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sábado, 22 de novembro de 2008

Neopatrimonialismo racista

no Resistência

Diz o chavão que no Brasil tudo acaba em samba. Mentira, é claro: muita gente por aqui detesta qualquer tipo de batucada. Mas há, sim, algo de que todo brasileiro gosta: benesses do Estado. Conseguir uma bocada paga com dinheiro público é o verdadeiro esporte nacional, mais popular até que o futebol, ao qual a população da Terra dos Papagaios se dedica com um afinco que ela não costuma demonstrar por mais nada - excetuando-se, talvez, o carnaval e o futebol. Tudo aqui acaba em boquinha.

O patrimonialismo - esta mania de tratar o estado e a coisa pública como se fossem propriedade particular - é o fenômeno atávico subjacente a essa mania nacional da boquinha. Ele é o segredinho sujo por trás da proliferação de "movimentos" de defesa de pretensas minorias - negros, indígenas, gays, travestis, mulheres, pois no horizonte dos indivíduos que participam desses movimentos está sempre a possibilidade de se apropriar de renda ou propriedade estatal.

O movimento pelos direitos civis liderado por Martin Luther King buscava o que já está explícito em seu nome: o fim da discriminação, direitos iguais para os negros norte-americanos. O que quer o "movimento negro" brasileiro (entre aspas porque isso não existe na vida real, fora da luta por verbas públicas)? Direitos iguais não pode ser: nossa legislação não só nunca discriminou (até agora...) ninguém pela cor da pele como, pelo contrário, pune severamente o crime de racismo.

O que se busca, na verdade, é simples: a apropriação privada de bens públicos. Assim, nosso movimento contra o "racismo" (onde? de quem contra quem?) quer vastas extensões de terra (distribuição de propriedades rurais e urbanas que teriam sido parte de quilombos imaginários), indenizações em dinheiro vivo e as famigeradas "cotas": carguinhos públicos (cotas cargos em comissão), empregos públicos (cotas em concursos públicos), vagas em universidades públicas (cotas raciais para o ensino superior estatal) e até cotas para a participação de "afrodescendentes" em comerciais de televisão (lembre-se de que a emissão televisiva é uma concessão pública).

Não é à toa que no "estatuto da igualdade racial" que tramita no Congresso (uma aberração que pisoteia a igualdade e institui o racismo no país) consta a obrigatoriedade da remuneração - com verba pública, é óbvio - das "lideranças" do movimento negro. Uma verdadeira pérola do patrimonialismo de corte racial misturado com doses generosas de clientelismo.

É por isso que sempre que passamos por uma data comemorada por algum desses movimentos de defesa de minorias oprimidas, eu me preparo para ler notícias sobre a aprovação de alguma lei absurda. O dia de Zumbi, ou da tal consciência negra de que fala logo abaixo o Fabiano - esse nunca me decepciona. Ontem, confirmando a tradição, a Câmara dos Deputados aprovou um festival de cotas "sociais" e raciais que praticamente expulsa o mérito acadêmico individual como critério de entrada na universidade estatal (não dá mais para chamar de pública uma universidade que discrimina oficialmente uma parcela da população).

Patrimonialismo e clientelismo (as benesses estatais sempre vêm pela mão de alguém, certo?) têm meio milênio de história no Brasil: eles chegaram ao país com as caravelas do Cabral. Sempre foram esportes nacionais muito populares. O que deprime é ver adicionado a essas mazelas uma nova, o racismo. Como quase ninguém tem coragem de se pronunciar publicamente contra essa "novidade" por medo de um possível massacre politicamente correto, o neopatrimonialismo racista avança sem obstáculos.

Que tristeza.

*

Com relação aos deputados que aprovaram essa lei racista e anti-republicana, dizer o quê? Os caras aprovam qualquer coisa, desde que o governo os pague por isso. De mais a mais, como aquele bando de boçais semi-alfabetizados pode dar valor à universidade? Para eles o ensino superior não passa de mais uma oportunidade para se fazer demagogia barata.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Da Consciência adjetivada

no Resistência

Ontem foi comemorado o Dia da Consciência Negra. A data foi estabelecida em homenagem a Zumbi dos Palmares, morto em 20 de novembro de 1695. Zumbi, se não lembram, era um escravo que, revoltado contra as condições realmente desumanas a que eram submetidos os negros, rebelou-se, fugiu e fundou o Quilombo dos Palmares -- onde também havia escravidão. Segundo li neste verbete da Wikipédia, devidamente referenciado (grifos meus):

"A luta de Palmares não era contra a iniqüidade desumanizadora da escravidão. Era apenas recusa da escravidão própria, mas não da escravidão alheia".

Ou então:

"Se algum escravo fugia dos Palmares, eram enviados negros no seu encalço e, se capturado, era executado pela ‘severa justiça’ do quilombo".

Sacaram a homenagem a Zumbi? Eu não...

Também não saquei até hoje essa história de "consciência negra". Como assim? Consciência tem cor? Desde quando? Quem a pintou? Com que tinta? Com brocha, pincel ou spray? Do alto da minha ignorância, sempre imaginei que a consciência, como a água, fosse incolor, inodora e insípida. Vivendo e aprendendo...

Mas se a consciência suporta adjetivos, também quero brincar disso. Lanço aqui uma campanha pela adoção do Dia da Consciência Pesada. Uma homenagem aos obesos, nossos irmãos. (E, se eu não me cuidar, em breve entrarei para a catchiguria.) Poderia cair no dia do nascimento do Faustão. Ou do Jô Soares, sei lá...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Aquecendo as notícias sobre o Aquecimento

por Reinaldo Azevedo

A questão, obviamente, não vai ganhar o mundo. E nem será tratada como deveria: um escândalo. Mas vocês poderão ler tudo no texto de Christopher Booker no Telegraph.co.uk. Na segunda-feira, 10 de novembro, o Instituto Goddard de Estudos Espaciais (GISS), um órgão da NASA chefiado por James Hansen, um homem de Al Gore, anunciou que o mês de outubro fora o mais quente da história. Muita gente ficou um tanto espantada porque, vejam só!, isso contrariava a experiência e os satélites. Mas vocês sabem: como desconfiar de gente tão séria? E, sobretudo, como levantar alguma dúvida se há quem sustente que o mundo vai arder? É pecado. É proibido. Se os crentes de Al Gore falam, a gente tem de dizer amém.

Não obstante, a agência oficial da China havia noticiado que o Tibete tivera a pior tempestade de neve da história. Nos EUA, a National Oceanic and Atmospheric Administration registrou 63 áreas com queda recorde de neve e 115 outras com recordes de baixa temperatura para o mês de outubro. E constatou que 2008 teve apenas o 70º outubro mais quente em 114 anos.

E o que explicava, então, o “outubro mais quente da história” anunciado pelo amigo de Al Gore? Ah, é que haviam colhido dados sobre temperaturas mais altas do que o normal na maior parte da Rússia. Dois blogs dos chamados céticos do Aquecimento Global, Watts Up With That e Climate Audit, decidiram detalhar os números do GISS. Pois é... Eles diziam respeito ao mês de setembro, quando ainda era verão...

No dia 29 do mês passado, nevou em Londres — a primeira neve em outubro desde 1922. Enquanto isso, o Parlamento do país debatia o aquecimento global. Ninguém precisa puxar a faca. Não estou negando o aquecimento global com a mesma certeza estúpida com que se anuncia o fim do mundo "provocado pelo homem". O que me causa espécie, aí sim, é que se faça tamanho estardalhaço com um erro — na hipótese benevolente — e se procure esconder as notícias que não endossam as teses escatológicas. Divirtam-se lá com o texto.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Imprensa americana chapa-branca

por Diogo Mainardi, na Veja

Barack Obama foi eleito por jornais e TVs. Menos pelos editoriais de apoio, pela cobertura parcial, pelas fotografias enaltecedoras e pelos quadros satíricos que eles fizeram, e mais pelo que eles deixaram de fazer: reportagens, reportagens, reportagens.

A ombudsman do Washington Post analisou as matérias do próprio jornal. Em primeiro lugar, ela destacou a gritante disparidade de tratamento reservada aos candidatos - as matérias sobre Barack Obama e Joe Biden, uma moleza; as matérias sobre John McCain e Sarah Palin, uma paulada, como elas de fato devem ser numa disputa presidencial. Em seguida, a ombudsman tocou no ponto que mais me interessa: a absoluta falta de interesse do Washington Post em investigar temas potencialmente danosos para a campanha de Barack Obama. Em particular, ela citou dois desses temas: seu envolvimento com drogas nos tempos da faculdade e seus negócios com Anthony Rezko, o empresário corruptor que financiou a carreira política e a vida privada de Barack Obama, tendo-o ajudado a comprar sua casa. Anthony Rezko foi condenado criminalmente durante a campanha eleitoral, mesmo assim ninguém deu bola para o caso.

A Economist também tratou desse jogo sujo da imprensa para eleger Barack Obama. Uma das principais vantagens que sua campanha teve sobre a de John McCain foi a esmagadora superioridade financeira. Essa vantagem só foi obtida porque Barack Obama, em vez de recorrer ao financiamento público, conforme ele prometera durante as primárias, serviu-se de dinheiro privado, arrecadando 600.000.000 de dólares, boa parte dos quais pela internet, de origem desconhecida. A Economist perguntou retoricamente: o que diria o New York Times se o contrário tivesse ocorrido? Se John McCain, depois de aplicar um golpe em Barack Obama, dispusesse de duas vezes mais dinheiro para financiar sua campanha, inclusive podendo comprar, a menos de uma semana das eleições, meia hora de publicidade na TV aberta? Eu respondo a pergunta retórica da Economist. Cinco dias depois de Barack Obama ser eleito - cinco dias -, o New York Times publicou um editorial recomendando enfaticamente ao prefeito Michael Blooomberg que ele recorresse ao financiamento público em sua próxima campanha eleitoral. Pelo visto, isso vale para todos os políticos, exceto um: Barack Obama.

A imprensa escrita e televisiva dos Estados Unidos continua a perder público e faturamento. A temporada de Barack Obama na presidência tem tudo para afundá-la de vez. A única saída para a imprensa é voltar a fazer aquilo que só ela sabe fazer: reportagens, reportagens, reportagens.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um otimismo razoável

por Pedro Sette Câmara, no Ordem Livre

Uma das vantagens subjetivas de ser contagiado pelo otimismo é bastante simples: ele é mais motivador e é mais gostoso ser feliz do que ser infeliz. É melhor torcer para o time que vence do que para o time que perde. Se um liberal é obrigado a um certo pesar pela inflação das expectativas (não sem precedentes!) que Obama causou em torno de si e do papel do presidente, isso não significa que só lhe reste um sentimento apocalíptico, como se a luta pela liberdade fosse quixotesca. Eu até acho que, se o preço da liberdade é a eterna vigilância, é claro que jamais teremos um sistema tão perfeito que nos dispense de ser bons (parafraseando T.S. Eliot), e que vamos sempre ter de querer a liberdade e renovar o ato da consciência individual que compreende seu valor.

Mesmo pessoas que, como eu, acham simpática a idéia de um presidente americano negro – admitindo algum contágio – , não resistem a ironizar a expectativa de que alguma coisa radicalmente diferente e positiva venha a acontecer. Mais ainda, é irresistível ironizar as expectativas messiânicas que o próprio Barack Obama gerou em torno de si mesmo e o quanto as pessoas que se julgam mais “esclarecidas” se deixam levar pela retórica da batalha do bem contra o mal no poder executivo americano. Alexander Herzen teria reclamado – ao menos é o que aparece em The Coast of Utopia, a trilogia teatral de Tom Stoppard – que o que as pessoas querem é “uma tirania que esteja do lado delas”. Ora, uma das principais diferenças entre um liberal e um não-liberal está exatamente aí: na expectativa de que o governo seja limitado, não de que ele seja ilimitado e promova políticas com as quais se concorde. Por isso, “esclarecido” ou não, o obamista é um crente no Estado, um não-liberal, ainda que certamente um liberal no sentido mais Hillary Clinton da palavra.

Aliás, pensando no discurso de Barack Obama após a eleição, fiquei assustado (mas não surpreso) ao ouvi-lo falar em “união” e “sacrifício”, porque não concebo que caiba ao presidente pedir essas coisas. Enquanto liberal, creio que é minha obrigação tolerar civilmente uma série de coisas de que não gosto ou que considero até moralmente repugnantes, por isso eu não teria uma reação negativa se Obama pedisse aos americanos que simplesmente não se matassem ou parassem de tentar usar o sistema judiciário para promover seus próprios valores “conservadores” ou “progressistas”. Se fosse para reduzir a questão a um slogan, seria “tolerância é o suficiente”, não só porque ela pode ser traduzida em atitudes tangíveis como porque não é possível fazer com que toda a população aprove alguma conduta. Quanto ao sacrifício, só me cabe perguntar: o que mais você quer que o cidadão faça além de pagar impostos e ser honesto e ordeiro? Mesmo que eu acredite num dever moral de praticar alguma caridade, creio que essa é uma questão privada. Não que eu acredite que John McCain fosse pedir algo diferente do povo americano: seria igualmente ingênuo esperar o contrário.

Agora, o que pode dar causa para algum otimismo é, antes de tudo, uma mudança de escala e de foco. O poder executivo americano pode estar inflando, mas o relatório Liberdade econômica no mundo deste ano do Fraser Institute diz que em muitos lugares do mundo a pobreza diminui, graças ao aumento de liberdade econômica. Aqui mesmo na América Latina podemos ter Hugo Chávez, mas o Chile já está entre os 10 primeiros colocados em liberdade econômica, com prosperidade evidente. Podem existir miríades de ONGs dedicadas a causas pontuais e esquerdistas, mas o número de ONGs – think tanks e outras instituições – devotadas à promoção da liberdade enquanto ausência de coerção por parte do governo só aumenta. Devagar, mas aumenta. Mesmo algumas expectativas em relação a Obama são boas, como a de que ele torne os EUA menos imperiais. Creio que ele dificilmente atenderá a essas expectativas, mas é bom que elas existam: no mínimo, servem como premissas retóricas para diminuir o poder da presidência.

São dados como esses que colocam a política do dia-a-dia em perspectiva e nos lembram do que Hayek falou sobre os políticos não serem verdadeiros líderes, mas meros seguidores de idéias presentes no senso comum. Se algum otimismo político é necessário para o seu bem-estar emocional, ao menos tente tirá-lo de causas mais verdadeiras, ainda que menos contagiosas e oceânicas do que o messianismo do presidente americano.

O Socialismo que desconfia das pessoas

Rodrigo Adão da Fonseca, no Insurgente

Se há comportamento que marca as políticas mais recentes deste governo socialista, aquele que se mostrou com mais clareza nos últimos dias é o de desconfiança, desconfiança do governo na capacidade dos cidadãos, da sociedade civil, e da iniciativa privada: o Governo entende que é ele, e os agentes por si escolhidos, que devem carregar com o país às costas, porque os portugueses não são capazes de o fazer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Regresso à Idade da Inocência

Uma fina ironia do O Insurgente:

Hoje a América acordou reconciliada com o mundo. “Hope”, “Change”, “Future”. E com três palavras mágicas, chegamos ao Nirvana, a tocha da Estátua da Liberdade voltou a ser a luz em redor da qual gira a Terra. A América conseguiu, de uma só penada, limpar a face de um país desprestigiado na cena internacional, levando o american dream aos setes cantos do planeta. Hoje, a Uncle Sam acordou bem disposto; à distância, olha no alpendre a sua nanny, matrona, que sentada na cadeira de baloiço toma no seu colo e embala com as suas canções uma esquerda renascida, que baba e ri, com a alegria própria da idade da inocência.

Agora, é só esperar ansiosamente pelo momento em que todos os líderes do mundo vão dar as mãos, em plena comunhão e experiência evangélica. Vai ser curioso vê-los, de olhos fechados, ao som do gospel, a gritar: “Hope”, “Change”, “Future”, “Hope”, “Change”, “Future”, “Hope”, “Change”, “Future”. Que cantem, não sete vezes, mas setenta vezes sete. As vezes que forem precisas. O mundo inteiro aguarda por este momento místico. E agradece.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O muro caiu, mas a amoralidade da esquerda sobrevive

por Reinaldo Azevedo

A campanha a que o PT recorreu contra o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, indagando se ele tinha mulher e filhos é expressão da amoralidade de seus promotores. Mas também é fruto de uma mentalidade que antecede os amorais da hora: nela, o indivíduo está morto. Voltarei a este ponto. Antes, convido o leitor a um passeio pela paisagem ideológica que abriga esta narrativa. Na semana passada, em entrevista a um jornal paulistano, a petista disfarçada de intelectual Maria Victoria Benevides explicou a reeleição do prefeito do DEM segundo a ótica da patologia social: para ela, estivesse o eleitor mais bem informado sobre os seus próprios interesses, e fossem as elites paulistanas menos reacionárias, a eleita teria sido a petista Marta Suplicy. Para essa senhora, ou os vitoriosos são de seu partido, ou a democracia está com uma doença regressiva. Algo a estranhar?

Não. A história da esquerda é a história do esmagamento do indivíduo e do homem que há, com suas precariedades, em nome do homem a haver, livre de "deformações". Seus utopistas nunca viram o horror, o massacre e a morte de milhões como empecilhos para construir esse "novo homem". "Só a esquerda?", logo indagaria um inconformado. Não. A direita também cometeu crimes hediondos. A diferença, o que não a perdoa moralmente, é que nunca reivindicou a condição de um novo humanismo. Em termos um tanto especulativos, pode-se dizer que a direita reacionária – já que existe a reformista – matou para tentar reconstruir o passado, e a esquerda revolucionária, dezenas de vezes mais para construir o futuro. Outra diferença nada ligeira é que o fascismo, felizmente, não deixou senão defensores residuais e sem importância. Já os epígonos intelectuais do socialismo homicida, como se nota acima, estão na academia, na imprensa, nos governos e integram o establishment das democracias, construídas à sua revelia. Afinal, o regime democrático é obra do liberalismo. "Que papo mais antigo, Reinaldo! O muro já caiu!" É fato. Mas a amoralidade da esquerda sobreviveu aos escombros.

Aquele mesmo aparelho intelectual que sustentou a sua facinorosa trajetória continua vivo, ainda que se adapte às circunstâncias de cada país e consiga disfarçar o seu caráter deletério. A débâcle socialista obrigou os "engenheiros de gente" a procurar outro lugar onde pôr a sua "luta de classes". Os esquerdistas desviaram o foco das relações econômicas para a esfera das relações sociais. De certo modo, inverteu-se a equação clássica segundo a qual, para ser muito sintético, seria preciso fazer a revolução na economia para mudar as mentalidades. Incapazes de operar na base econômica, decidiram tentar o contrário: "Primeiro mudamos as mentalidades; o resto vem como conseqüência". Bem, "o resto" não veio nem virá. O máximo que esse esquerdismo bocó consegue é tornar o mundo mais xucro. De comum com o seu passado remoto, o mesmo desprezo pelos indivíduos.

Comecemos a ligar os fios. Mergulhemos, ainda que com o devido cuidado, na mentalidade do PT, caudatário desse pensamento que aposta na reengenharia do homem. Uma das vertentes formadoras do partido são os chamados "movimentos sociais", onde se incluem as "minorias organizadas", antigamente chamadas de "coletivos": havia o das mulheres, o dos negros, o dos homossexuais etc. Hoje, converteram-se em ONGs subordinadas ao partido. Os petistas, sabemos, não viram mal nenhum em fazer ilações sobre a vida pessoal de Kassab. Tentaram ainda conferir ao que pretendiam ser uma pecha o caráter de coisa escusa, sub-reptícia, ilegal.

Por que o partido que um dia se notabilizou pela defesa dos chamados "direitos dos homossexuais" atribui tal condição a um adversário, fazendo-o de maneira oblíqua, covarde e com o óbvio objetivo de desqualificá-lo? Essa gente sabe que, diante do preconceito, todas as respostas se igualam: negar, ignorar ou confirmar têm peso idêntico. O que se quer é disparar a máquina do medo ou da repulsa irracionais. Nas batalhas mediadas por uma ética – e até as guerras têm a sua –, há coisas que não podem ser feitas. Mas, para tanto, é preciso ter uma ética. Trata-se daquele conjunto de interdições e permissões que tanto eu como meu adversário reconhecemos como aceitáveis e justas. Se esse acordo entre desiguais está presente até na guerra, isso significa que, sem ele, também não se faz a paz – e a democracia se torna impossível. A ditadura nada mais é do que um desequilíbrio de valores: "Eu posso fazer o que ao outro é vedado". O PT substituiu a ética pela administração das necessidades da hora, pelo presente eterno. Retomo a questão na conclusão do texto.

Creio ter a resposta para a pergunta que abre o parágrafo anterior. Os petistas não reconhecem os direitos de um sujeito na sua particularidade. Aceitam, por exemplo, a homossexualidade, mas como condição geradora de demandas, o que está longe de ser sinônimo de respeito ao homossexual na sua especificidade. Assim, o gay, para ser admitido no mundo dos justos, precisa ser um militante: exposto, "assumido", porta-voz de uma causa, carregando bandeira. Um negro tem de trazer a escravidão estampada na alma. Ou negará a si mesmo. Também à mulher cabe se organizar contra o seu feitor. Não existem indivíduos, mas categorias. É uma espécie de sindicalização do espírito, de corporativismo anímico. É preciso que as "minorias" sejam dotadas de um rancor escravo que as torne dependentes existenciais de seus algozes. O ódio impotente, que tem de conquistar na marra o que supostamente lhe falta, está na origem de uma nunca contada história sentimental das esquerdas. Uma das filhas de Karl Marx relata que o pai lhes ensinava que Cristo era o filho de um carpinteiro pobre assassinado pelos ricos... Não tinha como dar em boa coisa.

Estaria eu surpreso ou chocado com a baixaria do PT? Não. Como vêem, considero isso um ponto numa longa trajetória. E o partido repetirá o procedimento, com conteúdo novo, tão logo considere necessário. Nessa mesma campanha, os valentes fizeram coisa ainda pior: acusaram a prefeitura de São Paulo de discriminar negras na hora do parto. E que fique claro: não me alinho àqueles que acreditam ou defendem que a política deva ter receio de tratar deste ou daquele tema. Em princípio, todas as questões são "politizáveis" e podem passar pelo escrutínio popular. Num país em que a nova aristocracia sindical, ora abraçada ao velho mandonismo, pretende chamar de vida privada o que não passa de vício público, é preciso tomar especial cuidado ao estabelecer as justas fronteiras entre o individual e o coletivo.

Se a amante de um parlamentar com poder de interferência nos negócios da República tem a pensão alimentícia paga por uma empreiteira; se uma concessionária de serviço público faz negócio com o filho de um político com autoridade sobre essa empresa; ou, ainda, se a vida privada de um homem público influente está em flagrante contradição com sua pregação, tanto o jornalismo como os adversários desses "representantes do povo" têm o direito – e o dever – de levar a questão à arena, à ágora da democracia. Errado é silenciar. Se, no sentido em que trato, todos os assuntos cabem à política, isso não significa ausência de medidas.

E qual é a régua? Justamente a ética, que estabelece as regras, muitas delas não escritas, da convivência pública entre as diferenças. Não se vendo o PT, no entanto, obrigado a dispensar ao outro o respeito que exige para si mesmo, também não se sente comprometido com a sua própria trajetória, rendendo-se à lei da necessidade: "Perca-se a vergonha, mas não a eleição". Nesse juízo perturbado, o escrúpulo é uma herança da cultura que deve incomodar apenas as sandálias da "direita", assim como a coerência é uma cruz que deve pesar exclusivamente sobre os seus ombros. De um modo muito particular, o PT acerta neste caso: ter princípios é mesmo algo próprio da direita democrática, tanto quanto não os ter constitui a verdadeira tradição das esquerdas.

Mas São Paulo disse "não" à campanha suja. E Maria Victoria Benevides considerou isso uma coisa de direita. Talvez ela esteja certa.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Democratas, esses democratas

via Resistência

Recapitulemos: os republicanos são uns brutamontes, uns nazistas sem o bigodinho infame de Hitler, ao passo que os democratas representam a razão, a paz e a promessa da harmonia universal, certo? É o que se depreende da leitura dos nossos mais destacados e eruditos intelequituais. Vejamos alguns exemplos:

Segundo Arnaldo Jabor, que como comentarista político é mesmo um cineasta jenial, os democratas representam "a razão e a inteligência", em contraste com os republicanos, cujo universo mental seria feito de "preconceito, violência, burrice e [...] pulsão de morte". (Como vêem, a análise política de Jabor é cheia de sutilezas.) Se os democratas, em geral, representam a razão e a inteligência, Obama, em particular, encarna algo mais. Ele é "o jazz, a sexualidade livre, a liberdade da contra cultura". Em resumo, "Obama é mais que um candidato; ele é uma síntese de idéias, é a tomada do poder das conquistas cientificas, culturais e éticas da modernidade". Viram que eu não exagerava ao dizer que os comentaristas políticos andam escrevendo a respeito de Obama, em prosa, aquilo que B. Lopes escreveu, em verso, a respeito de Hermes da Fonseca? Mas continuemos.

Eis que desponta no horizonte a inteligência aguçada de Sergio Augusto, o Montaigne de Ipanema. Escrevendo sobre a convenção republicana, Augusto emitiu uma definição científica bagaray dos republicanos. Segundo o autor de Este mundo é um pandeiro, monumento imorredouro da filosofia política universal, os republicanos são, além de nazistas enrustidos (ou nem tanto), "caucasianos, caipiras, plutocratas, mal-amados, ressentidos, órfãos do macarthismo, peruas botocadas e lábios finos, vociferando ódio, zombarias, calúnias e slogans chauvinistas". Ah, bom.

Portanto, é isso. Se Jabor e Augusto, esses luminares da inteligência nacional, dizem que é assim, quem sou eu para dizer o contrário? Eppur si muove, conforme se pode ver na imagem abaixo:


Como vêem, eis um democrata que, para comemorar o Halloween, enforcou Sarah Palin em efígie, retratou John McCain emergindo do fogo do inferno e pendurou ambas as figuras na porta de casa. Mas, como sabe toda pessoa de bem, o monopólio da violência simbólica é dos republicanos, esses obscurantistas.

(Em tempo: se o contrário tivesse ocorrido, ou seja, se um republicano tivesse enforcado Obama em efígie e retratado um Joe Biden diabólico, o mundo inteiro lhe cairia na cabeça, e não sem razão. Como foi um democrata o autor dessa violência simbólica, a notícia ficou restrita a um despacho inconseqüente da Reuters.)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pedro Cardoso e o "Manifesto contra a Pornografia"

por Nemerson Lavoura no Resistência

"Sou contra a censura externa, mas a favor do super-ego. Quando ele falha, o estado fica tentado a agir. E o estado é sempre o intrumento da facção política que está no poder. É muito perigoso ceder ao estado a censura que deve caber a nós mesmos"


Um artista brasileiro dizendo isso? Será que eu estou sonhando?

Não, o parágrafo acima realmente saiu da boca de um artista do Bananão - de um (ótimo) ator, mais precisamente. Pedro Cardoso, o ator em questão, escreveu um "manifesto" contra a pornografia gratuita nos filmes nacionais, o que por si só, em se tratando de Bananão, demanda grande coragem. E Cardoso ainda dá um baile no jornalista canalhinha que tentou de todas as formas desmoralizá-lo em uma "entrevista" para o site do Globo. Boa, Pedrão!

A dica da entrevista é do Luís Afonso, que destacou este ótimo trecho:

Repórter pôgreçista: Essa discussão sobre a exploração da pornografia aconteceu no exato momento em que um professor de literatura foi afastado da Escola Parque por ser autor de poesia erótica. Comenta-se que você estava entre os pais que reagiram a isso. Qual a sua posição em relação a esse episódio?

CARDOSO: Não sei em quê este assunto tem a ver com o meu. A intenção da sua pergunta me parece ser a de sugerir ao leitor que eu sou um moralista puritano que poderia mesmo ter perseguido esse professor. Boa tentativa, mas a acusação é improcedente. Reproduzo mais um trecho do texto do Odeon: "A quem se afobe em me acusar de moralista, peço antes que procure conhecer o meu trabalho em teatro e que assista ao filme desta noite. Nele, assim como algumas vezes no teatro, tratei, junto com meus colegas, de assuntos bem distantes de uma moralidade puritana. Quem for me acusar, tente primeiro perceber a diferença entre a liberdade para tratar de qualquer assunto e a intenção de usar qualquer assunto para difundir pornografia usando a liberdade de costumes para disfarçá-la de obra dramatúrgica". Eu não conheço a obra poética do professor, a decisão de demiti-lo foi da escola, e ela não quer se pronunciar. Eu não vou tecer comentários baseados em suposições ("comenta-se") vagas que você está fazendo. As razões para a demissão dele, assim como para sua contratação, devem ser perguntadas à escola. Agora, acredite, é minha obrigação de pai saber quem diz o que para minha filha dentro da sala de aula e saber que livros escolhe para que ela leia. Caso este assunto verdadeiramente te interesse, informe-se melhor. E acredite (não sei se você tem filhos, mas se tiver vai me entender muito bem): num mundo confuso como este nosso, estamos bem sozinhos para olhar por eles.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A morte do capitalismo?

por Conde


A crise atual na economia americana implica discussões apaixonadas entre os liberais e os socialistas. O ocaso da bolha imobiliária e, ao mesmo tempo, a quebra de vários bancos americanos, suscitam novas discussões sobre a necessidade ou não de intervenção estatal na economia. Interessante notar que esses debates já ultrapassaram as questões acadêmicas de economia há um bom tempo. A discussão em si não é técnica. Ela tem elementos morais, políticos e ideológicos, que influenciam, e muito, os destinos da economia mundial.

O que está em jogo nessa discussão? A salvação da economia americana? O resgate dos bancos? A restituição dos credores? A recuperação da economia mundial? Penso que não. O que está em jogo, basicamente, é o sistema político e econômico de liberdades e propriedades que mantém as democracias em pé. Os arautos anticapitalistas, os milenaristas marxistas de plantão, já estavam decretando antecipadamente o “eschaton”, a morte do capitalismo e, em particular, do “neoliberalismo”. Se atentarmos aos apelos contra o livre mercado na ótica destes apocalípticos, há na sua proposta uma tendência perigosíssima de um completo agigantamento da burocracia estatal, como se esta fosse a fiel salvadora da economia capitalista. Não deixa de ser patética essa hipótese, pois quase todos eles sentem uma dolorosa saudade do falecido e criminoso modelo soviético. Um amor que não ousa dizer o nome. . .

É curioso perceber que a falácia da burocracia voluntariosa e salvadora é um lugar-comum nos comentários de jornalistas, economistas e acadêmicos, como se a existência mesma do livre mercado fosse uma corrupção moral tolerável dentro dos limites da benevolência do Estado. A crise de 1929 é o espantalho destes notórios profetas, relembrando a figura do New Deal e de Roosevelt como salvadores do malvado e corrompido capitalismo norte-americano. Este mito, forjado nos anos 30, não deixou de ter um dedo da União Soviética, já que muitos tecnocratas da administração Roosevelt eram francamente stalinistas, fanáticos estatólatras. Aliás, a idéia da burocracia voluntariosa e sábia chegou a ser uma mania daqueles tempos. É paradoxal que eles exaltassem as medidas de planejamento centralizado bolchevista, quando na mesma época, a União Soviética experimentava o maior surto de fome e miséria de sua história, com a coletivização das terras na Ucrânia. Tragédia que custou a vida de milhões de ucranianos pela fome e reduziu o país ao canibalismo. Em suma, a desproporção, além de desonesta, é paranóica.

É desonesta e paranóica porque falsifica a compreensão histórica do século XX. Se há algo que se tem de rememorar no Estado contemporâneo é o de ser organismo mais destrutivo que se tem notícia. As piores crises econômicas do capitalismo foram justamente causadas pela intervenção estatal. Aliás, se há algo que o Estado fez, em todo o século passado, foi criar problemas inexistentes para depois presumir resolvê-los. Estranha metodologia, porém, perfeitamente compreensível, em parte, pela idéia mítica do Estado engenheiro social e de uma sociedade lapidável, tal como uma argila de um oleiro. O governo intervém na economia e na sociedade civil em nome de resolver seus problemas. Quando ele não os resolve, ou mais, piora os males, exige mais burocracias e, em nome disso, mais poderes sobre a sociedade civil. E cada vez mais, o Estado destrói a vitalidade, a espontaneidade, a capacidade criativa da sociedade, para tornar tudo sumariamente coercitivo, compulsório, forçado. É espantoso que o processo seja um circulo vicioso, uma espécie de louca autofagia. E além de não resolver os velhos problemas que se propõe, o Estado cria outros novos, inexistentes, até o dia em que a sociedade definha.

Não é novidade, para os mais estudiosos, que a crise de 1929, como a crise atual, tem no Estado o seu maior responsável. Todavia, o espírito totalitário e idolátrico do Estado parece bem vivo na mente de muitas pessoas, como atávicas a um processo de servidão. É estranho bradar a crise de 1929 como o pecado original do capitalismo liberal, quando na verdade, seus diletantes escamoteiem os fracassos (e por que não dizer, crimes?) da economia estatal planejadora. Isso porque há de se recordar, a crise de 1929, como a crise americana atual, é pecado original do espírito planejador do Estado.

Uma boa parte dos que aderiram ao discurso de morte do capitalismo tem o espírito stalinista dentro de seus devidos corações. São as viúvas do Muro de Berlim, os nostálgicos da Gosplan soviética da vida, amantes naturais da ditadura comunista chinesa, cubana e norte-coreana, que odeiam o sistema de liberdades civis, no qual os americanos representam seu maior símbolo. Nesta lista entram os fracassados caudilhos cripto-comunistas, os Chavez, os Morales da selva latino-americana , junto com seus adeptos cretinos do fracasso permanente, que de tão permanente, acabam se tornando um sucesso insistente de público. São verdadeiros fantasmas brigando contra a realidade viva. Até porque o livre mercado e a propriedade privada são garantias materiais para as liberdades civis que o ocidente usufrui. São essas instituições que preservam os direitos individuais, sem os quais, o Estado controla tudo e a sociedade é subjugada. São, em suma, garantias para o progresso natural da economia. O resto é conversa mole!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Estado da Crise

por de Luciano Amaral
via O Insurgente


Vale a pena começar pelo início: esta é uma crise financeira e bancária, e o sector é provavelmente o mais regulado e intervencionado pelo Estado dos sectores privados. É um sector cujo “produto” (o dinheiro), em primeira instância, é produzido em condições de monopólio pelo Estado, o qual, de resto, define o seu preço arbitrariamente. É também um sector cujas empresas dependem de autorização discricionária do Estado: não se abre um banco como uma loja de ferragens; é o Estado quem autoriza a sua abertura e quem define as condições de operação, impondo regras e regulação muito estritas. Mais: toda a regulação bancária conduz a uma intervenção constante do Estado. Nos EUA, por exemplo, o problema do subprime tem origem em décadas de uma política habitacional cujo objectivo foi garantir a propriedade de uma casa para o maior número, mas através de uma curiosa forma de “desorçamentação”: em vez de o dinheiro sair das contas públicas, passou a sair do mercado de capitais, onde as operações das instituições financeiras eram “garantidas” por entes públicos ou semi-públicos. Mas não se trata de um exclusivo americano: com métodos diferentes, todo o mundo ocidental seguiu a mesma ideia. Não admira, por isso, o trânsito de pessoal entre instituições financeiras e públicas. Hank Paulson é já o segundo secretário do Tesouro vindo da Goldman Sachs. Mas, mais uma vez, não se trata de um exclusivo americano.

Se dependessem apenas das contas públicas, os Estados ocidentais praticamente não conseguiriam fazer políticas sociais. Caso se aplicassem as regras actuariais privadas aos Estados, a Bélgica, a Itália ou o Japão já teriam falido muito antes da Lehman Brothers. Vale a pena perguntar: é o fim do “ultra neoliberalismo” (que ninguém sabe o que seja) ou do Estado-Providência como o conhecemos?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

por Gravataí Merengue, no Imprensa Marrom

Não é de hoje que há um policiamento por parte da chamada petistosfera (que não são exatamente os petistas, mas sim aqueles que fazem parte de grupinhos ligados a candidatos ou sindicatos ou a ambos).

Na hora da raiva, há uma troca de farpas e a famosa briga de torcidas, mas, no fundo, é triste ver que a maioria não aceita a divergência de idéias sem colocar em dúvida a integridade moral de qualquer adversário.

Por isso, em vez de atacar a honra ou coisa que o valha, parti para o humor. Fiz uma pequena demonstração do "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa" nos mais variados tópicos. Vocês já devem ter visto muito disso...

Direita x Esquerda
Kassab é a "ARENA", pois é do DEM que, poxa!, era o PFL! – e isso significa que ele é o candidato "da direita" e é "contra a democracia" (nessa hora, toca alguma música de fundo e aparece o pessoal com a cara pintada abraçando algum monumento).

Marta, que governou quatro anos com o PP (OFICIALMENTE, o herdeiro da ARENA) e, em 2004, fez campanha no segundo turno com Maluf, não representa nada disso! O Governo Federal tem o PP no ministério e o mesmo PP recebeu Mensalão. Mas que nada!

Votos dos "Pobres"
Quando Maluf conseguia votações expressivas na periferia na cidade, a explicação petista era a de que o povo, mal informado, se deixava levar pelas promessas populistas do candidato. Além disso, era enganado por programas assistencialistas.

Marta venceu Kassab na periferia. Eles dizem que foi uma "goleada" (na verdade, foi 50 a 42%) e atribuem a vitória a uma percepção política do eleitorado que sofre as piores mazelas e quer mudar-tudo-isso-que-está-aí.

Preconceito
Quando Erundina foi eleita, em 1988, ou mesmo Marta, em 2000, os petistas afirmaram que São Paulo finalmente saiu da era medieval e superou seu preconceito. Já neste ano, com as primeiras pesquisas, diziam que era um bom sinal essa mudança da posição conservadora da cidade.

Com a votação maior de Kassab no primeiro turno, um dos fatores alegados é o conservadorismo paulistano. Importante: Lula, do PT, obteve sua maior votação exatamente nos rincões mais conservadores do Brasil, naqueles em que há defesa ardorosa da pena de morte, repúdio total à legalização do abordo e religiosidade ferrenha. Mas, enfim, São Paulo é que é uma cidade "preconceituosa", vocês sabem...

Corrupção
Se algum partido adversário é pego com a boca na botija, imediatamente, o PT exige todo tipo de investigação e tratam do caso com o maior alarde, repercutindo de todas as formas possíveis e imagináveis, inclusive repetindo opiniões.

Quando o escândalo é do próprio PT, os petistas NUNCA TRATAM DO CASO CONCRETO, mas sim da abordagem da imprensa, quase que a culpando pela "forma desigual" com que tratam escândalos parecidos. Em alguns casos, acham um absurdo que isso tenha aparecido "justamente na época da eleição", ou então dizem que é "requentado" – enfim, fazem qualquer coisa que os desonere de comentar o caso em si.

Alianças
Se o PSDB se alia ao DEM, é sinal de que firma um pacto com o demônio e está a serviço da destruição do planeta, do universo e da vida. Toda e qualquer aliança feita por um adversário é vista e tratada como algo espúrio, péssimo, ruim e inaceitável.

Quando o PT se alia a partidos como o do Maluf (PP) ou a pessoas como o próprio Maluf ou Collor, Pitta, Renan Calheiros, Roberto Jefferson, Clodovil e alguns outros, isso se justifica pelo fato de que é necessário para a "governabilidade" e para realizar uma gestão "em prol do povo". Com Mensalão e tudo.

Eleição Municipal x Nacional
Se está vencendo, ou de fato vence uma corrida municipal de grande porte, o PT prova por A + B que o resultado "pavimentará" as próximas eleições nacionais e estaduais. É fatura líquida.

Quando não ganham, ou não estão no caminho da vitória, os MESMOS QUE DISSERAM ISSO MUDAM O DISCURSO TEÓRICO! Alegam que a importância, no plano nacional, é relativa e assim por diante. Não, eu não estou brincando.

Pesquisas
Se o PT está na frente, elas são confiáveis e quem reclama é mau perdedor. Simples assim.

Mas quando outro candidato aparece na frente, até ministro de Estado fala contra os institutos, alegando que não é bom confiar nas pesquisas. Baixando sobremaneira o nível hierárquico de importância existencial, houve comentarista de blog dizendo que as pesquisas "erraram feio". Não, não erraram. Ficaram MUITO próximas da realidade, ao menos em São Paulo.

Blogs
Todo e qualquer blog que elogie o PT e xingue seus adversários é aplaudido e tratado como bacana. Não importa se erra, não importa se exagera, não importa se carrega na tinta. Nada disso, enfim, é levado em consideração. O dono trabalha para o PT? Ninguém liga. Tem empresa que presta serviços para campanhas e gestões? Ninguém liga. Há ligações financeiras ou profissionais com o partido ou algum integrante? Passam batido. TODOS OS POSTS SÃO FAVORÁVEIS AO PT OU CONTRA SEUS ADVERSÁRIOS. E os blogs são aplaudidos pela massa.

Mas um outro blog cuja maioria dos textos seja contra o PT, ainda que um ou outro também tire sarro dos adversários, ah!, esse tá lascado. É um vendido! Não presta! É um panfleto! Não tem pluralismo! Não dá "o outro lado". É "como aquele outro". E assim por diante.

Enfim...
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa... É triste, mas é verdade. No fundo, nem é tão triste. É engraçado. Eles são uma piada. Involuntária, mas extremamente engraçada.

Evamoquevamo!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Valorização falseada, falsa economia e um prejuízo infernal

© 2008 Jeffrey R. Nyquist

Nossa infeliz economia, baseada em valorizações falseadas, não pode continuar por muito tempo. Ela é o equivalente doméstico da amizade que o presidente Bush tinha por Vladimir Putin. É o mundo da fantasia, do eterno mercado em alta e dos pacotes governamentais “bem sucedidos”. As lideranças políticas nos Estados Unidos demonstraram que não entendem de economia. Elas não podem resolver a crise atual a não ser que voltem para a escola e consultem a sabedoria que por tanto tempo negligenciaram. Elas construíram seu mundo do pós-Guerra Fria sobre uma falsa expansão da economia, sobre falsas “parcerias” com inimigos. Elas permitiram uma política de expansão ilimitada de crédito.

“Expansão de crédito”, escreveu o economista austríaco Ludwig von Mises, “[é] a principal ferramenta dos governos em sua luta contra a economia de mercado. Em suas mãos está a vara de condão projetada para esconjurar a escassez de bens de capital…e tornar a todos prósperos”. Mas nem todos podem ser prósperos. O crescimento econômico criado pela expansão de crédito não pode durar. E é isto que os líderes americanos não perceberam. “As conseqüências inescapáveis da expansão de crédito estão demonstradas pela teoria dos ciclos econômicos. Até mesmo aqueles economistas que ainda se recusam a reconhecer a correção da teoria monetária — ou da teoria da circulação de crédito — das flutuações econômicas cíclicas, nunca ousaram questionar o caráter conclusivo e a irrefutabilidade do que esta teoria afirma com respeito aos efeitos inescapáveis da expansão de crédito”.

E quais são esses efeitos?

De acordo com Ludwig von Mises, um impulso econômico ocasionado por uma expansão creditícia só pode ser mantido por mais expansão de crédito; no longo prazo, “[t] ransforma-se em depressão [1] quando cessa a expansão de crédito”. Esta conseqüência é absolutamente certa e a crise financeira atual ressalta o ponto. A expansão [o boom] econômica de anos recentes foi impulsionada por uma expansão de crédito sem precedentes. A cada vez que o mercado estava ameaçado de contração, mais expansão de crédito era insistentemente recomendada e logo posta em prática.

A vara de condão da expansão de crédito age como o vício da heroína. Quanto mais você a injeta, mais você a quer. Inevitavelmente chega o dia em que você não pode mais aumentar a dosagem porque acabou o suprimento. E assim é com a expansão de crédito. Os mercados estão acostumados com o acesso fácil ao dinheiro. Eles agora exigem mais e mais facilidades. Estão viciados. Mas ao fim, todavia, serão forçados a sofrer os efeitos da abstinência.

Será que pensamos que esta expansão poderia continuar para sempre e sem conseqüências? Evidentemente, não consideramos onde iríamos parar. E agora, finalmente, o governo dos Estados Unidos acredita que pode saciar a fome de crédito através de um impulso coordenado – o último suspiro de nossos insaciáveis viciados em crédito. O presidente Bush oferece um plano. A portas fechadas, Bush teria dito: “Esse trouxa pode afundar”. Mais uma vez, a gramática do presidente está errada. O trouxa em questão irá afundar.

Cada dólar derramado no resgate proposto será perdido. Comprar dívida “tóxica” não é uma solução. O mecanismo proposto para resgatar a economia representa uma nova falsificação de valores – e um novo desvirtuamento do mercado. Um pacote de resgate de US$700 bilhões é apenas o começo. Não é possível que o dólar sobreviva a esta nova iniciativa. O que vemos em Washington é um exercício de auto-engano. É o auto-engano de um país que não vê o perigo, de um país que ignora a sabedoria dos antepassados e o ABC da economia.

Eles querem uma economia sempre em expansão. O que falharam em considerar é a natureza falsa de uma expansão assim engendrada. Valores falseados, idéias falsas e promessas de prosperidade falsas temperam o programa dos políticos de hoje. O lugar deles não é na direção de um grande país. Sua liderança consiste em lamentável ignorância e a república pode estar em seus últimos dias. Houve uma chocante disposição de destruir a moeda do país. “Se o governo não dá importância para até onde as taxas de câmbio podem subir, poderá, durante algum tempo, continuar a se agarrar à expansão de crédito”, explicou Mises. “Mas, um dia, o colapso da expansão aniquilará o seu sistema monetário”.

O plano proposto para salvar os mercados nada salvará. A solução proposta não é solução. Investimentos impróprios foram feitos e enormes perdas devem deles resultar. Devemos tomar o nosso remédio antes de melhorarmos. Depreciar a nossa já depreciada moeda torna as coisas piores. A expansão artificial deve ter um fim. Falsas apreciações devem consumir-se de modo que valores reais possam ser restabelecidos.

Poucos percebem o quão destrutivo foi o boom econômico; pois o dano real é feito pelo regime de valores falseados e pelo nosso investimento coletivo nesses valores. Mises ressaltou: “[O] boom econômico é chamado de prosperidade, negócios em alta e impulso econômico. Sua conseqüência inevitável, ou seja, o reajustamento das condições aos dados reais do mercado é chamado de crise, queda brusca, negócios em baixa, depressão”. Esta última, porém, é o período de cura e correção.

A verdadeira mágica da ciência econômica é aprender a aceitar a correção. E é isto que nos recusamos a fazer. Os administradores financeiros do país deram um exemplo terrivelmente ruim. Tradicionalmente, o capitão afunda com seu navio. Enquanto o Titanic afunda, nossos financistas não querem ser resgatados em botes salva-vidas, mas em iates. Eles não querem aceitar que guerras e depressões são necessárias porque a natureza humana deseja a fantasia. A bolha da falsa paz e da falsa prosperidade necessariamente se rompe. Ao fim, a realidade precisa ser confrontada.

“As pessoas se rebelam contra a noção de que o elemento perturbador verifica-se no mau investimento e no consumo exagerado do período de expansão”, escreveu Mises. O fato curioso é, segundo Mises, que, “[Se] aplicarmos essa medida de comparação às várias fases das variações cíclicas da economia, deveríamos chamar a expansão de retrogressão e a depressão, de progresso”. A expansão se dissipa através do mau investimento dos escassos fatores de produção e reduz o estoque disponível através do excesso de consumo; suas supostas bênçãos são pagas com o empobrecimento. A depressão, por outro lado, é o caminho de volta ao estado de coisas no qual todos os fatores de produção são empregados para a melhor satisfação possível das necessidades mais urgentes dos consumidores.

Se o Estado deve fazer alguma coisa construtiva durante o período “progressivo” da depressão [i.e., o período de reajustamento de valores e alocações de recursos escassos conforme a realidade] é manter o poder de dissuasão nuclear do país e preservar a unidade nacional. Não há dúvida de que em breve os Estados Unidos se verão forçados a trazer de volta as tropas e fechar as bases militares no exterior. A situação financeira ditará a retirada do cenário internacional. Ela ditará um governo mais modesto. Mas os políticos se agarram à idéia de que o boom econômico pode continuar e que sua abordagem falsa da situação internacional é viável. Os Estados Unidos não podem salvar o mundo. O país terá sorte se puder salvar a si mesmo. O plano de resgate financeiro proposto pelo presidente Bush não é apenas uma medida socialista. É uma tentativa de evitar o retorno às avaliações corretas, reais. De fato, é uma tentativa ignorante de prolongar o dano que já foi feito.

Nossos políticos querem nos dar dinheiro [crédito] fácil, um fomento ao regime de shopping-center. Eles acreditam que isto evitará que milhões percam seus empregos. Eles acreditam que as medidas que propõem salvarão bancos em apuros. A prosperidade, então, continuará. “Esse raciocínio parece plausível”, escreveu Mises. “Não obstante, ele está completamente errado”. O boom econômico elevou os preços e salários a níveis altos demais. A demanda perdeu toda a noção de oferta. O consumidor agora está acostumado a obter o que quiser, ainda que não tenha os recursos para tanto. A fim de colocar as coisas no lugar, os salários precisam cair, o consumo precisar ser restringido e práticas imprevidentes devem ter um fim.

“Não há nenhuma utilidade na interferência por meio de uma nova expansão de crédito”, escreveu Mises. “Na melhor das hipóteses, isto apenas interromperia, perturbaria ou prolongaria o processo curativo de uma depressão, isso se não trouxesse de volta um novo boom, com todas as suas conseqüências inevitáveis”. Quando Bill O’Reilly [2] diz que o desastre é grande demais, que a despeito de seu apoio à economia de mercado não vê alternativa ao plano de resgate do governo, ele está negando o poder curativo de uma depressão. Ele está negando a lição fundamental da economia. O dano ao sistema econômico já ocorreu durante o período de falsa prosperidade.

Tão estranho quanto possa parecer, uma crise financeira e a depressão são necessárias. Nós precisamos passar por um período de dificuldades. Não há outro caminho para corrigir o regime de falsos valores, ou de valorizações irreais. O problema, é claro, tornou-se político. O regime é um sistema político onde o economicamente ignorante dá o tom. A magnitude do desastre é, por meio disso, amplificada, Os atores políticos agora põem o sistema político em risco. E porque há implicações de segurança nacional, eles agora põem nossas vidas em risco.

[1] NT: No contexto atual, “depressão” pode também ser entendida como recessão, ou recessão profunda. Todavia, na versão original de sua obra magna, Human Action [Ação Humana], de 1949, Ludwig von Mises usa apenas o termo depression. Por este motivo, decidimos manter o termo.
[2] NT: Bill O’Reilly é um dos mais famosos, influentes e respeitados comentaristas da TV a cabo americana, sendo talvez a principal estrela do canal de jornalismo FOXNews. Tido como conservador, é temido e odiado pela esquerda americana. Sua declaração, portanto, assume importância maior, apesar de equivocada.


Publicado por Financialsense.com

Tradução: MSM

Carta aberta aos meus amigos de esquerda

por Steven Horwitz, no Ordem Livre



Meus amigos,

Nas últimas duas semanas, tenho ouvido vocês dizerem, com certa freqüência, que a atual confusão financeira teria sido causada pelas falhas do livre mercado e pela desregulamentação. Ouvi vocês dizerem que a ânsia pelo lucro, por qualquer lucro, que está no centro do livre mercado, estaria na raiz dos nossos problemas. E ouvi vocês dizerem que apenas uma intervenção significativa do governo no mercado financeiro poderia curar esses problemas, quem sabe, de uma vez por todas. Eu gostaria de pedir que vocês considerem, nos próximos minutos, segundo as palavras de Oliver Cromwell, a possibilidade de estar enganados. Considerem que tanto o diagnóstico quando a cura podem estar igualmente incorretos.

Considerem que os problemas dessa confusão foram causados exatamente pelo tipo de regulamentação governamental que vocês propõem. Considerem que os efeitos da motivação para o lucro que vocês condenam dependem dos incentivos criados pelas instituições, regulamentações e políticas, o que nesse caso levou aqueles que buscam o lucro a causar grandes danos. Considerem que as regulamentações que talvez tenham sido a causa disso tudo foram apoiadas, como tem acontecido em toda a história dos Estados Unidos, pelas mesmas empresas que estavam sendo regulamentadas, especialmente porque elas funcionavam para beneficiar essas empresas, mesmo que assim prejudicassem a todos nós. Considerem tudo isso, enquanto vocês defendem mais uma dose do mesmo remédio para solucionar esses problemas. Finalmente, reflitam sobre o motivo que fariam vocês acreditar que aqueles que têm riqueza e poder não fraudarão o novo processo regulatório em seu benefício.

Uma das maiores confusões na atual crise é a afirmação de que ela é resultado da cobiça. O problema com essa explicação é que a cobiça é um componente constante das interações humanas. Sempre foi. Então, por que, de repente, a cobiça passou a nos causar tantos danos? E por que apenas em um setor da economia? Afinal de contas, será que não existe cobiça suficiente em outros setores? Realmente, as empresas buscam o lucro, e elas o buscarão onde existam incentivos institucionais que possibilitem a obtenção de lucro. No livre mercado, as empresas lucram ao fornecer bens que os consumidores desejam a preços que estejam dispostos a pagar. (Meus amigos, não parem de ler, mesmo que descordem – agora vocês sabem como me sinto quando dizem que essa crise é resultado do livre mercado – pelo menos, terminem esse parágrafo.) Entretanto, as regulamentações, as políticas e até mesmo a retórica de atores políticos poderosos podem mudar os incentivos em relação ao lucro. As regulamentações podem tornar mais difícil para as empresas diminuir seus riscos, ao determinar que façam empréstimos a mutuários marginais. As instituições governamentais podem encorajar os bancos a assumir mais riscos, oferecendo uma garantia governamental completa para o caso de aquelas situações lhes trazerem problemas. A política pode direcionar o interesse próprio para atividades que servem apenas aos interesses corporativos e não à população.

Muitos de vocês têm criticado com razão o decreto do etanol, que tornou lucrativo para os produtores deixar de produzir milho para a alimentação e produzi-lo para a fabricação de combustíveis, aumentando assim o preço dos alimentos em todo o mundo. O que é interessante é que aqui vocês culparam a política e não o desejo de lucro e a cobiça! A crise financeira atual é análoga.

Nenhum economista defensor do livre mercado pensa que “a cobiça é boa em qualquer caso”! O que acreditamos ser verdadeiramente bom são as instituições que jogam com o interesse próprio de atores individuais ao recompensá-los por servir à população, não apenas a si mesmos. Acreditamos que é isso que o livre mercado faz de verdade. As trocas no mercado são mutuamente benéficas. Quando uma lei atrapalha tudo, seja não definindo claramente as regras do jogo ou tentando burlá-las através de regulamentações, a ação em função do interesse próprio não é mais mutuamente beneficente economicamente. Assim, o setor privado lucra ao servir a alguns poucos fins políticos em vez de servir ao público. Nesses casos, a cobiça nos leva a terríveis conseqüências, que são terríveis não por causa da cobiça ou do interesse, mas por conta do contexto institucional no qual ela opera, canalizando o interesse em caminhos socialmente improdutivos.

Foi isso, meus amigos, que nos trouxe à crise que nos encontramos agora.

Chamar a crise do crédito e da habitação de falha do livre mercado ou produto da cobiça exagerada é ignorar diversas regulamentações governamentais, políticas e discursos políticos que reduziram a “liberdade” desse mercado e que canalizaram o interesse próprio de maneiras que produziram conseqüências desastrosas, intencionalmente ou não. Deixem-me recapitular rapidamente o papel do governo nessa pequena novela.

Em primeiro lugar, Fannie Mae e Freddie Mac foram empreendimentos “patrocinados pelo governo”. Embora fossem, tecnicamente, propriedade privada, possuíam privilégios especiais, garantidos pelo governo, eram supervisionados pelo Congresso e, o que é mais importante, sempre trabalharam com a promessa de que receberiam ajuda financeira caso tivessem problemas. Nada parecido com o “livre mercado”. Todos os participantes do mercado de financiamentos imobiliários sabiam disso desde o início. No começo dos anos 1990, o Congresso afrouxou as exigências para empréstimos de Fannie e Freddie (para um quarto do capital exigido pelos bancos comerciais comuns) a fim de aumentar a sua capacidade de conceder empréstimos em áreas pobres. O Congresso criou também uma agência regulatória para supervisioná-los, mas essa agência também deveria recredenciar-se junto ao Congresso anualmente para obter o seu orçamento (nenhuma outra agência reguladora faz o mesmo), certificando-se que diria ao Congresso exatamente o que ele gostaria de ouvir: “as coisas estão indo bem.” Em 1995, foi concedida a Fannie e Freddie uma permissão para entrar no mercado subprime e os reguladores começaram a agir contra os bancos que não realizavam empréstimos suficientes em áreas com problemas de crédito. Foram feitas inúmeras tentativas de controlar Fannie e Freddie, mas o Congresso não tinha votos suficientes para fazer isso, especialmente com as duas organizações fazendo contribuições significativas a membros de ambos os partidos. Em 1999, até mesmo o New York Times percebeu exatamente o que poderia acontecer graças a esse mercado nem um pouco livre, advertindo sobre a necessidade de ajudar Fannie e Freddie caso o mercado imobiliário entrasse em crise.

O que complicou ainda mais as coisas foi a revisão, realizada em 1994, da Lei de Reinvestimento Comunidário (CRA), de 1971. A CRA exige que bancos concedam uma determinada porcentagem de seus empréstimos às comunidades locais, principalmente aquelas menos favorecidas economicamente. Além disso, o Congresso explicitamente incentivou Fannie e Freddie a expandir seu nível de empréstimos a mutuários com “crédito marginal” como forma de popularizar a casa própria. O resultado da soma de todos esses fatores foi a criação de enormes lucros e incentivos políticos para os bancos e a concessão cada vez maior de empréstimos de alto risco a mutuários de baixa renda por Fannie e Freedie. Apesar de bem intencionada, a tentativa de transformar mais americanos em proprietários de imóveis, obrigando bancos a tomar parte nela e reduzindo artificialmente os custos dessa ação, é parte considerável do embaraço em que nos encontramos agora.

Ao mesmo tempo, os preços dos imóveis subiam, fazendo com que aqueles que tinham conseguido empréstimos altos com pagamentos suaves sentissem que poderiam pagá-los, e inspirando uma grande variedade de “instrumentos de financiamento”. O que é mais interessante é que o aumento nos preços afetou mais decisivamente as cidades com regulamentações mais estritas em relação ao uso da terra, o que também explica o fato de que nem todas as cidades foram afetadas pelo mesmo nível de aumento no preço de imóveis. Essas regulamentações evitaram que alguns tipos de espaço fossem utilizados para a construção de moradias, empurrando a crescente demanda por habitação (turbinadas pelas considerações acima) para uma oferta de terras que respondia lentamente aos estímulos. O resultado foi um rápido aumento nos preços. Naquelas áreas com regulamentações menos exigentes em relação ao uso da terra, o efeito da explosão no preço dos imóveis foi muito menor. Repetindo, foi a regulamentação, não o livre mercado, que guiou a busca pelo lucro e foi um fator importante para o aumento do preço dos imóveis que alimentou a farra dos empréstimos.

Enquanto isso tudo acontecia, o Fed (o Banco Central), nominalmente privado, mas que tem grandes privilégios monopolísticos garantidos pelo governo, inflava o crédito e reduzia seguidamente a taxa de juros. Esse influxo de crédito alimentou ainda mais os empréstimos desenfreados. Com uma abundante disponibilidade de fundos, graças ao monopólio gente-boa do banco central (nada a ver com o livre mercado), os bancos podiam continuar a conceder empréstimos cada vez mais arriscados.

O que acontece no ultimo capítulo dessa história é que em 2004 e 2005, logo após os escândalos contábeis de Freddie, ambas as empresas se penitenciaram por seus erros no Congresso concordando em expandir seu nível de empréstimos a consumidores de baixa renda. Ambas concordaram em adquirir quantidades maiores de subprime e empréstimos Alt-A, dando sinal verde para os bancos concederem-nos. De 2004 a 2006, a porcentagem de empréstimos das categorias de maior risco cresceu de 8% para 20% de todos os empréstimos concedidos nos Estados Unidos. E a qualidade desses empréstimos também caía: o número de quitações antecipadas caía progressivamente e um número cada vez maior de empréstimos possuía uma pequena taxa de juros no início, mas que seriam corrigidas mais tarde. Os bancos aceitavam mutuários de risco, mas sabiam que Fannie e Freddie comprariam, seguramente, esses empréstimos; garantidos – claro – por nós, que pagamos impostos. Sim, os bancos foram gananciosos na busca de novos clientes e da concessão de empréstimos mais arriscados, mas eles estavam respondendo a incentivos criados pelas bem intencionadas, mas equivocadas, intervenções governamentais. No fim das contas, essas intervenções são as responsáveis pelos empréstimos arriscados que foram mal sucedidos e que estão no centro da crise atual – não o “livre mercado.”

Assim, a confusão em que estamos está irremediavelmente ligada à interferência governamental sobre o livre mercado, do fomento do Fed à CRA e às regulamentações sobre o uso do solo, até Fannie e Freddie criando um mercado artificial de financiamentos de risco para satisfazer as demandas do Congresso de aumentar as oportunidades de as famílias de baixa renda adquirirem um imóvel. Graças a essa intervenção, muitas dessas famílias não apenas perderam suas casas, mas também a poupança que poderiam ter guardado por mais alguns anos e que talvez lhe ajudassem a contrair um empréstimo menos arriscado ou encontrar uma casa mais barata. Todas essas intervenções no mercado criaram o incentivo e os meios para os bancos lucrarem com a concessão de empréstimos que nunca teriam existido em um mercado verdadeiramente livre.

Vale a pena notar que essas políticas, regulamentações e intervenções foram, em geral, totalmente apoiadas pelos interesses dos indivíduos envolvidos. Fannie e Freddie ganharam bilhões enquanto o preço das casas subia e seus CEOs recebiam generosos salários. O mesmo aconteceu com vários bancos e outros intermediários no mercado de financiamentos que ajudaram a espalhar o risco que estava em jogo, inclusive aqueles que desenvolveram diversos tipos de instrumentos financeiros novos, criados para lidar com o elevado risco de inadimplência que a intervenção gerou. Estavam participando de um jogo maravilhoso e o mercado financeiro estava feliz em ter Fannie e Freddie como compradores vorazes de seus empréstimos de risco, sabendo que os dólares dos contribuintes americanos estariam sempre lá que precisassem. A história das regulamentações comerciais nos Estados Unidos é a história das empresas utilizando as regulamentações para seus próprios propósitos, independentemente da aura de interesse público que lhes envolve. Foi exatamente isso que aconteceu no mercado imobiliário. E é também por isso que os clamores por mais regulamentações e mais intervenções são tão equivocados: elas não funcionaram antes e não funcionarão novamente porque aqueles que têm os lucros em risco são os mesmo que possuem os recursos e o acesso ao poder necessários para garantir que o jogo seja manipulado a seu favor.

Meus amigos, sei que vocês estão preocupados com o poder das corporações. Eu também estou. Como também estão muitos dos meus colegas, economistas, defensores do livre mercado. Nós simplesmente acreditamos, e acho que a história está do nosso lado, que a melhor arma contra o poder das corporações é o mercado competitivo e o poder dos dólares dos consumidores (limitado, claro, pela proibição legal do uso da força e da fraude). A competição faz as corporações sujas e más competirem umas com as outras para nos servirem. Sim, elas ainda têm poder, mas os seus poderes negativos são reduzidos. É quando as corporações podem utilizar o Estado para manipular as regras a seu favor que os efeitos negativos de seu poder se tornam exagerados, precisamente porque elas têm a força do Estado a lhes dar cobertura. A confusão atual demonstra isso como nunca antes, uma vez compreendido o grande papel que o Estado desempenhou. Se você realmente deseja reduzir o poder das corporações, não lhes conceda acesso ao Estado, expandindo seus poderes regulatórios. É exatamente isso que elas querem, como a batalha pelos 700 bilhões de dólares demonstra claramente.

É por isso que tantos entre nós, defensores do livre mercado, se opõem ao socorro financeiro governamental. Esse é mais um exemplo de uma longa história do setor privado tentando enriquecer através do Estado. Quando isso acontece, não há benefícios para nós, diferentemente do que acontece quando as empresas tentam enriquecer no mercado competitivo. Além disso, essas mesmas empresas se beneficiaram enormemente das intervenções regulatórias que elas apoiaram e que nos causaram tantos danos. O eventual estouro da bolha e suas perdas subseqüentes são, para muitos de nós, um prêmio justo para aqueles que manipularam o jogo e no fim das contas acabaram sendo pegos. Recompensá-los novamente por terem manipulado o jogo não é apenas moralmente injusto, é também uma política econômica muito ruim, já que envia uma mensagem para outros possíveis manipuladores, que eles também serão recompensados por destruírem a economia americana. Haverá problemas em curto prazo se não socorrermos essas empresas, mas essa é a ressaca que teremos depois 15 anos ou mais de empréstimos desenfreados. O socorro proposto não poderá evitar as dores da ressaca; poderá apenas ocultá-las, espalhando as dores entre os contribuintes e uma economia enfraquecida pelos empréstimos, pelos impostos e/ou pela inflação necessárias para de pagar os US$ 700 bilhões. É melhor que enfrentemos logo nossa dor em curto prazo e limpemos assim os erros causados por nossos exageros, e então voltemos às negociações no livre mercado, sem criarmos um poder executivo monstruoso, tentando “salvar” aqueles que mais lucraram com aqueles mesmos exageros, além de causar danos aos pagadores de impostos nesse processo.

O que eu peço a vocês, meus amigos da esquerda, não é apenas continuar a trabalhar junto conosco na oposição a esse ou a qualquer outro bailout, mas que considerem atenciosamente se vocês realmente desejam confiar à mesma entidade, que é a causa predominante dessa crise, o poder de tentar curá-la. Novos poderes regulatórios podem parecer ser a solução, mas foi exatamente isso que as pessoas disseram quando a CRA foi aprovada, ou quando foram dados novos mandatos à Fannie e Freddie. E as próprias empresas que serão reguladas serão as primeiras na fila para determinar como essas regulamentações serão escritas e aplicadas. Vocês podem apostar em como o jogo vai ser manipulado.

Eu sei que vocês tendem a pensar que os problemas com essas regulamentações são culpa dos indivíduos que as formulam. Você pensa que se Obama pudesse vencer, se nós pudéssemos nos livrar dos republicanos corruptos e colocássemos pessoas éticas e bem intencionadas em seu lugar, tudo ficaria bem. Mas pense novamente. Em primeiro lugar, quase toda intervenção governamental que serviu de base para essa crise foi implementada com os democratas na presidência ou no controle do Congresso. Mesmo quando os republicanos controlavam o Congresso, o presidente Clinton conseguiu mudar as regras para permitir que Fannie e Freddie entrassem no mercado de empréstimos de alto risco. O que defendo aqui não é colocar a culpa da crise atual nos democratas. Essa culpa deve ser dividida igualmente. O que estou dizendo é que esperar que se as “pessoas certas” evitarão esses problemas ao assumir o poder é, além de ingenuidade, uma cegueira histórica. Em relação ao interesses corporativos, eles foram ajudados, talvez sem querer, por tentativas bem intencionadas de pessoas boas de fazer o bem. O problema é que havia um grande número de conseqüências indesejáveis, a maioria delas previsíveis e já previstas. Não importa qual partido esteja comandando o navio: as regulamentações trazem consigo conseqüências inesperadas e sempre tenderão a ser capturadas pelos interesses daqueles que têm mais a perder. E a história está cheia de casos em que aqueles que têm propósitos morais ou ideológicos alinham-se politicamente com aqueles cujos interesses materiais estão em risco, mesmo que os dois grupos, em geral, coloquem-se em lados distintos. Esse é o famoso fenômeno dos “contrabandistas e batistas”.

Se vocês chegaram até aqui, já estou satisfeito. Aceitando ou não todos os argumentos que escrevi, peço-lhes uma coisa: a história que contei no começo, sobre o papel da intervenção governamental nessa confusão, é verdadeira, seja quais forem as suas grandes conclusões sobre suas causas e curas. Mesmo que vocês não concordem com meu argumento de que mais regulamentação não seria a cura, a atribuição dessa crise ao “livre mercado” deveria soar para vocês como uma mentira evidente e eu esperaria que vocês parassem de fazer essa afirmação ao falar ou escrever sobre os acontecimentos das últimas duas semanas. Podemos discordar de boa fé sobre o que fazer agora, e podemos discordar de boa fé sobre até que ponto as intervenções governamentais causaram os problemas, mas é injusto culpar um inexistente livre mercado por uma crise que foi de certa forma resultado das sistemáticas intervenções governamentais no mercado. Então, caso não tenha conseguido persuadi-los de nada mais, espero sinceramente que eu tenha-lhes persuadido nesse ponto.

No fim das contas, tudo que lhes peço é que continuem pensando nisso. Utilizar a cobiça para explicar essa crise não levará muito longe, já que a cobiça, como a gravidade, é constante no mundo. A explicação da crise como uma falha do mercado confrontará uma verdade óbvia: que esses mercados estavam longe de estar livres da influência governamental. Considerem que vocês possam estar enganados. Considerem que talvez a intervenção governamental, e não o livre mercado, tenha levado aqueles que buscam o lucro a exercer atividades que causam danos à economia. Considerem que a intervenção governamental pode ter levado bancos e outras organizações a assumir riscos que nunca deveriam ter assumido. Considerem que os bancos centrais governamentais são as únicas organizações capazes de alimentar esse fogo com o excesso de crédito. E considerem que as diversas regulamentações podem ter forçado os bancos a fazerem maus empréstimos e aumentado artificialmente o preço dos imóveis. Por fim, considerem que os atores do setor privado estão felizes, apoiando intervenções e regulamentações como essas, por serem lucrativas.

Nós, que apoiamos o livre mercado, não somos os seus inimigos agora. O problema real aqui é o casamento entre o poder corporativo e o poder estatal. Esse é o corporativismo ao qual nós dois nos opomos. Eu só lhes peço que considerem se esse corporativismo não seria a causa real dessa crise, e que depois vocês reconsiderem se o livre mercado seria a sua causa e se o aumento da regulamentação seria a sua solução.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O pacote dos EUA

José Nivaldo Cordeiro, no MídiaSemMáscara

O mundo está mirando o fundo abismo, bem de cima de um Everest de dólares emitidos. A oferta abusiva de dólares vem de muitos anos, mas esse pacotaço é o que podemos chamar de pôr gasolina para apagar o incêndio. US$ 850 bilhões, uma cifra realmente inacreditável, gigantesca, alucinante. Ela dá bem o tamanho da irresponsabilidade dos homens a quem coube administrar a crise.

Deu-se as costas à razão, à moral natural e à ciência. Qualquer pessoa minimamente desintoxicada do esquerdismo – keynesiano assim como o marxista – sabe que o que está sendo feito é uma perfeita alucinação. Mas como resistir ao moderno Baal e ao seu bezerro de ouro, agora chamado de dólar? Como não escutar seus sacerdotes, os economistas intervencionistas? Como aceitar que a economia natural é a mais salutar e que o Estado não tem nenhuma coisa a dar a ninguém, muito menos solução para a crise? Que o Estado *é* a própria crise e o grande perigo contra a humanidade? Que a normalização da vida, não apenas nos EUA, mas no mundo inteiro, demanda a desinflação do Estado, sua redução a proporções humanas e que a humanidade passe a enxergá-lo como o que de fato é, um mero instrumento para organizar a vida prática e não o salvador do mundo? A criatura não pode ser maior do que seu criador.

Meu caro leitor, quem pisou em alguma escola de nível superior no Brasil, e acredito que no Ocidente inteiro, aprendeu que o Estado tem o suposto poder de resolver o drama da existência humana. Da ordem política e jurídica, até a Saúde, a Educação, a aposentadoria, a economia pessoal de cada um. Teria ele o suposto poder de eliminar o risco existencial. Só a primeira afirmação é verdadeira (prover a ordem política e jurídica), todo o resto é uma falsificação e uma miragem. Uma fuga da realidade como ela é.

O que os governantes dos EUA fizeram foi precisamente isso: alargar o passo e dar as costas à realidade, fugindo dela em desabalada carreira. Uma completa loucura, um atirar pedras na lua. O vaticínio se impõe: a nação norte-americana deverá mergulhar numa inflação alucinada, mas não conseguirá voltar ao status quo ante. Aquela vida a crédito, que dependia da valorização dos imóveis e da crença alucinada de que o preço dos ativos (imóveis assim com ações) estaria maior amanhã para todo o sempre, simplesmente acabou. A realidade agora se impôs, a despeito da montanha de dólares gerada no pacote.

O populismo dos políticos, diria mesmo sua crença vital irracional, é de que seria possível um voltar atrás, um retorno ao tempo em que toda a gente desconhecia o cassino financeiro em que os EUA se tornaram. Em que os zumbis felizes pagavam suas contas com a artificial valorização dos ativos. Esse cassino permitiu vida farta e prosperidade para um conjunto muito grande de pessoas, que literalmente viveram de crédito por longo período. Uma vida artificial dessa não poderia se manter e mesmo o governo emitindo essa montanha de dólares ela nunca mais voltará.

Sem obter o retorno ao status quo ante, para que o pacote? Para manter o sistema político montado na fraude populista, em primeiro lugar, pois é o combustível dos demagogos. Em segundo, para dar a impressão de que o governo está fazendo alguma coisa, quando na verdade nada deveria fazer, ou melhor, deveria tomar medidas para desinchar e preventivamente agir para que a inflação do dólar não comprometa a liderança mundial dos EUA. Em terceiro, para dizer às massas estúpidas que o deus-Estado está, como sempre, cuidando delas como um fazendeiro crias porcos: para devorá-los. O monstro estatal é o maior matador de homens que já surgiu no planeta. O paralelo com a crise de 1929 se impõe e nunca devemos esquecer que o ciclo daquela crise só se fechou com a II Guerra Mundial.

Eu me pergunto o que acontecerá politicamente nos Estados Unidos quando essa imensa classe média, que vivia ricamente, sem trabalhar, comprando e vendendo ações de seu computador pessoal, instalado em sua poltrona, descobrir que a brincadeira acabou. The game is over. Quando ela, a classe média, descobrir que seu imóvel não vale nada, que não tem comprador para ele, mas a sua hipoteca continua valendo. Essa gente vai entrar em desespero e toda vez que a classe média entra em desespero temos o caminho semeado para as tentações totalitárias. Nada de bom acontece quando a classe média se desespera e ela só pode escapar ao desespero quando os demagogos são desacreditados e os verdadeiros líderes assumem o comando da situação. A democracia só poderá sobreviver sob a liderança de gente moralmente superior. Onde estão esses líderes? Onde estão os homens egrégios? Não os vejo, vejo apenas demagogos falar à multidão.

Essa crise poderia ter acontecido anos antes. A dádiva do grande aumento da produtividade associada às inovações tecnológicas, no campo da informática e das telecomunicações, retardou o ajuste, que finalmente chegou.

Leia agora na revista Veja que acabou de chegar às bancas: “Com a aprovação do pacote de ajuda, Tio Sam salvou o mundo do colapso e será possível, primeiro, medir o tamanho do estrago e, em seguida, empreender a caminhada de volta na reconstrução dos mecanismos americanos e globais de produção de riqueza”. Nessa frase está o senso comum, a grande mentira. O Tio Sam não salvou coisa alguma e não haverá reconstrução que não seja um retorno à economia natural. E qual é esta? É a liberal, aquela que está na Bíblia: “Comerás o pão com o suor do seu rosto”. O pacote tenta precisamente escapar do real, é ele próprio o foguete a levar os homens lunáticos à lua. Um grande desastre. Seria cômico se não fosse trágico.

Qualquer arranjo fora desse preceito natural é artificial, irracional e alucinado. Não haverá melhora alguma se as bases racionais da sociedade não forem restauradas. Isso equivale a uma radical mudança na maneira como as massas vêem o Estado, de um bondoso provedor de benesses para o autor da grande tragédia. É tarefa para um Moisés converter as massas, alguém que traga as tábuas da Lei e mande destruir os bezerros de ouro. Os homens precisam parar de fazer seus sacrifícios a Baal. Chega de impostos! Chega de regulamentos! Chega de guardas na esquina dizendo o que as pessoas adultas devem fazer! Chega de Estado!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Os Bárbaros Ocidentais

Rodrigo Constantino



“Quando você quer ajudar as pessoas, você diz a verdade a elas; quando você quer se ajudar, você diz a elas aquilo que elas querem escutar.” (Thomas Sowell)

Os impérios sempre sofreram ameaças vindas de fora, como os romanos tendo que enfrentar os hunos de Átila. Atualmente, a civilização Ocidental precisa lidar com os riscos do fanatismo islâmico, cujo ícone Bin Laden deixa evidente o desejo de destruir tudo aquilo que o Ocidente representa. Mas nem toda a ameaça vem de fora. Muitos ocidentais mesmo lutam para destruir os principais valores ocidentais. Com esses inimigos em mente, Thomas Sowell reuniu no livro Barbarians Inside the Gates vários artigos refutando inúmeras falácias repetidas com freqüência. Sua tese é que os grandes inimigos da civilização ocidental não estão fora dos portões, mas sim dentro, e possuem títulos acadêmicos, poderes judiciais, contam com verbas públicas e controlam o meio artístico e a mídia. Em resumo, são os criadores da agenda “politicamente correta” que busca sempre atacar os pilares da civilização moderna.

Sowell escolhe diversos alvos diferentes, separando os capítulos por temas como economia, política, educação e a questão racial. Seus artigos são sempre muito objetivos, e logo na introdução ele deixa claro que o livro é para aquelas pessoas comuns que entendem o que se quer dizer quando se afirma que o céu é azul. Herdeiros do “desconstrutivismo” de Jacques Derrida fazem parte justamente dos alvos de Sowell, intelectuais que têm bastante facilidade para manipular palavras, mas que ignoram o fato de que a realidade não é maleável como a linguagem. Sowell adota o caminho oposto: linguagem simples e direta, mas em sintonia com os fatos da realidade. Em outras palavras, Sowell apela ao bom-senso, contra as “grandes idéias” da intelligentsia, que costumam deixar rastros enormes de sangue no caminho.

Não podemos esquecer que os experimentos mais terríveis do século XX – o comunismo e o nazismo – foram criações de intelectuais, defendidas por muitos outros intelectuais. Tanto Pol-Pot como seus principais seguidores estudaram o marxismo em Paris, por exemplo, e o filósofo Sartre defendeu a “Revolução Cultural” de Mao Tse Tung, responsável por uma das maiores atrocidades já realizadas pelo homem. Vários intelectuais defendem o regime cubano até hoje. Muitos genocidas e ditadores receberam o apoio desses “pensadores”, e chegaram ao poder graças às suas idéias. Como resume o próprio Sowell, o “totalitarismo foi um fenômeno intelectual”. O socialismo, mesmo com seus gritantes fracassos em todos os lugares onde foi testado, continuou e continua encantando muitos intelectuais. Conforme Sowell coloca, o seu fracasso é tão evidente que apenas um intelectual poderia ignorar um fato desses.

Os inimigos internos da cultura ocidental utilizam várias táticas distintas para atingir o mesmo objetivo: detonar todos os principais pilares da civilização moderna. O multiculturalismo, por exemplo, é uma dessas táticas. Sowell aponta a hipocrisia do discurso em prol do relativismo cultural, lembrando que seus adeptos costumam ser aqueles que desfrutam dos benefícios que a tecnologia moderna oferece, enquanto desdenham dos processos que podem produzi-los. A palavra mágica é “diversidade”, que quando utilizada parece impedir o uso da razão, cedendo lugar às emoções. Há diversidade entre a social-democracia e o nazismo, mas nem por isso os relativistas parecem dispostos a defender o nazismo, apenas em nome da tal “diversidade”. Outra palavra adorada é “mudança”, mas como Sowell lembra, aqueles que falam incessantemente sobre mudança costumam ser bem dogmáticos, e querem apenas mudar os outros, na verdade. A questão que poucos param para perguntar é: mudar em qual direção? Afinal de contas, entrar em guerra é uma mudança, assim como sucumbir a uma ditadura.

A idolatria ao governo é um dos grandes sintomas desse câncer moderno. Sowell dedica vários artigos a este tema, derrubando o mito de que as soluções para os problemas existentes passam sempre por mais governo. Os intelectuais adoram falar em “direitos”, esquecendo que os bens e serviços em questão não caem do céu. “A única forma de alguém ter um direito a algo que deve ser produzido é forçar algum outro a produzir para ele”, afirma Sowell. Eis algo bastante evidente, mas curiosamente sempre ignorado por aqueles que adoram pregar o altruísmo com o esforço alheio. Poucas coisas são mais perigosas do que deixar algumas pessoas decidirem por aquilo que outros terão que arcar com os custos. No entanto, esses “bárbaros” não querem saber de custos, mas sim de posar de nobres altruístas e chegar ao poder. Eles tratam palavras como “compaixão” como se fossem monopólio deles, tentando inviabilizar qualquer debate sobre os meios.

Se alguém é contra o uso da força através do governo para alguma meta, então é assumido automaticamente que ele é contra a meta em si. Apenas esses intelectuais são “pacifistas”, “altruístas” ou “sensíveis”, ainda que os meios por eles pregados sempre levem a resultados opostos a tais fins. Mas quem liga para os resultados? O objetivo é apenas conquistar o poder ou se sentir bem por mergulhar numa “cruzada moral”, enquanto os outros são vistos como seres inferiores, egoístas gananciosos que não possuem uma alma tão pura como eles. Como Sowell afirma, é complicado entender porque seria ganância desejar manter o próprio dinheiro ganho, mas não seria ganância querer tomar o dinheiro dos outros. Enquanto esses intelectuais prometem salvar a humanidade, o governo vai exigindo mais e mais recursos, criando novos problemas para demandar mais impostos e poder. O paternalismo serve como uma camuflagem para a busca do poder ou uma “ego trip” para seus defensores. Os indivíduos são sempre tratados como mentecaptos indefesos, que necessitam do governo e desses intelectuais para lhes dizer como viver. A esquerda jamais compreendeu que, ao darmos poder suficiente para o governo criar a tal “justiça social”, então damos também poder suficiente para ele criar um despotismo. Ou talvez tenha entendido e defenda mesmo assim...

O livro segue com excelentes artigos sobre educação, violência e racismo, sempre combatendo a visão “politicamente correta” que impede qualquer debate honesto sobre temas delicados. Sowell rebate a idolatria à mediocridade, por exemplo, daqueles que falam em “igualdade” na educação, querendo dizer igualdade de resultados, e não melhores oportunidades para todos. Ele lembra que só é possível ensinar todos no mesmo ritmo se o ritmo cair para aquele do menor denominador comum. Seria a morte da meritocracia, um dos objetivos desses intelectuais. A responsabilidade individual é também defendida por Sowell, já que é um dos alvos prediletos dos “bárbaros”, sempre ávidos por culpar a “sociedade” por todos os atos irresponsáveis dos indivíduos. Os crimes, por exemplo, são vistos como culpa do “sistema”, e nunca dos criminosos. Os intelectuais pregam o desarmamento de civis como solução, ignorando que o crime já foi banido, mas nem por isso os criminosos seguem a regra.

A ação afirmativa é outra bandeira adorada pelos intelectuais, e totalmente condenada por Sowell, que afirma não conhecer um único argumento convincente para as cotas. Sua defesa costuma ser apenas através de retórica emocional, sem conteúdo concreto. Sowell conclui que os negros viraram “mascotes” para a elite branca de intelectuais, que consegue verbas e poder, além da sensação de superioridade moral, através da defesa de algo claramente racista. A inveja ao sucesso alheio também é um dos motivadores que Sowell cita para a defesa de programas como as cotas. Novamente, não é com o resultado de suas idéias que esses intelectuais estão preocupados. Adotando uma visão coletivista, eles criam mais ressentimento entre indivíduos, segregando a sociedade e estimulando o racismo que alegam combater.

Em suma, a civilização ocidental e todo o progresso que ela possibilitou estão sob ataque, e boa parte das munições vem do “fogo amigo”, ou seja, de dentro do próprio Ocidente. São pessoas que usufruem das vantagens desses avanços, enquanto cospem em cada fator que permite sua continuação ou mesmo sobrevivência. São manipuladores de palavras e conceitos que ignoram os resultados concretos de suas idéias. São intelectuais com uma agenda “politicamente correta”, que dizem pregar a “pluralidade de idéias” enquanto condenam com agressividade qualquer opinião que não esteja de acordo com a ditadura do “consenso”. No fundo, a “tolerância” defendida com veemência é apenas a tolerância com os intolerantes. A defesa de valores mais tradicionais e de conceitos “antiquados” como honestidade, integridade e objetividade são duramente atacados pelos “tolerantes”. É proibido julgar as atitudes dos outros indivíduos, somente se forem atitudes irresponsáveis e inadequadas. Esses intelectuais são os primeiros a julgar e condenar aqueles que discordam de suas idéias. Tudo aquilo que vai contra os principais valores ocidentais é “apenas uma opinião diferente”, mas os valores ocidentais podem ser condenados objetivamente.

A degradação moral patrocinada por esses intelectuais é apenas um estilo de vida alternativo. Ações de vândalos e baderneiros viram apenas atos de “protesto”, enquanto a reação da polícia é uma agressão. A corrupção na política é apenas algo inerente e natural ao processo decisório. Assaltantes são vítimas da sociedade. Reagir à violência com violência é um absurdo, pois eles encaram a equivalência física como uma equivalência moral. Doutrinar crianças ideologicamente nas escolas é educação, mas reclamar disso é censura. Quem sabe o que é certo ou errado, afinal? Ninguém sabe! À exceção, claro, desses intelectuais, os “bárbaros ocidentais” que querem implodir a civilização ocidental de dentro dos seus portões. Com amigos assim, ninguém precisa de inimigos...