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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

As mesmas e velhas ilusões

por Jeffrey R. Nyquist, no Mídia Sem Máscara

Se você acredita que a paz e a prosperidade podem continuar para sempre, a sua crença é uma ilusão. A história ensina que paz e prosperidade são repetidamente interrompidas por guerras e crises econômicas. A história é cíclica: a contração econômica segue-se à expansão, tanto quanto a paz e a guerra se alternam. As perigosas ilusões do período pré-1914 e dos anos 1920 e 1930 ocorrerão ainda muitas e muitas vezes. No passado, homens tentaram impor-se através da violência, e tentarão o mesmo no futuro. Homens já acreditaram num mercado de ações inflacionado, e acreditarão novamente. Homens confiaram em Hitler em Munique e homens aceitarão as mentiras russas de hoje.

Se um país experimentou ataques de surpresa, como foi o caso dos Estados Unidos (quando os japoneses atacaram Pearl Harbor em 1941, ou quando terroristas árabes atacaram o World Trade Center em 2001), há algo no caráter do país que convida uma surpresa futura. A diferença é que hoje os atacantes podem ser mais engenhosos do que os almirantes japoneses, ou mais sedentos de sangue dos que os gângsteres da Al Qaeda. Um ataque surpresa pode ocorrer quando um país fica doente e é colocado fora de ação por desordens financeiras – e por uma tentativa fútil de prolongar a prosperidade através de empréstimos, por um fútil resgate de bancos através de um governo que não percebe o quão perto da bancarrota ele mesmo está. Neste momento, corremos ansiosos atrás de candidatos que dizem o que queremos ouvir. Eles nos afirmam que o governo pode resolver nossos problemas. Mas, como disse Ronald Reagan em seu primeiro discurso de posse: “Na crise atual, o governo não é a solução para o nosso problema; o governo é o problema”.

O governo não pode impedir uma correção feita pelo próprio mercado. O governo não pode transformar negócios não lucrativos em lucrativos. A bolha nos mercados de ações e imobiliário precisa estourar. Isto é só o que as bolhas fazem. Ao intervir, o governo meramente aprofunda e amplia o dano. O que precisa acontecer, obviamente, é simples. Ronald Reagan, que assumiu a presidência durante uma severa crise econômica, vinte e sete anos atrás, explicou: “É hora de examinar e reverter o crescimento do governo, o qual dá sinais de ter crescido além do consentimento dos governados”.

O governo precisa parar a sua contínua expansão [e intromissão] em todas as esferas. Seu papel deveria ser limitado. Durante a crise atual, Washington deveria se concentrar em três coisas: preservar o poder de dissuasão nuclear, manter a ordem civil e evitar a fome se a economia entrar em colapso. O governo não é capaz de evitar um declínio econômico; ele jamais seria capaz de fazer isso. O que é necessário é fé no mercado, coisa que aparentemente nenhum de nossos líderes tem. Nenhum levou adiante o legado de Reagan. O marxista aspirante a ditador venezuelano, Hugo Chávez, zombou de Bush na quarta-feira [15/10/08] ao chamá-lo de “Camarada Bush”, uma vez que o republicano deu uma guinada à esquerda durante a atual crise financeira. “Bush agora está à esquerda de mim”, ironizou Chávez. Se o governo dos Estados Unidos pode comprar bancos, que crítica pode ter com relação a Chávez?

Houve um tempo em que nos iludimos com a noção de que o comunismo estava morto. Mas idéias não morrem, e ideólogos não mudam de idéia tão facilmente. O artifício de ontem prepara e articula o retorno de hoje. O bêbado Boris pavimentou o caminho para as garras de Putin, estendidas na direção da Alemanha. O que virá a seguir no período de “terror cinza” ninguém pode dizer ao certo. Talvez seja um ataque a bomba a um alvo financeiro significativo, tal como o Tesouro americano. Talvez uma metafórica bomba de nêutrons seja detonada sobre as transações financeiras do Ocidente. Recentes ataques cibernéticos ao centro de dados do Banco Mundial abrem o caminho para um ataque repentino e incapacitante. O plano da KGB não é meramente reunir e capturar os “oligarcas” russos. Se vocês ainda não entenderam a revolução, eu vou explicá-la em linguagem simples: A burguesia mundial deve ser liquidada de uma vez por todas.

Imaginem se um ataque cibernético destruísse o sistema financeiro ao apagar dados financeiros vitais dos computadores. Será que alguém percebe quão vulneráveis nós mesmos nos tornamos? Se o ataque a Pearl Harbor era realizável para os almirantes japoneses, o que pode ser realizado pela KGB hoje? O Banco Mundial está sob “cerco cibernético”. De acordo com a notícia veiculada pela FOX News no dia 10/10, “[A] rede de computadores do Banco Mundial – um dos maiores repositórios de dados sensíveis sobre as economias de todas as nações – tem sido repetidamente atacada, há mais de um ano…”. De fato, os invasores da rede tiveram “[a]cesso total, por quase um mês, entre junho e julho”. Os leitores desta coluna irão se lembrar daquilo que o governo russo estava prevendo em julho, a saber: que os Estados Unidos estavam por experimentar a “crise de sua existência”.

Como é que eles sabiam?

A sofisticação do “cerco cibernético” ao Banco Mundial aponta para a espionagem dirigida por um governo. Segundo a Fox News, “[I]nvestigadores descobriram que os invasores estavam usando o que se chama de ‘cluster’ de endereços IP originários de Macau, na China”. Evidentemente, os verdadeiros hackers fizeram uso dos endereços IP chineses para que os investigadores seguissem as pistas erradas. Eles jamais deixariam uma pista boa o suficiente para rastreá-la até a verdadeira origem. Há quem lance dúvidas sobre a possibilidade de ter sido a China a autora das invasões, e um país chama a atenção acima de todos os outros. Um dos maiores bancos da Rússia chama-se MDM, o qual recentemente divulgou que seus lucros líquidos triplicaram. Enquanto bancos caíam na Europa e nos Estados Unidos, o MDM prosperava. Um artigo de 10/10 do Wall Street Journal liga o MDM às transações financeiras suspeitas de um magnata ligado ao Kremlin. O artigo oferece a seguinte pista: “Altos funcionários da administração Bush têm revelado crescente preocupação acerca da possível infiltração de companhias ocidentais e de mercados financeiros por figuras suspeitas de pertencerem ao crime organizado e ligadas ao governo russo…”.

Será que, finalmente, estamos começando a entender?

Pode ser muito pouco, e muito tarde. Os políticos conservadores de hoje – na Europa e Estados Unidos – não são realmente conservadores. Eles não entendem a economia. Eles não sustentam as bem sucedidas tradições e práticas do passado. Tal como Hugo Chávez, no fundo eles são “Camaradas”. Apenas mais um exemplo é suficiente para provar o ponto em questão. De acordo com repórteres em Bruxelas, no dia 15/10 o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi disse que aceita a Rússia completamente. Ele explicou: “Eu considero a Rússia como um país ocidental, e meu plano é que a Federação Russa esteja apta a tornar-se membro da União Européia nos próximos anos”. Diante dessa formulação seria mais realista dizer que Berlusconi é a favor de que a Europa tenha um papel de satélite da Federação Russa. “Eu tive essa visão há anos”, disse Berlusconi.

Nós não deveríamos subestimar os efeitos desse pensamento ilusório dos políticos “conservadores” de hoje em dia. Os americanos tendem a ser ingênuos, e os conservadores de todas as partes adotaram essa posição. Eles pensam que seu país é invencível, que a sua prosperidade repousa sobre uma fundação firme. Eles subestimam a ameaça do exterior. Este tipo de raciocínio, porém, subverte a segurança e a prosperidade genuínas. Os homens precisam lutar pelo que querem, e precisam lutar para preservar o que possuem. Não há lugar nem futuro para a complacência diante dessa realidade. Aqueles que vêem as nossas asneiras econômicas apenas com relação à atual crise econômica viram apenas metade do quadro. Pearl Harbor e o 11 de Setembro foram eventos característicos, que ocorreram em concordância com a tendência dos Estados Unidos em negligenciar sua segurança enquanto perseguem objetivos econômicos. Há muitas dimensões na crise corrente, incluindo a divisão ideológica que ameaça nossa segurança nacional. Todavia, é certo que todos esses elementos estão ligados à ameaça externa e todos esses elementos podem ser explorados por nosso inimigo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pensamentos sobre o “colapso” do comunismo soviético

por Sergio Biasi no Indivíduo

Algo que por vezes parece escapar a muitos comentaristas políticos que falam entusiasticamente do “colapso” do comunismo soviético é que este não se deu exatamente e nível ideológico, e sim por ter se tornado economicamente insustentável. A fragilidade econômica interna do sistema, associada à necessidade de responder a programas armamentistas estratosféricos promovidos pela administração Reagan levou o império soviético à bancarrota.

Tal falência, porém, se deu basicamente a nível material, de recursos, e não a nível de idéias. Não se deu através de nenhuma “revolução” motivada por anseios de liberdade, justiça e indendência individual, mas pelo muito menos transcendente problema de que o estado ficou sem dinheiro para manter de forma eficaz e organizada seus sistemas de repressão interna. Por um lado, parece claro que o plano de derrotar o império soviético através de conflito armado direto seria não só inviável como a tentativa resultaria em suicídio coletivo de grande parte da humanidade. Por outro, o plano que concretamente “funcionou” de derrotá-los através de sufocação econômica derrotou apenas uma certa manifestação externa de um problema muito mais profundo.

A questão (pelo menos para alguém que acredita que as pessoas devem tanto quanto possível serem deixadas em paz para administrarem suas vidas como quiserem) é que a idéia básica de que seja moralmente aceitável e/ou socialmente desejável que o governo (ou qualquer outra entidade coletiva) controle irrestritamente a vida individual das pessoas não passou nem perto de ser derrotada, e continua bastante forte. E isso não só por lá nos confins da Ásia. Em quase todo o mundo, me parecem serem pouquíssimas as pessoas que acreditam atualmente que suas próprias consciências individuais devam ter precedência moral sobre quaisquer preceitos receitados pelo governo, pelas igrejas, pela família, pelas escolas ou por quem quer que seja. Não acredito ter havido qualquer vitória realmente significativa ou duradoura sobre tais idéias despersonalizantes. Muito pelo contrário, após um revolucionário período histórico em que a humanidade parecia destinada a libertar-se dos grilhões da opressão violenta e organizada ao pensamento individual divergente, vejo no horizonte as nuvens de um retorno ao obscurantismo massificante.

Inclusive, note-se que mesmo economicamente, o sistema soviético não era intrinsecamente “inviável”, afiinal sempre é uma opção logicamente disponível escolher voluntariamente viver na miséria por burrice, ignorância ou fanatismo (ou mesmo por preguiça, falta de ambição ou - num caso mais sofisticado - escolha consciente ao invés de acidental). O problema não foi tanto uma implosão espontânea quanto uma competição direta com economias um pouco mais eficientes (ou pelo menos eficazes), associada à não-passividade de tais economias diante de um projeto muito real de serem assimiladas.

O governo da China atual percebeu isso claramente e construiu um modelo divergente do soviético no qual o desrespeito mais desprezível às liberdades individuais é amplamente tolerado tanto internamente como externamente através da implementação de politicas econômicas pragmáticas. Por esse ponto de vista, pode-se argumentar que, muito ironicamente, o colapso do império soviético se deu não por ser opressivo, mas sim por não sê-lo suficientemente. Ao apegar-se a uma bagagem idealista e fantasiosa de estar cumprindo uma missão semi-divina cujo resultado eventual seria a construção de uma utopia na terra em que todos os seres humanos teriam (mesmo que à força) dignidade, felicidade, segurança, etc…, o governo soviético perdeu a chance de usufruir de diversos caminhos pragmáticos para obter progresso econômico concreto, recusando oportunidades que acreditava não poder coerentemente aproveitar.

O governo chines, por sua vez, despindo-se de tais vernizes e melindres, alavanca suas possibilidades econômicas ao máximo enquanto destrói sistematicamente qualquer tentativa de preservar a autonomia individual de pensamento, expressão e administração da própria vida. A sustentabilidade dessa estratégia a longo prazo descobriremos ao longe do resto do século, mas a noção de que tal sistema seja economicamente viável é preocupante.

O que nos leva à seguinte questão. Sou em princípio sim a favor do “livre” mercado em sua acepção mais ampla. Mas *não* porque esse sistema seja necessariamente o mais eficaz ou o que gera mais riqueza, e sim como efeito colateral da minha convicção de que as pessoas devem ser em princípio deixadas em paz para fazerem o que bem entenderem com suas vidas. Mesmo aceitando a premissa de que o “mercado” maximize ou de alguma forma otimize a “produção de riqueza” (por exemplo investindo trilhões na China), não acho que maximizar a produção de riqueza coincida automaticamente com maximizar as coisas que eu gostaria de vez maximizadas. Prefiro ter um carro um pouco pior mas não precisar ter medo de ser preso ou punido por expressar idéias impopulares.

Mas isso sou eu, e talvez essa posição não seja nem representativa nem evolutivamente ótima. Por um lado, talvez uma grande parte das pessoas se importe muito mais com ter carro um pouco melhor do que com poder dizer livremente o que pensa. Por outro, talvez maximizar a produção de riqueza seja o que efetivamente determina a sobrevivência material de um grupo humano, então os grupos que escolhem ao invés disso alguma noção abstrata de dignidade talvez estejam fadados a serem constantemente sendo varridos para fora da história.

O fato é que objetivamente somos máquinas biológicas descartáveis replicantes, e o domínio numérico de um certo perfil genético / cultural está inexoravelmente ligado em última instância à habilidade de se reproduzir. Especialmente num contexto em que conquistas científicas e tecnológicas facilmente se espalham universalmente, dignidade ou independência de pensamento do ser humano médio talvez pouco tenham a ver com sucesso material do grupo como um todo. Uma casta intelectual pode facilmente - e talvez até mais eficientemente - produzir toda a ciência que uma horda de zumbis “suficientemente inteligentes” se põe então a colocar em ação.

Talvez seja o caso de que o modelo economicamente mais eficiente seja de fato sermos todos descartáveis, substituíveis e intercambiáveis, abandonando qualquer noção de dignidade - seja isso atingido com ou sem um planejamento central. E se gostamos disso ou não (eu pessoalmente detesto), talvez não importe no grande esquema das coisas, porque o grupo mais eficiente em se reproduzir é o que vai predominar seja qual for a sua maravilhosa justificativa filosófico-político-ideológica. Talvez nem tentar ter uma justificativa e sim friamente e objetivamente enxergar toda a questão como um xadrez Darwiniano seja o próximo passo evolutivo/histórico. Não porque isso seja o “certo” ou o “bom”, mas porque talvez seja a estratégia que com mais eficácia aumente sua própria representatividade.

Claro que aqui não estou dizendo nada de realmente novo. O receio de que este seja o caso pode ser encontrado em um grande número de autores e obras mais ou menos óbvios. Mesmo assim, tais questões parecem por vezes se perderem nos discursos de quem associa automaticamente a pura “eficiência econômica” a um mundo no qual um ser com uma consciência que reconheceríamos (ou que atualmente idealizamos) como humana desejaria viver. Ignorar que recursos não podem ser criados do nada leva a um certo tipo de desvio perverso; achar que então a solução seja maximizar a geração de recursos a todo custo leva a outro. Infelizmente a segunda idéia talvez funcione.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A concepção russa de dominação da Europa

por Jeffrey Nyquist
© 2008 MidiaSemMascara.org

A Blitzkrieg russa na Geórgia é mais do que uma campanha militar. Ela tem o objetivo de fortalecer a estratégia diplomática russa, que busca fazer da União Européia (UE) a principal representante do Ocidente em futuras negociações com a Rússia. Muito naturalmente, o Kremlin deseja escapar da lógica da política norte-americana e da OTAN, a qual é a de conter a Rússia dentro dos limites de suas fronteiras nacionais. Enquanto isso, a União Européia é um animal inteiramente diferente: sem dentes, utópico e pronto a agradar.

Os estrategistas do Kremlin acreditam que os Estados Unidos estão à beira de uma desarticulação incapacitante. De acordo com um artigo publicado em 29 de julho no Pravda, um diplomata russo não identificado revelou que “[A] administração russa acredita que os Estados Unidos poderão em breve sofrer uma séria crise política”. A seqüência começaria com um grave abalo financeiro, seguido de agitação política e, finalmente, a dissolução do poderio militar americano. Conforme alertou o diplomata russo, “Os Estados Unidos estão postados próximos ao limite de uma crise de larga escala quanto a sua própria existência”.

No mês passado, os embaixadores russos foram chamados de volta a Moscou. Em 15 de julho, o presidente Dmitry Medvedev falou a eles no Ministério do Exterior. “Eu gostaria de usar esta oportunidade para uma conversa franca e pragmática”, explicou Medvedev aos diplomatas reunidos. “A Rússia está de fato mais forte e capaz de assumir maiores responsabilidades na solução de problemas em escala regional e global”. Você sabe: a Guerra Fria não foi uma vitória americana. Medvedev fez lembrar a seus ouvintes que os russos tinham “sobrevivido à Guerra Fria”. E que agora, a Rússia está preparada para estabelecer “um novo equilíbrio”.

A fala de Medvedev foi presciente: “[O] hábito de recorrer à força está crescendo. Em tais circunstâncias, é importante manter reserva e avaliar as situações cuidadosamente”. Quando irrompem as guerras, é melhor saber pelo quê você está lutando; deste modo, Medvedev queria que seus embaixadores se familiarizassem com a linha do partido antes de voltar para as suas embaixadas. Em sua preleção, Medvedev disse que eles não deveriam se preocupar com confrontações ao estilo da Guerra Fria. “Eu estou convencido de que com o fim da Guerra Fria, as razões subjacentes para a maioria das políticas e da disciplina do bloco simplesmente desapareceram”. Em outras palavras, a OTAN está dividida. E a violação da soberania iugoslava pela OTAN em 1999 agora possibilitava uma devastadora resposta russa.

A história deveria ser lembrada, disse Medvedev. “Nós simplesmente não podemos aceitar as tentativas que têm tido lugar em determinados países para destacar a ‘missão civilizadora e libertadora’ dos fascistas e de seus cúmplices”. De forma oblíqua, ele estava se referindo aos patriotas anticomunistas na Geórgia, Ucrânia, Letônia, Estônia e Lituânia e ao modo como deram as boas vindas aos alemães em 1941.[*] E ele continuou: “Caracteristicamente, são aqueles estados que têm uma paixão por reescrever a história e as políticas interna e externa, os que, ao mesmo tempo, são os mais fanáticos defensores de atos ilegais, tal como o precedente do Kosovo... E esses mesmos estados são aqueles que se tornaram ultranacionalistas em suas políticas, acossando as minorias nacionais e negando direitos aos chamados ‘sem-estado’ em seus países”.

Aqui temos uma óbvia referência à Geórgia, que estava prestes a ser invadida pelas divisões motorizadas e aerotransportadas russas. “Para nós, esta tarefa é particularmente importante, uma vez que em muitos casos estamos falando de abusos contra russos e populações de língua russa. E proteger e defender esses direitos é, obviamente, uma de nossas responsabilidades”. E então, Medvedev explicou a estratégia diplomática global russa: “Eu enfoquei esses aspectos porque hoje a Europa precisa de uma agenda positiva em vez de uma negativa”. Em outras palavras, a invasão da Geórgia não é um fim em si mesmo. O propósito real desta operação, conforme deu a entender o presidente russo, foi o de ressaltar a perigosa obsolescência da OTAN e as irrealistas expectativas da Europa com respeito à Rússia. Medvedev disse que os antigos tratados não manterão a paz, porque são injustos. A Rússia é uma grande potência e merece exercer influência maior. “Eu estou absolutamente convencido que isto requer uma nova abordagem”, explicou. “É por essa razão que propusemos concluir um novo tratado sobre segurança européia e começar este processo numa cúpula de âmbito europeu [ênfase da editoria]”.

A invasão da Geórgia está agora no centro das atenções. Tal como ressaltou Medvedev, “[H]á falhas na arquitetura da segurança européia...”. O acordo sobre Armas Convencionais na Europa (CFE) [que Putin rompeu em 2007] é injusto porque proíbe a Rússia de posicionar grandes concentrações de tanques na Europa. Esse tipo de coisa não dará certo, disse Medvedev. O que precisamos é de “um sistema de segurança verdadeiramente aberto e coletivo” (sic). De acordo com Medvedev, “Uma parceria estratégica entre a Rússia e a União Européia poderia atuar como a pedra angular de uma Grande Europa, sem linhas divisórias...

A fórmula é simples: evidenciar as fraquezas da OTAN, saudar a União Européia como mediadora e deplorar a tagarelice sem sentido de um impotente presidente americano. O Ocidente está fraco e chegou a hora de preparar a grande colheita. Os anos 1940 estão distantes, Tbilisi não é Berlim e George Bush não é Harry Truman. Uma nova era alvoreceu, na qual os americanos estão à margem. “Os Estados Unidos apóiam firmemente os esforços da França, atualmente na presidência rotativa da UE, no sentido de intermediar um acordo que dará um fim a este conflito”, disse o Presidente Bush.

Que declaração mais boba e estúpida. Quanta divisão a UE tem?

Hoje a UE confronta a Rússia do mesmo modo que Neville Chamberlain confrontou Hitler em 1938; tendo sido lograda e trapaceada nas negociações de um cessar-fogo, não há outro resultado possível que não o da política de apaziguamento [i.e., concessões]. Os russos insistem que suas tropas sejam aceitas como forças de paz na Geórgia. Os mediadores franceses concedem isso. E, portanto, a estipulada retirada das tropas combatentes é medida que não se aplica às tropas russas. Sob esse acordo de cessar-fogo, Moscou pode reivindicar – em sentido estritamente legal – que as tropas Russas possam permanecer na Geórgia indefinidamente. O Presidente Medvedev e o Primeiro Ministro Putin estão rindo dos franceses enquanto cumprem a lei internacional. Enquanto isso, a Geórgia ocupada está sendo saqueada e incendiada; navios georgianos estão sendo afundados e a capital, Tbilisi, estrangulada.

A OTAN nada fez, ainda que tenha prometido fazer da Geórgia um membro da aliança. A OTAN submete-se à União Européia. Bush também se submete e envia sua Secretária de Estado a Paris em vez de a Moscou. Enquanto quase toda a Europa exigia uma solução negociada, apenas a Polônia e os Países Bálticos (junto com a Suécia e a Dinamarca) condenavam em uníssono a agressão militar russa. Toda a Europa deveria ter condenado a Rússia com uma só voz. Toda a Europa deveria ter evitado “negociações”. Toda a Europa deveria ter exigido a imediata retirada das forças russas da Geórgia. Toda a Europa deveria ter iniciado a mobilização de tropas e aeronaves de combate para a defesa da Geórgia. Diante de uma mobilização européia, a Rússia teria recuado.

Mas o Kremlin sabia, de antemão, que isso não iria acontecer. Não há nenhuma “confrontação militar” na Geórgia. Tal como disse o Presidente Medvedev, “Eu estou convencido de que com o fim da Guerra Fria... a disciplina do bloco simplesmente desapareceu”.

O presidente russo está certo.

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Nota da Editoria MSM: Jeffrey Nyquist, autor deste artigo, publicado originalmente no dia 15/08, vem há anos alertando a respeito da estratégia russa, coordenada pelo Kremlin e sua figura de proa, Vladimir Putin. Para ele, não há surpresa alguma nas recentes ações russas e na inação européia ou na vacilação americana. No sábado, dia 16/08, o Wall Street Journal publicou um duro editorial intitulado “Fazendo Putin Pagar”. Todavia, o texto do editorial ainda aposta num endurecimento do discurso de Bush, em sanções econômicas [ver A Rússia invade a Geórgia] contra a Rússia, e numa reação ocidental iniciada nas últimas 48 horas. Mas o jornal coloca essa reação no condicional: “Se os líderes [ocidentais] mantiverem o curso, ainda podem transformar os parcos sucessos militares russos numa significativa derrota política”. É um “se” enorme; talvez grande demais.´

[*] NT: Em primeiro lugar, o cinismo da declaração de Medvedev é típico da propaganda da era soviética, pois de 1939 a 1941 havia o pacto de não-agressão Ribbentrop-Molotov, por meio do qual alemães e russos colaboraram intensamente, especialmente na destruição da Polônia. Em segundo lugar, todos aqueles ucranianos, bielo-russos, etc., que receberam os alemães como libertadores, sofreram triplamente: 1. Antes da guerra, sob a tirania de Stalin (é bom lembrar os expurgos, fuzilamentos em massa e da Grande Fome da Ucrânia nos anos 1930); 2. Com a reação insana dos invasores alemães, que fuzilaram dezenas de milhares daqueles que os recebiam como libertadores; 3. Com a terrivelmente selvagem vingança soviética, que resultou em mais centenas de milhares de mortos. Portanto, é absolutamente ridículo e atroz propugnar a idéia de que povos vivendo sob a vigilância constante de uma ditadura feroz, isolados do mundo, tenham podido imaginar que os alemães eram impulsionados por uma ideologia assassina quando eles mesmos já viviam sob outra ideologia cruel e igualmente assassina. O nazismo foi nefando, execrável, abominável, mas o comunismo o superou em muito em matéria de longevidade e crueldade planejada. Não obstante o fato de que não há qualquer justificativa ou desculpa concebível para os crimes nazistas, é forçoso ressaltar que para os comunistas sempre foi e ainda é muito conveniente deixar que as luzes e atenções focalizem apenas o nacional-socialismo, seu primo irmão, deixando de lado ou ocultando a longa e hedionda história dos crimes dos próprios comunistas em todo o mundo.

sábado, 16 de agosto de 2008

Putin, o terrível

por Alvaro Vargas Llosa
© 2008 MidiaSemMascara.org


Em Reconstruindo a Rússia, publicado quando a União Soviética estava à beira do colapso, Alexander Solzhenitsyn escreveu que "o despertar da autoconsciência nacional russa tem sido, a longo prazo, incapaz de livrar a Rússia da idéia de super potência e de delírios imperiais. Tomou conta dos comunistas a noção falsa e forçada do patriotismo soviético". Como todas declarações proféticas, era uma leitura sagaz do presente, não do futuro. A invasão russa à Geórgia é poderosa confirmação das palavras de Solzhenitsyn.

Obviamente, pode-se reverter sua argumentação: o imperialismo soviético era uma continuação, não um antecedente, do nacionalismo russo. Vladimir Putin e seu lacaio, o presidente Dmitry Medvedev, reviveram a tradição de expansionismo russo que data a Ivã, o Terrível . A invasão da Geórgia ecoa a anexação russa daquela país em 1801 e novamente em 1921, quando os soviéticos esmagaram uma independência georgiana de curta duração.

Isso tem pouco a ver com proteger os ossetianos do sul, que há poucos anos estavam lutando pela independência tanto da Geórgia quanto da Rússia. E tem pouco a ver com o nítido erro de cálculo do presidente georgiano, Mikheil Saakashvili, ao responder a última provocação da Ossétia do Sul tentando garantir o controle militar daquela região. A Rússia estava planejando isso há algum tempo, como ficou demonstrado pela espantosa eficiência do ataque, com alvos bem além da Ossétia do Sul e da Abkhazia, outra região rebelde, e mobilizando sua frota do Mar Negro.

Seria um erro grosseiro achar que a casus belli possa ser relacionada a ações do Ocidente, como o reconhecimento da independência de Kosovo em detrimento dos sérvios aliados da Rússia ou a pressão da Otan por um sistema antimíssil na Europa Central. Mas esses movimentos imprudentes, por causa da psicologia dos líderes de Moscou, não vieram antes do surgimento do nacionalismo pós-soviético na Rússia.

Bem ao contrário: a expansão externa de Moscou é a continuação lógica do regime autoritário doméstico, que Putin está consolidando há algum tempo com a ajuda do dinheiro abundante do petróleo e do gás natural.

Primeiro, Putin conseguiu que as frágeis instituições democráticas de seu país fossem substituídas por organizações autocráticas. A maioria do sistema de fiscalização foi neutralizada: o Judiciário, partidos políticos, governos locais, a mídia, empresas privadas, regiões separatistas.

As forças de segurança, a Igreja Ortodoxa e a indústria energética se tornaram os pilares do novo regime. Os dois primeiros, já com os pés no nacionalismo russo, precisaram de poucos expurgos. O setor energético exigiu algum trabalho, essa é a razão pela qual a gigantesca empresa Yukos quebrou e sua subsidiária de petróleo foi englobada pelo governo, como foi a Gazprom , a maior produtora de gás natural do mundo.

Uma vez que o controle do Kremlin foi estabelecido, havia pouco o que se pudesse fazer sobre o expansionismo russo. A Europa importa grande quantidade de gás natural e de petróleo da Rússia. A ameaça de reduzir ou interromper os fornecimentos - por exemplo, ao interromper o embarque pela Ucrânia, uma importante rota -, serviu como chantagem à União Européia.

A Rússia gostaria de ter em suas mãos tudo que fica entre o Báltico e o Cáucaso (além disso, seu grande vizinho ao sul, o Cazaquistão, governado por uma tirania sentada no petróleo, já um grande amigo de Moscou).

Mas há alguns obstáculos, incluindo o fato que o Báltico e a maioria dos Balcãs faz parte da União Européia e da Otan. O que deixa a Geórgia e a Ucrânia - cujas revoluções em 2003 e 2004 foram vistas com uma poderosa declaração dos valores ocidentais na região que a Rússia considera como seu quintal - como os alvos mais fáceis.

Os nacionalistas russos, que são impetuosos mas não loucos, sabem muito bem que a Europa Central está fora do alcance, mas eles poderiam minar seriamente esses países se controlarem o vizinho de porta deles, a Ucrânia. E a Geórgia ainda lhes daria controle da rota entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, o que quer dizer o Mediterrâneo.

O que temos visto na Geórgia, nos últimos dias, é nada menos do que a decisão perfeitamente racional da Rússia em dar um passo adiante no nacionalismo renascido do país.

É importante entender essa realidade, agora que o debate sobre isolar, se aliar ou ignorar a Rússia deve começar a ficar mais sério no Ocidente.

Em 1990, Solzhenitsyn - ele próprio um tipo de nacionalista russo - escreveu que "deve ser dito bem alto ... que ... a Transcaucásia será separada inequívoca e irreversivelmente" da Rússia. Imagino o que ele estaria pensando da decisão de seu amigo Putin, para provar que ele estava equivocado.

Rússia, Ocidente e apologia da desonra

por Reinaldo Azevedo

Já citei aqui, há muito tempo, um trecho, na tradução brasileira, de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Ele tenta identificar quando estamos diante de uma nova era: “Algo imponderável. Um presságio. Uma ilusão. Como quando um ímã larga a limalha, e esta se mistura toda outra vez. Como quando fios de novelos se desmancham. Quando um cortejo se dispersa. Quando uma orquestra começa a desafinar. (...) Idéias que antes possuíam um magro valor engordavam. Pessoas antigamente ignoradas tornavam-se famosas. O grosseiro se suaviza. (...) havia apenas um pouco de ruindade demais misturada ao que era bom, engano demais na verdade, flexibilidade demais nos significados (...)

Como se vê, o que vai acima é um conjunto de metáforas e percepções aparentemente desconexas, mas que dizem de modo inequívoco: alguma coisa está se perdendo... já se perdeu.

Temo mesmo — meu lado apocalíptico? — que o Ocidente esteja perdendo alguma coisa... já perdeu. O que é “o” Ocidente? Defino o meu: a sociedade que considera a democracia representativa inegociável, que garante os direitos individuais, em que as decisões coletivas visam à preservação desses direitos.

Esses são nossos fundamentos, nossa “Constituição”. Mas ela traz em si alguns riscos, não é? Porque nos garante a liberdade de visitar outros mundos, outras idéias, outras concepções, sempre se pode flertar com seus inimigos, com aqueles que cultivam valores que solapam as bases de sua existência. Não custa lembrar: o século passado foi marcado pela luta desse Ocidente livre contra forças internas aliadas do comunismo. O comunismo, na sua forma original, acabou, é evidente — a China que o diga. Mas remanesce a tentação, no Ocidente (aquele de que falo), de flertar com outros mundos.

Rússia

O comportamento da imprensa ocidental diante da invasão da Geórgia pelos russos faz-me vislumbrar aquela suave degradação de que trata Musil — ou aquela perversa agregação de valores rebaixados, subtraídos de sua essência. O dado mais escandaloso da abordagem feita pela imprensa livre — que coincide com a leitura da imprensa russa, que livre não é — é o dedo acusador contra os Estados Unidos e, ora..., seu presidente, George Bush. Tão logo o mandatário do principal fiador das democracias ocidentais reagiu à invasão, jogaram-lhe na cara: “Como pode o Bush que contrariou a decisão da ONU, ao invadir o Iraque, censurar a Rússia? Com que moral?”

Bem, em primeiro lugar, não contrariou a ONU coisa nenhuma, que não deu aval para a invasão do Iraque, mas também não vetou. Em segundo lugar, houve uma coalizão de países, goste-se ou não dela. Em terceiro, não foi uma invasão feita da noite para o dia, sem qualquer comunicação prévia. Em quarto, foram dadas algumas precondições para evitá-la, que o tirano Saddam Hussein se negou a cumprir. Em quinto, está documentado, o próprio governo iraquiano plantava mentiras sobre seus armamentos. Em sexto, o Iraque estava pronto para ser abrigo de terroristas; Em sétimo, tratava-se de um facínora fora de controle. Vá lá. Nada disso justificava a invasão? A emenda saiu pior do que o soneto? Pode ser. Podemos divergir sobre tudo o que vai acima, é óbvio. Mas o que isso tem a ver com a Rússia?

Até a independência de Kosowo entrou na jogada para conferir razoabilidade à invasão russa. Sim, se eu votasse naquele caso, teria sido contra. Até cheguei a fazer uma graça qualquer, lembrando a piada do pessoal do Casseta & Planeta sobre “Os Povos Desconhecidos que Ninguém Conhece”. A facilidade com que, por ali, se alega alguma divergência, sei lá, do século 11 para reivindicar a independência de uma aldeia é impressionante.

E por que se lembrou de Kosowso? Ah, se os EUA apoiaram a sua independência, então deveriam fazer o mesmo com a Ossétia do Sul. Se isso tem importância (eu acho que não tem), acato como lógico o raciocínio. Mas e da Rússia? Não se cobra o mesmo? Se o país foi contra o separatismo de Kosowo, por que é favorável ao da Ossétia do Sul?

Nada com isso

Não, senhores! O Ocidente — e os Estados Unidos — não têm nenhuma responsabilidade factual ou moral com o que acontece na Geórgia. Vamos condenar Washington por ter tentado atrair o país para a sua órbita de influência (faz o mesmo com a Ucrânia e com a Polônia)? Bem, não condeno. Aplaudo. Acho que é isso mesmo que deve ser feito. Porque prefiro esses países — e, se possível, todos os outros — sob a influência das democracias ocidentais. “Ah, mas a Casa Branca deu com os burros n’água”. E daí? Em que a impossibilidade de os americanos ajudarem militarmente a Geórgia, sem que levasse o mundo à beira do abismo, mudaria o caráter da ação russa, sua brutalidade, seu desprezo por qualquer dos valores que nos são caros? Em nada! “Os EUA que não tentassem atrair a Geórgia”. Entendi: como diz um funk insuportável, ouvido por alguns idiotas a todo volume nas ruas, “Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”.

Ok. Cada um no seu quadrado? Então eu escolho o meu: e o meu quadrado é o das democracias ocidentais, que precisam de quem as defenda. E noto a propósito: há uma diferença brutal de clareza entre John McCain e Barack Obama no que concerne à questão russa. O candidato republicano censurou o Kremlin com palavras insofismáveis. Obama? Usou variantes do seu “change”. A tática do democrata tem sido esta: quando não sabe o que dizer, afirma que a pergunta está errada.

Desmoralizados

Os críticos dos Estados Unidos — e, na prática, benevolentes com Vladimir Putin — foram desmoralizados pelo próprio governo russo. Este já deixou claro que não reconhece a integridade territorial da Geórgia e que dará apoio objetivo, militar, à “independência” da Ossétia do Sul e da Abkházia. A precipitação da crise serviu apenas para apressar o que já estava em curso.

Só isso? Não! O chanceler russo ameaçou — a palavra é essa — todas as nações da região que censuraram a invasão da Geórgia, em especial os países bálticos e a Ucrânia. Na prática, é como se dissesse que a independência conquistada com o fim da União Soviética é mais retórica do que real. E nem assim Putin viu seu prestígio cair na imprensa ocidental. Continua a ser tratado como um fino estrategista, quase um mago, uma espécie de redenção do velho império soviético, finalmente capaz de arrostar, de novo, com o inimigo ocidental: os EUA. Em parte é verdade. Curioso que se veja “o inimigo” com olhos... russos — ou, ainda, soviéticos.

E o tal Ocidente vai fazer o quê? A frase emblemática, infinitamente mais ampla, é certo, em horas assim é a famosa frase de Churchill referindo-se ao acordo celebrado por Chamberlain e Dalladier com Hitler: “Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra e terão a guerra”.

A palavra de ordem, nestes tempos em que se forja aquela “nova era” de que fala Musil, é escolher a desonra para evitar a guerra...