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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lula-aqui, Evo-ali, Obama-lá

Augusto de Franco
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O reforço dessas condições extrapolíticas, conquanto possa ter efeito simbólico importante, conspira contra a política (democrática)

Em parte por concepção, em parte por esperteza, Lula resolveu contrair a obamania. Nas vésperas da eleição americana, ele declarou: "da mesma forma que o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia, um índio, a Venezuela, o Chávez, e o Paraguai, um bispo, seria um ganho extraordinário se a maior economia do mundo elegesse um negro". É ruim.

Salva-se nessa lista de admirações só o próprio Obama. Os outros são ou serão protoditadores ou ditadores, com exceção de Lula, que é apenas um líder neopopulista manipulador. É ruim também. Mas é menos pior.A esperteza de Lula é usar a obamania para legitimar a lulomania. Ou a evomania. Ou a chavezmania. São manias de não gostar da democracia.

Isso é tão óbvio que não pode estar em discussão. Se Lula gostasse de democracia, não teria declarado tantas vezes que Chávez "peca por excesso de democracia".

Para entender, é preciso ver que Lula não quer ser chefe de governo.Nunca quis. Ele quer ser condutor de rebanhos, guia de povos. Quer palanques extraordinários, não a ordinária rotina das tarefas administrativas.

Frans de Waal já nos cansa há anos com suposições sobre uma "Chimpanzee Politics". Ele está redondamente enganado, é claro. Mas suas hipóteses vêm a calhar para a comparação seguinte: quanto mais você se parece com um chimpanzé, mais precisa de líderes extraordinários, machos alfa e outros condutores de rebanho.

Na democracia, cada um que pense com sua cabeça, faça suas escolhas e ande com as próprias pernas. Quem precisa ser conduzido como rebanho é gado, não gente. Quem gosta de conduzir o povo pela mão são os sociopatas (e genocidas, como Mao, o "guia genial dos povos") e os vigaristas (como certos pastores e palanqueiros).

A democracia não precisa de líderes extraordinários, superhomens, caudilhos carismáticos que eletrizam as multidões e arrebatam as massas em nome de um porvir radiante. A democracia, como dizia John Dewey, é o regime das pessoas comuns; sim, das ordinárias, não das extraordinárias.

Mas Lula, significativamente, tem especial predileção pela palavra: assim como a vitória de Obama seria "extraordinária", aquele seu primeiro ministério, detonado pelas suspeitas e acusações formais de crime, roubo e formação de quadrilha, ele também o qualificava como "extraordinário".

Quem precisa de coisas extraordinárias, mitos fundantes (líderes ungidos, predestinados a cumprir um papel redentor), utopias fantásticas (reinos milenares de seres superiores ou regimes universais de abundância) são autocracias, não democracias.

Quase dois terços dos americanos não foram votar no mulato Obama.

Dos que foram votar, quase a metade preferiu o macho branco caucasiano McCain. Obama, com superávits de melanina em relação a McCain, não por isso vai conduzir as massas para qualquer paraíso. E nem vai governar o tempo todo lembrando a sua condição extraordinária de negro. Se fizesse isso, seria um negro de araque.Já Evo é um índio de araque, nesse particular, igualzinho a Lula, um metalúrgico de araque. Sim, ele o foi, mas não é mais. Há muito tempo. Aliás, já passou mais tempo como profissional do palanque, sustentado "sem produzir um botão" (a expressão é dele) por dinheiro partidário e de financiadores privados, do que como metalúrgico de chão de fábrica.

Quem pode viver disso não é a política (democrática), mas aquela ideologia sociológica que pretendia encontrar na extração social alguma razão para explicar e legitimar o comportamento do agente. O lugar de onde ele fala não seria então o lugar que ocupa quando fala, senão um lugar pretérito, originário, abstrato, capaz de lhe condicionar a trajetória e absolvê-lo de todos os erros passados e futuros.

A empulhação se generalizou, em parte baseada na visão equivocada de que a origem de classe ou de raça ou cor tem alguma coisa a ver com a democracia. Não tem, pelo contrário: o reforço dessas condições extrapolíticas, conquanto possa ter um efeito simbólico importante, conspira contra a política (democrática). Uma pessoa deve ser escolhida pelas suas opiniões, não por sua extração, origem, identificação antropológica.

Lula-aqui, Evo-ali e Obama-lá são movimentos regressivos. Obama não tem culpa. Ao contrário de Lula e de Evo, ele está convertido à democracia. Mas a obamania, assim como a lulomania e a evomania, aborrece a democracia.

AUGUSTO DE FRANCO , 58, é autor, entre outros livros, de "Alfabetização Democrática". Foi conselheiro e membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária durante os governos FHC (1995-2002).

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Individualismo versus racismo

por Rodrigo Constantino, via Ordem Livre

"A longo prazo, a única forma de superar o racismo é através da filosofia do individualismo, a qual tenho promovido por toda a minha vida."
(Ron Paul)



Em seu mais famoso discurso, Martin Luther King Jr. fala do sonho de viver num país onde as pessoas deixem de ser julgadas pela cor da pele e passem a ser julgadas pelo seu caráter. MLK ressalta a importância das "magníficas palavras" contidas na Declaração de Independência Americana, que defende o direito inalienável à liberdade para todos os indivíduos. Essa é exatamente a postura de Ron Paul, assim como a de vários libertários que rejeitam qualquer tipo de mentalidade coletivista. Como diz Ron Paul em The Revolution, não temos direitos porque pertencemos a algum grupo, mas porque somos indivíduos. E é como indivíduos que devemos julgar uns aos outros.

O racismo nada mais é do que um tipo de coletivismo que enxerga a cor da pele como a característica predominante em cada um. Ron Paul afirma: "O racismo é uma forma particularmente odiosa de coletivismo m que os indivíduos são tratados não por seus méritos, mas pela identidade de grupo". Para Ron Paul, a filosofia do individualismo é o maior desafio intelectual que o racismo já enfrentou. Por outro lado, a politização do tema pode ser um empecilho para o término desta "desordem do coração", como Ron Paul chama o racismo. Os "pais fundadores" dos Estados Unidos, entre eles os autores da mesma Declaração de Independência admirada por Martin Luther King Jr., ficariam chocados ao observar como a sociedade americana se tornou politizada, passando a tratar cada assunto sobre o qual há divergências como um problema federal a ser solucionado em Washington. O meio adotado pode ser muitas vezes contraproducente, afastando ainda mais o desejado fim.

Ron Paul explica que o governo exacerba o pensamento racista e ataca o individualismo, porque sua própria existência encoraja a organização das pessoas em linhas raciais para fazer lobby por benefícios e privilégios ao seu grupo. No fundo, isso vale não apenas para a questão racial, mas para todas as outras. Vemos os homossexuais se organizando para exigir privilégios também, e inúmeros outros grupos que ignoram o indivíduo para abraçar algum coletivismo qualquer. Mas o que deveria importar mesmo não é a preferência sexual, ou então a cor da pele de alguém, e sim seu caráter, sua conduta, seus valores e princípios. Uma pessoa pode ser íntegra ou não, e isso claramente não tem relação alguma com a cor da pele ou a preferência sexual.

É espantoso ter de repetir uma obviedade dessas em pleno século XXI, mas infelizmente essa obviedade ainda não é parte do senso comum, mesmo que seja puro bom senso. A mentalidade racista, que separa e julga pessoas usando como critério a cor da pele, ainda é uma triste realidade no mundo em que vivemos. E isso vale para ambos os lados, é importante lembrar. O regime de cotas é uma prova disso. Assim como a postura de muitos americanos dos guetos que "acusam" um negro de estar "agindo como branco" caso ele não aceite as regras locais de conduta, muitas vezes prejudiciais ao indivíduo. Se o negro do gueto rejeita as letras agressivas do rap ou a forma de falar do grupo, ele pode acabar sendo vítima da hostilidade dos demais, um ato claro de racismo com sinal invertido. No Brasil, o mesmo comportamento já pode ser observado em favelas, onde a vulgaridade do funk deve ser a norma seguida para merecer a aceitação do grupo.

Deixo a conclusão com Ron Paul (tradução livre): "Não devemos pensar em termos de brancos, negros, hispânicos, e outros grupos do tipo. Este tipo de pensamento apenas nos divide. O único pensamento 'nós-versus-eles' que podemos nos permitir é o de povo – todo o povo – versus o governo, que rouba e mente para todos nós, ameaça nossas liberdades, e rasga nossa Constituição".

Imprensa americana chapa-branca

por Diogo Mainardi, na Veja

Barack Obama foi eleito por jornais e TVs. Menos pelos editoriais de apoio, pela cobertura parcial, pelas fotografias enaltecedoras e pelos quadros satíricos que eles fizeram, e mais pelo que eles deixaram de fazer: reportagens, reportagens, reportagens.

A ombudsman do Washington Post analisou as matérias do próprio jornal. Em primeiro lugar, ela destacou a gritante disparidade de tratamento reservada aos candidatos - as matérias sobre Barack Obama e Joe Biden, uma moleza; as matérias sobre John McCain e Sarah Palin, uma paulada, como elas de fato devem ser numa disputa presidencial. Em seguida, a ombudsman tocou no ponto que mais me interessa: a absoluta falta de interesse do Washington Post em investigar temas potencialmente danosos para a campanha de Barack Obama. Em particular, ela citou dois desses temas: seu envolvimento com drogas nos tempos da faculdade e seus negócios com Anthony Rezko, o empresário corruptor que financiou a carreira política e a vida privada de Barack Obama, tendo-o ajudado a comprar sua casa. Anthony Rezko foi condenado criminalmente durante a campanha eleitoral, mesmo assim ninguém deu bola para o caso.

A Economist também tratou desse jogo sujo da imprensa para eleger Barack Obama. Uma das principais vantagens que sua campanha teve sobre a de John McCain foi a esmagadora superioridade financeira. Essa vantagem só foi obtida porque Barack Obama, em vez de recorrer ao financiamento público, conforme ele prometera durante as primárias, serviu-se de dinheiro privado, arrecadando 600.000.000 de dólares, boa parte dos quais pela internet, de origem desconhecida. A Economist perguntou retoricamente: o que diria o New York Times se o contrário tivesse ocorrido? Se John McCain, depois de aplicar um golpe em Barack Obama, dispusesse de duas vezes mais dinheiro para financiar sua campanha, inclusive podendo comprar, a menos de uma semana das eleições, meia hora de publicidade na TV aberta? Eu respondo a pergunta retórica da Economist. Cinco dias depois de Barack Obama ser eleito - cinco dias -, o New York Times publicou um editorial recomendando enfaticamente ao prefeito Michael Blooomberg que ele recorresse ao financiamento público em sua próxima campanha eleitoral. Pelo visto, isso vale para todos os políticos, exceto um: Barack Obama.

A imprensa escrita e televisiva dos Estados Unidos continua a perder público e faturamento. A temporada de Barack Obama na presidência tem tudo para afundá-la de vez. A única saída para a imprensa é voltar a fazer aquilo que só ela sabe fazer: reportagens, reportagens, reportagens.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um otimismo razoável

por Pedro Sette Câmara, no Ordem Livre

Uma das vantagens subjetivas de ser contagiado pelo otimismo é bastante simples: ele é mais motivador e é mais gostoso ser feliz do que ser infeliz. É melhor torcer para o time que vence do que para o time que perde. Se um liberal é obrigado a um certo pesar pela inflação das expectativas (não sem precedentes!) que Obama causou em torno de si e do papel do presidente, isso não significa que só lhe reste um sentimento apocalíptico, como se a luta pela liberdade fosse quixotesca. Eu até acho que, se o preço da liberdade é a eterna vigilância, é claro que jamais teremos um sistema tão perfeito que nos dispense de ser bons (parafraseando T.S. Eliot), e que vamos sempre ter de querer a liberdade e renovar o ato da consciência individual que compreende seu valor.

Mesmo pessoas que, como eu, acham simpática a idéia de um presidente americano negro – admitindo algum contágio – , não resistem a ironizar a expectativa de que alguma coisa radicalmente diferente e positiva venha a acontecer. Mais ainda, é irresistível ironizar as expectativas messiânicas que o próprio Barack Obama gerou em torno de si mesmo e o quanto as pessoas que se julgam mais “esclarecidas” se deixam levar pela retórica da batalha do bem contra o mal no poder executivo americano. Alexander Herzen teria reclamado – ao menos é o que aparece em The Coast of Utopia, a trilogia teatral de Tom Stoppard – que o que as pessoas querem é “uma tirania que esteja do lado delas”. Ora, uma das principais diferenças entre um liberal e um não-liberal está exatamente aí: na expectativa de que o governo seja limitado, não de que ele seja ilimitado e promova políticas com as quais se concorde. Por isso, “esclarecido” ou não, o obamista é um crente no Estado, um não-liberal, ainda que certamente um liberal no sentido mais Hillary Clinton da palavra.

Aliás, pensando no discurso de Barack Obama após a eleição, fiquei assustado (mas não surpreso) ao ouvi-lo falar em “união” e “sacrifício”, porque não concebo que caiba ao presidente pedir essas coisas. Enquanto liberal, creio que é minha obrigação tolerar civilmente uma série de coisas de que não gosto ou que considero até moralmente repugnantes, por isso eu não teria uma reação negativa se Obama pedisse aos americanos que simplesmente não se matassem ou parassem de tentar usar o sistema judiciário para promover seus próprios valores “conservadores” ou “progressistas”. Se fosse para reduzir a questão a um slogan, seria “tolerância é o suficiente”, não só porque ela pode ser traduzida em atitudes tangíveis como porque não é possível fazer com que toda a população aprove alguma conduta. Quanto ao sacrifício, só me cabe perguntar: o que mais você quer que o cidadão faça além de pagar impostos e ser honesto e ordeiro? Mesmo que eu acredite num dever moral de praticar alguma caridade, creio que essa é uma questão privada. Não que eu acredite que John McCain fosse pedir algo diferente do povo americano: seria igualmente ingênuo esperar o contrário.

Agora, o que pode dar causa para algum otimismo é, antes de tudo, uma mudança de escala e de foco. O poder executivo americano pode estar inflando, mas o relatório Liberdade econômica no mundo deste ano do Fraser Institute diz que em muitos lugares do mundo a pobreza diminui, graças ao aumento de liberdade econômica. Aqui mesmo na América Latina podemos ter Hugo Chávez, mas o Chile já está entre os 10 primeiros colocados em liberdade econômica, com prosperidade evidente. Podem existir miríades de ONGs dedicadas a causas pontuais e esquerdistas, mas o número de ONGs – think tanks e outras instituições – devotadas à promoção da liberdade enquanto ausência de coerção por parte do governo só aumenta. Devagar, mas aumenta. Mesmo algumas expectativas em relação a Obama são boas, como a de que ele torne os EUA menos imperiais. Creio que ele dificilmente atenderá a essas expectativas, mas é bom que elas existam: no mínimo, servem como premissas retóricas para diminuir o poder da presidência.

São dados como esses que colocam a política do dia-a-dia em perspectiva e nos lembram do que Hayek falou sobre os políticos não serem verdadeiros líderes, mas meros seguidores de idéias presentes no senso comum. Se algum otimismo político é necessário para o seu bem-estar emocional, ao menos tente tirá-lo de causas mais verdadeiras, ainda que menos contagiosas e oceânicas do que o messianismo do presidente americano.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Laranjada de esperança

por Guilherme Fiúza

Barack Obama foi eleito, e o mundo ficou bonzinho. Que bom. Estava na hora mesmo de um final feliz.

Para completar a festa, daqui a pouco chega Papai Noel. É hora de acreditar. É hora de simplificar. É o novo dia, de um novo tempo, o futuro já começou. Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa etc etc.

É emocionante ver intelectuais ao redor do mundo descobrindo um estadista genial nas palavras vazias e cheias de clichês politicamente corretos do presidente eleito. Assim é, se lhes parece.

Entre outras mesuras catitas, Obama dirigiu-se aos “deficientes e não-deficientes”. É curioso como essa paranóia de não discriminar se torna cada vez mais discriminatória. Como pode um presidente categorizar cidadãos de acordo com a sua saúde corporal?

Mas dá para entender, vindo de um cidadão que tem vastos serviços prestados ao seu país, é senador da República, e quando é eleito presidente os aplausos vão para a cor da sua pele. Os politicamente corretos só pensam naquilo.

E ainda surge uma teoria incrível de que a guerra civil americana só terminou agora, com a eleição de Obama. Pelo visto, já está vigorando o sistema de cotas para sociólogos de plantão.

Os mais ousados ainda dão um jeito de botar o piloto inglês Lewis Hamilton no mesmo balaio teórico. Não é um campeão. É um campeão negro. Isso lembra uma entrevista do cantor Seu Jorge ao programa Roda Viva, em que ele, dada a fixação racial das perguntas, sugeriu: “Podemos falar de música?”

Mas a opinião pública deve estar certa. É comum ela atirar no que viu e acertar no que não viu. No Brasil, elegeu Lula para afirmar a ética e inaugurar um modelo econômico de esquerda. Veio o mensalão e a manutenção do modelo liberal. E o povo parece satisfeito.

Foi assim também com Kennedy, que fez a guerra do Vietnã e quase uma guerra mundial com a invasão de Cuba. Passou à história como um mito democrata.

Obama, o pacificador, quer abrir conversas com o tarado do Irã. Israel já está de prontidão. Como se sabe, esse negócio de happy end não tem tradução no Oriente Médio. Da lua-de-mel entre Clinton, Rabin e Arafat restou só um retrato na parede. Chamuscado.

Mas viva Obama. A esperança é a última que morre. A inocência é a penúltima.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Julgadores facciosos dos direitos humanos

Jarbas Passarinho, na Folha de São Paulo

Guardo a lição de Franklin Delano Roosevelt quando afirmou que as liberdades fundamentais estão sintetizadas em não ter fome, não ter medo, livre culto religioso e respeito à privacidade das pessoas. A liberdade de não ter medo embasa-se no direito de expressar livremente o pensamento.

As facções que desencadearam a luta armada de 1967 a 1974 (todas comunistas, exceto Caparaó) lutaram pela ditadura do proletariado, segundo a cartilha marxista. Mais recentemente, diziam ter lutado pela democracia, contra o que se insurgiu, indignado com a mentira, Daniel Aarão Reis, ex-guerrilheiro, preso e exilado, hoje professor universitário: "Nenhum documento das guerrilhas tratou de democracia", contestou.

Claro, pois, marxistas, visavam à ditadura do proletariado. De resto, se vencedoras, teriam erigido um regime de partido único, como o fez Lênin. É paradoxal o defensor do partido único invocar direitos humanos se nega a liberdade de expressão e a pluralidade partidária quando no poder.

O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) foi militante da Ação Libertadora Nacional, liderada por Marighella, cujo manual de guerrilha defendia o terrorismo, diferentemente de Che Guevara, que o condenava.

Se o ministro fosse um Sobral Pinto ou um Paulo Brossard, eu teria certeza de sua imparcialidade. Reconheceria que a tortura e o terrorismo são irmãos xifópagos, a primeira, uma praga existente desde priscas eras, presente em todas as guerras, e o segundo, não tão antigo. Afinal, a Constituição trata ambos como crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça.

Já que o ministro faz diferença, teoricamente ao menos, julgo-o um revanchista, do tipo que, derrotado, está hoje no governo de um presidente que não foi guerrilheiro.

Antecessor seu na Comissão de Anistia foi outro militante de guerrilha comunista vencida. O objetivo deles tem sido muito claro: queixar-se de torturas na luta armada e esconder o terrorismo que praticaram. Falta-lhes, pois, substância moral para a queixa mesclada de ódio, a despeito dos benefícios já recebidos.

Só em indenizações, já receberam mais de R$ 2 bilhões. Nem um centavo para as famílias dos mortos e mutilados no atentado terrorista no aeroporto de Recife, em 1966, primeiro ato da luta armada que desencadearam. Pensão vitalícia, remuneração por atrasados e emprego livre de Imposto de Renda, tudo foi obtido por um dos terroristas que lançaram carro-bomba contra o quartel do Exército em São Paulo, cuja explosão estraçalhou o corpo de um soldado. Os filhos do povo, os vigilantes de bancos, os seguranças de embaixadores, os oficiais estrangeiros mortos à traição (e até por engano), esses não tinham pais, mães, esposas, filhos.

A emenda constitucional nº 11, de outubro de 1967, revogou o AI-5 e restabeleceu os direitos fundamentais.

Seguiu-se-lhe a anistia, mais ampla que o substitutivo do MDB, que não anistiava Brizola e Arraes. Reconhecendo que houve excessos de ambas as partes, o projeto de lei da anistia incluiu na graça os crimes conexos, assim tidos pelo Congresso em 1979, como a tortura e o terrorismo.

FHC acrescentou as indenizações que privilegiam os derrotados na luta armada. Inverteram o humanitismo de Quicas Borba e o princípio: aos vencedores as batatas. As batatas foram para os vencidos. Millôr Fernandes não pôde conter o chiste: "Os guerrilheiros não fizeram guerra, mas um bom investimento".

Bem pagos, cresceu-lhes a ambição de derrogar unilateralmente a anistia.

Imitando Janus, são bifrontes: um rosto é dedicado à tortura, que é o mal, e o outro, ao terrorismo, sobre o qual silenciam. Apareceram "juristas" doutrinando sobre a imprescritibilidade da tortura, mas omitem o terrorismo. Um jurista de esquerda tradicional, indelicadamente, chamou de "burocratas jurídicos" o ministro da Defesa e o advogado-geral da União, que dele discordam. O menosprezo evidencia a marca da ideologia, e não a do saber jurídico.

A propósito, declarou o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes: "Repudio qualquer manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente casos de direitos humanos. Eles não podem ser ideologizados. É uma discussão com dupla face, porque o texto constitucional também diz que o crime de terrorismo é imprescritível".

Vannuchi, arrogante, exibe o vezo do totalitarismo de que foi militante: ameaça demitir-se (que perda para o país!) se o parecer da AGU, reconhecendo a anistia para os crimes conexos, for mantido. Aprendeu de Lênin e seu centralismo democrático: "quem não estiver comigo é contra mim". Ousa constranger, publicando declaração do presidente que se refere aos cadáveres de comunistas desaparecidos há 40 anos no clima quente e úmido da Amazônia, e não à anistia.

O presidente João Baptista Figueiredo disse que a anistia não implicava perdão, que pressupunha arrependimento não pedido, mas esquecimento recíproco, em favor da reconciliação da família brasileira. Perto de 30 anos passados, o esquecimento é unilateral. O ódio ideológico, o mais perverso dos ódios, prevalece.

JARBAS PASSARINHO, 88, é coronel da reserva. Foi governador do Pará (1964-65) e senador por aquele Estado em três mandatos (1967-74, 1975-82 e 1987-95), além de ministro da Educação (governo Médici), da Previdência Social (governo Figueiredo) e da Justiça (governo Collor).

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Regresso à Idade da Inocência

Uma fina ironia do O Insurgente:

Hoje a América acordou reconciliada com o mundo. “Hope”, “Change”, “Future”. E com três palavras mágicas, chegamos ao Nirvana, a tocha da Estátua da Liberdade voltou a ser a luz em redor da qual gira a Terra. A América conseguiu, de uma só penada, limpar a face de um país desprestigiado na cena internacional, levando o american dream aos setes cantos do planeta. Hoje, a Uncle Sam acordou bem disposto; à distância, olha no alpendre a sua nanny, matrona, que sentada na cadeira de baloiço toma no seu colo e embala com as suas canções uma esquerda renascida, que baba e ri, com a alegria própria da idade da inocência.

Agora, é só esperar ansiosamente pelo momento em que todos os líderes do mundo vão dar as mãos, em plena comunhão e experiência evangélica. Vai ser curioso vê-los, de olhos fechados, ao som do gospel, a gritar: “Hope”, “Change”, “Future”, “Hope”, “Change”, “Future”, “Hope”, “Change”, “Future”. Que cantem, não sete vezes, mas setenta vezes sete. As vezes que forem precisas. O mundo inteiro aguarda por este momento místico. E agradece.

Everything's amazing, nobody's happy

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Li'l Obama

via A Arte da Fuga

O brasileiro Obama

por Diogo Mainardi, revista Veja

Eu desconfio de qualquer americano que saiba localizar a Toscana no mapa. O melhor dos Estados Unidos é isso: o sincero descaso de seus habitantes pelo que acontece a mais de 1 milha de suas casas hipotecadas. Quem está do lado de fora, na Toscana ou no Tocantins, costuma interpretar esse descaso como uma forma de menosprezo. Mas é o contrário: é uma forma de modéstia. Os americanos apegam-se a um ou dois conceitos herdados de seus antepassados e, com humildade, simplesmente se recusam a discuti-los. Temo o dia em que eles decidam endurecer o molejo de seus Dodge Durango. Temo o dia em que um estudante secundarista de Dakota do Norte seja proibido de descarregar sua espingarda no pátio da escola. Temo o dia em que um imigrante ilegal, sem plano de saúde, seja prontamente atendido no hospital.

Barack Obama representa um americano mais cosmopolita, que come espaguete com bottarga, instala um bidê em seu banheiro e está disposto a tomar chá de menta com o terrorista palestino que dá aulas em Colúmbia. Com Barack Obama, a campanha eleitoral americana se internacionalizou. Pior do que isso: ela se abrasileirou. Alguns dias atrás, Barack Obama imitou nossa propaganda e fez um programa de TV de meia hora. Como um candidato à prefeitura de Fortaleza ou de Rio Branco, ele prometeu oferecer remédio grátis e construir umas creches na Zona Oeste, se é que entendi direito. O abrasileiramento da campanha de Barack Obama tem outros aspectos igualmente alarmantes, como o plano de redistribuir renda aumentando os impostos dos mais ricos, e doando dinheiro aos mais pobres. O futuro dos Estados Unidos é Patrus Ananias.

O ritmo de samba contaminou até mesmo a imprensa americana. Nas primeiras páginas dos jornais, Barack Obama recebeu 45% de cobertura positiva. John McCain, 6%. O New York Times comportou-se como o jornal de um senador maranhense, aderindo à campanha de seu candidato. Um jornal pode aderir à campanha do candidato que quiser. O que está errado é o empenho em abafar todos os fatos que possam criar-lhe algum tipo de constrangimento. Foi o que ocorreu neste ano nos Estados Unidos. Qualquer pergunta sobre Barack Obama foi caracterizada como uma forma de racismo, ou de asnice, ou de caipirice.

Se a campanha de Barack Obama contou com mais dinheiro, com a torcida do presidente iraniano e com a ajudinha marota da imprensa, a de John McCain respondeu à altura com Tito, o Construtor. Tito, o Construtor, é igual a Bob, o Construtor: tem o mesmo capacete de operário, o mesmo trator, a mesma betoneira. Só que, ao contrário de Bob, o Construtor, que é feito de plástico, Tito, o Construtor, é feito de tamales e de chicharrón. Ele é um imigrante colombiano. Na semana passada, subiu no palanque dos republicanos e, com seu sotaque de Speedy Gonzales, pediu mais liberdade e menos impostos, recusando as migalhas do governo e defendendo o trabalho duro. Se Barack Obama derrotar Tito, o Construtor, nunca mais ponho os pés na Toscana.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Democratas, esses democratas

via Resistência

Recapitulemos: os republicanos são uns brutamontes, uns nazistas sem o bigodinho infame de Hitler, ao passo que os democratas representam a razão, a paz e a promessa da harmonia universal, certo? É o que se depreende da leitura dos nossos mais destacados e eruditos intelequituais. Vejamos alguns exemplos:

Segundo Arnaldo Jabor, que como comentarista político é mesmo um cineasta jenial, os democratas representam "a razão e a inteligência", em contraste com os republicanos, cujo universo mental seria feito de "preconceito, violência, burrice e [...] pulsão de morte". (Como vêem, a análise política de Jabor é cheia de sutilezas.) Se os democratas, em geral, representam a razão e a inteligência, Obama, em particular, encarna algo mais. Ele é "o jazz, a sexualidade livre, a liberdade da contra cultura". Em resumo, "Obama é mais que um candidato; ele é uma síntese de idéias, é a tomada do poder das conquistas cientificas, culturais e éticas da modernidade". Viram que eu não exagerava ao dizer que os comentaristas políticos andam escrevendo a respeito de Obama, em prosa, aquilo que B. Lopes escreveu, em verso, a respeito de Hermes da Fonseca? Mas continuemos.

Eis que desponta no horizonte a inteligência aguçada de Sergio Augusto, o Montaigne de Ipanema. Escrevendo sobre a convenção republicana, Augusto emitiu uma definição científica bagaray dos republicanos. Segundo o autor de Este mundo é um pandeiro, monumento imorredouro da filosofia política universal, os republicanos são, além de nazistas enrustidos (ou nem tanto), "caucasianos, caipiras, plutocratas, mal-amados, ressentidos, órfãos do macarthismo, peruas botocadas e lábios finos, vociferando ódio, zombarias, calúnias e slogans chauvinistas". Ah, bom.

Portanto, é isso. Se Jabor e Augusto, esses luminares da inteligência nacional, dizem que é assim, quem sou eu para dizer o contrário? Eppur si muove, conforme se pode ver na imagem abaixo:


Como vêem, eis um democrata que, para comemorar o Halloween, enforcou Sarah Palin em efígie, retratou John McCain emergindo do fogo do inferno e pendurou ambas as figuras na porta de casa. Mas, como sabe toda pessoa de bem, o monopólio da violência simbólica é dos republicanos, esses obscurantistas.

(Em tempo: se o contrário tivesse ocorrido, ou seja, se um republicano tivesse enforcado Obama em efígie e retratado um Joe Biden diabólico, o mundo inteiro lhe cairia na cabeça, e não sem razão. Como foi um democrata o autor dessa violência simbólica, a notícia ficou restrita a um despacho inconseqüente da Reuters.)

As mesmas e velhas ilusões

por Jeffrey R. Nyquist, no Mídia Sem Máscara

Se você acredita que a paz e a prosperidade podem continuar para sempre, a sua crença é uma ilusão. A história ensina que paz e prosperidade são repetidamente interrompidas por guerras e crises econômicas. A história é cíclica: a contração econômica segue-se à expansão, tanto quanto a paz e a guerra se alternam. As perigosas ilusões do período pré-1914 e dos anos 1920 e 1930 ocorrerão ainda muitas e muitas vezes. No passado, homens tentaram impor-se através da violência, e tentarão o mesmo no futuro. Homens já acreditaram num mercado de ações inflacionado, e acreditarão novamente. Homens confiaram em Hitler em Munique e homens aceitarão as mentiras russas de hoje.

Se um país experimentou ataques de surpresa, como foi o caso dos Estados Unidos (quando os japoneses atacaram Pearl Harbor em 1941, ou quando terroristas árabes atacaram o World Trade Center em 2001), há algo no caráter do país que convida uma surpresa futura. A diferença é que hoje os atacantes podem ser mais engenhosos do que os almirantes japoneses, ou mais sedentos de sangue dos que os gângsteres da Al Qaeda. Um ataque surpresa pode ocorrer quando um país fica doente e é colocado fora de ação por desordens financeiras – e por uma tentativa fútil de prolongar a prosperidade através de empréstimos, por um fútil resgate de bancos através de um governo que não percebe o quão perto da bancarrota ele mesmo está. Neste momento, corremos ansiosos atrás de candidatos que dizem o que queremos ouvir. Eles nos afirmam que o governo pode resolver nossos problemas. Mas, como disse Ronald Reagan em seu primeiro discurso de posse: “Na crise atual, o governo não é a solução para o nosso problema; o governo é o problema”.

O governo não pode impedir uma correção feita pelo próprio mercado. O governo não pode transformar negócios não lucrativos em lucrativos. A bolha nos mercados de ações e imobiliário precisa estourar. Isto é só o que as bolhas fazem. Ao intervir, o governo meramente aprofunda e amplia o dano. O que precisa acontecer, obviamente, é simples. Ronald Reagan, que assumiu a presidência durante uma severa crise econômica, vinte e sete anos atrás, explicou: “É hora de examinar e reverter o crescimento do governo, o qual dá sinais de ter crescido além do consentimento dos governados”.

O governo precisa parar a sua contínua expansão [e intromissão] em todas as esferas. Seu papel deveria ser limitado. Durante a crise atual, Washington deveria se concentrar em três coisas: preservar o poder de dissuasão nuclear, manter a ordem civil e evitar a fome se a economia entrar em colapso. O governo não é capaz de evitar um declínio econômico; ele jamais seria capaz de fazer isso. O que é necessário é fé no mercado, coisa que aparentemente nenhum de nossos líderes tem. Nenhum levou adiante o legado de Reagan. O marxista aspirante a ditador venezuelano, Hugo Chávez, zombou de Bush na quarta-feira [15/10/08] ao chamá-lo de “Camarada Bush”, uma vez que o republicano deu uma guinada à esquerda durante a atual crise financeira. “Bush agora está à esquerda de mim”, ironizou Chávez. Se o governo dos Estados Unidos pode comprar bancos, que crítica pode ter com relação a Chávez?

Houve um tempo em que nos iludimos com a noção de que o comunismo estava morto. Mas idéias não morrem, e ideólogos não mudam de idéia tão facilmente. O artifício de ontem prepara e articula o retorno de hoje. O bêbado Boris pavimentou o caminho para as garras de Putin, estendidas na direção da Alemanha. O que virá a seguir no período de “terror cinza” ninguém pode dizer ao certo. Talvez seja um ataque a bomba a um alvo financeiro significativo, tal como o Tesouro americano. Talvez uma metafórica bomba de nêutrons seja detonada sobre as transações financeiras do Ocidente. Recentes ataques cibernéticos ao centro de dados do Banco Mundial abrem o caminho para um ataque repentino e incapacitante. O plano da KGB não é meramente reunir e capturar os “oligarcas” russos. Se vocês ainda não entenderam a revolução, eu vou explicá-la em linguagem simples: A burguesia mundial deve ser liquidada de uma vez por todas.

Imaginem se um ataque cibernético destruísse o sistema financeiro ao apagar dados financeiros vitais dos computadores. Será que alguém percebe quão vulneráveis nós mesmos nos tornamos? Se o ataque a Pearl Harbor era realizável para os almirantes japoneses, o que pode ser realizado pela KGB hoje? O Banco Mundial está sob “cerco cibernético”. De acordo com a notícia veiculada pela FOX News no dia 10/10, “[A] rede de computadores do Banco Mundial – um dos maiores repositórios de dados sensíveis sobre as economias de todas as nações – tem sido repetidamente atacada, há mais de um ano…”. De fato, os invasores da rede tiveram “[a]cesso total, por quase um mês, entre junho e julho”. Os leitores desta coluna irão se lembrar daquilo que o governo russo estava prevendo em julho, a saber: que os Estados Unidos estavam por experimentar a “crise de sua existência”.

Como é que eles sabiam?

A sofisticação do “cerco cibernético” ao Banco Mundial aponta para a espionagem dirigida por um governo. Segundo a Fox News, “[I]nvestigadores descobriram que os invasores estavam usando o que se chama de ‘cluster’ de endereços IP originários de Macau, na China”. Evidentemente, os verdadeiros hackers fizeram uso dos endereços IP chineses para que os investigadores seguissem as pistas erradas. Eles jamais deixariam uma pista boa o suficiente para rastreá-la até a verdadeira origem. Há quem lance dúvidas sobre a possibilidade de ter sido a China a autora das invasões, e um país chama a atenção acima de todos os outros. Um dos maiores bancos da Rússia chama-se MDM, o qual recentemente divulgou que seus lucros líquidos triplicaram. Enquanto bancos caíam na Europa e nos Estados Unidos, o MDM prosperava. Um artigo de 10/10 do Wall Street Journal liga o MDM às transações financeiras suspeitas de um magnata ligado ao Kremlin. O artigo oferece a seguinte pista: “Altos funcionários da administração Bush têm revelado crescente preocupação acerca da possível infiltração de companhias ocidentais e de mercados financeiros por figuras suspeitas de pertencerem ao crime organizado e ligadas ao governo russo…”.

Será que, finalmente, estamos começando a entender?

Pode ser muito pouco, e muito tarde. Os políticos conservadores de hoje – na Europa e Estados Unidos – não são realmente conservadores. Eles não entendem a economia. Eles não sustentam as bem sucedidas tradições e práticas do passado. Tal como Hugo Chávez, no fundo eles são “Camaradas”. Apenas mais um exemplo é suficiente para provar o ponto em questão. De acordo com repórteres em Bruxelas, no dia 15/10 o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi disse que aceita a Rússia completamente. Ele explicou: “Eu considero a Rússia como um país ocidental, e meu plano é que a Federação Russa esteja apta a tornar-se membro da União Européia nos próximos anos”. Diante dessa formulação seria mais realista dizer que Berlusconi é a favor de que a Europa tenha um papel de satélite da Federação Russa. “Eu tive essa visão há anos”, disse Berlusconi.

Nós não deveríamos subestimar os efeitos desse pensamento ilusório dos políticos “conservadores” de hoje em dia. Os americanos tendem a ser ingênuos, e os conservadores de todas as partes adotaram essa posição. Eles pensam que seu país é invencível, que a sua prosperidade repousa sobre uma fundação firme. Eles subestimam a ameaça do exterior. Este tipo de raciocínio, porém, subverte a segurança e a prosperidade genuínas. Os homens precisam lutar pelo que querem, e precisam lutar para preservar o que possuem. Não há lugar nem futuro para a complacência diante dessa realidade. Aqueles que vêem as nossas asneiras econômicas apenas com relação à atual crise econômica viram apenas metade do quadro. Pearl Harbor e o 11 de Setembro foram eventos característicos, que ocorreram em concordância com a tendência dos Estados Unidos em negligenciar sua segurança enquanto perseguem objetivos econômicos. Há muitas dimensões na crise corrente, incluindo a divisão ideológica que ameaça nossa segurança nacional. Todavia, é certo que todos esses elementos estão ligados à ameaça externa e todos esses elementos podem ser explorados por nosso inimigo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O fim do libertarianismo?

Por Jeffrey A. Miron, via Ordem Livre

Em um artigo recente publicado na Newsweek e no seu próprio periódico online, o editor-chefe da Slate, Jacob Weisberg, anuncia “o fim do libertarianismo”.

Respondendo a comentaristas que acreditam que políticas governamentais equivocadas provocaram ou contribuíram para a atual desordem financeira, Weisberg afirma que o verdadeiro culpado é a política financeira libertária (a qual impedia “qualquer violação do direito de comprar e vender”) que os Estados Unidos supostamente adotaram nos últimos anos. Estamos em meio a “um colapso econômico global possibilitado por idéias libertárias”, escreve Weisberg, acrescentando que libertários intelectualmente previsíveis simplesmente não conseguem “aceitar que mercados podem ser irracionais, compreender mal os riscos e alocar mal os recursos, ou que sistemas financeiros sem fiscalização vigorosa do governo e a capacidade para intervenções pragmáticas constituem uma receita para o desastre”. As políticas libertárias fracassaram tão redondamente, ele conclui, que chegou a hora de jogar o libertarianismo, como o comunismo soviético, na lata de lixo da história.

Como é? Você está falando sério, Jacob?

Sejam quais forem as visões que se tenha das políticas libertárias, o fato puro e simples é que os Estados Unidos não adotaram essas políticas. Não nos últimos dez anos. Não no último século. Na verdade, a não ser por um breve momento antes de Alexander Hamilton preparar o primeiro bailout americano dos mercados financeiros, nunca as adotaram. Se os Estados Unidos realmente fossem a “Terra Libertária” que Weisberg alega, um leque enorme de políticas que ajudaram a alimentar a situação atual teria sido radicalmente diferente.

Em uma Terra Libertária, os bancos não seriam licenciados, definidos e regulados pelo governo, como têm sido nos Estados Unidos por mais de 150 anos. Em especial, os bancos teriam o direito de “suspender a convertibilidade”, o que quer dizer que eles poderiam dizer aos depositantes, “desculpe, você não pode ter todo o seu dinheiro de volta nesse exato momento”, durante corridas aos bancos que ameaçassem a solvência bancária. Isso é justamente o que os bancos fizeram em pânicos financeiros decisivos durante o período pré-Fed, quando a suspensão era ilegal mas tolerada ou encorajada pelos reguladores. Fazendo isso, os bancos reduziam a disseminação do pânico e bancos solventes mas ilíquidos não faliram em grande quantidade.

Em uma Terra Libertária, o Federal Reserve nunca teria sido criado. Isso significa que o Fed não poderia ter transformado uma recessão normal na Grande Depressão, ao abster-se de deter uma queda enorme na oferta de moeda. Essa queda e as falências bancárias relacionadas ocorreram porque a existência do Fed era tomada como indicação de que os bancos não podiam, ou não deviam, suspender a convertibilidade, como tinham feito com sucesso no passado. Assim, em uma Terra Libertária, a Grande Depressão provavelmente não teria ocorrido.

Se o Fed nunca tivesse sido criado, Alan Greenspan nunca teria sido seu presidente. Assim, ele não teria dado garantias indevidas aos investidores quanto ao risco dos derivativos ou à viabilidade de longo prazo do boom do mercado de ações de meados dos anos de 1990. Se o Fed não existisse, não haveria Alan Greenspan para manter as taxas de juros baixas por um período prolongado e, desse modo, alimentar a bolha imobiliária que desempenhou um papel decisivo na perturbação dos últimos dois anos. Os participantes do mercado teriam feito julgamentos por sua própria conta, e estes provavelmente teriam sido, por conseqüência, mais cautelosos.

Em uma Terra Libertária, a Comissão de Valores Mobiliários (Securities and Exchange Commission), juntamente com regulamentações do mercado financeiro, tais como exigências de capital, não existiriam. Isso significa que os investidores não teriam qualquer garantia de que o governo poderia manter títulos “excessivamente” arriscados ou fraudulentos fora do mercado. Muitos pequenos investidores permaneceriam à margem, deixando os investimentos arriscados para aqueles que pudessem arcar com as perdas.

Em uma Terra Libertária, o governo não estimularia aumentos na propriedade de imóveis. Portanto, não teria criado a Fannie Mae e o Freddie Mac, nem incentivado essas instituições a expandir empréstimos subprime, nem prometido implicitamente salvá-las se ou quando esses empréstimos não fossem pagos. Assim, um ingrediente-chave na recente turbulência financeira não teria surgido.

Em uma Terra Libertária, o governo não protegeria agentes privados dos prejuízos de suas decisões arriscadas. Ou seja, nada de resgates ou bailouts para bancos, companhias aéreas ou indústrias de automóvel. Nada de garantias para depósitos, nada de garantias para pensões, e assim por diante.

Em uma Terra Libertária, indivíduos e empresas assumiriam riscos, mas pensariam longa e profundamente sobre tais riscos. Alguns indivíduos e empresas lucrariam consideravelmente com riscos assumidos com inteligência, mas muitos teriam, na média, retornos modestos, já que seus retornos aparentemente “excessivos” dos tempos de bonança seriam compensados por grandes perdas nos tempos ruins.

Pessoas sensatas podem discutir se a aplicação repetida de políticas libertárias teria melhorado o desempenho econômico dos Estados Unidos nos dois últimos séculos. Elas não podem afirmar, no entanto, que os acontecimentos recentes demonstram o fracasso das políticas libertárias, uma vez que essas políticas não foram empregadas.

Tampouco podem dizer, como Weisberg sustenta, que “as argumentações em favor do libertarianismo passam incrivelmente longe de oferecer qualquer explicação convincente sobre o que deu errado”. Na verdade, ao teorizar, antecipar e sublinhar o inevitável fracasso da mistura de dinâmicas de livre mercado com intervenções politicamente guiadas na economia, os libertários explicam não só o que está acontecendo, mas também como evitar sua repetição periódica.

No mínimo, ainda não está decidido se um regime de políticas verdadeiramente libertárias é desejável. Com sorte, algum governo um dia terá a coragem de lhe dar uma chance.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O Erro de Greenspan

por Rodrigo Constantino


“O crédito fácil se transformou no Santo Graal da política monetária, principalmente sob a batuta de Alan Greenspan, ‘o Maestro supremo’.”
(Ron Paul)


O ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, fez uma tímida mea culpa diante dos congressistas, ao confessar algumas falhas em sua gestão como banqueiro central. Greenspan alegou que sua confiança na capacidade de auto-regulação dos mercados se mostrou errada, para o delírio dos intervencionistas. Mas será que foi isso mesmo que aconteceu? A postura defensiva de Greenspan parece bastante natural, e o reconhecimento de um pequeno erro como regulador pode ocultar uma falha infinitamente mais grave. É mais fácil Greenspan jogar para o mercado a maior culpa, enquanto alivia o seu próprio fardo de ter, no fundo, contribuído muito para criar a bolha. Não faltaram críticos no passado que apontavam para esse erro bem mais sério do que apenas evitar os excessos do mercado. O grande erro de Greenspan não foi acreditar no poder de ajuste natural do mercado, mas sim ter colaborado muito para os seus excessos.

Eu mesmo fui um desses críticos no passado. Em um artigo escrito em abril de 2004, chamado “Amnésia Política”, utilizei vários trechos do próprio Greenspan escritos em 1966, num livro de Ayn Rand (Capitalism: The Unknown Ideal). A primeira frase do meu artigo foi: “No encontro entre um liberal e a política, é infinitamente mais provável que o primeiro seja corrompido pelo segundo, e não o contrário”. Essa introdução já expressava minha enorme decepção com Greenspan, ao constatar que aquele velho liberal havia cedido aos encantos do poder. A vaidade de Greenspan, aliás, parece evidente, e logo após se aposentar, depois de 18 anos à frente do Fed, ele já contava com uma autobiografia pronta. Greenspan, que fora discípulo de Ayn Rand e um defensor do laissez-faire e do padrão-ouro, chegando a culpar as ações do Fed pela Grande Depressão de 1929, acabou indo parar justamente no governo, concentrando um poder abusivo nas mãos.

Eis alguns trechos de Greenspan que eu destaquei no artigo: “Quando a economia nos Estados Unidos se submeteu a uma contração suave em 1927, o Fed criou mais reservas de papel na esperança de prevenir alguma falta possível da reserva bancária. [...] O crédito adicional que o Fed injetou na economia se espalhou para o mercado financeiro – provocando um crescimento especulativo fantástico. Em 1929 os desequilíbrios especulativos tinham-se tornado tão exagerados que a tentativa de enxugar as reservas adicionais precipitou uma aguda retração e a conseqüente desmoralização da confiança dos empresários. Em conseqüência, a economia americana desmoronou”. Em outras palavras, Alan Greenspan, ainda longe do poder, entendia como as ações do Fed, na tentativa de injetar liquidez nos mercados para evitar ajustes necessários, acabavam agravando os problemas.

Minha conclusão no artigo evidencia toda a decepção na época: “E pensar que este homem hoje senta na presidência do próprio Fed, injetando como ninguém liquidez nos mercados, tentando artificialmente manter o boom econômico, evitar a correção natural dos investimentos ruins realizados, usando o governo para ‘consertar’ os problemas da economia criados pelo próprio governo. O mundo perde muito com o fato de Greenspan ou ter esquecido o que disse em 1966, ou ter sucumbido às pressões políticas. Ele mesmo tem consciência de que é impossível alterar as leis econômicas através de mecanismos artificiais do governo. Mas a amnésia que o jogo político causa até mesmo nas cabeças mais lúcidas é incrível”.

E eu estava longe de ser o único crítico dessas medidas expansionistas adotadas por Greenspan! No Brasil, o economista Paulo Guedes sempre focou nesse aspecto, chegando a me dizer pessoalmente que o “mago” ainda seria vítima do ódio de muita gente, quando a bolha estourasse. No resto do mundo foram muitos os críticos, como os economistas “austríacos” do Mises Institute, ou Christopher Woods, estrategista do CLSA e autor de Greed & Fear, carta semanal aos seus clientes. O senador Ron Paul foi outro que acusou a irresponsabilidade de Greenspan muito antes de a bolha explodir. Na frase da epígrafe, o ex-candidato à presidência americana ridiculariza a fé tola nos poderes do Banco Central.

Essa crença nos poderes “mágicos” do Banco Central talvez seja um dos maiores indícios de irracionalidade dos tempos modernos. Em outro artigo meu intitulado O Templo, de 2006, comentei o livro A Term at the Fed, do ex-governador Laurence Meyer. Eis como começo: “A concentração de poder em poucas mãos sempre irá representar um enorme risco para os indivíduos. Isto não é diferente quando o assunto é economia. Por tratar-se de um campo com um jargão muito técnico, os leigos acabam vendo certas figuras como ‘sábios clarividentes’, delegando a esses as rédeas de toda a economia. Entretanto, não devemos esquecer que são apenas humanos sujeitos às falhas comuns da espécie, além de pressões externas e busca de interesses próprios”.

Infelizmente, muitos esqueceram essa lição, e durante a fase de bonança, Greenspan foi eleito o “Maestro” capaz de garantir a continuidade eterna da festa. Pior para ele que viveu o suficiente para ver o fim da festa, e está na defensiva tendo que se justificar. É uma pena que lhe falte mais coragem para assumir o verdadeiro erro, que foi ter se afastado de suas crenças antigas, seduzido pelo poder. Isso não iria apagar o passado, mas ao menos daria mais dignidade a ele nesse fim de vida. Se ele fizesse isso e se existisse vida após a morte, ao menos ele poderia reencontrar Ayn Rand com a cabeça erguida.

Ambiente mal assombrado

por João Luiz Mauad no Mídia Sem Máscara

Há por aí uma cambada de caras-de-pau que tem a ousadia de chamar esse verdadeiro pandemônio econômico em que vivemos de “Modelo Neoliberal”. E pior: há quem acredite nisso. Eu, que me satisfaço com pouco, ficarei contente no dia que o Brasil alcançar o estágio de país capitalista.

O Banco Mundial (http://www.doingbusiness.org/ ) divulgou este ano o sexto relatório sobre o ambiente de negócios no mundo, e o Brasil, para não perder o hábito, ficou perto das últimas colocações – mais precisamente, na 125ª posição, entre as 181 economias pesquisadas. Esse levantamento é baseado na análise quantitativa e qualitativa de 10 diferentes aspectos ligados ao ambiente institucional de negócios, com destaque para a burocracia envolvida na abertura e fechamento de empresas, licenciamentos governamentais, contratação de mão-de-obra – principalmente os encargos relacionados à admissão e demissão de pessoal –, registros de propriedade, acesso ao crédito, segurança jurídica dos empreendedores, pagamento de impostos (carga tributária e burocracia envolvida), facilidades (dificuldades) de comércio com o exterior e respeito aos contratos.

Muitos membros do governo petista – bem como o presidente Lula – têm reclamado dessas análises, alegando que elas não representam a realidade econômica do país e que se baseiam em dados defasados e/ou tendenciosos. Qualquer empresário que já arriscou abrir um negócio no Brasil, no entanto, sabe que os resultados encontrados pelo Banco Mundial, se não são exatos, estão muito próximos da realidade.

Tocar qualquer empreendimento em Pindorama é algo comparável a um filme de suspense e terror, em que uma multidão de fantasmas e vorazes monstros de toda espécie, comandados pelo funesto Leviatã, estão sempre à espreita, ansiosos para abocanhar a maior parte dos lucros e prontos a opor obstáculos de toda ordem no caminho dos intrépidos (talvez melhor fosse dizer estúpidos) empresários.

Exemplos abundam. Vejam o caso da Aquamare: a empresa, fundada por empreendedores brasileiros, patenteou um processo de purificação de água do mar, baseado em nanotecnologia, através do qual se consegue manter o controle dos sais minerais durante a dessalinização da água. Isso quer dizer que os cientistas produziram água mineral – rica em boro, cromo e germânio, elementos abundantes nos oceanos e dos quais o corpo humano necessita em pequenas quantidades – a partir da água do mar.

Para tornar possível a empreitada, foram investidos pelos sócios, de acordo com o jornal Valor Econômico, a quantia aproximada de US$ 2 milhões na pesquisa e desenvolvimento do produto, apelidado de “H2Ocean”. No início, o objetivo era comercializá-lo no Brasil, mas, infelizmente, o projeto teve que ser alterado, já que não foi possível vencer os fantasmas da burocracia tupiniquim e sua aversão a tudo o que diga respeito à inovação.

Em 2006, a empresa solicitou a licença para engarrafar e comercializar o produto no território nacional. O registro foi recusado sob a alegação de que não havia no país legislação específica sobre a matéria. Inconformados, os empresários fizeram uma segunda tentativa, pedindo esclarecimentos sobre o que deveria ser feito para resolver o problema. A resposta veio quatro meses depois, indicando – pasmem! – que a empresa deveria “importar” uma legislação sobre o assunto, ou seja, apresentar, “preferencialmente por intermédio de uma associação de classe, proposta de regulamentação para avaliação pela ANVISA”. Em resumo, eles deveriam fazer o trabalho da agência, uma vez que, provavelmente, deve faltar pessoal por lá para realizá-lo.

Como tempo é dinheiro, especialmente quando se tem um bom produto em mãos, a Aquamare resolveu alterar sua estratégia, e partiu em busca de novos mercados. A opção foi então os EUA. Perceba, amigo leitor, pelo testemunho de um dos sócios ao jornal, a diferença de tratamento, aqui e acolá: “O registro [nos EUA] da empresa saiu em três horas e a água foi analisada em 15 dias. Conseguimos resolver em três meses tudo o que não conseguimos aqui em quatro anos”. (E ainda há quem não saiba por que eles são ricos e nós somos pobres).

A comercialização da “H2Ocean” estava prevista para começar em agosto último, inicialmente em três estados norte-americanos – Flórida, Nova Jersey e Georgia. A fabricação para exportação ainda continua em Bertioga, no litoral sul de São Paulo, mas em breve a fábrica deverá ser desativada e transferida para os EUA. Evidentemente, eles já perceberam que é muito mais fácil, barato e, conseqüentemente, lucrativo fazer tudo por lá.

Mas não pense o leitor que as dificuldades residem só na abertura de empresas e na obtenção de registros e licenças. Depois de funcionando, os problemas enfrentados costumam ser ainda piores, principalmente quando o assunto é segurança jurídica.

Vejam, por exemplo, este inusitado processo enfrentado por um restaurante em Blumenau, SC. O estabelecimento foi multado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial (Inmetro) pelo sacrilégio de cobrar pela espuma, também conhecida como “colarinho”, contida no chope servido aos clientes. Segundo o fiscal responsável pela autuação, “a quantidade de espuma deveria ser desconsiderada”, para efeito de cálculo do preço a pagar. (Eu sei: seria cômico se não fosse trágico!)

Pois bem: os donos do restaurante recorreram da multa e, para espanto geral, a Justiça Federal de primeira instância manteve a estrovenga. Somente em grau de recurso, depois que a empresa gastou uma pequena fortuna com advogados e custas judiciárias, a Terceira Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidiu anular a absurda penalidade. Em suma, foi preciso que a matéria fosse parar no colo de um desembargador com um mínimo de discernimento, para que a justiça chegasse à conclusão de que “o colarinho integra a própria bebida”, sendo parte do próprio produto.

Parece até filme de terror, não é mesmo? Eu juro que preferiria enfrentar o Alien, o Jason Voorhees e o Freddy Krueger, juntos, do que a burocracia tupiniquim.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A morte do capitalismo?

por Conde


A crise atual na economia americana implica discussões apaixonadas entre os liberais e os socialistas. O ocaso da bolha imobiliária e, ao mesmo tempo, a quebra de vários bancos americanos, suscitam novas discussões sobre a necessidade ou não de intervenção estatal na economia. Interessante notar que esses debates já ultrapassaram as questões acadêmicas de economia há um bom tempo. A discussão em si não é técnica. Ela tem elementos morais, políticos e ideológicos, que influenciam, e muito, os destinos da economia mundial.

O que está em jogo nessa discussão? A salvação da economia americana? O resgate dos bancos? A restituição dos credores? A recuperação da economia mundial? Penso que não. O que está em jogo, basicamente, é o sistema político e econômico de liberdades e propriedades que mantém as democracias em pé. Os arautos anticapitalistas, os milenaristas marxistas de plantão, já estavam decretando antecipadamente o “eschaton”, a morte do capitalismo e, em particular, do “neoliberalismo”. Se atentarmos aos apelos contra o livre mercado na ótica destes apocalípticos, há na sua proposta uma tendência perigosíssima de um completo agigantamento da burocracia estatal, como se esta fosse a fiel salvadora da economia capitalista. Não deixa de ser patética essa hipótese, pois quase todos eles sentem uma dolorosa saudade do falecido e criminoso modelo soviético. Um amor que não ousa dizer o nome. . .

É curioso perceber que a falácia da burocracia voluntariosa e salvadora é um lugar-comum nos comentários de jornalistas, economistas e acadêmicos, como se a existência mesma do livre mercado fosse uma corrupção moral tolerável dentro dos limites da benevolência do Estado. A crise de 1929 é o espantalho destes notórios profetas, relembrando a figura do New Deal e de Roosevelt como salvadores do malvado e corrompido capitalismo norte-americano. Este mito, forjado nos anos 30, não deixou de ter um dedo da União Soviética, já que muitos tecnocratas da administração Roosevelt eram francamente stalinistas, fanáticos estatólatras. Aliás, a idéia da burocracia voluntariosa e sábia chegou a ser uma mania daqueles tempos. É paradoxal que eles exaltassem as medidas de planejamento centralizado bolchevista, quando na mesma época, a União Soviética experimentava o maior surto de fome e miséria de sua história, com a coletivização das terras na Ucrânia. Tragédia que custou a vida de milhões de ucranianos pela fome e reduziu o país ao canibalismo. Em suma, a desproporção, além de desonesta, é paranóica.

É desonesta e paranóica porque falsifica a compreensão histórica do século XX. Se há algo que se tem de rememorar no Estado contemporâneo é o de ser organismo mais destrutivo que se tem notícia. As piores crises econômicas do capitalismo foram justamente causadas pela intervenção estatal. Aliás, se há algo que o Estado fez, em todo o século passado, foi criar problemas inexistentes para depois presumir resolvê-los. Estranha metodologia, porém, perfeitamente compreensível, em parte, pela idéia mítica do Estado engenheiro social e de uma sociedade lapidável, tal como uma argila de um oleiro. O governo intervém na economia e na sociedade civil em nome de resolver seus problemas. Quando ele não os resolve, ou mais, piora os males, exige mais burocracias e, em nome disso, mais poderes sobre a sociedade civil. E cada vez mais, o Estado destrói a vitalidade, a espontaneidade, a capacidade criativa da sociedade, para tornar tudo sumariamente coercitivo, compulsório, forçado. É espantoso que o processo seja um circulo vicioso, uma espécie de louca autofagia. E além de não resolver os velhos problemas que se propõe, o Estado cria outros novos, inexistentes, até o dia em que a sociedade definha.

Não é novidade, para os mais estudiosos, que a crise de 1929, como a crise atual, tem no Estado o seu maior responsável. Todavia, o espírito totalitário e idolátrico do Estado parece bem vivo na mente de muitas pessoas, como atávicas a um processo de servidão. É estranho bradar a crise de 1929 como o pecado original do capitalismo liberal, quando na verdade, seus diletantes escamoteiem os fracassos (e por que não dizer, crimes?) da economia estatal planejadora. Isso porque há de se recordar, a crise de 1929, como a crise americana atual, é pecado original do espírito planejador do Estado.

Uma boa parte dos que aderiram ao discurso de morte do capitalismo tem o espírito stalinista dentro de seus devidos corações. São as viúvas do Muro de Berlim, os nostálgicos da Gosplan soviética da vida, amantes naturais da ditadura comunista chinesa, cubana e norte-coreana, que odeiam o sistema de liberdades civis, no qual os americanos representam seu maior símbolo. Nesta lista entram os fracassados caudilhos cripto-comunistas, os Chavez, os Morales da selva latino-americana , junto com seus adeptos cretinos do fracasso permanente, que de tão permanente, acabam se tornando um sucesso insistente de público. São verdadeiros fantasmas brigando contra a realidade viva. Até porque o livre mercado e a propriedade privada são garantias materiais para as liberdades civis que o ocidente usufrui. São essas instituições que preservam os direitos individuais, sem os quais, o Estado controla tudo e a sociedade é subjugada. São, em suma, garantias para o progresso natural da economia. O resto é conversa mole!

Esta crise é mais um colapso gerado pelo capitalismo?

via Austríaco
O texto abaixo foi enviado para um professor que solicitou as minhas considerações sobre o distúrbio econômico planetário.



Caro Professor,

Conforme provocado, eu estava lendo os jornais de fim de semana, e constatei que todos os editoriais afirmam compulsivamente o clássico chavão: a crise é do capitalismo!

Na esteira disso, significa aquela história bem conhecida: o livre mercado é em si gerador compulsivo de surtos irracionais de crescimento, euforia, motivado pela ganância dos homens que conduz a uma situação insustentável que, para corrigi-la, somente a ação do bem-feitor desta humanidade egoísta: o nosso velho amigo Estado.

Surpreendentemente (nem tanto, confesso), é que TODOS, jornalistas, economistas, burocratas, artistas, jogadores de futebol, atrizes pornôs e por aí vai, repetem esta estória falssíssima. Porém, uma leitura, mesmo que rápida, nos escritos dos economistas austríacos, começando por Ludwig von Mises num de seus tratados de 1912 (veja, 1912!) verifica-se que a grande causa das crises econômicas como a de 1929 e esta que estamos vivendo é fruto não do liberalismo econômico, da ganância dos investidores, mas sim do intervencionismo estatal, ou seja, da ausência de liberalismo econômico.

Explico: os economistas austríacos notaram que quando o governo injeta moeda em excesso na economia - e ele tem vários meios para fazer isto, seja imprimindo moeda papel, seja gastando mais que arrecada, seja baixando os juros a canetaço - ele estará emitindo sinais para os agentes econômicos de que existe mais poupança para investimento do que a realmente existente (existe uma lei econômica que revela que sem poupança não existe investimento). Portanto, estas intervenções estatais têm um influente poder de decidir os rumos da economia. Basta os burocratas usarem a máquina. O problema é que estas medidas artificiais de impulsionar o crescimento trazem consigo um custo altíssimo. Injetar moeda na economia é como dar álcool para o alcoólatra. No inicío gera euforia; se insistir, resultará numa cirrose hepática, para dizer o mínimo.

É o que ocorre quando o governo injeta moeda no sistema econômico. No início mais pessoas têm acesso ao crédito, o dinheiro fica barato, projetos de investimentos que antes da política artificial eram inviáveis, agora se tornam viáveis. O cálculo econômico utilizado pelos investidores, sinaliza que os planos de investimentos em unidades de produção devem ser levados a cabo. Todos correm em busca de crédito, pois ele existe e está barato, e inicia-se uma fase de expansão. Mais empregos, consumo e riqueza são gerados. O problema, é que se o governo levar adiante esta medida, em breve haverá um impulso inflacionário. E aí se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Se o governo insistir na expansão monetária, a moeda começa a perder o seu valor, e os agentes começam a "ver" que os preços estão subindo a cada dia. Aumenta a incerteza, vem o pânico. Em suma, dar mais álcool ao bêbado, levará ele ao coma ou à morte. Então, o governo se vê obrigado a aumentar os juros, a adotar políticas restritivas. E o quê, na prática, isto representa: aumento dos juros, menos gasto público, menos tinta na impressora da casa da moeda.

Estas medidas, por seu lado, simplesmente anunciam aos investidores que seu projetos anteriormente iniciados se revelaram inviáveis, que simplesmente não são mais lucrativos. Começa um período de demissões e quebradeira. A expansão inicial se transforma em crise e depressão.

É isto o que ocorreu em 1929 e é precisamente isto o que está ocorrendo agora. Nada de crise do capitalismo ou das "forças irracionais do mercado". É a mais estrita crise das forças irracionais do Estado intervencionista. De novo e sempre!

Dizer que os economistas foram incapazes de prever mais esta crise, como todos alardeiam por aí, é ignorância e prepotência de classe. Os economistas austríacos, para quem acompanha o site http://www.mises.org/, vem insistentemente, ao longo dos últimos tempos, anunciando que o artificialismo gerado pelo FED desde 2003 estava com os dias contados. Que a crise em breve viria. Mas quem dá ouvidos à economistas que defendem o Estado mínimo; que exigem a ausência total dos tentáculos do Estado operando no sistema econômico? Imagina quantos poderosos encastelados nos governos e na ONU estariam desempregados se fosse dado ouvidos aos economistas austríacos!

Por fim, veja que intessante e elucidativo este esquema aqui: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=168

E se tiver um interesse geral, este guia da crise é muito revelador: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=162

Até meses atrás só quem lia inglês tinha acesso à estes textos. Graças ao esforço de alguns guerreiros, agora, nós brasileiros, estamos tendo acesso à eles via o site do Mises Brasil. Mas mesmo assim, é imperdoável ver "especialistas" dizer que ninguém previu a crise, ou o que é ainda pior: que a crise é do liberalismo econômico ganancioso. Bela empulhação.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Peter Schiff e Bill Poole na CNN (14/10/08)

O Estado da Crise

por de Luciano Amaral
via O Insurgente


Vale a pena começar pelo início: esta é uma crise financeira e bancária, e o sector é provavelmente o mais regulado e intervencionado pelo Estado dos sectores privados. É um sector cujo “produto” (o dinheiro), em primeira instância, é produzido em condições de monopólio pelo Estado, o qual, de resto, define o seu preço arbitrariamente. É também um sector cujas empresas dependem de autorização discricionária do Estado: não se abre um banco como uma loja de ferragens; é o Estado quem autoriza a sua abertura e quem define as condições de operação, impondo regras e regulação muito estritas. Mais: toda a regulação bancária conduz a uma intervenção constante do Estado. Nos EUA, por exemplo, o problema do subprime tem origem em décadas de uma política habitacional cujo objectivo foi garantir a propriedade de uma casa para o maior número, mas através de uma curiosa forma de “desorçamentação”: em vez de o dinheiro sair das contas públicas, passou a sair do mercado de capitais, onde as operações das instituições financeiras eram “garantidas” por entes públicos ou semi-públicos. Mas não se trata de um exclusivo americano: com métodos diferentes, todo o mundo ocidental seguiu a mesma ideia. Não admira, por isso, o trânsito de pessoal entre instituições financeiras e públicas. Hank Paulson é já o segundo secretário do Tesouro vindo da Goldman Sachs. Mas, mais uma vez, não se trata de um exclusivo americano.

Se dependessem apenas das contas públicas, os Estados ocidentais praticamente não conseguiriam fazer políticas sociais. Caso se aplicassem as regras actuariais privadas aos Estados, a Bélgica, a Itália ou o Japão já teriam falido muito antes da Lehman Brothers. Vale a pena perguntar: é o fim do “ultra neoliberalismo” (que ninguém sabe o que seja) ou do Estado-Providência como o conhecemos?