo. Isso seria totalmente impossível no liberal-capitalismo. Só o socialismo cria os meios da opressão perfeita.

Não, a crítica radical ao socialismo não nos aproxima do nazifascismo. O que nos aproxima dele é uma crítica tímida, debilitada por atenuações e concessões. E essa, meus amigos, eu não farei nunca.

Fonte: www.olavodecarvalho.org