sábado, 11 de outubro de 2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Odorico Paraguaçu pede socorro

por Guilherme Fiúza

Tirem as crianças da sala. Os institutos de pesquisa de opinião estão trocando desaforos. A conversa chegou à cozinha.

Essas instituições de caráter científico costumam ter um jeito no mínimo irreverente de entrar no debate público. Quando questionadas por candidatos, respondem com certo sotaque de arquibancada. Se precisar, puxam cabelo e enfiam dedo no olho.

Deve ser a emoção da democracia. Mas o que está acontecendo ao final do primeiro turno das eleições municipais não tem precedente. Os principais institutos resolveram esculachar-se entre si, e os argumentos são de fazer corar um Odorico Paraguaçu.

O instituto que insistiu com Crivella no Rio até a boca da urna disse que o erro foi do concorrente. Os números que apontaram o crescimento de Gabeira é que teriam feito Gabeira crescer. Entenderam? Então socorram o lendário Odorico, porque ele engasgou…

Já o erro grosseiro da boca de urna em São Paulo, insistindo na vitória folgada de Marta, se deu porque a pesquisa foi feita só até as 14 horas – e a votação foi até as 17 horas. Está inaugurada a meia-boca de urna. A inteira deve ser bandeira dois.

O instituto que detectou o crescimento de Gabeira no Rio o fez tardiamente, e ainda manteve Crivella respirando por aparelhos quando ele já estava morto. Mesmo assim o órgão saiu comemorando e tripudiando do concorrente. Disse que o eleitor, além do candidato, já sabe qual instituto de pesquisa deve escolher. Só faltou divulgar uma plataforma para os próximos quatro anos.

Já que a coisa chegou a esse ponto, os institutos deveriam deixar definitivamente a modéstia de lado. Poderiam passar a oferecer também prognósticos para a queda das bolsas, a subida do dólar e os teores de petróleo na camada pré-sal. Com margem de erro de dez pontos – para muito mais ou para muito menos.

Aí as pesquisas de opinião passariam a ser como cigarro: todos sabem que faz mal, consome quem quiser.

Valorização falseada, falsa economia e um prejuízo infernal

© 2008 Jeffrey R. Nyquist

Nossa infeliz economia, baseada em valorizações falseadas, não pode continuar por muito tempo. Ela é o equivalente doméstico da amizade que o presidente Bush tinha por Vladimir Putin. É o mundo da fantasia, do eterno mercado em alta e dos pacotes governamentais “bem sucedidos”. As lideranças políticas nos Estados Unidos demonstraram que não entendem de economia. Elas não podem resolver a crise atual a não ser que voltem para a escola e consultem a sabedoria que por tanto tempo negligenciaram. Elas construíram seu mundo do pós-Guerra Fria sobre uma falsa expansão da economia, sobre falsas “parcerias” com inimigos. Elas permitiram uma política de expansão ilimitada de crédito.

“Expansão de crédito”, escreveu o economista austríaco Ludwig von Mises, “[é] a principal ferramenta dos governos em sua luta contra a economia de mercado. Em suas mãos está a vara de condão projetada para esconjurar a escassez de bens de capital…e tornar a todos prósperos”. Mas nem todos podem ser prósperos. O crescimento econômico criado pela expansão de crédito não pode durar. E é isto que os líderes americanos não perceberam. “As conseqüências inescapáveis da expansão de crédito estão demonstradas pela teoria dos ciclos econômicos. Até mesmo aqueles economistas que ainda se recusam a reconhecer a correção da teoria monetária — ou da teoria da circulação de crédito — das flutuações econômicas cíclicas, nunca ousaram questionar o caráter conclusivo e a irrefutabilidade do que esta teoria afirma com respeito aos efeitos inescapáveis da expansão de crédito”.

E quais são esses efeitos?

De acordo com Ludwig von Mises, um impulso econômico ocasionado por uma expansão creditícia só pode ser mantido por mais expansão de crédito; no longo prazo, “[t] ransforma-se em depressão [1] quando cessa a expansão de crédito”. Esta conseqüência é absolutamente certa e a crise financeira atual ressalta o ponto. A expansão [o boom] econômica de anos recentes foi impulsionada por uma expansão de crédito sem precedentes. A cada vez que o mercado estava ameaçado de contração, mais expansão de crédito era insistentemente recomendada e logo posta em prática.

A vara de condão da expansão de crédito age como o vício da heroína. Quanto mais você a injeta, mais você a quer. Inevitavelmente chega o dia em que você não pode mais aumentar a dosagem porque acabou o suprimento. E assim é com a expansão de crédito. Os mercados estão acostumados com o acesso fácil ao dinheiro. Eles agora exigem mais e mais facilidades. Estão viciados. Mas ao fim, todavia, serão forçados a sofrer os efeitos da abstinência.

Será que pensamos que esta expansão poderia continuar para sempre e sem conseqüências? Evidentemente, não consideramos onde iríamos parar. E agora, finalmente, o governo dos Estados Unidos acredita que pode saciar a fome de crédito através de um impulso coordenado – o último suspiro de nossos insaciáveis viciados em crédito. O presidente Bush oferece um plano. A portas fechadas, Bush teria dito: “Esse trouxa pode afundar”. Mais uma vez, a gramática do presidente está errada. O trouxa em questão irá afundar.

Cada dólar derramado no resgate proposto será perdido. Comprar dívida “tóxica” não é uma solução. O mecanismo proposto para resgatar a economia representa uma nova falsificação de valores – e um novo desvirtuamento do mercado. Um pacote de resgate de US$700 bilhões é apenas o começo. Não é possível que o dólar sobreviva a esta nova iniciativa. O que vemos em Washington é um exercício de auto-engano. É o auto-engano de um país que não vê o perigo, de um país que ignora a sabedoria dos antepassados e o ABC da economia.

Eles querem uma economia sempre em expansão. O que falharam em considerar é a natureza falsa de uma expansão assim engendrada. Valores falseados, idéias falsas e promessas de prosperidade falsas temperam o programa dos políticos de hoje. O lugar deles não é na direção de um grande país. Sua liderança consiste em lamentável ignorância e a república pode estar em seus últimos dias. Houve uma chocante disposição de destruir a moeda do país. “Se o governo não dá importância para até onde as taxas de câmbio podem subir, poderá, durante algum tempo, continuar a se agarrar à expansão de crédito”, explicou Mises. “Mas, um dia, o colapso da expansão aniquilará o seu sistema monetário”.

O plano proposto para salvar os mercados nada salvará. A solução proposta não é solução. Investimentos impróprios foram feitos e enormes perdas devem deles resultar. Devemos tomar o nosso remédio antes de melhorarmos. Depreciar a nossa já depreciada moeda torna as coisas piores. A expansão artificial deve ter um fim. Falsas apreciações devem consumir-se de modo que valores reais possam ser restabelecidos.

Poucos percebem o quão destrutivo foi o boom econômico; pois o dano real é feito pelo regime de valores falseados e pelo nosso investimento coletivo nesses valores. Mises ressaltou: “[O] boom econômico é chamado de prosperidade, negócios em alta e impulso econômico. Sua conseqüência inevitável, ou seja, o reajustamento das condições aos dados reais do mercado é chamado de crise, queda brusca, negócios em baixa, depressão”. Esta última, porém, é o período de cura e correção.

A verdadeira mágica da ciência econômica é aprender a aceitar a correção. E é isto que nos recusamos a fazer. Os administradores financeiros do país deram um exemplo terrivelmente ruim. Tradicionalmente, o capitão afunda com seu navio. Enquanto o Titanic afunda, nossos financistas não querem ser resgatados em botes salva-vidas, mas em iates. Eles não querem aceitar que guerras e depressões são necessárias porque a natureza humana deseja a fantasia. A bolha da falsa paz e da falsa prosperidade necessariamente se rompe. Ao fim, a realidade precisa ser confrontada.

“As pessoas se rebelam contra a noção de que o elemento perturbador verifica-se no mau investimento e no consumo exagerado do período de expansão”, escreveu Mises. O fato curioso é, segundo Mises, que, “[Se] aplicarmos essa medida de comparação às várias fases das variações cíclicas da economia, deveríamos chamar a expansão de retrogressão e a depressão, de progresso”. A expansão se dissipa através do mau investimento dos escassos fatores de produção e reduz o estoque disponível através do excesso de consumo; suas supostas bênçãos são pagas com o empobrecimento. A depressão, por outro lado, é o caminho de volta ao estado de coisas no qual todos os fatores de produção são empregados para a melhor satisfação possível das necessidades mais urgentes dos consumidores.

Se o Estado deve fazer alguma coisa construtiva durante o período “progressivo” da depressão [i.e., o período de reajustamento de valores e alocações de recursos escassos conforme a realidade] é manter o poder de dissuasão nuclear do país e preservar a unidade nacional. Não há dúvida de que em breve os Estados Unidos se verão forçados a trazer de volta as tropas e fechar as bases militares no exterior. A situação financeira ditará a retirada do cenário internacional. Ela ditará um governo mais modesto. Mas os políticos se agarram à idéia de que o boom econômico pode continuar e que sua abordagem falsa da situação internacional é viável. Os Estados Unidos não podem salvar o mundo. O país terá sorte se puder salvar a si mesmo. O plano de resgate financeiro proposto pelo presidente Bush não é apenas uma medida socialista. É uma tentativa de evitar o retorno às avaliações corretas, reais. De fato, é uma tentativa ignorante de prolongar o dano que já foi feito.

Nossos políticos querem nos dar dinheiro [crédito] fácil, um fomento ao regime de shopping-center. Eles acreditam que isto evitará que milhões percam seus empregos. Eles acreditam que as medidas que propõem salvarão bancos em apuros. A prosperidade, então, continuará. “Esse raciocínio parece plausível”, escreveu Mises. “Não obstante, ele está completamente errado”. O boom econômico elevou os preços e salários a níveis altos demais. A demanda perdeu toda a noção de oferta. O consumidor agora está acostumado a obter o que quiser, ainda que não tenha os recursos para tanto. A fim de colocar as coisas no lugar, os salários precisam cair, o consumo precisar ser restringido e práticas imprevidentes devem ter um fim.

“Não há nenhuma utilidade na interferência por meio de uma nova expansão de crédito”, escreveu Mises. “Na melhor das hipóteses, isto apenas interromperia, perturbaria ou prolongaria o processo curativo de uma depressão, isso se não trouxesse de volta um novo boom, com todas as suas conseqüências inevitáveis”. Quando Bill O’Reilly [2] diz que o desastre é grande demais, que a despeito de seu apoio à economia de mercado não vê alternativa ao plano de resgate do governo, ele está negando o poder curativo de uma depressão. Ele está negando a lição fundamental da economia. O dano ao sistema econômico já ocorreu durante o período de falsa prosperidade.

Tão estranho quanto possa parecer, uma crise financeira e a depressão são necessárias. Nós precisamos passar por um período de dificuldades. Não há outro caminho para corrigir o regime de falsos valores, ou de valorizações irreais. O problema, é claro, tornou-se político. O regime é um sistema político onde o economicamente ignorante dá o tom. A magnitude do desastre é, por meio disso, amplificada, Os atores políticos agora põem o sistema político em risco. E porque há implicações de segurança nacional, eles agora põem nossas vidas em risco.

[1] NT: No contexto atual, “depressão” pode também ser entendida como recessão, ou recessão profunda. Todavia, na versão original de sua obra magna, Human Action [Ação Humana], de 1949, Ludwig von Mises usa apenas o termo depression. Por este motivo, decidimos manter o termo.
[2] NT: Bill O’Reilly é um dos mais famosos, influentes e respeitados comentaristas da TV a cabo americana, sendo talvez a principal estrela do canal de jornalismo FOXNews. Tido como conservador, é temido e odiado pela esquerda americana. Sua declaração, portanto, assume importância maior, apesar de equivocada.


Publicado por Financialsense.com

Tradução: MSM

O fim do liberalismo?

por José Nivaldo Cordeiro no MídiaSemMáscara

A severa crise financeira que se abateu sobre o mundo capitalista leva o observador a pensar os acontecimentos em perspectiva histórica. Estaríamos vivendo o equivalente ao que aconteceu em 1929? Se a resposta for positiva – e temo que seja verdadeira – é de se esperar todos os desdobramentos já vistos àquele tempo, inclusive no circuito de poder mundial. É bom lembrar que a crise de 1929 é uma das causas mais remotas da II Guerra Mundial. Foi o fim do Império Britânico.

Ou haverá algum paralelo com o fim do comunismo stalinista, com a queda do Muro de Berlim e o fracionamento do império soviético, no começo dos anos 90? Será que o modo de vida do Ocidente está entrando em colapso? Estamos vendo o fim último do liberalismo? Aqui as respostas não podem ser diretas. É claro que o epicentro da crise será nos EUA, secundado pela Europa. Daí concluir pelo fim do liberalismo há um salto espúrio.

Em primeiro lugar, a crise não é das instituições liberais, muito ao contrário. Uma das qualidades superlativas da ordem liberal é a sua capacidade de auto-regulação, seja no plano econômico, com sua mobilidade de preços, de capital e de mão-de-obra, seja no plano político, com a alternância de partidos no poder. Essa forma auto-regulada de existência tem sido o antídoto contra todas as crises e todos os surtos totalitários que ciclicamente assolam o Ocidente.

Em segundo lugar, é bom lembrar que a crise ora vivida tem origem precisamente na fuga da receita liberal. Os críticos mais competentes e isentos do que tem sido a política econômica dos EUA e da União Européia têm mostrado que esses países têm vivido além de suas possibilidades. Fizeram da capacidade de emissão de moeda fiduciária um modo de vida. As instituições bancárias “podres” só puderam persistir em face da abundância de dinheiro barato. É claro que isso levou a desindustrialização, tornando países como China e mesmo o Brasil plataformas de exportação e detentores de enormes superávits comerciais, contrapartida dos déficits gerados pelos países ditos ricos. Esses déficits espelham precisamente que os países passaram a viver além das suas posses. Claro que um desequilíbrio desses um dia cobraria sua conta. É chegada a hora.

Então a crise tem origem na traição do ideal liberal e não na sua prática. Emissão descontrolada de dinheiro, excesso de governo e de impostos, gastos descontrolados, tudo isso é sinônimo de socialismo e não de liberalismo. Há muito que o socialismo tomou conta dos países que agora estão em crise.

Aí que está a ironia da coisa: os inimigos do liberalismo acusam a este último de ser o causador daquilo que ele não poderia causar. Pior, para enfrentar a crise vêm com suas velhas receitas estatizantes e regulatórias, quando um liberal simplesmente daria de ombros e diria: “-Quem quebrou, quebrou”, fórmula que em um ano traria a economia de volta à prosperidade. Mas os inimigos do livre mercado não descansam e jogam nos ombros daqueles que lutam pela liberdade uma responsabilidade que é só deles mesmos.

A solução é uma só: reduzir o Estado, pelo lado da receita, da despesa e da regulação. É fazer retornar a velha ética liberal, que está na Bíblia: que cada um coma o suor de seu próprio rosto e que essa cambada de parasitas que vive dos impostos volte a trabalhar. Que se restaure o princípio da poupança individual para bancar o bem-estar das famílias e a aposentadoria dos velhos. Que cada um arque com as conseqüências de seus erros e incúrias. E de suas falências. O Estado não tem o direito de tomar dinheiro dos que trabalham e têm tirocínio para dar a vagabundos e parasitas. É simples assim.

A ética liberal é imorredoura porque é a única capaz de prover a humanidade de um instrumento racional para o exercício da liberdade. É a condição também da prosperidade. A crise atual é um aviso para que os homens voltem a viver dentro da realidade e não no delírio alucinado que tem por nome socialismo.

Carta aberta aos meus amigos de esquerda

por Steven Horwitz, no Ordem Livre



Meus amigos,

Nas últimas duas semanas, tenho ouvido vocês dizerem, com certa freqüência, que a atual confusão financeira teria sido causada pelas falhas do livre mercado e pela desregulamentação. Ouvi vocês dizerem que a ânsia pelo lucro, por qualquer lucro, que está no centro do livre mercado, estaria na raiz dos nossos problemas. E ouvi vocês dizerem que apenas uma intervenção significativa do governo no mercado financeiro poderia curar esses problemas, quem sabe, de uma vez por todas. Eu gostaria de pedir que vocês considerem, nos próximos minutos, segundo as palavras de Oliver Cromwell, a possibilidade de estar enganados. Considerem que tanto o diagnóstico quando a cura podem estar igualmente incorretos.

Considerem que os problemas dessa confusão foram causados exatamente pelo tipo de regulamentação governamental que vocês propõem. Considerem que os efeitos da motivação para o lucro que vocês condenam dependem dos incentivos criados pelas instituições, regulamentações e políticas, o que nesse caso levou aqueles que buscam o lucro a causar grandes danos. Considerem que as regulamentações que talvez tenham sido a causa disso tudo foram apoiadas, como tem acontecido em toda a história dos Estados Unidos, pelas mesmas empresas que estavam sendo regulamentadas, especialmente porque elas funcionavam para beneficiar essas empresas, mesmo que assim prejudicassem a todos nós. Considerem tudo isso, enquanto vocês defendem mais uma dose do mesmo remédio para solucionar esses problemas. Finalmente, reflitam sobre o motivo que fariam vocês acreditar que aqueles que têm riqueza e poder não fraudarão o novo processo regulatório em seu benefício.

Uma das maiores confusões na atual crise é a afirmação de que ela é resultado da cobiça. O problema com essa explicação é que a cobiça é um componente constante das interações humanas. Sempre foi. Então, por que, de repente, a cobiça passou a nos causar tantos danos? E por que apenas em um setor da economia? Afinal de contas, será que não existe cobiça suficiente em outros setores? Realmente, as empresas buscam o lucro, e elas o buscarão onde existam incentivos institucionais que possibilitem a obtenção de lucro. No livre mercado, as empresas lucram ao fornecer bens que os consumidores desejam a preços que estejam dispostos a pagar. (Meus amigos, não parem de ler, mesmo que descordem – agora vocês sabem como me sinto quando dizem que essa crise é resultado do livre mercado – pelo menos, terminem esse parágrafo.) Entretanto, as regulamentações, as políticas e até mesmo a retórica de atores políticos poderosos podem mudar os incentivos em relação ao lucro. As regulamentações podem tornar mais difícil para as empresas diminuir seus riscos, ao determinar que façam empréstimos a mutuários marginais. As instituições governamentais podem encorajar os bancos a assumir mais riscos, oferecendo uma garantia governamental completa para o caso de aquelas situações lhes trazerem problemas. A política pode direcionar o interesse próprio para atividades que servem apenas aos interesses corporativos e não à população.

Muitos de vocês têm criticado com razão o decreto do etanol, que tornou lucrativo para os produtores deixar de produzir milho para a alimentação e produzi-lo para a fabricação de combustíveis, aumentando assim o preço dos alimentos em todo o mundo. O que é interessante é que aqui vocês culparam a política e não o desejo de lucro e a cobiça! A crise financeira atual é análoga.

Nenhum economista defensor do livre mercado pensa que “a cobiça é boa em qualquer caso”! O que acreditamos ser verdadeiramente bom são as instituições que jogam com o interesse próprio de atores individuais ao recompensá-los por servir à população, não apenas a si mesmos. Acreditamos que é isso que o livre mercado faz de verdade. As trocas no mercado são mutuamente benéficas. Quando uma lei atrapalha tudo, seja não definindo claramente as regras do jogo ou tentando burlá-las através de regulamentações, a ação em função do interesse próprio não é mais mutuamente beneficente economicamente. Assim, o setor privado lucra ao servir a alguns poucos fins políticos em vez de servir ao público. Nesses casos, a cobiça nos leva a terríveis conseqüências, que são terríveis não por causa da cobiça ou do interesse, mas por conta do contexto institucional no qual ela opera, canalizando o interesse em caminhos socialmente improdutivos.

Foi isso, meus amigos, que nos trouxe à crise que nos encontramos agora.

Chamar a crise do crédito e da habitação de falha do livre mercado ou produto da cobiça exagerada é ignorar diversas regulamentações governamentais, políticas e discursos políticos que reduziram a “liberdade” desse mercado e que canalizaram o interesse próprio de maneiras que produziram conseqüências desastrosas, intencionalmente ou não. Deixem-me recapitular rapidamente o papel do governo nessa pequena novela.

Em primeiro lugar, Fannie Mae e Freddie Mac foram empreendimentos “patrocinados pelo governo”. Embora fossem, tecnicamente, propriedade privada, possuíam privilégios especiais, garantidos pelo governo, eram supervisionados pelo Congresso e, o que é mais importante, sempre trabalharam com a promessa de que receberiam ajuda financeira caso tivessem problemas. Nada parecido com o “livre mercado”. Todos os participantes do mercado de financiamentos imobiliários sabiam disso desde o início. No começo dos anos 1990, o Congresso afrouxou as exigências para empréstimos de Fannie e Freddie (para um quarto do capital exigido pelos bancos comerciais comuns) a fim de aumentar a sua capacidade de conceder empréstimos em áreas pobres. O Congresso criou também uma agência regulatória para supervisioná-los, mas essa agência também deveria recredenciar-se junto ao Congresso anualmente para obter o seu orçamento (nenhuma outra agência reguladora faz o mesmo), certificando-se que diria ao Congresso exatamente o que ele gostaria de ouvir: “as coisas estão indo bem.” Em 1995, foi concedida a Fannie e Freddie uma permissão para entrar no mercado subprime e os reguladores começaram a agir contra os bancos que não realizavam empréstimos suficientes em áreas com problemas de crédito. Foram feitas inúmeras tentativas de controlar Fannie e Freddie, mas o Congresso não tinha votos suficientes para fazer isso, especialmente com as duas organizações fazendo contribuições significativas a membros de ambos os partidos. Em 1999, até mesmo o New York Times percebeu exatamente o que poderia acontecer graças a esse mercado nem um pouco livre, advertindo sobre a necessidade de ajudar Fannie e Freddie caso o mercado imobiliário entrasse em crise.

O que complicou ainda mais as coisas foi a revisão, realizada em 1994, da Lei de Reinvestimento Comunidário (CRA), de 1971. A CRA exige que bancos concedam uma determinada porcentagem de seus empréstimos às comunidades locais, principalmente aquelas menos favorecidas economicamente. Além disso, o Congresso explicitamente incentivou Fannie e Freddie a expandir seu nível de empréstimos a mutuários com “crédito marginal” como forma de popularizar a casa própria. O resultado da soma de todos esses fatores foi a criação de enormes lucros e incentivos políticos para os bancos e a concessão cada vez maior de empréstimos de alto risco a mutuários de baixa renda por Fannie e Freedie. Apesar de bem intencionada, a tentativa de transformar mais americanos em proprietários de imóveis, obrigando bancos a tomar parte nela e reduzindo artificialmente os custos dessa ação, é parte considerável do embaraço em que nos encontramos agora.

Ao mesmo tempo, os preços dos imóveis subiam, fazendo com que aqueles que tinham conseguido empréstimos altos com pagamentos suaves sentissem que poderiam pagá-los, e inspirando uma grande variedade de “instrumentos de financiamento”. O que é mais interessante é que o aumento nos preços afetou mais decisivamente as cidades com regulamentações mais estritas em relação ao uso da terra, o que também explica o fato de que nem todas as cidades foram afetadas pelo mesmo nível de aumento no preço de imóveis. Essas regulamentações evitaram que alguns tipos de espaço fossem utilizados para a construção de moradias, empurrando a crescente demanda por habitação (turbinadas pelas considerações acima) para uma oferta de terras que respondia lentamente aos estímulos. O resultado foi um rápido aumento nos preços. Naquelas áreas com regulamentações menos exigentes em relação ao uso da terra, o efeito da explosão no preço dos imóveis foi muito menor. Repetindo, foi a regulamentação, não o livre mercado, que guiou a busca pelo lucro e foi um fator importante para o aumento do preço dos imóveis que alimentou a farra dos empréstimos.

Enquanto isso tudo acontecia, o Fed (o Banco Central), nominalmente privado, mas que tem grandes privilégios monopolísticos garantidos pelo governo, inflava o crédito e reduzia seguidamente a taxa de juros. Esse influxo de crédito alimentou ainda mais os empréstimos desenfreados. Com uma abundante disponibilidade de fundos, graças ao monopólio gente-boa do banco central (nada a ver com o livre mercado), os bancos podiam continuar a conceder empréstimos cada vez mais arriscados.

O que acontece no ultimo capítulo dessa história é que em 2004 e 2005, logo após os escândalos contábeis de Freddie, ambas as empresas se penitenciaram por seus erros no Congresso concordando em expandir seu nível de empréstimos a consumidores de baixa renda. Ambas concordaram em adquirir quantidades maiores de subprime e empréstimos Alt-A, dando sinal verde para os bancos concederem-nos. De 2004 a 2006, a porcentagem de empréstimos das categorias de maior risco cresceu de 8% para 20% de todos os empréstimos concedidos nos Estados Unidos. E a qualidade desses empréstimos também caía: o número de quitações antecipadas caía progressivamente e um número cada vez maior de empréstimos possuía uma pequena taxa de juros no início, mas que seriam corrigidas mais tarde. Os bancos aceitavam mutuários de risco, mas sabiam que Fannie e Freddie comprariam, seguramente, esses empréstimos; garantidos – claro – por nós, que pagamos impostos. Sim, os bancos foram gananciosos na busca de novos clientes e da concessão de empréstimos mais arriscados, mas eles estavam respondendo a incentivos criados pelas bem intencionadas, mas equivocadas, intervenções governamentais. No fim das contas, essas intervenções são as responsáveis pelos empréstimos arriscados que foram mal sucedidos e que estão no centro da crise atual – não o “livre mercado.”

Assim, a confusão em que estamos está irremediavelmente ligada à interferência governamental sobre o livre mercado, do fomento do Fed à CRA e às regulamentações sobre o uso do solo, até Fannie e Freddie criando um mercado artificial de financiamentos de risco para satisfazer as demandas do Congresso de aumentar as oportunidades de as famílias de baixa renda adquirirem um imóvel. Graças a essa intervenção, muitas dessas famílias não apenas perderam suas casas, mas também a poupança que poderiam ter guardado por mais alguns anos e que talvez lhe ajudassem a contrair um empréstimo menos arriscado ou encontrar uma casa mais barata. Todas essas intervenções no mercado criaram o incentivo e os meios para os bancos lucrarem com a concessão de empréstimos que nunca teriam existido em um mercado verdadeiramente livre.

Vale a pena notar que essas políticas, regulamentações e intervenções foram, em geral, totalmente apoiadas pelos interesses dos indivíduos envolvidos. Fannie e Freddie ganharam bilhões enquanto o preço das casas subia e seus CEOs recebiam generosos salários. O mesmo aconteceu com vários bancos e outros intermediários no mercado de financiamentos que ajudaram a espalhar o risco que estava em jogo, inclusive aqueles que desenvolveram diversos tipos de instrumentos financeiros novos, criados para lidar com o elevado risco de inadimplência que a intervenção gerou. Estavam participando de um jogo maravilhoso e o mercado financeiro estava feliz em ter Fannie e Freddie como compradores vorazes de seus empréstimos de risco, sabendo que os dólares dos contribuintes americanos estariam sempre lá que precisassem. A história das regulamentações comerciais nos Estados Unidos é a história das empresas utilizando as regulamentações para seus próprios propósitos, independentemente da aura de interesse público que lhes envolve. Foi exatamente isso que aconteceu no mercado imobiliário. E é também por isso que os clamores por mais regulamentações e mais intervenções são tão equivocados: elas não funcionaram antes e não funcionarão novamente porque aqueles que têm os lucros em risco são os mesmo que possuem os recursos e o acesso ao poder necessários para garantir que o jogo seja manipulado a seu favor.

Meus amigos, sei que vocês estão preocupados com o poder das corporações. Eu também estou. Como também estão muitos dos meus colegas, economistas, defensores do livre mercado. Nós simplesmente acreditamos, e acho que a história está do nosso lado, que a melhor arma contra o poder das corporações é o mercado competitivo e o poder dos dólares dos consumidores (limitado, claro, pela proibição legal do uso da força e da fraude). A competição faz as corporações sujas e más competirem umas com as outras para nos servirem. Sim, elas ainda têm poder, mas os seus poderes negativos são reduzidos. É quando as corporações podem utilizar o Estado para manipular as regras a seu favor que os efeitos negativos de seu poder se tornam exagerados, precisamente porque elas têm a força do Estado a lhes dar cobertura. A confusão atual demonstra isso como nunca antes, uma vez compreendido o grande papel que o Estado desempenhou. Se você realmente deseja reduzir o poder das corporações, não lhes conceda acesso ao Estado, expandindo seus poderes regulatórios. É exatamente isso que elas querem, como a batalha pelos 700 bilhões de dólares demonstra claramente.

É por isso que tantos entre nós, defensores do livre mercado, se opõem ao socorro financeiro governamental. Esse é mais um exemplo de uma longa história do setor privado tentando enriquecer através do Estado. Quando isso acontece, não há benefícios para nós, diferentemente do que acontece quando as empresas tentam enriquecer no mercado competitivo. Além disso, essas mesmas empresas se beneficiaram enormemente das intervenções regulatórias que elas apoiaram e que nos causaram tantos danos. O eventual estouro da bolha e suas perdas subseqüentes são, para muitos de nós, um prêmio justo para aqueles que manipularam o jogo e no fim das contas acabaram sendo pegos. Recompensá-los novamente por terem manipulado o jogo não é apenas moralmente injusto, é também uma política econômica muito ruim, já que envia uma mensagem para outros possíveis manipuladores, que eles também serão recompensados por destruírem a economia americana. Haverá problemas em curto prazo se não socorrermos essas empresas, mas essa é a ressaca que teremos depois 15 anos ou mais de empréstimos desenfreados. O socorro proposto não poderá evitar as dores da ressaca; poderá apenas ocultá-las, espalhando as dores entre os contribuintes e uma economia enfraquecida pelos empréstimos, pelos impostos e/ou pela inflação necessárias para de pagar os US$ 700 bilhões. É melhor que enfrentemos logo nossa dor em curto prazo e limpemos assim os erros causados por nossos exageros, e então voltemos às negociações no livre mercado, sem criarmos um poder executivo monstruoso, tentando “salvar” aqueles que mais lucraram com aqueles mesmos exageros, além de causar danos aos pagadores de impostos nesse processo.

O que eu peço a vocês, meus amigos da esquerda, não é apenas continuar a trabalhar junto conosco na oposição a esse ou a qualquer outro bailout, mas que considerem atenciosamente se vocês realmente desejam confiar à mesma entidade, que é a causa predominante dessa crise, o poder de tentar curá-la. Novos poderes regulatórios podem parecer ser a solução, mas foi exatamente isso que as pessoas disseram quando a CRA foi aprovada, ou quando foram dados novos mandatos à Fannie e Freddie. E as próprias empresas que serão reguladas serão as primeiras na fila para determinar como essas regulamentações serão escritas e aplicadas. Vocês podem apostar em como o jogo vai ser manipulado.

Eu sei que vocês tendem a pensar que os problemas com essas regulamentações são culpa dos indivíduos que as formulam. Você pensa que se Obama pudesse vencer, se nós pudéssemos nos livrar dos republicanos corruptos e colocássemos pessoas éticas e bem intencionadas em seu lugar, tudo ficaria bem. Mas pense novamente. Em primeiro lugar, quase toda intervenção governamental que serviu de base para essa crise foi implementada com os democratas na presidência ou no controle do Congresso. Mesmo quando os republicanos controlavam o Congresso, o presidente Clinton conseguiu mudar as regras para permitir que Fannie e Freddie entrassem no mercado de empréstimos de alto risco. O que defendo aqui não é colocar a culpa da crise atual nos democratas. Essa culpa deve ser dividida igualmente. O que estou dizendo é que esperar que se as “pessoas certas” evitarão esses problemas ao assumir o poder é, além de ingenuidade, uma cegueira histórica. Em relação ao interesses corporativos, eles foram ajudados, talvez sem querer, por tentativas bem intencionadas de pessoas boas de fazer o bem. O problema é que havia um grande número de conseqüências indesejáveis, a maioria delas previsíveis e já previstas. Não importa qual partido esteja comandando o navio: as regulamentações trazem consigo conseqüências inesperadas e sempre tenderão a ser capturadas pelos interesses daqueles que têm mais a perder. E a história está cheia de casos em que aqueles que têm propósitos morais ou ideológicos alinham-se politicamente com aqueles cujos interesses materiais estão em risco, mesmo que os dois grupos, em geral, coloquem-se em lados distintos. Esse é o famoso fenômeno dos “contrabandistas e batistas”.

Se vocês chegaram até aqui, já estou satisfeito. Aceitando ou não todos os argumentos que escrevi, peço-lhes uma coisa: a história que contei no começo, sobre o papel da intervenção governamental nessa confusão, é verdadeira, seja quais forem as suas grandes conclusões sobre suas causas e curas. Mesmo que vocês não concordem com meu argumento de que mais regulamentação não seria a cura, a atribuição dessa crise ao “livre mercado” deveria soar para vocês como uma mentira evidente e eu esperaria que vocês parassem de fazer essa afirmação ao falar ou escrever sobre os acontecimentos das últimas duas semanas. Podemos discordar de boa fé sobre o que fazer agora, e podemos discordar de boa fé sobre até que ponto as intervenções governamentais causaram os problemas, mas é injusto culpar um inexistente livre mercado por uma crise que foi de certa forma resultado das sistemáticas intervenções governamentais no mercado. Então, caso não tenha conseguido persuadi-los de nada mais, espero sinceramente que eu tenha-lhes persuadido nesse ponto.

No fim das contas, tudo que lhes peço é que continuem pensando nisso. Utilizar a cobiça para explicar essa crise não levará muito longe, já que a cobiça, como a gravidade, é constante no mundo. A explicação da crise como uma falha do mercado confrontará uma verdade óbvia: que esses mercados estavam longe de estar livres da influência governamental. Considerem que vocês possam estar enganados. Considerem que talvez a intervenção governamental, e não o livre mercado, tenha levado aqueles que buscam o lucro a exercer atividades que causam danos à economia. Considerem que a intervenção governamental pode ter levado bancos e outras organizações a assumir riscos que nunca deveriam ter assumido. Considerem que os bancos centrais governamentais são as únicas organizações capazes de alimentar esse fogo com o excesso de crédito. E considerem que as diversas regulamentações podem ter forçado os bancos a fazerem maus empréstimos e aumentado artificialmente o preço dos imóveis. Por fim, considerem que os atores do setor privado estão felizes, apoiando intervenções e regulamentações como essas, por serem lucrativas.

Nós, que apoiamos o livre mercado, não somos os seus inimigos agora. O problema real aqui é o casamento entre o poder corporativo e o poder estatal. Esse é o corporativismo ao qual nós dois nos opomos. Eu só lhes peço que considerem se esse corporativismo não seria a causa real dessa crise, e que depois vocês reconsiderem se o livre mercado seria a sua causa e se o aumento da regulamentação seria a sua solução.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O pacote dos EUA

José Nivaldo Cordeiro, no MídiaSemMáscara

O mundo está mirando o fundo abismo, bem de cima de um Everest de dólares emitidos. A oferta abusiva de dólares vem de muitos anos, mas esse pacotaço é o que podemos chamar de pôr gasolina para apagar o incêndio. US$ 850 bilhões, uma cifra realmente inacreditável, gigantesca, alucinante. Ela dá bem o tamanho da irresponsabilidade dos homens a quem coube administrar a crise.

Deu-se as costas à razão, à moral natural e à ciência. Qualquer pessoa minimamente desintoxicada do esquerdismo – keynesiano assim como o marxista – sabe que o que está sendo feito é uma perfeita alucinação. Mas como resistir ao moderno Baal e ao seu bezerro de ouro, agora chamado de dólar? Como não escutar seus sacerdotes, os economistas intervencionistas? Como aceitar que a economia natural é a mais salutar e que o Estado não tem nenhuma coisa a dar a ninguém, muito menos solução para a crise? Que o Estado *é* a própria crise e o grande perigo contra a humanidade? Que a normalização da vida, não apenas nos EUA, mas no mundo inteiro, demanda a desinflação do Estado, sua redução a proporções humanas e que a humanidade passe a enxergá-lo como o que de fato é, um mero instrumento para organizar a vida prática e não o salvador do mundo? A criatura não pode ser maior do que seu criador.

Meu caro leitor, quem pisou em alguma escola de nível superior no Brasil, e acredito que no Ocidente inteiro, aprendeu que o Estado tem o suposto poder de resolver o drama da existência humana. Da ordem política e jurídica, até a Saúde, a Educação, a aposentadoria, a economia pessoal de cada um. Teria ele o suposto poder de eliminar o risco existencial. Só a primeira afirmação é verdadeira (prover a ordem política e jurídica), todo o resto é uma falsificação e uma miragem. Uma fuga da realidade como ela é.

O que os governantes dos EUA fizeram foi precisamente isso: alargar o passo e dar as costas à realidade, fugindo dela em desabalada carreira. Uma completa loucura, um atirar pedras na lua. O vaticínio se impõe: a nação norte-americana deverá mergulhar numa inflação alucinada, mas não conseguirá voltar ao status quo ante. Aquela vida a crédito, que dependia da valorização dos imóveis e da crença alucinada de que o preço dos ativos (imóveis assim com ações) estaria maior amanhã para todo o sempre, simplesmente acabou. A realidade agora se impôs, a despeito da montanha de dólares gerada no pacote.

O populismo dos políticos, diria mesmo sua crença vital irracional, é de que seria possível um voltar atrás, um retorno ao tempo em que toda a gente desconhecia o cassino financeiro em que os EUA se tornaram. Em que os zumbis felizes pagavam suas contas com a artificial valorização dos ativos. Esse cassino permitiu vida farta e prosperidade para um conjunto muito grande de pessoas, que literalmente viveram de crédito por longo período. Uma vida artificial dessa não poderia se manter e mesmo o governo emitindo essa montanha de dólares ela nunca mais voltará.

Sem obter o retorno ao status quo ante, para que o pacote? Para manter o sistema político montado na fraude populista, em primeiro lugar, pois é o combustível dos demagogos. Em segundo, para dar a impressão de que o governo está fazendo alguma coisa, quando na verdade nada deveria fazer, ou melhor, deveria tomar medidas para desinchar e preventivamente agir para que a inflação do dólar não comprometa a liderança mundial dos EUA. Em terceiro, para dizer às massas estúpidas que o deus-Estado está, como sempre, cuidando delas como um fazendeiro crias porcos: para devorá-los. O monstro estatal é o maior matador de homens que já surgiu no planeta. O paralelo com a crise de 1929 se impõe e nunca devemos esquecer que o ciclo daquela crise só se fechou com a II Guerra Mundial.

Eu me pergunto o que acontecerá politicamente nos Estados Unidos quando essa imensa classe média, que vivia ricamente, sem trabalhar, comprando e vendendo ações de seu computador pessoal, instalado em sua poltrona, descobrir que a brincadeira acabou. The game is over. Quando ela, a classe média, descobrir que seu imóvel não vale nada, que não tem comprador para ele, mas a sua hipoteca continua valendo. Essa gente vai entrar em desespero e toda vez que a classe média entra em desespero temos o caminho semeado para as tentações totalitárias. Nada de bom acontece quando a classe média se desespera e ela só pode escapar ao desespero quando os demagogos são desacreditados e os verdadeiros líderes assumem o comando da situação. A democracia só poderá sobreviver sob a liderança de gente moralmente superior. Onde estão esses líderes? Onde estão os homens egrégios? Não os vejo, vejo apenas demagogos falar à multidão.

Essa crise poderia ter acontecido anos antes. A dádiva do grande aumento da produtividade associada às inovações tecnológicas, no campo da informática e das telecomunicações, retardou o ajuste, que finalmente chegou.

Leia agora na revista Veja que acabou de chegar às bancas: “Com a aprovação do pacote de ajuda, Tio Sam salvou o mundo do colapso e será possível, primeiro, medir o tamanho do estrago e, em seguida, empreender a caminhada de volta na reconstrução dos mecanismos americanos e globais de produção de riqueza”. Nessa frase está o senso comum, a grande mentira. O Tio Sam não salvou coisa alguma e não haverá reconstrução que não seja um retorno à economia natural. E qual é esta? É a liberal, aquela que está na Bíblia: “Comerás o pão com o suor do seu rosto”. O pacote tenta precisamente escapar do real, é ele próprio o foguete a levar os homens lunáticos à lua. Um grande desastre. Seria cômico se não fosse trágico.

Qualquer arranjo fora desse preceito natural é artificial, irracional e alucinado. Não haverá melhora alguma se as bases racionais da sociedade não forem restauradas. Isso equivale a uma radical mudança na maneira como as massas vêem o Estado, de um bondoso provedor de benesses para o autor da grande tragédia. É tarefa para um Moisés converter as massas, alguém que traga as tábuas da Lei e mande destruir os bezerros de ouro. Os homens precisam parar de fazer seus sacrifícios a Baal. Chega de impostos! Chega de regulamentos! Chega de guardas na esquina dizendo o que as pessoas adultas devem fazer! Chega de Estado!

Capitalismo de mentirinha

por João Luiz Mauad, no MídiaSemMáscara

“Government is not the solution to the problem. Government IS the problem.”
(Ronald Reagan)


No decorrer de uma dessas crises recorrentes do capitalismo, durante os anos 80, o então presidente Reagan, instado a fazer o Estado salvar a economia do cataclismo que se anunciava pela mídia, formulou a famosa frase que até hoje reverbera no mundo liberal como uma das mais lúcidas e criativas tiradas do ex-presidente: “na crise atual, o governo não é a solução para os nossos problemas; o governo É o problema”.

Se vivo fosse, provavelmente estaria dizendo hoje a mesma coisa. Embora as viúvas do comunismo insistam em maldizer o mercado e a ganância dos agentes econômicos pelas mazelas por que passa o setor financeiro mundial, e proclamem que é chegada a hora de o todo-poderoso Estado-babá colocar ordem na casa, a verdade é que os referidos problemas têm início, meio e fim nas ações (e regulamentações) equivocadas do Tio Sam, as quais disseminaram incentivos institucionais nocivos entre os agentes, que acabaram por desvirtuar, durante quase três décadas, a eficiente alocação dos recursos no mercado.

Como muito bem colocou o economista Lawrance H. White, “culpar a ganância dos agentes pelo problema é o mesmo que culpar a força da gravidade pela queda de um avião”. Tal qual a gravidade nos eventos de natureza física, a ganância estará quase sempre presente nas interações dos indivíduos no mercado. Se o problema estivesse na ganância, portanto, nem só o setor financeiro estaria atingido, mas o mercado como um todo. Aliás, de forma geral, as trocas no mercado seriam impossíveis se precisássemos afastar a ganância humana para que elas se realizassem.

Por outro lado, para qualquer analista sério, não resta dúvida de que a origem da atual crise está intimamente relacionada às “ações afirmativas” dos recentes governos norte-americanos, a começar pela paternidade desses dois monstrengos gêmeos – que respondem pela alcunha de Freddie Mac e Fannie May – cujo caráter peculiar de empresas privadas implicitamente patrocinadas pelo governo, aliado à demagogia dos políticos em querer tornar em realidade o sonho da casa própria a cada americano, tudo isso temperado por uma política monetária frouxa, acabou gerando a famigerada bolha imobiliária que acaba de estourar.

Em meu último artigo, contei a história das duas estrovengas híbridas, meio peixe, meio mulher, digo, meio públicas, meio privadas, e como elas se valeram de sua situação especial para tomar e emprestar dinheiro barato. O que eu não contei ainda foi que os políticos também apropriaram-se delas para colocar em ação suas políticas demagógicas e ações assistencialistas.

Tudo começou em 1977, quando o então governo socialista de Jimmy Carter criou o chamado Comunity Reinvestment Act, cujo propósito era obrigar os bancos a emprestar uma parte dos seus ativos às comunidades mais carentes. Em 1994, aquela legislação foi ampliada, e o governo explicitamente determinou que a dupla expandisse seus empréstimos a tomadores finais de baixa renda. Isso, logicamente, criou enormes incentivos para que os bancos emprestassem mais aos hipotecários chamados “sub-prime”, ou com capacidade de pagamento reduzida, já que, na retaguarda, Fannie e Freddie entrariam como uma espécie de “resseguradores” estatais, numa analogia com o mercado de seguros.

Enquanto isso, o Banco Central (FED) continuava com sua política de crédito frouxa, sempre na esperança de que pudesse adiar indefinidamente as tão odiadas recessões. (Só para que o leitor possa ter uma idéia de como essa paranóia anti-recessiva está impregnada na política daquele país, existe por lá uma lei – Humphrey-Hawkins – apelidada de “lei do Pleno Emprego”, que força o FED a manter as taxas de juros artificialmente baixas, olhando não só para a inflação e o poder de compra da moeda, como seria prudente, mas também para os índices de emprego e desemprego).

Com o dinheiro cada vez mais barato e disponível, os bancos continuavam a assumir riscos cada vez maiores. Para piorar as coisas, em 2005, após um escândalo contábil ocorrido na Freddie Mac, ambas as GSEs concordaram, como forma de penitência diante do congresso, em expandir ainda mais as suas operações junto às comunidades de baixa renda, de tal sorte que, entre 2004 a 2006, o percentual das chamadas operações “sub-prime” cresceu de 8 para 20% do total de hipotecas. E, mesmo diante de todas as evidências, ainda há gente hipócrita a gritar que a raiz do problema estava na ausência da mão peluda do Estado. É preciso ser muito cara-de-pau!

Em resumo, os bancos assumiam cada vez mais riscos, mas tinham compradores garantidos para os seus títulos, nas pessoas de Freddie e Fannie, as quais estavam – em princípio supostamente, e agora efetivamente – lastreadas pelo governo (contribuinte). O leitor poderá dizer que os bancos agiram sem as devidas cautelas, além de movidos pela ganância de ganhar sempre mais – o que é absolutamente correto. Ocorre que eles estavam respondendo a incentivos criados por intervenções do governo, ainda que estas intervenções muitas vezes fossem bem intencionadas.

Pois bem: depois que a cobra fumou e a crise estabeleceu-se, os mais afoitos resolveram que o incendiário deveria, de uma hora para outra, transformar-se em bombeiro. E pior: o único instrumento de que dispõe o bombeiro/incendiário é justamente querosene. Resumindo, pretende-se curar uma crise gerada por excesso de liquidez, injetando-se no mercado cada vez mais dinheiro.

No afã de defender o chamado “bailout”, seus patrocinadores não se fazem de rogados. O mínimo que prevêem, caso o resgate dos títulos podres pelo governo não seja implementado, é o Armagedom.

Pois eu discordo do catastrofismo reinante no mercado. Até onde a vista alcança, as condições hoje são completamente distintas das de 1929, a começar – e principalmente – pela liquidez do sistema. Note-se ainda que os bancos comerciais não estão tendo maiores problemas, como os bancos de investimento, e recentes dados divulgados lá nos EUA demonstram que as linhas de crédito comerciais estão fluindo e irrigando a chamada economia real sem maiores problemas.

Agora, cá entre nós e que ninguém nos escute: é lógico que os profissionais, investidores ou operadores do mercado, seja porque estão entupidos de papeis podres ou sentados em cima de um monte de ações que não param de encolher, vão ficar alardeando o fim do mundo, pois querem salvar a própria pele ou lucrar um pouco mais.

Ao ler essas opiniões, de gente que tem todo interesse no resultado da questão, me fizeram lembrar das minhas peladas futebolísticas da infância, em que não havia juízes e quem marcava as faltas e decidia as regras eram os próprios jogadores. É óbvio, e não podia ser diferente, que cada um queria “puxar a brasa para a própria sardinha”. E nem poderia ser diferente.

Vejam, por exemplo, o caso do famigerado Warren Buffet, oráculo do mercado financeiro mundial e de boa parte da chamada Grande Mídia: acabou de comprar $ 5 bi em papeis do Goldman Sachs “na bacia da almas”. É previsível, e muito provável que, a curto prazo, as ações desse banco de investimento aumentem muito de preço, caso o pacote do governo venha a ser aprovado. O que faz então ele? Usa todo a sua influência, tanto junto ao Congresso quanto junto à mídia, para alardear uma crise sistêmica profunda, caso o congresso não aprove o plano de salvamento. E tome canelada pra todo lado.

Já no meio acadêmico, no entanto, não há essa ânsia pela aprovação do plano, nem há consenso sobre supostas catástrofes, caso o plano não seja aprovado. É evidente que algum sofrimento imediato, principalmente no meio financeiro, vai ocorrer, mas daí a supor que acontecesse “o fim do mundo” ou que “a vaca fosse para o brejo” vai uma enorme diferença.

Enfim, já me alonguei demais, especialmente porque, pelo menos de acordo com os últimos informes vindos de Washington D.C., parece que a associação perversa dos rent-seekers do mercado financeiro com os intervencionistas do Estado-Babá mais uma vez irá deixar os contribuintes com o abacaxi nas mãos e o pepino sabe-se lá onde…

E viva o capitalismo de mentirinha!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ron Paul on Bloomberg TV

STOP THE BAILOUT OR.... DEPRESSION?

A falência é a resposta certa – não o bailout

Por Jeffrey A. Miron, no Ordem Livre

A câmara dos deputados americana irá votar sobre o bailout de 700 bilhões de dólares proposto pelo governo Bush, e aprovado pelo senado. Segundo esse projeto, o Tesouro Nacional compraria os “títulos em apuros” das instituições financeiras, numa tentativa de evitar uma falência geral da economia.

Mas o bailout foi uma péssima idéia, e eis o porquê.

A confusão em que estamos nunca teria começado na ausência de políticas federais pessimamente planejadas. O governo federal criou Fannie Mae em 1938 e Freddie Mac em 1970; essas duas instituições de crédito imobiliário estão no centro da crise. O governo implicitamente prometeu cobrir suas dívidas, e então elas passaram a assumir uma quantidade excessiva de riscos.

Para piorar as coisas, a partir de 1977 e cada vez mais nos anos 90 e no início desse século, o congresso forçou Fannie, Freddie e os demais credores imobiliários a expandir seus empréstimos subprime. O setor ficou satisfeito em cumprir a nova obrigação, confiando na promessa implícita de garantia federal, e os empréstimos subprime passaram a crescer enormemente.

Esse tipo de empréstimo foi mais do que um pequeno deslize nas diretrizes crediárias existentes; ele significou um abandono total das práticas sensatas de empréstimos, e mutuários com crédito ruim passaram a receber financiamentos que não tinham como pagar.

Assim que os preços de imóveis começaram a despencar e as condições econômicas se deterioraram, as falências e as moratórias aumentaram, fazendo com que o setor ficasse com uma enorme quantidade de títulos hipotecários enormemente desvalorizados.

O fato de que o governo tem uma imensa responsabilidade na criação da crise atual significa que qualquer solução deve passar por eliminar as condições que vieram a criar essa situação, e não por tentar corrigir a intervenção excessiva do governo com ainda mais governo.

A alternativa óbvia ao bailout é deixar que as instituições financeiras em crise declarem falência. Em geral, falência significa que os acionistas quebram e os credores passam a ser os donos da empresa.

Falência não significa que a empresa irá desaparecer; ela apenas terá um novo dono (como aconteceu com muitas empresas de aviação). A falência pune aqueles que assumiram riscos em excesso, ao mesmo tempo que preserva os aspectos do negócio que permanecem lucrativos.

Em contraste, o bailout transfere uma vasta quantidade de recursos dos pagadores de impostos para aqueles que conscientemente participaram de empréstimos subprime arriscados. Assim, o bailout incentiva as empresas a assumir imprudentemente grandes riscos, e contar com o eventual socorro do governo. Essa proteção contra as conseqüências das próprias ações gera distorções enormes na alocação dos recursos financeiros de uma economia.

Os defensores mais ponderados do bailout podem admitir essa perspectiva, mas respondem que o bailout é necessário para impedir um colapso econômico. De acordo com essa posição, os credores estão deixando de fazer empréstimos, mesmo para projetos de valor, porque não conseguem arrumar o capital. Há uma dose de verdade nessa visão: se o bailout não ocorrer, provavelmente haverá mais falências e as condições de crédito ficarão piores por algum tempo.

Falar de um apocalipse, no entanto, é um alarmismo ridículo. Se as instituições financeiras não podem fazer empréstimos produtivos, uma oportunidade de lucro existe para outra pessoa. Pode ser que isso não aconteça instantaneamente, mas acontecerá.

Além disso, o congelamento do crédito atual é provavelmente causado pela esperança de um bailout de Wall Street. Os banqueiros não venderão seus títulos podres por 20 centavos se existe a chance de o governo pagar 30, 50 ou 80 centavos.

Os custos do bailout estão quase certamente sendo subestimados. A administração pública alega que muitos financiamentos são simplesmente iliquidáveis, mas não realmente sem valor, indicando que os pagadores de impostos recuperarão grande parte dos 700 bilhões.

Se esses títulos realmente valem alguma coisa, no entanto, os grupos privados deveriam querer comprá-los, e fariam isso se os seus proprietários estivessem dispostos a aceitar o valor justo do mercado. É muito mais provável que os atuais proprietários tenham varrido o valor irrisório de seus títulos para debaixo do tapete.

O plano do bailout tem muitos problemas. A legislação final provavelmente incluirá várias condições colaterais e negociações especiais que recompensarão os lobistas de Washington e seus clientes.

A antecipação do plano de resgate irá gerar um comportamento estratégico nas instituições de Wall Street enquanto elas rearranjam seus títulos e põem seus balanços na ordem que maximiza sua fatia. O plano do bailout abrirá as portas para um envolvimento federal ainda maior no mercado financeiro.

O que o governo deve fazer, então? Eliminar as políticas que geraram a confusão presente. Isso significa, de modo geral, abandonar o objetivo de oferecer a casa própria independentemente da capacidade de se pagar por ela. Isso significa, em particular, acabar com a Fannie Mae e o Freddie Mac, e com políticas do tipo da Community Reinvestment Act, que pressionam os bancos a fazer empréstimos subprime.

A visão correta desse caos financeiro é que uma fração enorme dos empréstimos subprime jamais deveria ter ocorrido. Alguém tem que pagar a conta. E esse alguém não deve ser, nem precisa ser, o contribuinte americano.

The Dark Bailout

Os Bárbaros Ocidentais

Rodrigo Constantino



“Quando você quer ajudar as pessoas, você diz a verdade a elas; quando você quer se ajudar, você diz a elas aquilo que elas querem escutar.” (Thomas Sowell)

Os impérios sempre sofreram ameaças vindas de fora, como os romanos tendo que enfrentar os hunos de Átila. Atualmente, a civilização Ocidental precisa lidar com os riscos do fanatismo islâmico, cujo ícone Bin Laden deixa evidente o desejo de destruir tudo aquilo que o Ocidente representa. Mas nem toda a ameaça vem de fora. Muitos ocidentais mesmo lutam para destruir os principais valores ocidentais. Com esses inimigos em mente, Thomas Sowell reuniu no livro Barbarians Inside the Gates vários artigos refutando inúmeras falácias repetidas com freqüência. Sua tese é que os grandes inimigos da civilização ocidental não estão fora dos portões, mas sim dentro, e possuem títulos acadêmicos, poderes judiciais, contam com verbas públicas e controlam o meio artístico e a mídia. Em resumo, são os criadores da agenda “politicamente correta” que busca sempre atacar os pilares da civilização moderna.

Sowell escolhe diversos alvos diferentes, separando os capítulos por temas como economia, política, educação e a questão racial. Seus artigos são sempre muito objetivos, e logo na introdução ele deixa claro que o livro é para aquelas pessoas comuns que entendem o que se quer dizer quando se afirma que o céu é azul. Herdeiros do “desconstrutivismo” de Jacques Derrida fazem parte justamente dos alvos de Sowell, intelectuais que têm bastante facilidade para manipular palavras, mas que ignoram o fato de que a realidade não é maleável como a linguagem. Sowell adota o caminho oposto: linguagem simples e direta, mas em sintonia com os fatos da realidade. Em outras palavras, Sowell apela ao bom-senso, contra as “grandes idéias” da intelligentsia, que costumam deixar rastros enormes de sangue no caminho.

Não podemos esquecer que os experimentos mais terríveis do século XX – o comunismo e o nazismo – foram criações de intelectuais, defendidas por muitos outros intelectuais. Tanto Pol-Pot como seus principais seguidores estudaram o marxismo em Paris, por exemplo, e o filósofo Sartre defendeu a “Revolução Cultural” de Mao Tse Tung, responsável por uma das maiores atrocidades já realizadas pelo homem. Vários intelectuais defendem o regime cubano até hoje. Muitos genocidas e ditadores receberam o apoio desses “pensadores”, e chegaram ao poder graças às suas idéias. Como resume o próprio Sowell, o “totalitarismo foi um fenômeno intelectual”. O socialismo, mesmo com seus gritantes fracassos em todos os lugares onde foi testado, continuou e continua encantando muitos intelectuais. Conforme Sowell coloca, o seu fracasso é tão evidente que apenas um intelectual poderia ignorar um fato desses.

Os inimigos internos da cultura ocidental utilizam várias táticas distintas para atingir o mesmo objetivo: detonar todos os principais pilares da civilização moderna. O multiculturalismo, por exemplo, é uma dessas táticas. Sowell aponta a hipocrisia do discurso em prol do relativismo cultural, lembrando que seus adeptos costumam ser aqueles que desfrutam dos benefícios que a tecnologia moderna oferece, enquanto desdenham dos processos que podem produzi-los. A palavra mágica é “diversidade”, que quando utilizada parece impedir o uso da razão, cedendo lugar às emoções. Há diversidade entre a social-democracia e o nazismo, mas nem por isso os relativistas parecem dispostos a defender o nazismo, apenas em nome da tal “diversidade”. Outra palavra adorada é “mudança”, mas como Sowell lembra, aqueles que falam incessantemente sobre mudança costumam ser bem dogmáticos, e querem apenas mudar os outros, na verdade. A questão que poucos param para perguntar é: mudar em qual direção? Afinal de contas, entrar em guerra é uma mudança, assim como sucumbir a uma ditadura.

A idolatria ao governo é um dos grandes sintomas desse câncer moderno. Sowell dedica vários artigos a este tema, derrubando o mito de que as soluções para os problemas existentes passam sempre por mais governo. Os intelectuais adoram falar em “direitos”, esquecendo que os bens e serviços em questão não caem do céu. “A única forma de alguém ter um direito a algo que deve ser produzido é forçar algum outro a produzir para ele”, afirma Sowell. Eis algo bastante evidente, mas curiosamente sempre ignorado por aqueles que adoram pregar o altruísmo com o esforço alheio. Poucas coisas são mais perigosas do que deixar algumas pessoas decidirem por aquilo que outros terão que arcar com os custos. No entanto, esses “bárbaros” não querem saber de custos, mas sim de posar de nobres altruístas e chegar ao poder. Eles tratam palavras como “compaixão” como se fossem monopólio deles, tentando inviabilizar qualquer debate sobre os meios.

Se alguém é contra o uso da força através do governo para alguma meta, então é assumido automaticamente que ele é contra a meta em si. Apenas esses intelectuais são “pacifistas”, “altruístas” ou “sensíveis”, ainda que os meios por eles pregados sempre levem a resultados opostos a tais fins. Mas quem liga para os resultados? O objetivo é apenas conquistar o poder ou se sentir bem por mergulhar numa “cruzada moral”, enquanto os outros são vistos como seres inferiores, egoístas gananciosos que não possuem uma alma tão pura como eles. Como Sowell afirma, é complicado entender porque seria ganância desejar manter o próprio dinheiro ganho, mas não seria ganância querer tomar o dinheiro dos outros. Enquanto esses intelectuais prometem salvar a humanidade, o governo vai exigindo mais e mais recursos, criando novos problemas para demandar mais impostos e poder. O paternalismo serve como uma camuflagem para a busca do poder ou uma “ego trip” para seus defensores. Os indivíduos são sempre tratados como mentecaptos indefesos, que necessitam do governo e desses intelectuais para lhes dizer como viver. A esquerda jamais compreendeu que, ao darmos poder suficiente para o governo criar a tal “justiça social”, então damos também poder suficiente para ele criar um despotismo. Ou talvez tenha entendido e defenda mesmo assim...

O livro segue com excelentes artigos sobre educação, violência e racismo, sempre combatendo a visão “politicamente correta” que impede qualquer debate honesto sobre temas delicados. Sowell rebate a idolatria à mediocridade, por exemplo, daqueles que falam em “igualdade” na educação, querendo dizer igualdade de resultados, e não melhores oportunidades para todos. Ele lembra que só é possível ensinar todos no mesmo ritmo se o ritmo cair para aquele do menor denominador comum. Seria a morte da meritocracia, um dos objetivos desses intelectuais. A responsabilidade individual é também defendida por Sowell, já que é um dos alvos prediletos dos “bárbaros”, sempre ávidos por culpar a “sociedade” por todos os atos irresponsáveis dos indivíduos. Os crimes, por exemplo, são vistos como culpa do “sistema”, e nunca dos criminosos. Os intelectuais pregam o desarmamento de civis como solução, ignorando que o crime já foi banido, mas nem por isso os criminosos seguem a regra.

A ação afirmativa é outra bandeira adorada pelos intelectuais, e totalmente condenada por Sowell, que afirma não conhecer um único argumento convincente para as cotas. Sua defesa costuma ser apenas através de retórica emocional, sem conteúdo concreto. Sowell conclui que os negros viraram “mascotes” para a elite branca de intelectuais, que consegue verbas e poder, além da sensação de superioridade moral, através da defesa de algo claramente racista. A inveja ao sucesso alheio também é um dos motivadores que Sowell cita para a defesa de programas como as cotas. Novamente, não é com o resultado de suas idéias que esses intelectuais estão preocupados. Adotando uma visão coletivista, eles criam mais ressentimento entre indivíduos, segregando a sociedade e estimulando o racismo que alegam combater.

Em suma, a civilização ocidental e todo o progresso que ela possibilitou estão sob ataque, e boa parte das munições vem do “fogo amigo”, ou seja, de dentro do próprio Ocidente. São pessoas que usufruem das vantagens desses avanços, enquanto cospem em cada fator que permite sua continuação ou mesmo sobrevivência. São manipuladores de palavras e conceitos que ignoram os resultados concretos de suas idéias. São intelectuais com uma agenda “politicamente correta”, que dizem pregar a “pluralidade de idéias” enquanto condenam com agressividade qualquer opinião que não esteja de acordo com a ditadura do “consenso”. No fundo, a “tolerância” defendida com veemência é apenas a tolerância com os intolerantes. A defesa de valores mais tradicionais e de conceitos “antiquados” como honestidade, integridade e objetividade são duramente atacados pelos “tolerantes”. É proibido julgar as atitudes dos outros indivíduos, somente se forem atitudes irresponsáveis e inadequadas. Esses intelectuais são os primeiros a julgar e condenar aqueles que discordam de suas idéias. Tudo aquilo que vai contra os principais valores ocidentais é “apenas uma opinião diferente”, mas os valores ocidentais podem ser condenados objetivamente.

A degradação moral patrocinada por esses intelectuais é apenas um estilo de vida alternativo. Ações de vândalos e baderneiros viram apenas atos de “protesto”, enquanto a reação da polícia é uma agressão. A corrupção na política é apenas algo inerente e natural ao processo decisório. Assaltantes são vítimas da sociedade. Reagir à violência com violência é um absurdo, pois eles encaram a equivalência física como uma equivalência moral. Doutrinar crianças ideologicamente nas escolas é educação, mas reclamar disso é censura. Quem sabe o que é certo ou errado, afinal? Ninguém sabe! À exceção, claro, desses intelectuais, os “bárbaros ocidentais” que querem implodir a civilização ocidental de dentro dos seus portões. Com amigos assim, ninguém precisa de inimigos...

Do valor de artigos exóticos

Demétrio Magnoli, no Estado

Quando Tarso Genro ordenou a captura e deportação dos pugilistas cubanos, nos Jogos Pan-Americanos de 2007, converteu-se em herdeiro político legítimo de Alfredo Buzaid, seu antecessor no Ministério da Justiça nos tempos de Garrastazu Médici. Não há surpresa na sua iniciativa de suprimir do projeto de lei destinado a frear a farra dos grampos uma cláusula que protegia o direito jornalístico de divulgar o conteúdo de escutas vazadas de investigações policiais. Nem na sua negativa em admitir a intenção do governo de restringir a liberdade de informar. Afinal, ninguém esqueceu que o ministro do Arbítrio substituiu, ex post facto, o termo de deportação dos pugilistas por um documento de repatriamento.

Genro não está só na ofensiva liberticida. O ministro Nelson Jobim defendeu em depoimento ao Congresso a criminalização da divulgação de escutas pela imprensa e articulou com seu colega Franklin Martins, o ministro da Verdade Oficial, a retirada da cláusula de proteção do trabalho jornalístico. Os três se alinham com o presidente da República, que explicou: "Liberdade de imprensa não pode pressupor que alguém possa roubar informações, e elas possam ser divulgadas sem que a pessoa que tenha roubado seja punida."

A frase de Lula só aparentemente carece de sentido. Um dos deveres clássicos da imprensa é precisamente "roubar informações" de interesse público e divulgá-las, mas o presidente sabe que, no caso, não há nenhum "roubo": são os autores de escutas - legais ou ilegais - que as vazam, e nem sempre primariamente para jornalistas. Atrás da esperteza presidencial se esconde uma doutrina sobre a função da imprensa. Referindo-se ao episódio do grampo no presidente do STF, Gilmar Mendes, Lula descerrou o véu: "Era fácil encontrar quem fez o grampo se o jornalista que fez a matéria dissesse quem é o cara."

Pouco importa, aqui, que nem sempre o jornalista saiba "quem é o cara". Lula está dizendo que, em nome do bem público, a imprensa deve estabelecer uma parceria com o Estado. É precisamente esta doutrina que fundamenta a criminalização da divulgação de escutas. A tríade de ministros em revolta anticonstitucional almeja transformar a imprensa em linha auxiliar da polícia, impondo aos jornalistas, sob as penas da lei, a missão de ocultar informações "sensíveis". Nem o presidente nem seus auxiliares parecem interessados no fato óbvio de que a ruptura do sigilo da escuta não se dá na hora da publicação de seu conteúdo, mas antes, quando arapongas a serviço de interesses criminosos põem os grampos em circulação numa rede mais ou menos ampla. Entretanto, ao tentarem manietar a imprensa, eles prestam um favor inestimável à indústria da chantagem, assegurando que as informações com as quais opera transitarão numa esfera restrita, fora do conhecimento do grande público.

O fascínio pela arapongagem atingiu um ápice histórico, algo que diz volumes sobre a putrefação das instituições. São, no Brasil, 407 mil escutas legais, numa orgia patrocinada pela perigosa associação entre juízes e policiais. Quantas são as escutas clandestinas, mas conduzidas por agentes públicos? Entre os cidadãos, muitos crêem ingenuamente que a destruição em massa da privacidade serve à finalidade de combater a corrupção. Mas o aterrador é constatar a difusão da leniência - ou, no limite, de uma nítida fé liberticida - entre os que, por dever de ofício, deveriam saber mais.

O historiador Boris Fausto escreveu neste espaço que "os fins não justificam os meios", mesmo porque estão entrelaçados, mas abriu uma janela de tolerância em nome do imperativo de "combater o mundo submerso". Os colunistas Fernando de Barros e Silva e Marcelo Coelho, da Folha de S.Paulo, preferiram atirar naqueles que recordam o valor de artigos exóticos como as liberdades individuais. O primeiro, em linguagem reminiscente das ditaduras salvacionistas, sugeriu que os princípios democráticos servem "para preservar privilégios e perpetuar a impunidade". O segundo, num exercício de delinqüência intelectual, decretou que "uma autoridade grampeada é uma autoridade mais transparente, mais submetida ao controle da sociedade". Os católicos buscam a salvação pelas obras e os protestantes, pela fé. Coelho propõe a salvação pela polícia, que parece figurar na sua mente como o equivalente da "sociedade".

Os agentes que escutam nas fímbrias das linhas telefônicas não são, jamais, os ouvidos da "sociedade" - e, no Brasil de hoje, nem sequer podemos ter a certeza pouco tranqüilizadora de que são os ouvidos do Estado. O "mundo submerso", esquece-se com freqüência, não é um universo apartado do mundo oficial, nem do subconjunto dele que é o mundo policial. Mas como é possível esquecer isso quando a guerra empresarial pelo controle do setor de telefonia vinca os altos círculos da elite política e se refrata indiretamente numa Polícia Federal em via de balcanização?

"Quem não deve não teme", diz o ditado de quem não teme pois não sabe o que deve temer. O sigilo telefônico, como o bancário, não nasceu para proteger criminosos, mas para restringir o poder de um "mundo submerso" imbricado no mundo oficial. O seu sentido de fundo é garantir aos cidadãos e, inclusive, a autoridades a possibilidade de desafiarem os governantes, mesmo quando têm segredos profissionais ou pessoais valiosos - e até se cometeram ilegalidades.

A liberdade de informar tem um sentido paralelo. O chão sobre o qual se ergue é formado pela desconfiança na sabedoria do governo - isto é, de qualquer governo. O paradigma de Lula, e de seu cortejo de ministros, é o inverso. Eles desconfiam da sabedoria dos cidadãos e preconizam a salvação pelo Estado. A liberdade do araponga e a censura à imprensa formam as faces complementares de sua teoria da comunicação social.

Não seria tempo de incorporar uma Primeira Emenda à nossa Constituição?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Corporativismo, e não capitalismo

por Radley Balko, no Ordem Livre

Esqueça, por um instante, a AIG. Esqueça Merrill Lynch, Bear Stearns, Lehman Brothers, Freddie Mac e Fannie Mae. Imagine uma empresa muito maior. Imagine uma empresa que, ao fim do ano, tenha gasto 400 bilhões a mais do que arrecadou. Pior ainda: imagine que a contabilidade da empresa é tão ruim que esses 400 bilhões nem chegam perto de cobrir todos os compromissos financeiros da organização.

De fato, essa empresa deliberadamente optou por usar o que é conhecido por “regime de caixa” em vez de regimes de contabilidade mais precisos. O “regime de caixa” é feito com base na quantidade de reservas de dinheiro que a empresa tem em mãos, ignorando seus futuros compromissos financeiros. É como dizer que, se você tem 75 dólares na sua conta bancária agora, então você está com um saldo positivo de 75 dólares – mesmo que você tenha atrasado o pagamento do carro, perdido o emprego, e o cheque do aluguel vá ser descontado no fim do mês.

A empresa também pratica algumas artimanhas como “forward funding” [autorizar que determinado recurso previsto para o próximo ano fiscal comece a ser usado antes do período previsto], “advance funding” [autorizar a utilização de recursos do ano fiscal seguinte para cobrir gastos maiores do que o esperado no ano fiscal atual] e o adiamento de suas obrigações; truques de contabilidade que escondem de auditores e de seus investidores o verdadeiro estado de suas descuidadas finanças.

Essa empresa continuamente pega emprestado dinheiro do fundo de pensão dos seus trabalhadores para pagar suas dívidas. Em seguida, seus contadores alegam que, como a empresa deve o dinheiro que pegou emprestado a seus próprios funcionários, e não a credores externos, o rombo resultante no programa de pensão não conta realmente como uma dívida. Algumas vezes, os executivos da empresa deixam até mesmo de apresentar um orçamento para seus projetos. Quando isso acontece, eles mantêm a empresa funcionando com “gastos de emergência”; o que seus contadores não consideram gastos reais para fins de registro no fluxo de caixa, mesmo que sejam gastos pagos com dinheiro de verdade.

Nesse ponto, você provavelmente já adivinhou onde estou querendo chegar. Eu não estou realmente falando sobre uma empresa privada, mas sim, sobre o governo federal dos Estados Unidos da América. Se qualquer organização privada usasse os mesmos truques de contabilidade que a presidência e o congresso e americanos usam para esconder a enorme dívida e os compromissos financeiros do governo, seus diretores e executivos já estariam todos na cadeia. Mas no governo, isso é uma prática comum. E não estamos nem mesmo considerando o financiamento das duas guerras atuais, que de algum modo está sendo feito por fora do processo orçamentário normal.

Se o governo fosse obrigado a seguir os mesmos padrões de contabilidade do setor privado, sua dívida estaria nos trilhões, e não nos bilhões. Em maio passado, o presidente do Federal Reserve de Dallas, Richard Fisher, disse que apenas a dívida do Medicare e do Social Security [a Previdência Social americana] chegam a assustadores 99,2 trilhões de dólares, ou 333.000 dólares para cada homem, mulher e criança dos Estados Unidos. A quantia é absurda.

Então, quando os líderes do congresso e os candidatos à presidência dos Estados Unidos pedem mais supervisão do governo sobre as enrascadas instituições financeiras, minha vontade é dar uma boa risada. A idéia de que o setor privado estaria melhor hoje se tivesse tido mais supervisão dos políticos é insultante. Nossos políticos não reconheceriam a “responsabilidade fiscal” mesmo que ela esbofeteasse suas caras.

Os magnatas de Wall Street talvez sejam “gananciosos”, como tanto McCain e Obama têm dito, mas ao menos eles sofrem conseqüências reais quando se tornam excessivamente gananciosos: eles vão à falência.

A não ser, claro, quando o governo limpa a barra deles. Até agora, além de estarem pendurados na própria dívida gigantesca do governo federal, os pagadores de impostos irão também arcar com 85 bilhões de dólares para AIG, a gigante dos seguros, com 100 bilhões de dólares tanto para Freddie Mac como para Fannie Mae, assim como irão financiar a rede de segurança da Bear Stearns. Espera-se também que o congresso aprove pelo menos 25 bilhões em subsídios para as três maiores empresas automobilísticas. E pode esperar que mais subsídios virão ao longo do caminho. Tudo isso tem levado alguns analistas a questionar os graus de investimento dos Estados Unidos e, o que é pior ainda, a se perguntar se o próprio governo não irá em breve tombar sob o peso de suas próprias dívidas.

Quando você, um cidadão comum, gasta frivolamente e não paga suas dívidas, o banco toma sua casa. Quando o governo gasta o dinheiro dos seus impostos frivolamente, ele simplesmente maquia os livros para esconder seus excessos. Depois de abandonar os livros, o governo simplesmente pega mais do seu dinheiro ou então imprime mais dinheiro, o que faz com o dinheiro que ele ainda não tomou de você seja desvalorizado. Durante as últimas semanas, ficamos sabendo que o cidadão americano está prestes a passar por mais um ultraje: quando o banco de seu vizinho gasta frivolamente e não paga suas dívidas, o governo aproveita para pegar o seu dinheiro para manter o banco funcionando.

Muitos comentaristas estão culpando o capitalismo por tudo isso. Mas isso não é capitalismo: é um tipo peculiar de socialismo corporativista, onde os bons riscos e os lucros resultantes permanecem privados, mas os maus riscos e os prejuízos resultantes são repassados para o pagador de impostos. Não há nada de livre mercado nisso.

Nem Obama nem McCain nem os líderes de nenhum dos partidos no congresso possuem um plano sensato para lidar com os compromissos financeiros do Social Security e Medicare. Pelo contrário: todos vêm propondo novos e caros projetos de governo que simplesmente não são sustentáveis a longo prazo. Ninguém parece se lembrar do iminente risco financeiro do governo; e todos parecem determinados a piorá-lo.

Perversamente, todos estão pedindo simultaneamente que tenham maior controle sobre o setor privado – pois, segundo sua irritante justificativa, as corporações teriam demonstrado não conseguir comportar-se de maneira fiscalmente responsável por si sós.

Os governos têm ferrado os pagadores de impostos desde que existem governos e pagadores de impostos. O capitalismo, por outro lado, é algo relativamente recente, e estimulou as maiores explosões de riquezas e elevação na qualidade de vida de toda a história humana. O que está acontecendo agora não é capitalismo, mas com certeza é o capitalismo que está levando a maior parte da culpa.

Infelizmente, o resultado final pode ser que os políticos façam o capitalismo prestar ainda mais contas a eles – às mesmas pessoas que mostraram que, quando se trata das finanças do governo, não precisam prestar contas a ninguém.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ron Paul on the Late Edition with Wolf Blitzer

Em 21/08/2008

Dicionário da Crise

Miguel Botelho Moniz, no O Insurgente

“Catástrofe” - O que acontece a banqueiros e investidores imprudentes quando os contribuintes não vêm, através de programas governamentais, salvar-lhes a pele.

“Fim do mundo da prosperidade” - O que acontece quando a realidade cai em cima de pessoas habituadas a dinheiro fácil criado pela expansão de crédito e que, por isso, vivem acima das suas capacidades.

“Pureza ideológica” - A insistência de pessoas teimosas em não pagar do seu bolso a irresponsabilidade de terceiros.

“Fim do capitalismo” - Descida de 6 ou 7% no índice DJIA. Já aconteceu uma meia dúzia de vezes nos últimos 80 anos.

“Disparar” - Verbo muito utilizado por jornalistas para descrever uma subida de 0,1 p.p. em determinado índice ou preço.

“Afundar” - Verbo contraposto ao anterior para descidas de 0,1 p.p.

“Salvação nacional” - Desculpa usada pelos poderes executivos para acumularem mais poderes para si próprios, em detrimento dos cidadãos e à custa dos contribuintes.

“Medidas urgentes” - Acções propostas pelos estados que devem ser aprovadas antes de dar demasiado tempo às pessoas para pensarem nelas. O carácter de urgência é tanto maior quanto maior a necessidade de salvação nacional (ver acima).

“Falha de regulação” - Incapacidade das autoridades em antever os problemas criados pelas suas anteriores intervenções no mercado.

“Falência” - Terrível flagelo que afecta algumas empresas nas economias de mercado. Estima-se que, todos os anos, as referidas economias vejam entre 2 e 3 milhões de empresas irem à falência.

“Capitalismo selvagem” - Sistema de organização política no qual indivíduos de matriz socialista não conseguem que os agentes económicos ajam como eles gostariam. O sistema é caracterizado por falhas de regulação e falências ocasionais (ver acima).

“Bush” - Político americano que, apesar de só ter estado oito anos no poder, consegue ser responsável por todos os erros de política económica desde - e incluindo - a extinção do sistema Bretton Woods em 1971.

“O que é teu é nosso” - Sindroma que faz pessoas que não investiram na bolsa sentirem-se prejudicadas pelos prejuízos de outras pessoas que efectivamente investiram na bolsa.

“Short-termism” - Expressão inglesa que caracteriza o comportamento de pessoas que avaliam o comportamento dos fundos de pensões de outras pessoas em função da evolução dos índices bolsistas dos últimos dias.

“Short-selling” - Pérfida prática através da qual o estado promete pagar uma reforma a cada cidadão no futuro em troca de que esse cidadão pague a reforma de um terceiro no presente.

“Inflação” - Método fiscal utilizado pelo estado para pedir mais emprestado hoje e pagar menos amanhã, sendo a diferença paga por todos cidadãos (mesmo os que não pagam impostos).

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Heretics

por Antonio Fernando Borges

Se quer mesmo um monumento, é só olhar em volta: você não pode ser de direita (não pode, entendeu bem?), porque senão, já de manhã, ninguém por perto lhe dará bom-dia, nem o garçom de sempre, nem a empregada de costume, todos vão lhe virar o rosto, e até sua mulher vai lhe negar o beijo rotineiro, e os filhos já não virão lhe pedir a bênção, e o café vai chegar quase frio, e o seu pão vai lhe parecer amargo, não, você não pode ser de direita, porque assim nem o velhote jornaleiro da esquina vai continuar brincando amigável com você, porque ele já andou folheando certos tablóides que vende aos mais jovens, e que antes (mas isso era antes…) achava esquisitos e insolentes, mas agora não mais, ah!, agora não, você não pode mais ser de direita, porque até o motorista de táxi já dirige desconfiado, e quando você insiste em recomendar que ele não desvie muito do caminho habitual, ele o observa de esguelha e sugere (só com os olhos, mas sugere!) que, ali, o único a ter se desviado foi você, paciência!, mas você não pode ser de direita, porque até no emprego novo seus colegas (essas novas raposas velhas) já deduziram suas “inclinações perigosas”, pescadas de duas ou três frases distraídas que você deixou escapar durante o cafezinho, e agora (mais do que nunca!) você não pode ser de direita, se não quiser perder a única chance de levar ao motel sua linda vizinha de sala que, mal olhou para você, caiu-se de amores, e desde então vem caprichando na roupa e nos olhares, mas já tem pensado duas vezes, de tantos que são os murmurinhos a seu respeito, não, você não pode ser de direita sob pena de perder, não só a colega, mas até o emprego, e o caminho de volta para casa, e o último lugar no último trem noturno, e então perder (quem garante que não?) até a mulher, os filhos, e a casa-própria, que você mal terminou de pagar, não, você não pode ser de direita, porque, a esta altura, seu vizinho de frente já comunicou ao síndico, e o síndico já convocou o condomínio, e o condomínio já recomendou que chamem a polícia, e ela já está a caminho, e você tem apenas uns poucos minutos (bem poucos) para entender que não pode ser de direita, até por uma questão de lógica, porque quem é de direita não pode nada, e assim não pode nem ser de direita, porque não pode nada, veja se entende de uma vez, e fique repetindo, até entender: você não pode ser de direita, não pode mais, não pode, entendeu bem?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A Casa Caiu

por Rodrigo Constantino

“O que sempre fez do Estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso.” (Hoelderlin)


Um dos maiores sonhos de muita gente é ter a casa própria. Naturalmente, casas não custam pouco. Pensem no Robinson Crusoé sozinho na ilha, tendo que construir sua casa por conta própria. Não é nada fácil, nem mesmo uma simples cabana sem luxo. Logo, parece natural que a casa não seja um bem facilmente acessível a todos. Mas justamente por ser o sonho de tanta gente, e não ser fácil realizá-lo, os políticos costumam prometer casas para receber votos em troca. Esquece-se que o “direito à moradia” implica no dever de alguém pagar por isso. E o governo acaba criando inúmeros mecanismos que facilitam direta ou indiretamente a compra da casa própria, principalmente pelos menos afortunados. Ocorre que o governo não produz riqueza, apenas tira com uma mão para dar com outra. Suas intervenções quase sempre distorcem os incentivos no mercado, muitas vezes com resultados terríveis. Isso pode ser parte da explicação para esta crise financeira que vem afetando a economia americana.

Quem tem certa idade lembra-se do fracassado BNH, que financiava o sonho da casa própria no Brasil. O programa deu errado e custou muito para os pagadores de impostos. Mas a mistura de populismo com sonho da casa própria não é monopólio nacional, e existe nos Estados Unidos também. Tornar as casas “acessíveis” tem sido uma meta de todo governo americano, resultando em inúmeros programas e leis. A palavra mágica “acessível” ignora o funcionamento do mercado, que se caracteriza pela livre formação de preços, justamente para permitir escolhas individuais com base sempre em trade-offs. Quando o governo resolve tornar um bem “acessível”, ignorando seu preço de mercado, ele está impedindo o funcionamento adequado do próprio mercado, anulando sua função básica. Ora, o governo pode tornar qualquer bem “acessível”, até mesmo um Rolls Royce. Basta ele destinar recursos tirados de outros locais para subsidiar a produção deste bem específico. Mas isso não pode sair de graça. A única forma de o governo tornar um bem mais acessível é fazer com que outro bem fique menos acessível, destruindo no caminho a liberdade de escolha individual para fazer trocas com base na realidade do mercado. Alguma visão política qualquer, decidida de forma arbitrária por aqueles no poder, substitui a livre escolha dos indivíduos.

A casa própria costuma ser um desses bens escolhidos pelos políticos para ignorar a realidade de mercado. Se seu preço, com base na realidade que leva em conta os fatores de produção e as preferências individuais, impede que uma camada mais pobre da população possa comprar o bem, então o governo entra em cena, como o “herói salvador”, permitindo a compra através de um preço mais acessível. Como não existem milagres nas contas públicas, isso deve ser pago de alguma forma, ou prejudicando outros setores, ou criando uma situação insustentável no setor de casas, inflado artificialmente. Muitas pessoas que em condições normais não poderiam comprar uma casa, passam a ter acesso através da ajuda do governo. Mas como não existe almoço grátis, a conta deverá ser paga algum dia, de alguma forma. Essa não é a única explicação, e talvez nem a mais importante, para a crise americana atual. Mas sem dúvida os incentivos estatais exerceram alguma influência na festa que acabou em ressaca.

Parece curioso tanta gente afirmando que faltou regulação para evitar a crise, se o epicentro da crise foi justamente um setor extremamente regulado como o setor de casas. O governo americano tem sido bastante hiperativo quando o assunto é estimular a compra da casa própria, especialmente pelos mais pobres e mais jovens. De 1994 a 2004, a taxa de crescimento no índice de propriedade de casas para indivíduos com menos de 35 anos foi de 15,5%, bem maior que a taxa para as demais faixas etárias. O crescimento foi bem maior para o grupo dos hispânicos também. Tanto o governo Clinton como o governo Bush promoveram programas destinados à ajuda de jovens e pessoas de baixa-renda na compra de uma casa. Em 1997, por exemplo, a administração Clinton aprovou uma lei permitindo um ganho de capital livre de impostos para a venda da casa principal até o valor de US$ 250.000.

O governo federal também contribui para a compra de casas através da autorização aos estados e governos locais para emitir títulos de hipoteca livres de impostos, os mortgage revenue bonds. Somente esses títulos ajudaram a financiar mais de 100 mil compras por indivíduos de baixa-renda nas últimas duas décadas. Em 1990 foi aprovado o National Affordable Housing Act, e vários outros programas foram derivados deste ato. O Department of Housing and Urban Development (HUD) criou três programas para ajudar na compra da casa própria: HOZ, HOME e SHOP. De acordo com um estudo feito pelo HUD, entre 1992 e 2002 mais de US$ 3 bilhões do HOME ajudaram 270 mil indivíduos de baixa-renda na aquisição de sua casa. Em 2003, a gestão Bush aprovou o American Dream Downpayment Initiative Act, autorizando até US$ 200 milhões de ajuda aos interessados na compra de sua primeira casa. A expectativa era ajudar no financiamento de 40 mil casas por ano.

Esses exemplos são apenas uma pequena amostra, para deixar claro como o governo cria mecanismos de incentivo para a aquisição da casa própria por aqueles indivíduos de menor renda. Logo, trata-se de um setor com bastante intervenção estatal, principalmente quando lembramos que as gigantes hipotecárias foram criadas pelo governo e contavam com sua garantia. Este ponto é extremamente importante, pois essa garantia possibilitou uma alavancagem absurda por parte dessas empresas, de até 50 vezes o capital próprio, fazendo com que elas pudessem assim financiar muito mais gente do que seriam capazes se fossem obrigadas a seguir as forças de livre mercado.

Mas isso não é tudo, apesar de não ser pouco. Um dos principais custos de uma casa financiada é a taxa de juros da hipoteca. Quando o Federal Reserve mantém a taxa básica de juros num patamar muito baixo, por tempo demais, ele cria um forte estímulo ao financiamento da casa própria. Foi justamente o que fez a gestão Greenspan, que segurou a taxa de juros próxima de 1% ao ano por um longo período. Para jogar mais lenha na fogueira, o governo criou regras que dificultaram a compra de ações por parte de grandes investidores como os fundos de pensão, após o crash da bolha de internet. Ou seja, justamente quando o valor das ações estava na “bacia das almas”, os investidores de longo prazo tiveram restrições maiores para apostar em sua recuperação. Somando-se a isso uma taxa de juros absurdamente baixa, a busca desesperada por mais retorno em veículos alternativos foi o único resultado possível. E para piorar um pouco mais o quadro, a regulação estatal cria enormes barreiras para investimentos sem o rating “adequado” das agências de risco. A soma de uma demanda enorme por mais yield com um entrave regulatório de rating resultou no inevitável: produtos criados para atender esta demanda.

Os títulos de securitização de hipotecas com grande mistura de qualidade de devedores no mesmo bolo foram a resposta dada pelo mercado financeiro para atender esta demanda. Com o carimbo de crédito seguro por parte das agências de risco, e uma taxa de juros acima dos demais títulos com o mesmo patamar suposto de risco, esses bonds fizeram a festa de muito especulador. Poucos perderam tempo para questionar porque recebiam mais pela mesma unidade de risco. Naturalmente, não era o mesmo risco, e isso ficou bastante evidente depois do estouro da bolha. Mas a ganância faz parte da natureza humana, o que explica a especulação agressiva por ambos os lados, credores e devedores desses títulos.

Existem outros fatores envolvidos no desenrolar desta crise financeira. Mas estes pontos mencionados acima explicam boa parte do problema. E na origem de tudo, talvez esteja o sonho da casa própria, sem a devida noção de que sonhos não costumam se realizar num estalar de dedos. Sonhos exigem esforço, trabalho duro, poupança, como aprendemos desde criança com a história dos três porquinhos. Aquele que quer pular etapas e evitar o trabalho duro acaba com uma casa de palha, destruída facilmente por qualquer vento mais forte. Se o governo pudesse realizar nossos sonhos com sua “caneta mágica”, o paraíso seria aqui. Infelizmente, ele não pode, e normalmente são essas tentativas de fazê-lo que causam tanto estrago. Agora, o sonho da casa própria ficou mais distante para muitos americanos, e um dos principais motivos foi a “ajuda” do governo. O pior é que muita gente está demandando mais governo para resolver os problemas que ele contribuiu para criar. Não funciona assim. Devemos encarar os fatos da realidade, entender que a casa caiu, quais as causas por trás disso, para podermos consertar as falhas e partir para a construção de um futuro melhor.