terça-feira, 19 de agosto de 2008

Pequenos monstros

João Pereira Coutinho, na Folha

Confesso: tenho assistido aos Jogos Olímpicos. A culpa não é minha. A culpa é da diferença horária: quando vou para a cama, Pequim está acordado. Deitado no leito, com a tv ligada, acompanho os exercícios. E a insônia vem a seguir.

Insônia por que? Por causa dos atletas chineses. Nada tenho contra chineses. Mas é difícil resistir ao rosto dessa gente. Americanos, russos, europeus, brasileiros - tudo gente normal, com as alegrias e tristezas de gente normal. Mas os chineses são outra história: o rosto exibe uma tensão e uma infelicidade que não se encontram nos outros. E quando falham, isso não representa uma derrota para os atletas. Representa uma tragédia de contornos apocalípticos. Como explicar o fenômeno?

Infelizmente, com política. Os Jogos não são mero desporto para a China; são uma forma do regime mostrar superioridade perante o mundo (tradução: perante os EUA), vencendo mais medalhas e apresentando uma organização imaculada, onde o fogo de artifício é gerado por computador e crianças inestéticas são dubladas por rostos mais fotogênicos. Um atleta chinês, quando entra em cena, está em guerra diplomática. Perder é morrer.

Mas existe uma razão adicional e pessoal: há trinta anos que a China persiste na sua política do filho único como forma de limitar a explosão demográfica. E essa política tem um preço: quando os casais têm um único filho, a pressão e as expectativas de sucesso aumentam, esmagando os desgraçados. A China criou uma juventude admirável: pequenos monstros que jogam a existência, sua e dos progenitores, em cada prova desportiva ou académica.

A revista "Psychology Today" relembrou recentemente alguns números a respeito. Números que arrepiam. Anualmente, as universidades chinesas produzem 4 milhões de diplomados. Mas a China, apesar do boom económico, apenas consegue absorver menos de metade. O desemprego é o caminho para a maioria, isso numa cultura que nunca tolerou pacificamente o fracasso.

Moral da história? Para começar, o suicídio é a primeira causa de morte entre os chineses mais jovens (entre os 20-35 anos); e só entre os universitários, 25% têm recorrentes pensamentos suicidas (nos EUA, por exemplo, só 6%). Conta a revista que a China lidera os problemas psiquiátricos entre crianças e adolescentes, com 30 milhões a necessitar de acompanhamento psicológico, que aliás não existe: uma das heranças perversas da tirania de Mao foi percepcionar os problemas psicológicos como "anti-socialistas", enviando os "reacionários" problemáticos para campos de trabalho.

Sim, o Brasil pode lamentar as medalhas perdidas. Mas existe um prémio de consolação: os jovens brasileiros entram e saem da China com a cabeça intacta. A sanidade vale ouro.

sábado, 16 de agosto de 2008

Fiquem ricos!

Por Carlos Alberto Sardenberg, do Ordem Livre

Rosa: "Eu quero viajar mais, eu quero passar um tempo fora estudando. Dá pra chegar no fim do mês com o orçamento tranqüilo, mas a gente sempre quer alguma coisa melhor."

A frase, de uma moça, promotora de eventos, encerrou reportagem do "Jornal da Globo", edição de terça-feira, sobre a emergência da classe média, apontada em pesquisa da FGV.

A escolha da personagem, um achado, levanta as questões corretas. Quem é Rosa? Uma pessoa egoísta, preocupada apenas com sua situação individual? Ou um agente de transformações sociais e econômicas para o país?

Não há exclusão. Rosa desempenha os dois papéis. Na verdade, quanto mais conseguir melhorar a sua vida, maior impacto positivo ela levará para a sociedade.

É possível medir o dinamismo de um país, e talvez seja mesmo a melhor medida, avaliando quanto as pessoas conseguem evoluir ao longo de sua vida. Se uma pessoa começa sua atividade profissional vendendo salgadinhos de porta em porta e termina dona de uma rede de restaurantes, isso representa um êxito individual, é óbvio, mas também mostra que o país abriu a oportunidade para essa criação de valor - para ela e para a sociedade.

Do mesmo modo se a pessoa se torna um profissional competente, produtivo, ganhou ela, ganhou a companhia onde trabalha, ganhou a sociedade.

Dito assim, parece simples. Mas quando se observa o cenário nacional, parece que muita gente pensa exatamente o contrário, que o governo é o principal agente do desenvolvimento.

Eis dois exemplos, dois temas em discussão dentro e fora do governo, que tratam de coisas muito diferentes, mas que resultam da mesma concepção ideológica: 1) a proposta de aumento do imposto de renda da pessoa física; e 2) a proposta de criação de uma estatal "pura" para explorar o petróleo da camada do pré-sal.

Nos dois casos, está entendido que o país melhora quando se coloca mais dinheiro nas mãos do governo. Mas se fosse assim, o Brasil deveria ser o melhor entre os emergentes, pois é aqui que está a maior carga tributária nesse grupo de nações.

Também se fosse assim, os setores estatizados na economia brasileira deveriam ir melhor que os privados.

E não é assim. Na verdade, a ascensão da classe média e seu modo de vida provam o contrário, que o Estado fracassa até naquelas que deveriam ser suas funções essenciais.

A classe média, assim que pode, paga planos de saúde privados, coloca seus filhos em escolas particulares e compra um fundo de pensão pessoal. Por que faz isso, mesmo sabendo que, querendo ou não, paga os impostos que financiam aqueles mesmos serviços prestados pelo Estado? Porque é elitista ou porque se julga mais bem atendida no privado?

Olhando pelo outro lado: as empresas privadas de saúde, que hoje atendem mais de 45 milhões de pessoas, as escolas e as universidades particulares, que atendem mais alunos que as públicas, e as instituições financeiras privadas são parasitas ou companhias que geram serviço, valor e empregos?

Sendo as respostas óbvias, pelo simples bom senso, deveria resultar daí uma política de redução de impostos para a classe média e, ao mesmo tempo, de melhora no ambiente de negócios para que pudessem prosperar as famílias e as empresas.

No caso do petróleo do pré-sal, argumenta-se que será necessária uma estatal "pura" para que essa riqueza toda pertença ao povo brasileiro. Mas quem disse que pertencendo ao governo e sendo administrada pelo governo, essa coisa sempre pertence ao povo? O que o povo ganha quando o governo ocupa as estatais com seus correligionários e coloca obras em estados e cidades administrados pelos aliados políticos?

Por outro lado, quem disse que as companhias privadas geram riqueza apenas para seus acionistas? Exatamente como acontece com as pessoas quando melhoram de vida, quando as empresas crescem, produzem mais, geram mais valor e empregos, é a economia local que se torna mais rica. Resumindo, um país é tão rico quanto seus cidadãos e suas empresas.

Mais ainda, o que gera crescimento é o investimento e a criação de valor pelas pessoas e empresas privadas. O governo, quando transfere renda, não cria nada, apenas tira de uns e entrega a outros. O governo ajuda a criar valor quando, por exemplo, oferece boas escolas e segurança para que as pessoas vivam, trabalhem e se apropriem do fruto de seu desempenho. E quando oferece segurança jurídica e bom ambiente de negócios para as empresas, o que não faz corretamente.

Putin, o terrível

por Alvaro Vargas Llosa
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Em Reconstruindo a Rússia, publicado quando a União Soviética estava à beira do colapso, Alexander Solzhenitsyn escreveu que "o despertar da autoconsciência nacional russa tem sido, a longo prazo, incapaz de livrar a Rússia da idéia de super potência e de delírios imperiais. Tomou conta dos comunistas a noção falsa e forçada do patriotismo soviético". Como todas declarações proféticas, era uma leitura sagaz do presente, não do futuro. A invasão russa à Geórgia é poderosa confirmação das palavras de Solzhenitsyn.

Obviamente, pode-se reverter sua argumentação: o imperialismo soviético era uma continuação, não um antecedente, do nacionalismo russo. Vladimir Putin e seu lacaio, o presidente Dmitry Medvedev, reviveram a tradição de expansionismo russo que data a Ivã, o Terrível . A invasão da Geórgia ecoa a anexação russa daquela país em 1801 e novamente em 1921, quando os soviéticos esmagaram uma independência georgiana de curta duração.

Isso tem pouco a ver com proteger os ossetianos do sul, que há poucos anos estavam lutando pela independência tanto da Geórgia quanto da Rússia. E tem pouco a ver com o nítido erro de cálculo do presidente georgiano, Mikheil Saakashvili, ao responder a última provocação da Ossétia do Sul tentando garantir o controle militar daquela região. A Rússia estava planejando isso há algum tempo, como ficou demonstrado pela espantosa eficiência do ataque, com alvos bem além da Ossétia do Sul e da Abkhazia, outra região rebelde, e mobilizando sua frota do Mar Negro.

Seria um erro grosseiro achar que a casus belli possa ser relacionada a ações do Ocidente, como o reconhecimento da independência de Kosovo em detrimento dos sérvios aliados da Rússia ou a pressão da Otan por um sistema antimíssil na Europa Central. Mas esses movimentos imprudentes, por causa da psicologia dos líderes de Moscou, não vieram antes do surgimento do nacionalismo pós-soviético na Rússia.

Bem ao contrário: a expansão externa de Moscou é a continuação lógica do regime autoritário doméstico, que Putin está consolidando há algum tempo com a ajuda do dinheiro abundante do petróleo e do gás natural.

Primeiro, Putin conseguiu que as frágeis instituições democráticas de seu país fossem substituídas por organizações autocráticas. A maioria do sistema de fiscalização foi neutralizada: o Judiciário, partidos políticos, governos locais, a mídia, empresas privadas, regiões separatistas.

As forças de segurança, a Igreja Ortodoxa e a indústria energética se tornaram os pilares do novo regime. Os dois primeiros, já com os pés no nacionalismo russo, precisaram de poucos expurgos. O setor energético exigiu algum trabalho, essa é a razão pela qual a gigantesca empresa Yukos quebrou e sua subsidiária de petróleo foi englobada pelo governo, como foi a Gazprom , a maior produtora de gás natural do mundo.

Uma vez que o controle do Kremlin foi estabelecido, havia pouco o que se pudesse fazer sobre o expansionismo russo. A Europa importa grande quantidade de gás natural e de petróleo da Rússia. A ameaça de reduzir ou interromper os fornecimentos - por exemplo, ao interromper o embarque pela Ucrânia, uma importante rota -, serviu como chantagem à União Européia.

A Rússia gostaria de ter em suas mãos tudo que fica entre o Báltico e o Cáucaso (além disso, seu grande vizinho ao sul, o Cazaquistão, governado por uma tirania sentada no petróleo, já um grande amigo de Moscou).

Mas há alguns obstáculos, incluindo o fato que o Báltico e a maioria dos Balcãs faz parte da União Européia e da Otan. O que deixa a Geórgia e a Ucrânia - cujas revoluções em 2003 e 2004 foram vistas com uma poderosa declaração dos valores ocidentais na região que a Rússia considera como seu quintal - como os alvos mais fáceis.

Os nacionalistas russos, que são impetuosos mas não loucos, sabem muito bem que a Europa Central está fora do alcance, mas eles poderiam minar seriamente esses países se controlarem o vizinho de porta deles, a Ucrânia. E a Geórgia ainda lhes daria controle da rota entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, o que quer dizer o Mediterrâneo.

O que temos visto na Geórgia, nos últimos dias, é nada menos do que a decisão perfeitamente racional da Rússia em dar um passo adiante no nacionalismo renascido do país.

É importante entender essa realidade, agora que o debate sobre isolar, se aliar ou ignorar a Rússia deve começar a ficar mais sério no Ocidente.

Em 1990, Solzhenitsyn - ele próprio um tipo de nacionalista russo - escreveu que "deve ser dito bem alto ... que ... a Transcaucásia será separada inequívoca e irreversivelmente" da Rússia. Imagino o que ele estaria pensando da decisão de seu amigo Putin, para provar que ele estava equivocado.

Rússia, Ocidente e apologia da desonra

por Reinaldo Azevedo

Já citei aqui, há muito tempo, um trecho, na tradução brasileira, de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Ele tenta identificar quando estamos diante de uma nova era: “Algo imponderável. Um presságio. Uma ilusão. Como quando um ímã larga a limalha, e esta se mistura toda outra vez. Como quando fios de novelos se desmancham. Quando um cortejo se dispersa. Quando uma orquestra começa a desafinar. (...) Idéias que antes possuíam um magro valor engordavam. Pessoas antigamente ignoradas tornavam-se famosas. O grosseiro se suaviza. (...) havia apenas um pouco de ruindade demais misturada ao que era bom, engano demais na verdade, flexibilidade demais nos significados (...)

Como se vê, o que vai acima é um conjunto de metáforas e percepções aparentemente desconexas, mas que dizem de modo inequívoco: alguma coisa está se perdendo... já se perdeu.

Temo mesmo — meu lado apocalíptico? — que o Ocidente esteja perdendo alguma coisa... já perdeu. O que é “o” Ocidente? Defino o meu: a sociedade que considera a democracia representativa inegociável, que garante os direitos individuais, em que as decisões coletivas visam à preservação desses direitos.

Esses são nossos fundamentos, nossa “Constituição”. Mas ela traz em si alguns riscos, não é? Porque nos garante a liberdade de visitar outros mundos, outras idéias, outras concepções, sempre se pode flertar com seus inimigos, com aqueles que cultivam valores que solapam as bases de sua existência. Não custa lembrar: o século passado foi marcado pela luta desse Ocidente livre contra forças internas aliadas do comunismo. O comunismo, na sua forma original, acabou, é evidente — a China que o diga. Mas remanesce a tentação, no Ocidente (aquele de que falo), de flertar com outros mundos.

Rússia

O comportamento da imprensa ocidental diante da invasão da Geórgia pelos russos faz-me vislumbrar aquela suave degradação de que trata Musil — ou aquela perversa agregação de valores rebaixados, subtraídos de sua essência. O dado mais escandaloso da abordagem feita pela imprensa livre — que coincide com a leitura da imprensa russa, que livre não é — é o dedo acusador contra os Estados Unidos e, ora..., seu presidente, George Bush. Tão logo o mandatário do principal fiador das democracias ocidentais reagiu à invasão, jogaram-lhe na cara: “Como pode o Bush que contrariou a decisão da ONU, ao invadir o Iraque, censurar a Rússia? Com que moral?”

Bem, em primeiro lugar, não contrariou a ONU coisa nenhuma, que não deu aval para a invasão do Iraque, mas também não vetou. Em segundo lugar, houve uma coalizão de países, goste-se ou não dela. Em terceiro, não foi uma invasão feita da noite para o dia, sem qualquer comunicação prévia. Em quarto, foram dadas algumas precondições para evitá-la, que o tirano Saddam Hussein se negou a cumprir. Em quinto, está documentado, o próprio governo iraquiano plantava mentiras sobre seus armamentos. Em sexto, o Iraque estava pronto para ser abrigo de terroristas; Em sétimo, tratava-se de um facínora fora de controle. Vá lá. Nada disso justificava a invasão? A emenda saiu pior do que o soneto? Pode ser. Podemos divergir sobre tudo o que vai acima, é óbvio. Mas o que isso tem a ver com a Rússia?

Até a independência de Kosowo entrou na jogada para conferir razoabilidade à invasão russa. Sim, se eu votasse naquele caso, teria sido contra. Até cheguei a fazer uma graça qualquer, lembrando a piada do pessoal do Casseta & Planeta sobre “Os Povos Desconhecidos que Ninguém Conhece”. A facilidade com que, por ali, se alega alguma divergência, sei lá, do século 11 para reivindicar a independência de uma aldeia é impressionante.

E por que se lembrou de Kosowso? Ah, se os EUA apoiaram a sua independência, então deveriam fazer o mesmo com a Ossétia do Sul. Se isso tem importância (eu acho que não tem), acato como lógico o raciocínio. Mas e da Rússia? Não se cobra o mesmo? Se o país foi contra o separatismo de Kosowo, por que é favorável ao da Ossétia do Sul?

Nada com isso

Não, senhores! O Ocidente — e os Estados Unidos — não têm nenhuma responsabilidade factual ou moral com o que acontece na Geórgia. Vamos condenar Washington por ter tentado atrair o país para a sua órbita de influência (faz o mesmo com a Ucrânia e com a Polônia)? Bem, não condeno. Aplaudo. Acho que é isso mesmo que deve ser feito. Porque prefiro esses países — e, se possível, todos os outros — sob a influência das democracias ocidentais. “Ah, mas a Casa Branca deu com os burros n’água”. E daí? Em que a impossibilidade de os americanos ajudarem militarmente a Geórgia, sem que levasse o mundo à beira do abismo, mudaria o caráter da ação russa, sua brutalidade, seu desprezo por qualquer dos valores que nos são caros? Em nada! “Os EUA que não tentassem atrair a Geórgia”. Entendi: como diz um funk insuportável, ouvido por alguns idiotas a todo volume nas ruas, “Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”.

Ok. Cada um no seu quadrado? Então eu escolho o meu: e o meu quadrado é o das democracias ocidentais, que precisam de quem as defenda. E noto a propósito: há uma diferença brutal de clareza entre John McCain e Barack Obama no que concerne à questão russa. O candidato republicano censurou o Kremlin com palavras insofismáveis. Obama? Usou variantes do seu “change”. A tática do democrata tem sido esta: quando não sabe o que dizer, afirma que a pergunta está errada.

Desmoralizados

Os críticos dos Estados Unidos — e, na prática, benevolentes com Vladimir Putin — foram desmoralizados pelo próprio governo russo. Este já deixou claro que não reconhece a integridade territorial da Geórgia e que dará apoio objetivo, militar, à “independência” da Ossétia do Sul e da Abkházia. A precipitação da crise serviu apenas para apressar o que já estava em curso.

Só isso? Não! O chanceler russo ameaçou — a palavra é essa — todas as nações da região que censuraram a invasão da Geórgia, em especial os países bálticos e a Ucrânia. Na prática, é como se dissesse que a independência conquistada com o fim da União Soviética é mais retórica do que real. E nem assim Putin viu seu prestígio cair na imprensa ocidental. Continua a ser tratado como um fino estrategista, quase um mago, uma espécie de redenção do velho império soviético, finalmente capaz de arrostar, de novo, com o inimigo ocidental: os EUA. Em parte é verdade. Curioso que se veja “o inimigo” com olhos... russos — ou, ainda, soviéticos.

E o tal Ocidente vai fazer o quê? A frase emblemática, infinitamente mais ampla, é certo, em horas assim é a famosa frase de Churchill referindo-se ao acordo celebrado por Chamberlain e Dalladier com Hitler: “Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra e terão a guerra”.

A palavra de ordem, nestes tempos em que se forja aquela “nova era” de que fala Musil, é escolher a desonra para evitar a guerra...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Sem liberdade

por Bruno Garschagen n'O Globo, 11/08/2008
via O Insurgente


Num dos mais vigorosos romances da literatura mundial (Crime e castigo, de Dostoiévski), o protagonista Raskolnikov legitimou a morte de uma velha usurária sob o argumento de que certas pessoas mereciam morrer pelo bem da humanidade. Estudante de medicina, ruminou uma teoria segundo a qual certos homens, por seu intelecto superior, estavam isentos de leis morais. Não deu outra: rachou o crânio da velhota com um machado.

Não é novidade na história a criação das teses mais infames para legitimar toda a sorte de iniqüidades. O grande perigo dessas idéias é que muitas têm um método lógico. Mas o método nem sempre conduz à verdade, já apontara Eric Voegelin no estupendo A nova ciência da política. Mais do que isso: a falácia transformou períodos da história num grande cemitério de vítimas úteis.

O fenômeno novo a se considerar é o desenvolvimento econômico usado por governos fortes para legitimar seus vícios, como o autoritarismo e a violação de liberdades civis e dos direitos humanos. O desempenho da economia foi convertido em instrumento de legitimação de poder.

A China, que sedia os Jogos Olímpicos 2008, é o exemplo claro de país cujo impressionante crescimento econômico é usado como habeas corpus perante a sociedade internacional e ao seu povo. Se antes o poder no país era legitimado na figura de Mao Zedong, as reformas econômicas sem democracia realizadas por Deng Xiaoping deslocaram a fonte de legitimidade para o desempenho da economia.

Qual é o busílis? Para além da repulsa que todo homem civilizado deve manter contra poderes que violam os indivíduos em nome de um projeto de reengenharia política e social, o impressionante crescimento econômico chinês sequer foi capaz de melhorar a vida da maior parte dos cidadãos, que chafurdam na miséria. Só uma pequena parcela dos indivíduos que vivem sob essa autocracia liberal (na precisa definição de Fareed Zakaria) é beneficiada pelos investimentos e aumento da renda per capita.

Nem as reformas e o crescimento fizeram da China um país com liberdade econômica. No índice 2008 da Heritage Foundation ocupa um vergonhoso 126° lugar; no Economic Freedom of the World, dos institutos Fraser e Cato, ocupa a 95ª posição. Liberdades civis e direitos políticos? Necas. Desde 1998 é classificado como um país not free (sem liberdade) pelo think thank Freedom House (The worst of the worst: the world’s most repressive societies 2008).

A China, quanto mais se fortalece economicamente, mais fragiliza as liberdades de seus cidadãos. Porque tratar o crescimento econômico como um fim em si mesmo abre uma vereda para todo tipo de ataque contra os indivíduos e os modos de vida (leiam O desenvolvimento como liberdade, de Amartya Sen). É o método do governo chinês para justificar a restrição dos direitos como garantia da unidade, paz e segurança do país. Os comunistas chineses, assim como Raskolnikov, se vêem como seres superiores e isentos de leis morais.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A Lei da Anistia e as três mentiras. Ou: "Nada devemos aos terroristas, mortos ou vivos"

por Reinaldo Azevedo

Uma das falácias mais bem-urdidas pelas esquerdas é a de que os atos terroristas cometidos durante o regime militar eram a única forma de contestação política num ambiente sufocado pela ditadura. Trata-se de uma mentira histórica, de uma mentira política e de uma mentira moral, a que só se pode aderir ou por alinhamento ideológico ou por falta de bibliografia específica.

Mentira histórica

A mentira é história porque a decisão de certas correntes de partir para a luta armada antecede em muito a decretação do AI-5, em dezembro de 1968. Pior ainda: antecede o próprio golpe militar de 1964. Vale dizer: correntes de esquerda discutiam abertamente a luta armada como opção para chegar ao poder, embaladas pela revolução cubana, embora o país fosse uma democracia. Mais: João Goulart havia levado a subversão para dentro do governo. E notem: sei que a palavra “subversão” deixa muita gente indignada. Não me refiro necessariamente à pauta da esquerda, não. Refiro-me ao desrespeito às regras do estado democrático e de direito que garantiam a legitimidade do próprio Jango.

Ora, quem rompe com as regras que garantem a sua própria legitimidade está ou não está se expondo a um golpe? Está ou não está abrindo o caminho para que outros o façam — e com pauta própria? Não são pequenas, aliás, as evidências de que Jango preparava o autogolpe. Seja como for, a Presidência da República optou pela desordem. Isso justifica o golpe? A pergunta está errada. Isso explica o golpe. O primeiro dever de um democrata é preservar as leis que garantem o seu poder e a sua legitimidade, elegendo o foro adequado para mudá-las: o Congresso. E nem ao Congresso é dado todo o poder, já que ele também não pode extinguir a base legal que o sustenta. Leis nascem de pactos. Mas, no estado de direito, já disse um jurista de primeiro time, nenhum Poder é soberano — ou se joga Montesquieu no lixo. “Mas a gente não pode jogar Montesquieu no lixo?” Pode, claro. É preciso ver o que se vai pôr no lugar.

A mentira política

Os remanescentes do esquerdismo revanchista agem como se forças absolutas, essencialmente puras — o Bem de um lado e o Mal de outro — tivessem quebrado lanças durante o regime militar, com a vitória temporária do Mal, para que o Bem pudesse, finalmente, triunfar.

Não há um só documento, um miserável que seja, produzido pelas esquerdas antes ou depois do golpe, que evidencie que elas faziam a defesa da democracia. Ao contrário, sob a inspiração marxista, e leninista em particular, a democracia era vista apenas como uma trapaça, uma forma de a burguesia e de o imperialismo imporem a sua vontade por meio de instituições fajutas. Lamento dizer: é o que pensam, até hoje, algumas correntes do PT e alguns partidos que se dizem comunistas.

Será que se trata apenas de “algumas correntes do PT?” Não acreditem em mim quando falo deles; acredite neles quando falam de si mesmos. No vídeo convocatório para o seu Terceiro Congresso, ocorrido no fim de agosto do ano passado, o partido diz com todas as letras:
“Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de estado a seu serviço”. E mais adiante: “Não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É preciso mudar a sociedade para chegar ao governo.” O vídeo está aqui. Ora, eu sei que eles não conseguiriam reconstruir um estado soviético nem que quisessem. Mas podem muito bem corromper a democracia, como estão fazendo com seu arremedo de estado policial.

Então não venham me dizer que a opção pelo terrorismo e pela luta armada, durante o regime militar, era o caminho possível para reagir à falta de democracia porque, de fato, não queriam democracia nenhuma — como fica evidente nos remanescentes daquelas batalhas, que não a querem até hoje. A sua “democracia” corresponde ao que eles chamam, apelando a Gramsci, de construção da “hegemonia”. De novo: não se trata de uma heremonia ao velho estilo. O que procuram é tornar irrelevante o processo de alternância de poder por meio do domínio das instituições do estado. Não sou eu que os acuso disso. Eles é que o confessam.

Pré e pós-64, até o esmagamento das forças terroristas, ambicionavam o poder pela luta armada — e a democracia que se danasse. Depois da redemocratização, lutam pelo controle absoluto da burocracia do estado, usando como esbirros os tais movimentos sociais — e a democracia que se dane de novo.

Mentira moral

O vitimismo de que se fazem caudatários é uma mentira moral porque pretendem que o horror da tortura era mais condenável do que o horror do terrorismo: seqüestros, assassinatos, justiçamentos. Um torturador vagabundo que submeteu um prisioneiro a sevícias não nos livrou do comunismo e ainda corrompeu a luta de quem a ele se opunha com dignidade. Mas e o coronel da PM que teve a cabeça esmagada a coronhadas por esquerdistas? Lustra “atos revolucionários”? Temo que sim. Na verdade, tenho a certeza de que, para eles, sim. Porque aquelas esquerdas, afinal de contas, nunca se opuseram à tortura nos estados comunistas. E as remanescentes, vejam que curioso, jamais criticaram o regime cubano pela tortura de presos políticos. Pior do que isso: aplaudiram Fidel Castro quando executou três prisioneiros sem direito de defesa. Crime: tentaram fugir de cuba. O facinoroso, aliás, é 2.700 vezes mais assassino, já provei aqui, do que os ditadores brasileiros.

Isso justifica moralmente os torturadores nativos? Não! Mas o país encontrou um caminho para sair daquela cilada: a Lei da Anistia, que decidiu ignorar os execráveis excessos de todos os porões: os do regime e dos das esquerdas. Foi uma escolha política. Inicialmente, de fato, foi negociada por um Congresso ainda não plenamente livre. Mas, depois, na prática, foi adotada pela sociedade e, de fato, no que concerne à política, pacificou o país. De tal modo passamos a encarar a democracia como um imperativo, que, três anos depois da primeira eleição direta para presidente pós-ditadura, depôs-se o eleito. E sem crise de qualquer natureza.

Mas a mentira moral não se esgota no conteúdo ideológico do que pretendiam — ou pretendem — as esquerdas. Aceitar que o terrorismo era a única forma de luta contra a ditadura implica supor que a ação pacífica para depor o regime era uma tolice, uma inutilidade ou um capricho. E, claro, tal versão é uma indignidade. O que preparou o terreno para a volta da democracia foi a resistência pacífica dos que aqui ficaram e daqueles que, não podendo voltar ao país, endossaram a boa conspiração dos pequenos atos que foram fraturando o regime — finalmente quebrado sob os auspícios de uma crise econômica.

Mistificadores e ignorantes adoram afirmar que devemos as liberdades que temos ao sangue das vítimas que tombaram... MENTIRA!!! Lamento pelas vítimas que tombaram de um e de outro lados. Lamento por aqueles que foram submetidos a sevícias depois de presos — como ocorre hoje, habitualmente, nas cadeias brasileiras, sem que Paulo Vannuchi ou Tarso Genro soltem um pio —, mas não devemos as nossas liberdades aos mortos ou torturados do PC do B, aos mortos ou torturados da ALN; aos mortos ou torturados do MR-8. Se essa gente tivesse vencido, nós lhe deveríamos, isto sim, é o paredão. Devemos a nossa liberdade a gente como Ulysses Guimarães, como Alencar Furtado, como Franco Montoro, como Mário Covas, como Fernando Henrique Cardoso. Ah, sim, como Petrônio Portella, vindo lá da ditadura. E, acreditem, até como Golbery do Couto e Silva.

Aos terroristas mortos ou vivos? Não devemos nada! Assim como não devemos aos torturadores a derrota do comunismo. Devemos às esquerdas, isto sim, a mentira, ainda em curso, de que elas queriam o nosso bem, o que dá a seus herdeiros políticos licença para trapacear, para roubar, para mentir. Tudo em nome de um novo amanhã.

Não deixem que prospere a falácia.

A Nova Gestapo



Um trecho do diálogo registrado pelo Reinaldo Azevedo:

PROPRIETARIO – Tem mandado judicial?
POLICIAL – Negativo.
PROPRIETÁRIO – Não tem mandado judicial?
POLICIAL – Não temos mandado judicial.
PROPRIETÁRIO – Então eu não vou permitir vocês entrarem sem mandado judicial.
POLICIAL – Então nós vamos entrar à força.
PROPRIETÁRIO – Perfeitamente.
POLICIAL – Como está sendo feito em outras propriedades também.
SEGUNDO POLICIAL POLICIAL – O sr. pode esclarecer como o sr. vai resistir a isso?
PROPRIETÁRIO – Posso, posso, eu vou resistir...
SEGUNDO POLICIAL – Como?
PROPRIETÁRIO – Eu vou resistir dentro da legalidade, na Justiça.
SEGUNDO POLICIAL – O sr. vai resistir de alguma outra forma?
PROPRIETÁRIO – Eu vou resistir dentro da legalidade, na Justiça.
SEGUNDO POLICIAL – Ok. Tudo bem.

E os meganhas cortam o cadeado e invadem a fazenda. Sem mandado judicial.

Introdução do filme The Soviet Story

Não está (nem estará) em exibição em um cinema próximo de você...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

"Os mais iguais"

"A Revolução dos Bichos", de George Orwell, via Janaína, no Arrastão.

"Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.

Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado devido à falta de prática em manter seu volume naquela posição, mas em perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois, saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. Uns melhor que os outros, um ou dois até meio desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de uma bengala, mas todos fizeram a volta ao pátio bastante bem. Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó esganiçado do garnisé e emergiu Napoleão, majestosamente, desempenado, largando olhares arrogantes para os lados, com os cachorros brincando à sua volta.

Trazia nas mãos um chicote.

Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto aos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente em redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o choque e a despeito de tudo - a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importava o que sucedesse -, poderiam lançar uma palavra de protesto. Porém, exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas. em uníssono, estrondaram num espetacular balido:

- Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

Baliram durante cinco minutos sem cessar. E, quando se calaram, fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já haviam voltado para dentro da casa. Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco.

Minha vista está falhando - disse ela finalmente. - Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim?

Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS
MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS
IGUAIS DO QUE OS OUTROS

Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes nas patas. Nem estranharam ao saber que os porcos haviam comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas."

Falando às pedras

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio (editorial), 1 de agosto de 2008


Logo após a divulgação do “dossiê Brasil” na revista colombiana Cambio, confirmando tudo aquilo que há anos venho dizendo sobre a aliança PT-Farc, o chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, saiu alardeando que não tem qualquer "ligação estreita" com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e que o governo brasileiro "tem zero de relação com as Farc".

Não preciso contestar a dupla mentira. Já o fiz, com muita antecedência, no artigo “Simbiose obscena”, publicado em O Globo de 7 de fevereiro de 2004, no qual remetia os leitores “ao site http://www.nodo50.org/americalibre/consejo.htm para que vejam com seus próprios olhos a obscena simbiose entre a narcoguerrilha colombiana e a farsa petista que nos governa”.

“O endereço – prosseguia o artigo – é de América Libre, versão jornalística do Foro de São Paulo, fundada por (adivinhem) Frei Betto e hoje dirigida por (já adivinharam) Emir Sader. A revista prega abertamente a guerra revolucionária, a implantação do comunismo em toda a América Latina. Seu mais recente editorial proclama: ‘O 11 de setembro dos povos será, para a confraria da América Livre, um compromisso de honra. Será um encontro com os sonhos e com o desejo.’ Da primeira à última página, a coisa respinga sangue e ódio, de mistura com a velha retórica autodignificante que faz do genocídio comunista uma apoteose do amor à humanidade, condenando como fascista quem quer que veja nele algo de ruim. Na mesa do seu Conselho Editorial, quem se senta ao lado do líder das Farc, comandante Manuel Marulanda Vélez, o famigerado ‘Tiro Fijo’? Nada menos que o chefe de gabinete do sr. Lula, Gilberto Carvalho. Está lá também o deputado Greenhalg... Se isso não é promiscuidade, se isso não é cumplicidade por baixo do pano entre o nosso governo e o crime organizado, se isso não é uma tramóia muito suja, digam-me então o que é, porque minha imaginação tem limites. Estão lá ainda o dr. Leonardo Boff, o compositor Chico Buarque de Hollanda, ... e o inefável prof. Antônio Cândido...” (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/040207globo.htm).

Era o primeiro escalão inteiro da elite intelectual petista que, ao lado do próprio chefe do gabinete presidencial, conspirava ativamente com as Farc, com o MIR chileno e com outras organizações criminosas para a implantação do regime comunista no continente. Se os políticos ditos “de oposição”, os donos de jornais e canais de TV, os líderes empresariais, eclesiásticos e militares tivessem então consentido em examinar o documento que eu lhes exibia, não seria preciso, agora, uma revista colombiana lhes esfregar a verdade na cara, tarde demais para evitar a consolidação da quadrilha petista-farqueana no poder.

Na verdade, nem precisavam das minhas advertências. Em 7 de dezembro de 2001, o Foro de São Paulo, sob a presidência do sr. Luís Inácio Lula da Silva, já havia lançado um manifesto de apoio incondicional às Farc, no qual classificava como “terrorismo de Estado” as ações militares do governo colombiano contra essa organização. A mídia inteira e todas as lideranças políticas nacionais, sem exceção visível, abafaram esse fato para não prejudicar a candidatura Lula uns meses depois. Logo após o pleito de 2002, a existência de um conluio entre o presidente eleito e a esquerda radical latino-americana já se tornara ainda mais nítida pela duplicidade de línguas com que o homem falava para o público em geral, ante as câmeras, e para seus companheiros de militância comunista. Como mais tarde anotei em artigo do Jornal do Brasil (http://www.olavodecarvalho.org/semana/060413jb.html): “Enquanto a mídia local celebrava a lisura do pleito, o vencedor confessava ao Le Monde que a eleição tinha sido ‘apenas uma farsa, necessária à tomada do poder’, sendo confirmado nisso pelo sr. Marco Aurélio Garcia em declaração ao jornal argentino La Nación de 5 de outubro de 2002.” Em qualquer país decente, confissões abertas como essas suscitariam imediatamente uma tempestade de investigações e denúncias. No Brasil, foram recebidas com uma afetação de indiferença blasée por todos aqueles a quem, no fundo, elas aterrorizavam. Poucas condutas humanas se igualam, em baixeza, à covardia que começa por se camuflar de impassibilidade olímpica e, pela persistência, acaba por se transformar em cumplicidade ativa. Mas essas criaturas haviam investido tão pesado no slogan anestésico “Lula mudou”, que, para não reconhecer o erro, preferiram dobrar, triplicar e quadruplicar a aposta na mentira, até que contestá-la se tornasse, como de fato se tornou, prova de doença mental.

Graças a essa longa e pertinaz conspiração de omissões, a esquerda revolucionária teve todo o tempo e a tranqüilidade que poderia desejar para alterar o mapa do poder político brasileiro ao ponto de torná-lo irreconhecível. Quem manda no Brasil, hoje? Um bom indício é a propriedade da terra. Seis por cento do território nacional pertencem a estrangeiros, dez por cento ao MST, outros dez a “nações indígenas” já sob controle internacional informal, quinze ou vinte são controlados pelos narcotraficantes locais aliados às Farc, mais dez ou quinze estão para ser transferidos aos “quilombolas”. Na área restante, só os imensamente ricos conseguirão cumprir a exigência de “averbar reserva legal” (leiam o odioso decreto 6.514 de 22 de julho de 2008), os demais sendo obrigados a pagar multas que em breve tempo ultrapassarão o valor das suas propriedades, as quais então serão transferidas automaticamente ao governo. O que está acontecendo neste país é a mais vasta operação de confisco territorial já observado na história humana desde a coletivização da agricultura na URSS e na China – e as chamadas “elites”, sentadas sobre esse paiol de pólvora, com um sorriso amarelo na boca, só querem dar a impressão de que a paz reina, as instituições são sólidas e São Lulinha zela pelo bem de todos.

Outro indício seguro da distribuição do poder é a capacidade de mobilização das massas. Somem os partidos de esquerda, o MST, as centrais sindicais, as “pastorais de base” e porcarias semelhantes, e verão que, no instante em que quiser, a esquerda revolucionária tem condições de espalhar nas ruas não menos de cinco milhões de militantes enfurecidos, treinados para toda sorte de agitações e depredações, sem que o outro lado possa sequer reunir cinco dezenas de gatos pingados numa cerimônia religiosa. Consolidado pela omissão pusilânime de todos os que teriam o dever de impedir que ele se consolidasse, o monopólio esquerdista dos movimentos de massa marca a distância entre onipotência absoluta e impotência total e é, por si, um retrato do que o futuro reserva ao país.

Mas as organizações de esquerda têm algo mais que isso: têm, através das centrais sindicais, dos partidos e de uma rede imensurável de organizações militantes, o controle absoluto e incontestável de todos os serviços essenciais: transportes, eletricidade, água, telefonia. A um estalar de dedos, a liderança revolucionária pode paralisar o país inteiro, sem que a polícia ou mesmo as Forças Armadas tenham sequer a condição de dizer “ai”.

Mais ainda do que sua extensão descomunal, o que é notável nesse sistema de dominação é a sua integração, a sua unidade estratégica e funcional. As Farc não estão infiltradas só nos altos escalões da República: elas dominam também os “bas-fonds” da criminalidade, através de seus contatos com o PCC e o Comando Vermelho, por sua vez estreitamente articulados com o MST e organizações congêneres. De alto a baixo, a sociedade brasileira está à mercê da subversão e do crime.

Nada disso surgiu da noite para o dia. Tudo foi preparado e montado pouco a pouco, metodicamente, desde o advento da Nova República, diante dos olhos cegos e cérebros entorpecidos da liderança “direitista”, cuja preocupação predominante ou única, ao longo da construção desse engenho macabro, foi tapar as bocas dos inconvenientes que ousassem perturbar suas boas relações com o governo.

O quadro corresponde exatamente, milimetricamente, ao esquema da “revolução passiva” propugnado por Antonio Gramsci, em que só um lado age, enquanto o outro se deixa arrastar para o abismo com docilidade abjeta. Também isso expliquei antecipadamente, no meu livro de 1993, “A Nova Era e a Revolução Cultural”, que até coloquei à disposição dos leitores, gratuitamente, no meu site da internet (http://www.olavodecarvalho.org/livros/neindex.htm). Direi que foi como falar com pedras? Não sei, nunca falei com pedras. Agora sinto-me tentado a experimentar.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A História de um Lápis

Milton Friedman e a Ganância

Olavo viu o ovo

Barbara Gancia, na Folha de São Paulo, 01/08/08

MEA CULPA, MEA culpa, mea culpa... Eu achava que o jornalista, filósofo e escritor Olavo de Carvalho fosse um tarado delirante. Não que eu não respeite sua inteligência, o cara é simplesmente brilhante. Mas a obsessão que ele tem em apontar, lá da Virgínia, onde mora, comunistas comedores de criancinhas em todas as esquinas do Brasil sempre me causou um certo desconforto.

Depois da queda do Muro de Berlim, pensava esta imbecil que vos fala, a esquerda caiu na real e o próprio PT entendeu de uma vez por todas que o eleitor brasileiro não é afeito a radicalismos. Que a grande maioria das pessoas não pretende resolver o problema da distribuição de renda ateando fogo aos ônibus da periferia ou incitando a guerra no campo.

Há anos, Olavo de Carvalho vem batendo na tecla do Foro de São Paulo e, há anos, eu venho dizendo que ele não passa de um alarmista.
Que não tem nada de mais o ex-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Dulci, ou o assessor especial do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, sentirem vontade de rever velhos amigos tupamaros, sandinistas ou, sei lá, do Sendero Luminoso, duas vezinhas ao ano, em confraternização que reúne a esquerda moribunda da América Latina e do Caribe.

Afinal, o mundo mudou, não é mesmo? O que os caras podem estar tramando, se reorganizarem num ente político-partidário para reviver ideais marxistas? Montar uma guerrilha no quintal? Voltar à clandestinidade levando o Genoino? Todas as vezes em que vi Olavo de Carvalho alertar sobre o Foro de São Paulo e dizer que a turma que lá se reúne tinha segundas intenções, e que eles mentiam deslavadamente quando negavam a que vinham, eu achava que fosse alguma forma de senilidade precoce sua, um cacoete de quem está fora do país há tempo demais e não percebe que, aqui na terrinha, a democracia prevaleceu e se consolidou.

Pois, a julgar pela extensa reportagem publicada na revista colombiana "Cambio", sobre o envolvimento de autoridades petistas com as Farc, Olavo de Carvalho esteve certo todos esses anos.

Pensando bem, como pude ser tão tola? Só porque agora aluga todos os vôos disponíveis de jatinho no país, não quer dizer que José Dirceu tenha virado um John Maynard Keynes, não é mesmo? Pelo que a gente sabe, ele continua a chorar emocionado a cada vez que pisa em Cuba. E não é preciso ser nenhum gênio da lâmpada para saber que Marco Aurélio Garcia, o ex-ministro Roberto Amaral (aquele termocéfalo que fez uma trapalhada atrás da outra quando passou pelo Ministério da Ciência e Tecnologia) e o ministro Celso "Doha-a-Quem-Doer" Amorim (por falar em trapalhada...) também não mudaram de lado da noite para o dia, né não? Assim como Olavo de Carvalho, Lula também sabia o que estava acontecendo. Mesmo que seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, não tenha lhe fornecido detalhes da proximidade que ele e seus colegas mantinham com os guerrilheiros das Farc, diz a "Cambio" que Álvaro Uribe se encarregou de contar tudo ao presidente no encontro que os dois tiveram no dia 19 de julho.

Alô, presidente Lula! Agora que a vaca foi pro brejo, o que eu quero mesmo saber é: o dinheiro das Farc acaba indo parar na mão do PCC?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Filmes e séries “de direita”

por Pedro Sette Câmara

Aparentemente é impossível discutir O cavaleiro das trevas sem falar de seu subtexto político. Confesso que não consigo captar referências a McCain ou Obama, mas consigo entender de onde saem certas interpretações – as quais me parecem erradas. Por exemplo, Andrew Klavan, no Wall Street Journal, diz que o símbolo do morcego projetado no céu é na verdade um W, o mesmo que W que está no meio do nome do presidente George W. Bush. É difícil imaginar que essa referência fizesse parte das intenções da DC Comics algumas décadas atrás, mas enfim.

Batman também é comparado a Bush por combater o crime – o mal – usando seus próprios meios. Mas, ao menos no que diz respeito a O cavaleiro das trevas, a comparação continua falha, já que o Batman do filme faz tudo a contragosto e gostaria que o sistema funcionasse.

Mas há algo que une Batman e outros heróis dramáticos, como o Dr. House da série homônima, e talvez até Antígona – sim, a filha de Édipo – e que, em vez de ser uma conseqüência ou uma legitimação a posteriori de uma política já existente, pode ser um sinal de que o público americano está disposto a aceitar certos tipos de condutas.

O Dr. House não trabalha com o sistema. Ele quebra todos os protocolos e necessita de uma interface para manter sua posição – exatamente como o Batman depende um pouco do Comissário Gordon. O Dr. House faz o que lhe dá na telha, não presta satisfações, não obedece a hierarquia, e despreza todo mundo. Será Dr. House um direitista? O curioso é que até pouco tempo atrás qualquer coisa que representasse “o sistema” seria identificado com “estruturas burguesas” e o “transgressor” seria investido com o manto da virtude. A diferença de O cavaleiro das trevas para histórias antigas de transgressão é que o Batman gostaria que o sistema funcionasse. Ele não veio para denunciar o sistema, mas para tentar fortalecê-lo e enfrentar alguns fatos desagradáveis, como o de que a violência só pode ser administrada, mas não efetivamente erradicada.

Seria então o personagem que transgride para reforçar um apologista da direita? Seria o Dr. House, que afinal de contas salva vidas (não é esse o propósito da medicina?), um apologista da direita? E por que não colocar nessa galeria Antígona, que habitualmente (e erradamente) é lida como aquela que quis opor a religião à política?

Encarar o problema dessa maneira é, como já sugeri, perder de vista o principal. Essa leitura de Antígona e a existência de outros personagens são muito anteriores ao governo de George W. Bush. O que está em questão, aparentemente, é que, para o público americano, o herói é aquele que faz o que é certo sem considerar os custos – custos que, na maioria das vezes, não são pagos por ele. O herói está legitimado para fazer o que quer porque sabe mais ou é mais em algum sentido – o Dr. House, por exemplo, sempre diz que os pacientes são idiotas e decide em seu lugar. Mesmo que os americanos sejam bons de escrever dramas do tipo “os dois lados da questão”, ninguém nunca diz que talvez valha mais a pena morrer livre e responsável do que viver como um idiota.

Isso é o que nos traz ao ponto central. O “sistema” não deve existir em torno de conveniências, embora não possa se manter sem a idéia de conveniência (por exemplo, é melhor aceitar que a violência só pode ser administrada a rebaixar a condição humana tentando aboli-la). O sistema não pode prescindir das regras que lhe dão identidade, e que dão identidade até a uma sociedade, como a presunção de inocência, o direito de habeas corpus, o estado de direito e o livre mercado. Até agora não me parece que a esquerda tenha primado pela defesa intransigente, capaz de escandalizar-se com simples filmes, desse “sistema”. Parece-me que, se a direita está associada ao status quo, os transgressores continuarão na esquerda. Aqueles mesmos que vêm dizendo que não é possível fazer uma omelete sem quebrar os ovos. A única diferença é que os novos filmes e séries vêm colocando essa questão sem fazer a proposta de um novo sistema, de uma nova regra que substitua a regra velha e falida, mas admitindo que, para parafrasear T.S. Eliot, não é possível criar um sistema tão bom que dispense as pessoas de ser boas.

What Bush and Batman have in commom

by ANDREW KLAVAN, The Wall Street Journal

A cry for help goes out from a city beleaguered by violence and fear: A beam of light flashed into the night sky, the dark symbol of a bat projected onto the surface of the racing clouds...

Oh, wait a minute. That’s not a bat, actually. In fact, when you trace the outline with your finger, it looks kind of like... a “W.”

There seems to me no question that the Batman film “The Dark Knight,” currently breaking every box office record in history, is at some level a paean of praise to the fortitude and moral courage that has been shown by George W. Bush in this time of terror and war. Like W, Batman is vilified and despised for confronting terrorists in the only terms they understand. Like W, Batman sometimes has to push the boundaries of civil rights to deal with an emergency, certain that he will re-establish those boundaries when the emergency is past.

And like W, Batman understands that there is no moral equivalence between a free society — in which people sometimes make the wrong choices — and a criminal sect bent on destruction. The former must be cherished even in its moments of folly; the latter must be hounded to the gates of Hell.

“The Dark Knight,” then, is a conservative movie about the war on terror. And like another such film, last year’s “300,” “The Dark Knight” is making a fortune depicting the values and necessities that the Bush administration cannot seem to articulate for beans.

Conversely, time after time, left-wing films about the war on terror — films like “In The Valley of Elah,” “Rendition” and “Redacted” — which preach moral equivalence and advocate surrender, that disrespect the military and their mission, that seem unable to distinguish the difference between America and Islamo-fascism, have bombed more spectacularly than Operation Shock and Awe.

Why is it then that left-wingers feel free to make their films direct and realistic, whereas Hollywood conservatives have to put on a mask in order to speak what they know to be the truth? Why is it, indeed, that the conservative values that power our defense — values like morality, faith, self-sacrifice and the nobility of fighting for the right — only appear in fantasy or comic-inspired films like “300,” “Lord of the Rings,” “Narnia,” “Spiderman 3″ and now “The Dark Knight”?

The moment filmmakers take on the problem of Islamic terrorism in realistic films, suddenly those values vanish. The good guys become indistinguishable from the bad guys, and we end up denigrating the very heroes who defend us. Why should this be?

The answers to these questions seem to me to be embedded in the story of “The Dark Knight” itself: Doing what’s right is hard, and speaking the truth is dangerous. Many have been abhorred for it, some killed, one crucified.

Leftists frequently complain that right-wing morality is simplistic. Morality is relative, they say; nuanced, complex. They’re wrong, of course, even on their own terms.

Left and right, all Americans know that freedom is better than slavery, that love is better than hate, kindness better than cruelty, tolerance better than bigotry. We don’t always know how we know these things, and yet mysteriously we know them nonetheless.

The true complexity arises when we must defend these values in a world that does not universally embrace them — when we reach the place where we must be intolerant in order to defend tolerance, or unkind in order to defend kindness, or hateful in order to defend what we love.

When heroes arise who take those difficult duties on themselves, it is tempting for the rest of us to turn our backs on them, to vilify them in order to protect our own appearance of righteousness. We prosecute and execrate the violent soldier or the cruel interrogator in order to parade ourselves as paragons of the peaceful values they preserve. As Gary Oldman’s Commissioner Gordon says of the hated and hunted Batman, “He has to run away — because we have to chase him.”

That’s real moral complexity. And when our artistic community is ready to show that sometimes men must kill in order to preserve life; that sometimes they must violate their values in order to maintain those values; and that while movie stars may strut in the bright light of our adulation for pretending to be heroes, true heroes often must slink in the shadows, slump-shouldered and despised — then and only then will we be able to pay President Bush his due and make good and true films about the war on terror.

Perhaps that’s when Hollywood conservatives will be able to take off their masks and speak plainly in the light of day.

Mr. Klavan has won two Edgar Awards from the Mystery Writers of America. His new novel, “Empire of Lies” (An Otto Penzler Book, Harcourt), is about an ordinary man confronting the war on terror.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Obama, um “pogreçista”

por Reinaldo Azevedo

Onze entre 10 pogreçistas brasileiros, a exemplo do que ocorre em boa parte do mundo, é bom observar, se pudessem votar nas eleições americanas, escolheriam, sem sombra de dúvida, Barack Obama, a quem se atribuem qualidades de, sei lá eu, redentor dos oprimidos. Ou então se vêem nele virtudes realmente inéditas, de “mudança”, seja lá o que isso signifique. Em certo sentido, ou muitos, Barack é tão antigo!!!

Nos últimos tempos, convencionou-se dizer que é bobagem a história de que um governo republicano (menos protecionista), nos EUA, é melhor para países como o Brasil do que um democrata (mais protecionista). Será mesmo que isso é só um convencionalismo?

A Lei Agrícola aprovada pelo Congresso americano, hoje de maioria democrata, votou um teto de nada menos de US$ 48 bilhões de subsídios para a agricultura, além das tarifas de proteção para o etanol feito de milho. É mais de três vezes do que a proposta que os americanos levaram para a OMC e quase sete vezes o que foi de fato desembolsado no ano passado. E quem foi um defensor entusiasmado da proposta, protecionista até o osso? Barack Obama.

John McCain, o candidato republicano, para o qual os nossos pogrecistas — amantes da humanidade e dos pobres do planeta — torcem o nariz, votou contra o pacote agrícola e contra a proteção ao etanol de milho. Os nossos pogreçistas têm um estranho modo de ser antiimperialistas e de defender os interesses dos pobres.

Também se diz que Índia e China formam uma espécie de bloco, junto com o Brasil, contra os ricos da Europa e dos Estados Unidos. Mais ou menos: a Índia resiste em derrubar algumas barreiras agrícolas, o que favoreceria os brasileiros, e a China não quer nem ouvir falar em discutir com o Brasil a balança negativa — para nós! — no comércio bilateral.

O mundo é mais complicado do que faz crer certa retórica que pretende opor emergentes esforçados a países ricos e folgados.

Como a esquerda ficou oca

por Alexandre Barros, no Ordem Livre

Imaginem como a esquerda vai viver agoniada com uma China capitalista na qual Mao Tsé-tung se limita a enfeitar as notas de 20 yuans. A China tem mais milionários e mais bilionários que o Brasil.

Adeus às longas reuniões para discutir qual das linhas é mais válida: a chinesa, mais radical, ou a russa, que queria tomar o poder pela burguesia nacional. Os comunistas da linha chinesa e da linha russa viviam às turras para ver quem mais legitimamente representava o interesse dos oprimidos. Quem saiu do socialismo quer mesmo é melhorar de vida e consumir, tanto na Rússia, e em seus antigos satélites, quanto na China.

A China gera lucros, prazeres e empregos no Brasil, importando e exportando todo o tipo de coisas. Tem US$ 1 trilhão em reservas internacionais, obtido por meio de vendas capitalistas para países capitalistas. A cada ano alguns milhões de chineses entram no mercado consumidor.

Fidel é carta fora do baralho. Ainda vivo, mas fora do poder, não tem mais saúde para viajar e não despertará o fascínio que, confesso, nunca entendi, em suas visitas internacionais e em sua arenga.

A esquerda adorava a capacidade que Fidel tinha de entreter as massas com discursos de cinco horas. Achava isso fascinante. Passou despercebido um livro de um economista sueco sobre a economia do uso do tempo (Staffan Burenstam Linder, The Harried Leisure Class, NY: Columbia University Press: NY, 1970), no qual ele dá a resposta com muita simplicidade: isso só era possível porque não havia nenhuma alternativa em Cuba. Ninguém tinha mais nada para fazer em Cuba. Entre não fazer nada e ouvir Fidel, ouviam Fidel. Tenho dúvida se, de barriga vazia, gostavam do que ouviam.

Já pensaram: um presidente do Brasil falando por cinco horas na televisão? Ninguém iria assistir, porque o povo tem mais o que fazer.

O sistema de saúde era fantástico, até que alguém perguntou: como a saúde pode ser excelente num lugar em que as pessoas não têm o que comer? A esquerda perdeu a chance de ser politicamente correta dizendo que, em Cuba, não havia obesos...

Li, em algum jornal, que a última vitória de Fidel foi ter colocado o embargo cubano como tema central na eleição americana. Ora, esse argumento só se sustenta quando as pessoas ignoram que o dinamismo do capitalismo o leva rapidamente para onde está o lucro. Com Fidel fora, Cuba será um paraíso de lucros. Os capitalistas já estão cuidando disso. E os cubanos, certamente, viverão muito melhor.

Revolucionários voltavam de Cuba dizendo que o país era maravilhoso. Deliravam com a pobreza, a miséria, as casas e os carros caindo aos pedaços. Chamavam de beleza do socialismo. Quando questionados sobre os problemas, admitiam que, realmente, la revolución tinha uns probleminhas.

Poucos direitistas iam a Cuba, mas, mesmo os esquerdistas, depois de meia hora de elogios, se diziam chocados com um probleminha: a extensão da prostituição. Alguém inventou a anedota sobre a suposta genialidade retórica de Fidel. Quando confrontado com alguém que lhe disse: 'Mas, comandante, em Cuba as universitárias são obrigadas a prostituir-se.' Fidel teria respondido: 'Mentira capitalista! No és que las universitarias tienem que ser prostitutas. La verdad és que en Cuba las prostitutas van a la Universidad.'

Felizmente não teremos de conviver mais com agentes do Dops convocando na época um jovem professor da Universidade de Brasília (UnB) de quem haviam apreendido um livro que ele recebera pelo correio chamado Cuba: est il socialiste? Comparecendo ao Dops expliquei que o livro criticava o regime cubano e dizia que ele não passava de um autoritarismo barato. Cuba de socialista não tinha nada. O policial fez-me uma concessão. Disse que, como eu era professor da Universidade de Brasília, eu precisava saber das coisas. Ele ia liberar os livros. Ao outro livro nem prestou atenção, sorte minha. Chamava-se Manuel de Cryptographie.

Mudaram o Brasil e Cuba. Ainda bem.

Duros tempos em que Cuba chamava mais atenção da polícia do que a ciência de escrever em códigos. Mas também, naquele tempo, sem cartões corporativos, o açúcar da UnB era menos doce e o lixo era menos sujo.

E agora que não poderão mais pichar muros com as sete letras fatídicas: 'Fora FMI!' O FMI hoje é um ator em busca de um papel. Aposentam-se os funcionários que têm tempo suficiente e enxugam os quadros porque o FMI não tem mais clientes. Os países que mais tomavam emprestado do FMI aprenderam as lições do próprio Fundo. Não gastar mais do que ganham, realisticamente.

Acho que o FMI é um caso único de burocracia autodestrutiva: acabou com os problemas que o mantinham vivo e hoje batalha para encontrar um novo papel.

O prato final da esquerda também se esvaziou. Acabou a dívida externa, temperada com as perdas internacionais.

Que horror vai ser a vida daqui para adiante.

Nixon estava certo quando disse que o caso Watergate consumiu muitas toneladas de papel na década de 1970, nos anos 80 talvez rendesse uns livros, nos 90, alguns artigos e nos anos 2000 seria apenas algumas notas de rodapé.

Destino parecido terão os quatro temas prediletos da esquerda: o comunismo virou o capitalismo mais dinâmico do mundo nos anos 2000.

Fidel não é mito. Caminha para virar nota de rodapé.

O FMI batalha para sobreviver. Os países sensatamente, seguiram a receita, pararam de dar lucros ao Fundo e, controlando a inflação, melhoraram a vida de seu pobres.

Para a esquerda, 1968 foi o ano do protesto. 2008 é o do desalento. Pela primeira vez a esquerda não tem mais nada para celebrar com sua crítica.

Em tempo: nunca fui a Cuba, achava perda de tempo. Daqui a algum tempo, talvez vá.

Originalmente publicado em O Estado de S. Paulo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Nazistas no bom sentido

por Guilherme Fiúza

A política externa terceiro-mundista bolivariana guevarista do governo brasileiro está parecendo aquela cena em que o esquálido grita, diante do brutamontes: “Me segura!”

Não dá para saber o que é pior: o ministro Celso Amorim tentando dar uma de pitbull e comparando os países ricos com os nazistas, ou pondo o rabo entre as pernas e dizendo que não quis dizer isso.

Na preparação para a reunião da Rodada de Doha, Amorim disse que os negociadores dos países mais industrializados repetem mentiras sobre os subsídios agrícolas, para ver se elas colam. E comparou com a tática da propaganda nazista de Goebbels.

Depois disse que só queria se referir à tática, não ao nazismo. É mais ou menos como comparar o comportamento de alguém com o do Elias Maluco, e depois ressalvar que se referia ao hábito do assassino de falar de boca cheia, não o de matar pessoas.

O mais importante nesse episódio, porém, não é o grau de esperteza do chanceler brasileiro. É essa doutrina colegial de camundongo rugindo para o leão.

Essa linha atual do Itamaraty, que persegue pessoas – há diversos diplomatas brasileiros na geladeira – e manda Lula seguir Hugo Chávez (primeiro apóia as Farc, depois apóia Uribe), é a responsável por vexames como este último. Abrem mão da diplomacia inteligente para ficar organizando gritos de oprimidos contra o mundo cruel.

Esses G-20, G-200 ou G-qualquer coisa são patéticos. Blocos aritméticos sem qualquer unidade orgânica, sem pensamento ou ação engenhosa. São torcidas organizadas.

Usinas de retórica que os ricos rebatem com mais (e melhor) retórica. E continuam dando os subsídios que quiserem, fazendo o que bem entendem.

Ou o Brasil desiste da diplomacia do gritinho, larga esse antiamericanismo pueril e negocia que nem gente grande (sabendo que é mais fraco), ou se contenta com esse lugar no anedotário dos que citam o nazismo no bom sentido.

Tom Palmer discusses Time Capsule 2033

terça-feira, 8 de julho de 2008

Vacas de presépio

por Nariz Gelado

Segundo pesquisa do Datafolha divulgada hoje, 86% dos moradores de São Paulo e do Rio de Janeiro aprovam a lei seca. E eu fico impressionada com a vocação do brasileiro para implorar que o Estado lhe conduza no garrote porque ele, o brasileiro, não é capaz de cuidar de si mesmo.

Na minha opinião - pessoal e intransferível, sempre é bom lembrar - a pesquisa do Datafolha revela que 86% dos moradores de São Paulo e do Rio são uns bananas. Para evitar os males causados por uma minoria irresponsável, eles topam abrir mão dos seus direitos.

Aposto que nenhum destes bananas fez qualquer coisa para garantir que a lei anterior fosse respeitada. Nenhum deles exigiu, antes, que quem fosse pego com mais de 6 decigramas de álcool no sangue recebesse punição tão dura quanto perder a carta por um ano ou, em casos mais graves, ser preso. Agora eles estão achando lindo ter uma vida pautada por bêbados irresponsáveis. Estão adorando que todos sejam tratados como alcóolatras. Isso sem falar na anuência dos idiotas que, como eu, não bebem mais do que um cassis no mamão e que, agora, se dispõem a dar carona para a cambada que entorna.

Pois saibam que, de minha parte, já estão todos avisados: quem beber que pague um taxi. Era só o que faltava eu, além de ficar sem o meu bombom de licor por conta desta turma, ainda ter que virar motorista nas horas vagas. De mais a mais, se ainda não deu para notar, estou com o meu saco bem cheio de gente sem noção de cidadania, democracia e direitos individuais. Estou de saco bem cheio de gente que está sempre disposta a ajoelhar para o Estado; a pedir que o Estado lhe imponha limites tão desmedidos quanto a sua falta de controle.

Primeiro foi o cigarro. Depois, aquela tentativa - medianamente frustrada - das armas. Agora é o álcool. E somente o álcool porque, notem bem, o cara pode percorrer toda a Via Dutra travado de cocaína ou chapado de maconha sem que a polícia o importune - e se importunar, ele, como "usuário", receberá uma pena bem mais leve do que se tivesse consumido um criminoso prato de sagu.

Diante de tal realidade, resta aguardar pelo momento em que, sob a alegação de que os males da obesidade custam caro ao Estado, seremos obrigados a abrir mão de uma picanha gorda. E o sujeito um pouco acima do peso ideal, então, será repreendido pelos garçons no almoço de domingo - sob os aplausos deste rebanho de vacas de presépio.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Era uma vez uma verdade

Ram Rajagopal, no Digestivo Cultural

Às vezes é frustrante ser brasileiro. Parece que saímos sem dúvida alguma de um Processo de Kafka, ou das páginas mal intencionadas de um Deleuze, com sua Teoria Molecular. Ontem parei para pensar – aquele ato impossível de ser executado por muitos conterrâneos por motivos variados como fome ou, mais comumente, preguiça – e me dei conta de que é impossível a sociedade brasileira funcionar. Parece uma sociedade saída da cabeça de um intelectual

Se bem que nem mesmo Franz Kafka ou George Orwell ou Gilles-Abacaxi-Deleuze imaginariam uma sociedade como a nossa. Quer dizer, se tivessem imaginado, seria um dos grandes livros de todos os tempos, um best-seller de crítica. No Brasil temos este fenômeno: a do best-seller de crítica, o livro que todo crítico diz que devemos ler, mas que só poderá ser lido em detrimento de sua própria sanidade.

Pois bem. Veja só como são as coisas na minha cidade, a vitrine do Braziu. Vamos dizer que você decidiu que não quer mais ser só um reprodutor na vida. Então decide abrir uma farmácia. Claro que você toma esta decisão para ganhar dinheiro. Claro que você está contribuindo para o ciclo produtivo da sociedade, gerando empregos, oportunidades e todas aquelas coisas que exigem suor e trabalho, coisa que aqui no Braziu parece não ser bem vista. Mas na cabeça da maioria das pessoas você é um pária. Porque almeja o lucro, almeja ter uma vida material confortável, e quer colocar uma tevê de plasma na sua saleta, fruto do seu próprio suor e trabalho.

Se sua farmácia realmente só faz as vendas cobrando receita médica, fica às moscas, pois todo brasileiro acha que é seu direito se auto-receitar medicamentos, e quando você não respeita este direito adquirido, tratam logo de jogar lama no cidadão que está o insultando através do respeito às leis. Ainda assim, você decide só vender com receita. Então tá, até aí você Kafka ainda está entendendo a estória. Quiçá é a moral de um povo preguiçoso. Ou uma população que trabalha muito, mas só depois de estourar o prazo.

Só que não é verdade. Você tem muita gente ociosa que decide fazer trabalhos intelectuais. Eles produzem estudos e mais estudos, que ao invés de se valer de estatísticas e fatos para compor as observações, se valem de sentimentalismo e argumentos imediatistas e apelativos. Estes estudos começam provando que 1+2 = 4 e que você não pode ser mau, achar que está tudo bem, deixando de doar boa parte do seu lucro para a ONG de salários altos que ajuda os pobres, cujo grande objetivo é pedir leis para isso e para aquilo.

Um dia, decidem que precisam de leis que impeçam você de demitir seu funcionário que resolve criar o turno de 4 horas, apesar de receber para trabalhar 8. Como político não quer perder voto – e coitado do funcionário, ele ganha mal – aprova. No mês seguinte, descobrem que os impostos sobre os remédios devem ser aumentados porque você tem que transferir renda. Esta coisa de transferência de renda sempre foi estranha para mim, que ganhava tão pouco de mesada que recebia em espécie. Por que transferimos uma renda que nem vemos a cor do dinheiro? Deveriam chamar de transferência de suor e trabalho.

Um belo dia, um intelectual, destes que só voam de Airbus mas gostariam que todos voassem de ultraleve porque foi feito “por um brasileiro”, decide que o comerciante dono de farmácia é mau. Ele ganha dinheiro. Não, claro que não importa que você tenha trabalhado por ele, ou que seja seu direito gastá-lo como bem entende. Inclusive, naqueles dias de bom humor, você implanta uma Fundação Bill e Melinda Gates. Não, isso tudo não importa. Se você está ganhando dinheiro é porque tem maracutaia. Aonde ela estará? Depois de uma visita à Alemanha, o intelectual tem o insight sobre a verdade. Ora, farmácias só podem vender remédios se o ambiente estiver a belos 5º C. E também a purificação de ar tem que ter 0% de partículas de poeira, como nas salas limpas de produção de chips que o intelecoteco visitou em Zurique. Pronto: uma lei é rapidamente aprovada, com o nome bacana Remédio Tolerância Zero (RTZ). A legislação mais moderna para farmácias do mundo. A farmácia que atendê-la será exemplo até para aquele Império Podre dos Yankees.

Um aparte para entender por que estas leis são aprovadas tão rápido. É que todos burocratas ganham dinheiro com leis. Algumas vezes fazendo jogo limpo, mas criando uma teia de leis tão complicada que é impossível não depender deles, e da sua çabedoria para resolver alguma questão boba. Outras vezes, muitas vezes, cobrando propina mesmo. Uma parte deste dinheiro improdutivo vai para continuar a improdutividade em obras intelectuais e acadêmicas, e especialmente, para a compra de espaços em jornais e mídia para convencer você a ser bonzinho. Brasileiro tem que sempre ser o mais bonzinho possível... Como é que é? Você será contra ter as farmácias mais limpas e modernas do mundo, com 5º C e 0% de partículas de poeira? Partículas de poeira fazem mal. Pronto, esta feito o argumento irrefutável, exceto pelo bom senso...

Agora, além de sua farmácia arcar com mais impostos nos medicamentos, com 8 funcionários porque todos eles só querem trabalhar 4 horas, apesar de receber para trabalhar 8 – devidamente aconselhados pelo sindicato – e com menos clientela porque você não vende sem receita, você terá que arcar também com a satisfação de uma lei impossível de ser satisfeita. Você se descabela à noite. Percebe que ter a farmácia é o pior negócio do mundo. O melhor é ser burocrata ou pobre. No Braziu, a pobreza, aquela fictícia das favelas da Zona Sul onde o pobre coitado faz gato de Net (já imaginou, o miserável chulapento assistindo a GNT?), é um ótimo negócio. Farmácia não.

Na manhã seguinte, em casa, você já leu a defesa da RTZ, e que políticos e intelectuais acham a lei essencial, e que a Dona Maria acha muito importante 0% de partículas, imagina só ela pode ter um ataque alérgico na sua farmácia, e coisas assim. No auge do desespero, quando você pensa no tanto de suor e dinheiro investido na sua farmácia, e também porque bem ou mal você se preocupa com alguns dos seus bons funcionários que dependem de você para receber salários, você tem uma idéia: posso importar aquele equipamento um pouco mais barato, e deixar a farmácia a 5.5º C com 0.1% de partículas.

Bom, então aparece o fiscal. Ele é parte da nova agência de governo Implante RTZ. Para ser fiscal, ele mereceu seus direitos adquiridos. Fez uma prova, marcou xizinhos melhor do que alguém. Fiscal no Braziu é mais poderoso que Deus. Deus só cria e destroí. O Fiscal controla, regula. Pois bem, o Fiscal passa no seu negócio e diz que como os equipamentos que você importou da Alemanha (pagando 100% de imposto) só permitem 0.1% de partícula, eles não serão o suficiente. Não adianta você argumentar que não tem dinheiro para atender as exigências, que a farmácia não terá lucro algum se for manter o ambiente na RTZ, e ao mesmo tempo seguir todas outras leis. Ele responde: “o lucro não é um direito do cidadão”. Te dá uma alternativa: ao invés de tudo isso que tal se você der a ele 3000 reais por mês? Ele te explica que parte deste dinheiro irá para campanha dos políticos, que por sua vez irão aprovar orçamentos que incluirão redistribuição farta de dinheiro para a mídia e para os intelecotecos que defendem a RTZ. Você se recusa. Logo o Fiscal diz que não só você está com 0.1% de partículas como sua média de temperatura tem sido 5.2º C.

Desesperado porque você já investiu muitos anos da sua vida montando um negócio, ou criando alguma coisa que dá dinheiro, ao invés de viver de patrocínio ou de concurso público, você pensa em fechar a farmácia... Afinal, participar de um esquema de 3000 reais? Já é triste ter que usar um contador para fazer os impostos porque senão o lucro era ínfimo... Aí pensando em tudo isso, obviamente você pede um tempo. Descobre que todas as farmácias da sua rua aceitam pagar 3000 reais cada uma ao Fiscal.

Uma que se recusou a pagar é autuada em um flagrante espalhafatoso. Incrivelmente, repórteres da Globo e da Carta Capital, estavam lá no momento do flagrante. No mesmo dia à noite, intelecotecos condenam o farmacêutico que não segue a RTZ, e afirmam que apesar da legislação pedir o impossível, o impossível deve ser feito. Afinal é para bem do “povo”, tão desprotegido coitado. Um dia vou colocar o nome do meu filho de João Povão, porque todo mundo quer ajudar o “povo”, mas só quem faz parte dele é aqueles que concordam com os políticos e intelectuais de ocasião. No fim de semana, colunistas falam do “monstro das farmácias”, que quer matar os alérgicos, e desrespeita o povo.

Você sucumbe, desanima, e resolve pagar os 3000 reais. Custo de operação. Como seu lucro já é infinitesimal, parte deste custo tem que ser repassado ao consumidor mesmo. Claro que o custo do aluguel, que envolve o mesmo tipo de abusos, também é caro, e repassado ao consumidor. E assim por diante. Depois de tudo isso, quando você vai ver, seu lucro mensal é uns 10 mil reais. E você tem que dar duro todos os dias. Enquanto isso, o Fiscal que mora no seu prédio, faz uma inconfidência no elevador: ganha 10 mil reais por mês só com a rua onde fica sua farmácia. No dia seguinte, um intelecoteco lhe diz feliz no elevador que ganhou um patrocínio de 40 mil dólares da Petrobrás para fazer o desconstrucionismo da RTZ, e que foi convidado a ir à Alemanha por uma ONG e pela fábrica de purificadores de ar.

Você desmaia e empacota. No seu velório, os funcionários falam de como você era um patrão duro, que não queria dar participação nos lucros. Os intelecotecos, quando muito, lembram a fraqueza moral em não seguir a RTZ. A farmácia fecha. E o Braziu continua.

Esta estória é fictícia, mas baseada em fatos reais não comumente noticiados. Pergunte ao dono da farmácia da sua esquina.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Algumas considerações sobre o Individualismo

por João Luiz Mauad, no Ordem Livre

A palavra “individualismo” pode ser empregada de duas maneiras diferentes. A primeira – e mais importante – não tem sinonímia e é geralmente utilizada em oposição a “coletivismo”. De acordo com o Dicionário Houaiss, individualismo é a “doutrina moral, econômica ou política que valoriza a autonomia individual, em detrimento da hegemonia da coletividade despersonalizada, na busca da liberdade e satisfação das inclinações naturais”. O outro significado é meramente lexical, sem qualquer conotação filosófica, política ou econômica, e diz respeito a certa “tendência, atitude de quem revela pouca ou nenhuma solidariedade e busca viver exclusivamente para si; egoísmo”.

A simples existência desta segunda acepção é suficiente para provocar inúmeras confusões terminológicas e dificultar o correto entendimento filosófico do individualismo, além de fornecer aos coletivistas material precioso para seus ataques e sofismas, invariavelmente calcados num suposto dualismo entre “individualismo” e “altruísmo”, o que, como veremos, é um completo disparate.

Toda a confusão começa com Platão, para quem o individualismo altruísta não seria possível. De acordo com o mais famoso discípulo de Sócrates, a única alternativa ao coletivismo por ele idealizado era o egoísmo. Esse dualismo platônico forneceu aos coletivistas uma arma retórica poderosíssima, pois vincula todo e qualquer oponente doutrinário ao defeito moral do egoísmo, enquanto eles próprios alardeiam para si um pretenso humanitarismo.

Como bem assinalou Karl Popper, Platão sabia muito bem o que estava fazendo ao apontar suas armas para aquele inimigo. De fato, a emancipação do indivíduo viria a ser a grande revolução espiritual que conduziria à queda do tribalismo e iniciaria a ascensão das sociedades abertas. “Foi justamente o individualismo altruísta”, diz Popper, “cuja existência era rejeitada por Platão, que formou a doutrina central do Cristianismo e tornou-se a base da civilização ocidental e o âmago de todas as doutrinas éticas que dela originaram”.

Bem mais tarde, Adam Smith cimentou os alicerces do liberalismo clássico quando, ao encampar, esmiuçar e aperfeiçoar a doutrina do “laissez-faire”, inferiu que a prosperidade e a opulência das sociedades dependiam muito mais do esforço de cada indivíduo na busca de seus próprios interesses do que da benevolência desses mesmos homens. Numa de suas mais famosas citações, Smith afirma que “todo indivíduo está continuamente empenhado em descobrir os mais vantajosos empregos para os capitais sob seu comando. É o próprio lucro que ele tem em vista, e não o da sociedade. Porém, ao examinar o que melhor lhe convém, ele naturalmente, ou melhor, necessariamente, acaba preferindo aquele emprego que é mais vantajoso para a sociedade”.

São diversos os trechos em “A riqueza das nações” onde se encontram citações semelhantes, sempre enfatizando que é pela busca dos próprios interesses, e não pela desejável, porém nem sempre presente, virtude da benevolência, que os empreendedores contribuem para a prosperidade das nações.

Estas constatações, se por um lado revolucionaram a forma de enxergar a economia política, de outro forneceram ainda mais munição aos coletivistas, embora Adam Smith jamais tenha feito qualquer glorificação ou demonstrado encantamento por uma suposta virtude do “egoísmo”, nem tampouco elaborado qualquer crítica à caridade, à solidariedade, à benevolência ou ao altruísmo, como alguns supõem. Muito pelo contrário.

Tanto em “A riqueza das nações” quanto na “Teoria dos sentimentos morais” o escocês sempre fez questão de enaltecer aqueles valores. Na TSM, por exemplo, ele nos diz que “todos os membros de uma sociedade humana necessitam de mútua assistência, assim como estão expostos à injúrias mútuas. Onde quer que a necessária assistência seja reciprocamente mantida pelo amor, pela gratidão, pela amizade e pela estima, a sociedade florescerá e será feliz”. Num outro trecho, ele descarta qualquer forma de maniqueísmo relacionado aos sentimentos, virtudes e vícios humanos, quando afirma: “Por mais egoísta que um homem supostamente possa ser, existem, evidentemente, alguns princípios em sua natureza que o fazem importar-se com a sorte dos demais, tornando a felicidade destes necessária a ele, embora ele não lucre nada com isto, exceto o prazer de assisti-lo.”

É notória a falta de parcimônia com que muitos coletivistas costumam deturpar as teorias e doutrinas que lhes são opostas, o que já não causa nem mais espanto. Infelizmente, no entanto, os próprios adeptos dos princípios individualistas costumam, às vezes, “jogar contra o patrimônio”. Seja por necessidade retórica, falta de cuidado na escolha das palavras ou mero desconhecimento, alguns de nós, liberais, freqüentemente caímos na armadilha de utilizar a palavra “egoísmo” como sinônimo daquilo que Smith chamava de “own interest”, “own care” ou “own convenience”.

Com isso, muitas vezes passamos uma imagem do liberalismo diametralmente oposta à verdadeira, pois, com exceção dos discípulos da tão brilhante quanto radical Ayn Rand, adeptos do “objetivismo” – uma variante do liberalismo clássico cuja doutrina está baseada na ética racionalista, numa hipotética “virtude do egoísmo” e na rejeição radical do sacrifício, ainda que voluntário (abnegação), dos próprios desejos ou interesses em razão de qualquer imperativo ético, anseio místico ou princípio religioso – , nenhum teórico ou estudioso do liberalismo jamais foi apologista do “egoísmo”.

Outro equívoco bastante comum quando se fala em individualismo é o de vinculá-lo a “isolamento”. Nada poderia ser tão evidentemente estúpido para qualquer ser pensante e, mesmo assim, tenho visto muitos espertinhos dispostos a atacar o liberalismo sob o argumento banal de que o homem é um ser eminentemente cooperativo. Esse é um daqueles tipos de argumentação que chega a ser patético, pois ninguém, muito menos um liberal em sã consciência, poderia negar que a cooperação entre os homens e a vida em sociedade produzem tremendos benefícios para os indivíduos. Nenhum liberal jamais questionaria as enormes vantagens da divisão do trabalho, da associação humana, do comércio voluntário ou qualquer outra interação cooperativa.

A benéfica cooperação entre pessoas, utilizada como um meio para a consecução dos objetivos individuais, todavia, não pode ser confundida com o infame ideal coletivista que pretende transformar as sociedades humanas em algo semelhante a uma colméia ou formigueiro. Como muito bem colocou o saudoso professor Og Francisco Leme, no magnífico ensaio “Entre os cupins e os homens”, enquanto a abelha, a formiga ou o cupim são insetos cujo comportamento é previsível, estando sempre dispostos à permanente renúncia individual em favor da comunidade, bastando-lhes a programação genética sob cujos auspícios nasceram, o homem, ao contrário, é um animal muito mais complexo. Para este, a vida em sociedade significa coexistir com outros indivíduos, todos diferentes entre si, com propósitos pessoais específicos, interesses diversos e, acima de tudo, com a necessidade de compartilhar valores, princípios e objetivos diferentes. O drama de qualquer sociedade, portanto, está no fato de indivíduos, biológica e eticamente diferenciados, possuidores de interesses pessoais muitas vezes conflitantes, terem de ajustar-se a uma coexistência pacífica, em seus próprios benefícios.

Assim como é natural que nas sociedades dos animais gregários os indivíduos estejam subordinados aos interesses do “todo”, certamente estará destinada ao fracasso qualquer tentativa de organização social fundamentada no pressuposto de que os homens estarão sempre dispostos a abrir mão dos seus interesses particulares e preferências específicas em prol da comunidade. Se é certo, como vimos anteriormente, que muitas vezes os homens estarão propensos a sacrifícios em favor do semelhante, é também evidente que, na maioria das vezes, ele colocará os respectivos interesses e bem-estar em primeiro plano.

Constitui imensa agressão à condição humana a submissão do indivíduo aos propósitos do grupo - seja ele uma raça, uma classe, um Estado – ou mesmo à esta fantasia que se convencionou chamar de “bem comum”. São os homens, individualmente, que têm valores, ideais, desejos, ambições, enfim, VIDA. Eis porque a base de toda a filosofia individualista está na crença de que o ser humano é um fim em si mesmo, e não um meio a ser utilizado para fins “maiores”. O Estado, ao contrário, não é a personificação do bem, pairando acima dos homens como querem os coletivistas, mas mera instituição criada pelos indivíduos para facilitar a consecução dos seus projetos, mediar conflitos de interesse e zelar pelas suas vidas, liberdades e propriedades.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

LIMITES À PROPAGANDA: ESSA GENTE FINGE CUIDAR DO NOSSO CORPO PORQUE QUER ROUBAR A NOSSA ALMA

por Reinaldo Azevedo
O governo quer limitar agora, conforme se noticiou aqui ontem à noite, a propaganda de alimentos que “engordam”. Prometi que falaria a respeito na madrugada. Acabei me ocupando de outros assuntos. Retomo a questão.

Há um excesso de intromissão do estado na vida do cidadão e na sua capacidade de escolha para que isso não caracterize um método. Entendam: há uma questão é geral, que é de princípio, que deveria provocar a nossa repulsa fosse qual fosse o governo: o entende estatal não pode tratar o indivíduo como um menor de idade, incapaz de saber o que é bom para si mesmo. Sendo o governo Lula em particular, a atenção deve ser redobrada. Há um núcleo no petismo que está empenhado em criar dificuldades financeiras para o que ele chama “mídia”.

O texto que segue a partir do parágrafo seguinte repete, com poucas alterações, o que escrevi a respeito no dia 4 de julho do ano passado, quando essa idéia veio à luz pela primeira vez. Como se vê, não é iniciativa nova. E também percebemos que eles jamais desistem de uma idéia. Vamos lá.

O método

Este texto identifica um método de ação do governo Lula: o chavismo à moda da casa. Denuncio aqui os instrumentos a que pretende recorrer o governo para implementar entre nós o bolivarianismo light. Porque o PT sabe que não pode fazer da Rede Globo a sua RCTV, por exemplo, resolveu criar dificuldades para a emissora. No mundo ideal do petismo, devemos ficar todos subordinados à TV de Franklin Martins, que não precisa do mercado para existir, ou à TV Record — que, se ficar sem anunciantes, jamais ficará sem a Igreja Universal do Reino de Deus, dona do partido do vice-presidente e do de Mangabeira Unger, aquele secretário que fala uma língua mais incompreensível do que a do Espírito Santo quando baixa em Edir Macedo — deve baixar, eu suponho.

Penitencio-me aqui. Dizem que sou arrogante, que nunca assumo um erro. A segunda parte, ao menos, é mentirosa. Errei, sim. Errei na única vez em que apoiei, ainda que parcialmente, uma proposta do governo Lula. Fui enganado pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Uma recomendação: eis um nome do governo Lula que deve ser visto com muito mais cuidado.

Como sabem, o governo limitou o horário da propaganda de cerveja na televisão. E também enrosca com o seu conteúdo — Temporão, por exemplo, invocou com a tal “Zeca-Feira”. Mais: afirmou que a publicidade glamouriza o consumo do produto... No programa Roda Viva eu lhe disse que era favorável à limitação de horário, mas contrário a que o governo se metesse no conteúdo publicitário. Ora, isso seria nada menos do que censura. E o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária é um órgão que funciona, sim, senhores! Só falta agora a gente ter um Romão Chicabom também na Saúde...

É claro que a limitação da publicidade acarretaria uma diminuição de receita para as emissoras de TV. "Fazer o quê?", pensei. "Aconteceu isso quando se proibiu a propaganda de cigarros; que procurem novos nichos, novos produtos, novas fontes de receita". Eu, o liberal tolo diante de um petista... Nova pretensão anunciada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deixa evidente que a limitação da propaganda de cerveja tem mais a ver com a saúde do governo Lula do que com a saúde dos brasileiros. Eu passei a considerá-la parte de uma estratégia para asfixiar as emissoras que dependem do mercado para viver: que não têm estatais ou igrejas de onde tirar a bufunfa. Fui um idiota. Não apóio mais. Penitencio-me.

A Anvisa, órgão subordinado ao Ministério da Saúde, agora quer limitar ao horário das 21h às 6h a propaganda de alimentos considerados poucos saudáveis, "com taxas elevadas de açúcar, gorduras trans e saturada e sódio" e de "bebidas com baixo teor nutricional" (refrigerantes, refrescos, chás). Mesmo no horário permitido, a propaganda não poderia conter personagens infantis e desenhos. Segundo a Abia (Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação), isso representaria um corte de 40% na publicidade do setor, estimada em R$ 2 bilhões em 2005. Dos R$ 802 milhões que deixariam de ser investidos, aos menos R$ 240 milhões iriam para a TV — a maior fatia, suponho, para a Rede Globo.

Virei caixa dos Irmãos Marinho agora? Não! Virei guardião da minha liberdade. É evidente que se tenta usar a via da saúde para atingir o nirvana da doença totalitária. É evidente que estão sendo criadas dificuldades para as emissoras — e, a rigor, nos termos dados, para todas as empresas que vivem de anúncios — para vender facilidades. O ministro Temporão, que ainda não conseguiu fazer funcionar os hospitais (sei que a tarefa é difícil; daí que ele deva se ocupar do principal), candidata-se a ser o grande chefe da censura no Brasil. Na aparência, ele quer nos impor a ditadura da saúde; na essência, torna-se esbirro de um projeto para enfraquecer as empresas privadas de comunicação que se financiam no mercado — no caso, não o mercado do divino ou o mercado sem-mercado das estatais.

Temporão quer propaganda de camisinha, não de biscoito

Imagine você, leitor, que aquele biscoito recheado (em SP, a gente chama “bolacha”) que sempre nos leva a dúvidas as mais intrigantes (Como as duas de uma vez? Separo para comer primeiro o recheio? Como o recheio junto com um dos lados?) seria elevado à categoria de um perigoso veneno para as nossas crianças — mais um querendo defender as crianças! —, que serão, então, protegidas por Temporão desse perigoso elemento patogênico. Mais: mesmo no horário permitido, a propaganda teria de ser uma coisa séria, né? De bom gosto. Sem apelo infantil. O Ministério da Saúde é uma piada: quando faz propaganda de camisinha, sempre recorre a situações que simulam sexo irresponsável. Mas não quer saber de desenho animado em propaganda de guaraná. A criatividade dos publicitários, coitados, teria de se voltar para comida de cachorro. Imagine o seu filho, ensandecido, querendo comer a sua porção diária de Frolic, estimulado pela imaginação de publicitários desalmados.

Assim como o governo pretendia impor a censura prévia na presunção de que os pais são irresponsáveis, agora quer limitar a propaganda de biscoito e refrigerante porque as nossas crianças estariam se tornando obesas e consumistas.

Estupidez

A proposta não resiste a 30 segundos de lógica. É evidente que biscoito não faz mal. Biscoito não é ecstasy. Em quantidades moderadas, de fato, não havendo incompatibilidade do organismo com os ingredientes, até onde sei, faz bem. Se o moleque ou a menina comerem um pacote por dia, acho que tenderão a engordar. Acredito que há um limite saudável até para o consumo de chuchu... Ora, carro também mata. Aliás, acidentes de automóveis são uma das principais causas de morte no Brasil. A culpa, quase sempre, é da imprudência do motorista ou das péssimas condições das estradas. Nos dois casos, é preciso usar/consumir adequadamente a mercadoria. A Petrobras é uma grande anunciante — e certamente estará no apoio à TV de Franklin Martins. Os produtos que ela vende poluem o ar e aquecem o planeta (sou de outra religião, mas dizem que sim...). A publicidade, então, deverá estar sujeita a severas limitações?

Uma pergunta: água entra ou não na categoria das “bebidas com baixo teor nutricional”? O ridículo desses caras é tamanho a ponto de propor limites à propaganda de água? Ela alimenta mais ou menos do que um copo de coca-cola ou de mate? E de lingüiça, pode? A gordura animal em excesso também faz mal à saúde. Quem garante que o sujeito não vai consumir o produto todos os dias, até que as suas artérias se entupam? Não ande de moto. Há o risco de cair. Numa bicicleta, você pode ser atropelado. E desodorizador de ambiente do moleque que quer fazer “cocô na ca-sa do Pe-dri-nho”? Pode ou não? Não fere a camada de ozônio?

Nazistas

Observem: se isso tudo fosse a sério, fosse mesmo com o propósito de cuidar da saúde dos brasileiros, já seria um troço detestável. Sabiam que os nazistas foram os primeiros, como direi?, ecologistas do mundo? É verdade: não a ecologia como uma preocupação vaga com a natureza, mas como uma política pública mesmo. Hitler gostava mais de paisagem do que de gente, como sabemos. Eles também tinham uma preocupação obsessiva com a saúde, com os corpos olímpicos. O tirano odiava que se fumasse perto dele, privilégio concedido a poucos. Mas o mal em curso não é esse, não.

A preocupação excessiva do governo nessa área, entendo, é também patológica, mas a patologia é outra. Por meio da censura prévia — de que foi obrigado a recuar — e da limitação à publicidade de vários produtos, pretende é atingir gravemente o caixa das empresas de comunicação, que fazem do que conseguem no mercado a fonte de sua independência editorial. Ora, é claro que, sem a publicidade da cerveja, dos alimentos e do que mais vier por aí, elas ficam, especialmente as TVs, mais dependentes da verba estatal e do governo.

O raciocínio é simples: vocês acham que a porcentagem da grana de estatais no faturamento global é maior numa Band ou numa Globo? Numa Carta Capital ou numa VEJA? No Hora do Povo ou no Estadão (a propósito, veja post abaixo)? Os petistas não se conformam que o capitalismo possa financiar a liberdade e a independência editoriais. Quer tornar essas grandes empresas estado-dependentes. Quanto mais se reduz o mercado anunciante — diminuindo, pois, a diversidade de fontes de financiamento —, mais se estreita a liberdade.

Golpe

Trata-se, evidentemente, de um golpe, mais um, contra a imprensa livre. E por que digo que o alvo é a Globo? Porque, afinal, ela concentra boa parte do mercado publicitário de TV — é assim porque é melhor e mais competente, não porque roube as suas “co-irmãs” — e porque, no fim das contas, o que importa mesmo a Lula é aparecer bem no Jornal Nacional. E ele deve considerar que isso é tão mais fácil de acontecer quanto mais ele disponha de instrumentos para tornar difícil a vida da principal emissora do país. Acho que vai quebrar a cara.

E Temporão, tenha sido ou não chamado à questão com esse propósito, tornou-se o braço operativo dessa pressão. Curioso esse ministro tão cheio de querer impor restrições do estado à vida e às opções das pessoas. É aquele mesmo que já deixou claro ser favorável à descriminação do aborto até a 14ª semana porque, parece, até esse limite, o feto não sente dor, já que as terminações nervosas ainda nem começaram a se formar. É um ministro, digamos, laxista em matéria de vida humana, mas muito severo com biscoitos. O que faço? Recomendo a ele que tenha com as crianças que estão no ventre o mesmo cuidado que pretende ter com as que querem comer Doritos?

Eis aí o caminho do nosso bolivarianismo. A terra está amassada pelo discurso hipócrita da saúde. Farei agora uma antítese um tanto dramática, cafona até, mas verdadeira: essa gente finge cuidar do nosso corpo porque quer a nossa alma.

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PS: Divulguem este texto, espalhem-no na Internet, montem grupos de discussão no Orkut, passem a mensagem adiante, mobilizem-se.