domingo, 25 de maio de 2008

Por que o Nazismo era Socialismo e por que o Socialismo é Totalitário

Escrito por George Reisman
Retirado do Endireitar


Minha intenção hoje é expor dois pontos principais: (1) Mostrar que a Alemanha Nazista era um estado socialista, e não capitalista. E (2) mostrar por que o socialismo, compreendido como um sistema econômico baseado na propriedade estatal dos meios de produção, necessariamente requer uma ditadura totalitária.

A caracterização da Alemanha Nazista como um estado socialista foi uma das grandes contribuições de Ludwig von Mises.

Quando nos recordamos de que a palavra "Nazi" era uma abreviatura de "der Nationalsozialistische Deutsche Arbeiters Partei" - Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães - a caracterização de Mises pode não parecer tão notável. O que se poderia esperar do sistema econômico de um país comandado por um partido com "socialista" no nome além de ser socialista?

Não obstante, além de Mises e seus leitores, praticamente ninguém pensa na Alemanha Nazista como um estado socialista. É muito mais comum se acreditar que ela representou um forma de capitalistmo, aquilo que comunistas e marxistas em geral têm alegado.

A base do argumento de que a Alemanha Nazista era capitalista é o fato de que a maioria das industrias foram aparentemente deixadas em mãos privadas.

O que Mises identificou foi que a propriedade privada dos meios de produção existia apenas nominalmente sob o regime Nazista, e que o verdadeiro conteúdo da propriedade dos meios de produção residia no governo alemão. Pois era o governo alemão e não o proprietário privado nominal quem decidia o que deveria ser produzido, em qual quantidade, por quais métodos, e a quem seria distribuído, bem como quais preços seriam cobrados e quais salários seriam pagos, e quais dividendos ou outras rendas seria permitido ao proprietário privado nominal receber. A posição do que se alega terem sido proprietários privados era reduzida essencialmente à função de pensionistas do governo, como Mises demonstrou.

A propriedade governamental "de fato" dos meios de produção, como Mises definiu, era uma conseqüência lógica de princípios coletivistas fundamentais adotados pelos nazistas como o de que o bem comum vem antes do bem privado e de que o indivíduo existe como meio para os fins do Estado. Se o indivíduo é um meio para os fins do Estado, então, é claro, também o é sua propriedade. Do mesmo modo em que ele pertence ao Estado, sua propriedade também pertence.

Mas o que especificamente estabeleceu o socialismo "de fato" na Alemanha Nazista foi a introdução do controle de preços e salários em 1936. Tais controles foram impostos como resposta ao aumento na oferta de dinheiro [N.T.] praticada pelo regime nazista desde a época da sua chegada ao poder, no início de 1933. O governo nazista aumentou a oferta de dinheiro no mercado como meio de financiar o vasto aumento nos gastos governamentais devido a seus programas de infra-estrutura, subsídios e rearmamento. O controle de preços e salários foi imposto em resposta ao aumento de preços resultante desta inflação.

O efeito causado pela combinação entre inflação e controle de preços foi a escassez, ou seja, a situação na qual a quantidade de bens que as pessoas tentam comprar excede a quantidade disponível para a venda.

As escassezes, por sua vez, resultam em caos econômico.Não se trata apenas da situação em que consumidores que chegam mais cedo estão em posição de adquirir todo o estoque de bens, deixando o consumidor que chega mais tarde sem nada - uma situação a que os governos tipicamente respondem impondo racionamentos. Escassezes resultam em caos por todo o sistema econômico. Elas tornam aleatória a ditribuição de suprimentos entre as regiões geográficas, a alocação de um fator de produção dentre seus diferentes produtos, a alocação de trabalho e capital dentre os diferentes ramos do sistema econômico.

Face à combinação de controle de preços e escassezes, o efeito da diminuição na oferta de um item não é, como seria em um mercado livre, o aumento do preço e da lucratividade, operando o fim da diminuição da oferta, ou a reversão da diminuição se esta tiver ido longe demais. O controle de preços proíbe o aumento do preço e da lucratividade. Ao mesmo tempo, as escassezes causadas pelo controle de preços impedem que aumentos na oferta reduzam o preço e a lucratividade de um bem. Quando há uma escassez, o efeito de um aumento na oferta é apenas a redução da severidade desta escassez. Apenas quando a escassez é totalmente eliminada é que um aumento na oferta necessita de uma diminuição no preço, trazendo consigo uma diminuição na lucratividade.

Como resultado, a combinação de controle de preços e escassezes torna possíveis movimentos aleatórios de oferta sem qualquer efeito no preço ou na lucratividade. Nesta situação, a produção de bens dos mais triviais e desimportantes, como bichinhos de pelúcia, pode ser expandida às custas da produção dos bens importantes e necessários, como medicamentos, sem efeito sobre o preço ou lucratividade de nenhum dos bens. O controle de preços impediria que a produção de remédios se tornasse mais lucrativa conforme a sua oferta fosse diminuindo, enquanto a escassez mesmo de bichinhos de pelúcia impediria que sua produção se tornasse menos lucrativa conforme sua oferta fosse aumentando.

Como Mises demonstrou, para lidar com os efeitos indesejados decorrentes do controle de preços, o governo deve abolir o controle de preços ou ampliar tais medidas, precisamente, o controle sobre o que é produzido, em qual quantidade, através de quais métodos, e a quem é distribuído, ao qual me referi anteriormente. A combinação de controle de preços com estas medidas ampliadas constituem a socialização "de fato" do sistema econômico. Pois significa que o governo exerce todos os poderes substantivos de propriedade.

Este foi o socialismo instituído pelos nazistas. Mises o chama de modelo alemão ou nazista de socialismo, em contraste ao mais óbvio socialismo dos soviéticos, ao qual ele chama de modelo russo ou bolchevique de socialismo.

O socialismo, é claro, não acaba com o caos causado pela destruição do sistema de preços. Ele apenas perpetua esse caos. E se introduzido sem a existência prévia de controle de preços, seu efeito é inaugurar este mesmo caos. Isto porque o socialismo não é verdadeiramente um sistema econômico positivo. É meramente a negação do capitalismo e seu sistema de preços. E como tal, a natureza essencial do socialismo é a mesma do caos econômico resultante da destruição do sistema de preços através do controle de preços e salários. (Eu quero demonstrar que a imposição de cotas de produção no estilo bolchevique de socialismo, com a presença de incentivos por todos os lados para que estas sejam excedidas, é uma fórmula certa para a escassez universal da mesma forma como ocorre quando se controla preços e salários.)

No máximo, o socialismo meramente muda a direção do caos. O controle do governo sobre a produção pode tornar possível uma maior produção de alguns bens de especial importância para si mesmo, mas faz isso às custas de uma devastação através de todo o resto do sistema econômico. Isto porque o governo não tem como saber dos efeitos no resto do sistema econômico da sua garantia da produção dos bens aos quais atribue especial importância.

Os requisitos para a manutenção do sistema de controle de preços e salários trazem à luz a natureza totalitária do socialismo - mais obviamente, é claro, na variante alemã ou nazista de socialismo, mas também no estilo soviético.

Podemos começar com o fato de que o auto-interesse financeiro dos vendedores operando sob o controle de preços seja de contornar tais controles e aumentar seus preços. Compradores, antes impossibilitados de obter os bens, estão dispostos, na verdade, ansiosos para pagar estes preços mais altos como meio de garantir os bens por eles desejados. Nestas circunstâncias, o que pode impedir o aumento dos preços e o desenvolvimento de um imenso mercado negro?

A resposta é a combinação de penas severas com uma grande probabilidade de ser pego e, então, realmente punido. É provável que meras multas não gerem a dissuasão necessária. Elas serão tidas como simplesmente um custo adicional. Se o governo deseja realmente fazer valer o controle de preços, é necessário que imponha penalidades comparadas àquelas dos piores crimes.

Mas a mera existência de tais penas não é o bastante. O governo deve tornar realmente perigosa a condução de transações no mercado negro. Deve fazer com que as pessoas temam que agindo desta maneira possam, de alguma maneira, ser descobertas pela polícia, acabando na cadeia. Para criar tal temor, o governo deve criar um exército de espiões e informantes secretos. Por exemplo, o governo deve fazer com que o dono da loja e o seu cliente tenham medo de que, caso venham a se engajar em uma transação no mercado negro, algum outro cliente na loja vá lhe informar.

Devido à privacidade e sigilo em que muitas transações no mercado negro ocorrem, o governo deve ainda fazer com que qualquer participante de tais transações tenha medo de que a outra parte possa ser um agente da polícia tentando apanhá-lo. O governo deve fazer com que as pessoas temam até mesmo seus parceiros de longa data, amigos e parentes, pois até eles podem ser informantes.

E, finalmente, para obter condenações, o governo deve colocar a decisão sobre a inocência ou culpa em casos de transações no mercado negro nas mão de um tribunal administrativo ou seus agentes de polícia presentes. Não pode contar com julgamentos por júris, devido à dificuldade de se encontrar número suficiente de jurados dispostos a condenar a vários anos de cadeia um homem cujo crime foi vender alguns quilos de carne ou um par de sapatos acima do preço máximo fixado.

Em suma, a partir daí o requisito apenas para a aplicação das regulações de controle de preços é a adoção de características essenciais de um estado totalitário, nominadamente o estabelecimento de uma categoria de "crimes econômicos", na qual a pacífica busca pelo auto-interesse material seja tratada como uma ofensa criminosa grave, e o estabelecimento de um aparato de polícia totalitário repleto de espiões e informantes e o poder de prisões arbitrárias.

Claramente, a aplicação e fiscalização do controle de preços requere um governo similar à Alemanha de Hitler ou a Rússia de Stalin, no qual praticamente qualquer um pode ser um espião da polícia e no qual uma polícia secreta existe e tem o poder de prender pessoas. Se o governo não está disposto a ir tão longe, então, nesta medida, o controle de preços se prova inaplicável e simplesmente entra em colapso. O mercado negro, então, assume maiores proporções. (Incidentalmente, não se sugere que o controle de preços foi a causa do reino de terror instituído pelos nazistas. Estes iniciaram seu reino de terror bem antes do decretamento do controle de preços. Como resultado, o controle de preços foi decretado em um ambiente feito para a sua aplicação.)

As atividades do mercado negro exigem o cometimento de outros crimes. Sob o socialismo "de fato", a produção e a venda de bens no mercado negro exige o desafio às regulações governamentais no que diz respeito à produção e à distribuição, bem como o desafio ao controle de preços. Por exemplo, o governo pretende que os bens que são vendidos no mercado negro sejam distribuídos de acordo com seu planejamento, e não de acordo com o do mercado negro. O governo pretende, igualmente, que os fatores de produção usados para se produzir aqueles bens sejam utilizados de acordo com o seu planejamento, e não com o propósito de suprir o mercado negro.

Sobre um sistema socialista "de direito", como o que existia na Rússia soviética, no qual o ordenamento jurídico do país aberta e explicitamente tornava o governo o proprietário dos meios de produção, toda a atividade do mercado negro, necessariamente, exige a apropriação indébita ou o roubo da propriedade estatal. Por exemplo, considerava-se que os trabalhadores e gerentes de fábricas na Rússia soviética que tiravam produtos destas para vender no mercado negro estavam roubando matéria-prima fornecida pelo Estado.

Além disso, em qualquer tipo de estado socialista, nazista ou comunista, o plano econômico do governo é parte da lei suprema do país. Temos uma boa idéia de quão caótico o chamado processo de planejamento do socialismo é. O distúrbio adicional causado pelo desvio para o mercado negro de materiais e suprimentos para produção é algo que o estado socialista toma como um ato de sabotagem ao planejamento econômico nacional. E sabotagem é como o ordenamento jurídico dos estados socialistas se refere a isto. Em concordância com este fato, atividades de mercado negro são, com freqüência, punidas com pena de morte.

Um fato fundamental que explica o reino de terror generalizado encontrado sob o socialismo é o incrível dilema em que o estado socialista se coloca em relação à massa de seus cidadãos. Por um lado, o estado assume total responsabilidade pelo bem-estar econômico individual. O estilo de socialismo russo ou bolchevique declara abertamente esta responsabilidade - esta é a fonte principal do seu apelo popular. Por outro lado, o estado socialista desempenha essa função de maneira desastrosa, tornando a vida do indivíduo um pesadelo.

Todos os dias de sua vida, o cidadão de um estado socialista tem de perder tempo em infindáveis filas de espera. Para ele, os problemas enfrentados pelos americanos com a escassez de gasolina nos anos 70 são normais; só que ele não enfrenta este problema em relação à gasolina - pois ele não tem um carro nem a esperança de jamais ter um - mas em relação a itens de vestimento, verduras, frutas, e até mesmo pão. Pior ainda, ele é forçado a trabalhar em um emprego que não foi por ele escolhido e que, por isso, deve odiar. (Já que sob escassezes, o governo acaba por decidir a alocação de trabalho da mesma maneira que faz com a alocação de fatores de produção materiais.) E ele vive em uma situação de inacreditável superlotação, com quase nenhuma chance de privacidade. (Frente à escassez habitacional, hóspedes são designados a moradias; famílias são obrigadas a compartilharem apartamentos. E um sistema de passaportes e vistos internos é adotado a fim de limitar a severidade da escassez habitacional em áreas mais desejáveis do país.) Expondo suavemente, uma pessoa forçada a viver em tais condições deve ferver de ressentimento e hostilidade.

Contra quem seria lógico que os cidadãos de um estado socialista dirigissem seu ressentimento e hostilidade se não o próprio estado socialista? Contra o mesmo estado socialista que proclamou sua responsabilidade pela vida deles, prometeu uma vida de bençãos, e que é responsável por proporcionar-lhes uma vida de inferno. De fato, os dirigentes de um estado socialista vivem um dilema no qual diariamente encorajam o povo a acreditar que o socialismo é um sistema perfeito em que maus resultados só podem ser fruto do trabalho de pessoas más. Se isso fosse verdade, quem poderiam estas pessoas más serem senão os próprios líderes, que não apenas tornaram a vida um inferno, mas perverteram a este ponto um sistema supostamente perfeito?

A isso se segue que os dirigentes de um estado socialista devem temer seu povo. Pela lógica das suas ações e ensinamentos, o fervilhante e borbulhante ressentimento do povo deveria jorrar e engolí-los numa orgia de vingança sangrenta. Os dirigentes sentem isso, ainda que não admitam abertamente; e portanto a sua maior preocupação é sempre manter fechada a tampa da cidadania.

Conseqüentemente, é verdadeiro mas bastante inadequado dizer apenas coisas como que o socialmo carece de liberdade de imprensa e expressão. Carece, é claro, destas liberdade. Se o governo é dono de todos os jornais e gráficas, se ele decide para quais propósitos a prensa e o papel devem ser disponibilizados, então obviamente nada que o goveno não desejar poderá ser impresso. Se a ele pertencem todos os salões de assembléias e encontros, nenhum pronunciamento público ou palestra que o governo não queira poderá ser feita. Mas o socialismo vai muito além da mera falta de liberdade de imprensa e de expressão.

Um governo socialista aniquila totalmente estas liberdades. Transforma a imprensa e todo foro público em veículos de propaganda histérica em prol de si mesmo, e pratica cruéis perseguições a todo aquele que ouse desviar-se uma polegada da linha do partido oficial.

A razão para isto é o medo que o dirigente socialista tem do povo. Para se proteger, eles devem ordenar que o ministério da propaganda e a polícia secreta corram atrás do prejuízo. Um deve tentar desviar constantemente a atenção do povo da responsabilidade do socialismo, e dos dirigentes socialistas, sobre a miséria do povo. O outro deve desestimular e silenciar qualquer pessoa que possa mesmo que remotamente sugerir a responsabilidade do socialsmo ou de seus dirigentes - desestimular qualquer um que comece a mostrar sinais de estar pensando por si mesmo. É por causa do terror dos dirigentes, e da sua necessidade desesperada de encontrar bodes-expiatórios para as falhas do socialismo, que a imprensa de um país socialista está sempre cheia de histórias sobre conspirações e sabotagens estrangeiras, e sobre corrupção e mau gerenciamento da parte de oficiais subordinados, e por que, periodicamente, é necessário desmascarar conspirações domésticas e sacrificar oficiais superiores e facções inteiras do partido em gigantescos expurgos.

E é por causa do seu terror, e da sua necessidade desesperada de esmagar qualquer suspiro de oposição em potencial, que os dirigentes do socialismo não ousam permitir nem mesmo atividades puramente culturais que não estejam sob o controle do Estado. Pois se o povo se reúne para uma amostra de arte ou um sarau de literário que não seja controlado pelo Estado, os dirigentes devem temer a disseminação de idéias perigosas. Quaisquer idéias não-autorizadas são idéias perigosas, pois podem levar o povo a pensar por si mesmo e, a partir daí, começar a pensar sobre a natureza do socialismo e de seus dirigentes. Estes devem temer a reunião espontânea de qualquer punhado de pessoas em uma sala, e usar a polícia secreta e seu aparato de espiões, informantes, e mesmo o terror para impedir tais encontros ou ter certeza de que seu conteúdo é inteiramente inofensivo do ponto de vista do Estado.

O socialismo não pode ser mantido por muito tempo, exceto através do terror. Assim que o terror é relaxado, ressentimento e hostilidade logicamente começam a jorrar contra seus dirigentes. O palco está montado, então, para uma revolução ou uma guerra civil. De fato, na ausência de terror, ou, mais corretamente, de um grau suficiente de terror, o socialismo seria caracterizado por uma infindável série de revoluções e guerras civis, conforme cada novo grupo dirigente se mostrasse tão incapaz de fazer o socialismo funcionar quanto foram seus predecessores. A inescapável conclusão a ser traçada é a de que o terror experimentado nos países socialistas não foi simplesmente culpa de homens maus, como Stalin, mas algo que brota da natureza do sistema socialista. Stalin vem à frente porque sua incomum perspicácia e disposição no uso do terror foram as características específicas mais necessárias para um líder socialista se manter no poder. Ele ascendeu ao topo através de um processo de seleção natural socialista: a seleção do pior.

É preciso antecipar um possível mal-entendido em relação à minha teses de que o socialismo é totalitário por natureza. Diz respeito aos países supostamente socialistas dirigidos por social-democratas, como a Suécia e outros países escandinavos, que claramente não são ditaduras totalitárias.

Neste caso, é necessário que se entenda que não sendo estes países totalitários, não são também socialistas. Os partidos que os governam podem até sustentar o socialismo como sua filosofia e seu fim último, mas socialismo não é o que eles implementaram como seu sistema econômico. Na verdade, o sistema econômico vigente em tais países é a economia de mercado obstruída, como Mises definiu. Ainda que seja mais obstruído do que o nosso em aspectos importantes, seu sistema econômico é essencialmente similar ao nosso, no qual a força motora característica da produção e da atividade econômica não é o governo, mas sim a iniciativa privada motivada pela perspectiva de lucro.

A razão pela qual social-democratas não estabelecem o socialismo quando estão no poder, é que eles não estão dispostos a fazer o que seria necessário. O estabelecimento do socialismo como um sistema econômico requer um ato massivo de roubo - os meios de produção devem ser expropriados de seus donos e tomados pelo Estado. É virtualmente certo que tais expropriações provoquem grande resistência por parte dos proprietários, resistência que só pode ser vencida pelo uso de força bruta.

Os comunistas estavam e estão dispostos a usar esta força, como evidenciado na União Soviética. Seu caráter é o dos ladrões armados preparados para matar se isso se mostrar necessário para dar cabo dos seus planos. O caráter dos social-democratas, em contraste, é mais próximo dos batedores de carteira, que podem falar em coisas grandes algum dia, mas que de fato não estão dispostos a praticar a matança que seria necessária, e então desistem ao menor sinal de resistência séria.

Já os nazistas, em geral não tiveram que matar para expropriar a propriedade dos alemães, fora os judeus. Isto porque, como vimos, eles estabeleceram o socialismo discretamente, através do controle de preços, que serviu para manter a aparência de propriedade privada. Os proprietários eram, então, privados da sua propriedade sem saber e, portanto, sem sentir a necessidade de defendê-la pela força.

Creio ter demonstrado que o socialismo - o socialismo de verdade - é totalitário pela sua própria natureza.

Atualmente nos Estados Unidos não temos nenhum tipo de socialismo. E não temos uma ditadura, muito menos uma ditadura totalitária.

Não temos também, ainda, fascismo, ainda que estejamos indo nesta direção. Entre os elementos essenciais que ainda faltam estão o sistema unipartidário e a censura. Ainda temos liberdade de expressão e imprensa e eleições livres, ainda que ambas venham sendo minadas e sua existência não possa ser garantida.

O que nós temos é uma economia de mercado obstruída que está se tornando mais e mais obstruída por uma intervenção governamental cada vez maior, caracterizada por uma crescente perda da liberdade individual. O crescimento da intervenção econômica governamental é diretamente relacionado com a liberdade individual pois significa uma crescente iniciação de violência para fazer com que as pessoas façam o que não escolheriam fazer voluntariamente ou para impedí-las de fazer o que voluntariamente escolheriam fazer.

Já que o indivíduo é o melhor juiz dos seus próprios interesses, e ao menos em regra é do seu interesse evitar aquilo que afeta negativamente seus interesses, segue que quanto maior a intervenção governamental, mais os indivíduos são impedidos de fazer aquilo que os beneficiariam, sendo compelidos, em vez disso, a fazer o que lhes causam perdas.

Hoje, nos Estados Unidos, os gastos governamentais no âmbito federal, estadual e municipal somam quase a metade da renda do conjunto de cidadãos que não trabalham para o governo. Quinze gabinetes de ministérios federais, e um número ainda maior de agências regulatórias federais, juntos, na maior parte das vezes com seus correspondentes no âmbito estadual e municipal, costumeiramente intrometem-se em virtualmente todas as áreas da vida do cidadão. Este é, de inúmeras maneiras, taxado, forçado e proibido.

Os efeitos desta pesada interferência governamental são desemprego, aumento de preços, queda de salários reais, necessidade de se trabalhar mais tempo e mais pesado e uma crescente insegurança econômica. Soma-se a isso o crescente ódio e ressentimento.

Embora a política governamental de intervenção na economia fosse o seu alvo lógico, o ódio e o ressentimento sentidos pelas pessoas acabam, em vez disso, sendo direcionados aos empresários e aos ricos. Trata-se de um equívoco alimentado em grande parte pela inveja e ignorância da imprensa e do establishment intelectual.

Em conformidade com esta atitude, desde o colapso da bolha do mercado de ações, que foi na verdade gerada pela política de expansão do crédito implementada pelo Fed e depois "furada" pelo abandono temporário de tal política, o ministério público tem adotado o que parece ser uma política particularmente vingativa contra executivos acusados de desonestidades financeiras, como se as suas ações fossem responsáveis pelas extensas perdas resultantes do colapso da bolha. Neste sentido, o ex-presidente de uma das maiores empresas de telecomunicações foi sentenciado recentemente a 25 anos de prisão. Outros executivos de ponta passaram por situação parecida.

De maneira ainda mais preocupante, o poder governamental de obter o mero indiciamento criminal se tornou equivalente ao de destruir uma firma, como ocorreu no caso da Arthur Andersen, uma grande firma de contabilidade. A simples ameaça do uso deste poder foi suficiente para forçar grandes corretoras de seguros nos Estados Unidos a mudarem sua administração ao gosto do Procurador-Geral de Justiça do Estado de Nova York. Não há outra maneira de descrever tais acontecimentos senão como condenação e punição sem julgamento e como extorsão governamental. Estes têm sido os principais passos de um caminho muito perigoso.

Felizmente, ainda há suficiente liberdade nos Estados Unidos para desfazer todo o estrago que foi feito até agora. Há, antes de mais nada, liberdade de elencar e denunciar publicamente tais fatos.

Além disso, existe a liberdade de se analizar e refutar as idéias que sustentam as políticas destrutivas que vêm sendo adotadas ou que possam vir a ser adotadas. E isso é muito importante, já que o fator fundamental de sustentação do intervencionismo e, é claro, também do socialismo, seja nazismo ou comunismo, é nada mais do que idéias equivocadas, sobretudo equivocadas econômica e filosoficamente.

Existe agora uma ampla e crescente literatura que apresenta idéias sólidas nestes dois campos vitais, Na minha opinião, os dois autores mais importantes desta literatura são Ludwig von Mises e Ayn Rand. Um abrangente conhecimento dos seus escritos é um pré-requisito indispensável ao sucesso na defesa da liberdade individual e do livre-mercado.

Este instituto, o Ludwig von Mises Institute, é o líder mundial na disseminação das idéias de Mises. Apresenta uma corrente constante de análises baseadas nas suas idéias, análises que aparecem em jornais acadêmicos, livros e períodicos e em artigos diariamente publicados no website do instituto, tratando de questões atuais. O Mises Institute educa estudantes secundaristas, universitários e jovens professores nas idéias de Mises e nas idéias próximas de outros membros da Escola Austríaca de Economia. Faz isto através do Mises Summer University, do Austrian Scholars Conference, e uma variedade de outros seminários.

Duas maneiras princpais de se lutar pela liberdade são educar a si mesmo ao ponto de tornar-se apto a falar e escrever de maneira articulada em sua defesa, como o fazem os acadêmicos associados a este instituto, ou, na ausência de tempo ou inclinação para dedicar-se a tais atividades, apoiar o instituto em seu trabalho vital da maneira que for possível.

É possível virar a maré. Nenhuma pessoa sozinha pode fazê-lo. Mas um número amplo e crescente de pessoas inteligentes, educadas na causa da liberdade econômica, falando e debatendo em sua defesa sempre que possível, é capaz de formar gradualmente a postura da cultura e, assim, da natureza do sistema econômico e político.

Vocês na platéia já estão envolvidos neste grande esforço. Espero que todos continuem e intensifiquem este compromisso.

* Este artigo é fruto de uma palestra dada no seminário "The Economics of Fascism, Supporters Summit 2005", no Mises Institute. O copyright © 2005 pertence a George Reisman. É dada a permissão para reprodução e distribuição eletrônica e impressão, exceto como parte de livro. (Notificação por email necessária).Todos os direitos reservados.

** George Reisman, Ph.D., é professor de economia (aposentado) na Graziadio School of Business and Management da Pepperdine University, em Los Angeles, e é o autor de Capitalism: A Treatise on Economics (Ottawa, Illinois: Jameson Books, 1996), do qual partes deste artigo foram retiradas. Seu website é www.capitalism.net. Contate-o, veja o seu Arquivo de Artigos Diários, e comente no seu blog.

[N.T.] Do original "inflation of the money supply"

Tradução de Fábio M. Ostermann

As consequências políticas do desemprego

do Ação Humana

Permanent mass unemployment destroys the moral foundations of the social order. The young people, who, having finished their training for work, are forced to remain idle, are the ferment out of which the most radical political movements are formed. In their ranks the soldiers of the coming revolutions are recruited.
Socialism, Ludwig von Mises.

O desemprego como um fenômeno permanente e de considerável magnitude tornou-se o principal problema político de todos os países democráticos. Que milhões fiquem permanentemente excluídos do processo produtivo é algo que não pode ser tolerado, mesmo que seja par um curto período de tempo. O indíviduo desempregado quer trabalhar. Quer ganhar um salário, porque considera que as oportunidades que um emprego lhe proporciona são maiores do que o duvidoso valor do ócio na pobreza. Fica desesperado porque não consegue encontrar trabalho. E entre os desempregados que os aventureiros e os aspirantes a ditador costumam recrutar as suas tropas de choque. A opinião pública considera que essa situação de desemprego e uma prova do fracasso da economia de mercado.

O público acredita que já ficou demonstrada a incapacidade de o capitalismo resolver os problemas de cooperação social. O desemprego e apresentado como o inevitável resultado das antinomias, das contradições da economia capitalista. O que a opinião publica não percebe e que a causa real do permanente desemprego em larga escala deve ser atribuída a política salarial defendida pelos sindicatos e ao apoio que o governo tem concedido a esse tipo de política. A voz do economista não chega a ser ouvida pelo público. E crença geral, entre as pessoas leigas, que o progresso tecnológico tira de muitas pessoas a possibilidade de seu próprio sustento. Por essa razão as guildas perseguiam os inventores; por essa razão os artesões destruíam as máquinas.

Hoje em dia os que se opõem ao progresso tecnológico recebem o apoio de pessoas que são habitualmente consideradas cientistas. Em livros e artigos afirmam que o desemprego tecnológico e inevitável — pelo menos no sistema capitalista. Como um meio de combater o desemprego recomendam que a jornada de trabalho seja reduzida; como os salários devem ser mantidos sem alteração (ou diminuídos menos que proporcionalmente, ou até mesmo aumentados), isso significa que na realidade os salários estão sendo aumentados e, por conseguinte, também o desemprego. Recomendam que sejam implementados programas de obras píblicas para gerar emprego. Mas se os recursos necessários são oriundos da arrecadação de impostos ou da emissão de títulos, a situação permanece a mesma.

Os recursos usados nesses projetos são retirados de outros projetos, e o aumento da oportunidade de emprego num setor da economia e neutralizado pela redução noutro setor do sistema econômico. Finalmente, acabam recorrendo a expansão do credito e a inflação. Mas, com preços aumentando e salários reais diminuindo, as reivindicações sindicais por maiores salários ficam cada vez mais intensas. Não obstante, devemos mencionar que a desvalorização da moeda e medidas inflacionárias semelhantes, conseguiram, em alguns casos, temporariamente, suavizar os efeitos da política salarial dos sindicatos e reduzir por algum tempo o crescimento do desemprego. Comparada com a forma ineficaz com que e tratado o problema de desemprego nos paises habitualmente chamados de democráticos, os ditadores conseguem ser muito mas bem-sucedidos.

O desemprego desaparece se forem adotadas formas de trabalho compulsório, Como prestação de serviço militar, criação de campos de trabalho ou qualquer outra forma compulsória de prestação de serviço. Os trabalhadores nesses empregos terão que se dar por satisfeitos com salários bem menores do que os recebidos por outros trabalhadores. Gradativamente, uma redução dessa diferença irá ocorrer, seja pelo aumento dos salários dos que trabalham nessas frentes de serviço, seja pela diminuição do salário dos demais trabalhadores. O sucesso político de alguns governos totalitários se deve sobretudo aos resultados obtidas na sua luta contra o desemprego.

:: Capítulo II, seção 4, do livro Interventionism, um clássico do economista austríaco Ludwig von Mises.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Morre em Manaus o senador Jefferson Péres



do Noblat.

O senador Jefferson Péres (PDT-AM), de 76 anos, faleceu por volta das 6h desta sexta-feira, em casa, em Manaus. O parlamentar, líder de seu partido no Senado, foi vítima de um ataque cardíaco fulminante, segundo confirmaram parentes. A família ainda não decidiu onde será o velório, mas o enterro será no cemitério São João Batista, na capital amazonense. Leia mais em Morre em Manaus o senador Jefferson Péres

No vídeo abaixo, discurso de Péres feito em 30 de agosto de 2006 sobre a dilapidação da ética no país, onde ele anuncia sua decepção com a política, seus pares e Lula. "Este Congresso que está aqui é o pior de que participei. A maioria é medíocre, de moral baixa. (...) Despois de 2010, não quero mais. Podem eleger Fernandinho Beira Mar para presidente, mas não com meu voto".

A Lesson about Federalism

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos

"As sociedades tribais caracterizam-se por uma atitude mágica ou irracional dos costumes da vida social e pela sua rigidez. Não distinguem as regularidades convencionais da vida social das regularidades da “natureza”; crêem que ambas são impostas por uma vontade sobrenatural. Baseadas na tradição tribal coletiva, não admitem problemas de natureza moral, e suas instituições não dão espaço à responsabilidade pessoal. À sociedade mágica, tribal ou coletivista – comparável a um organismo – denomino sociedade fechada; e sociedade democrática à sociedade em que os indivíduos são confrontados com decisões pessoais.

A transição de uma sociedade fechada para a aberta constitui uma das mais profundas revoluções por que passou a humanidade. Essa revolução não foi feita conscientemente, nem isenta de perigos. Gerou tentativas de manter o tribalismo pela força; mas também levou à grande revolução espiritual, à invenção da discussão crítica e ao pensamento liberto de obsessões mágicas.

A Grande Geração que viveu em Atenas na época da Guerra do Peloponeso formulou os princípios da igualdade perante a lei e do individualismo político. Enfatizou também que o idioma, os costumes e a lei não têm o caráter mágico de tabus – são instituições humanas, convencionais. E insistiu que somos responsáveis por essas instituições, que devemos ter fé na razão humana, ao mesmo tempo resguardando-nos do dogmatismo: em outras palavras, que é crítico o espírito da ciência. O surgimento da própria filosofia foi uma resposta à queda da sociedade fechada e de suas crenças mágicas. Uma tentativa de substituir a perdida fé mágica por uma fé racional; modificou a tradição de transmitir uma teoria ou um mito, fundando uma tradição nova: a de desafiar teorias e mitos e de discuti-los criticamente.

Em contraste, o sonho de Platão – da unidade, da beleza e perfeição, o esteticismo, o holismo e o coletivismo – é tanto produto quanto sintoma da perda do espírito de grupo do tribalismo. É a expressão dos sentimentos dos que sofrem da tensão da civilização – nos tornamos dolorosamente conscientes das grandes imperfeições de nossa vida, das imperfeições pessoais e institucionais, do sofrimento evitável. Essa consciência aumenta a tensão da responsabilidade pessoal, de carregar a cruz de ser humano.

A lição que devemos aprender de Platão é exatamente a oposta à que ele tenta nos ensinar. A despeito da excelência do diagnóstico sociológico, sua terapêutica é pior que o mal que tentava combater. Deter a mudança política não é o remédio; não pode trazer a felicidade. Uma vez que comecemos a confiar em nossa razão e sintamos o apelo das responsabilidades pessoais e, com estas, a responsabilidade de promover o conhecimento, não podemos retornar ao estado de submissão na magia tribal. Não há volta possível a um estado harmonioso da natureza. Se voltarmos, deveremos refazer o caminho integral – devemos retornar às feras."


A Sociedade Aberta e seus Inimigos; Karl Popper.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Maio de 1968, o politicamente correto e o autoritarismo das consciências

por Pedro Sette Câmara, n'O Indivíduo

Pululam na imprensa textos sobre 1968. Até agora, a melhor coisa que li foi o caderno especial que O Globo. Na primeira metade, cientistas políticos franceses dizem que 1968 foi ótimo e reclamam do fim das utopias e da juventude atual, que seria amarga e atomizada. Na segunda metade, resistentes da antiga Tchecoeslováquia reclamam da ocupação soviética e dizem que 1968 deixou um problema: o que fazer com aqueles que foram cúmplices do invasor estrangeiro naquele ano? Querendo ou não, o caderno mostra que era muito mais confortável ser de esquerda na Europa ocidental... O que, aliás, está longe de ser novidade.

Para mim, é muito difícil não olhar para toda a euforia ocidental em torno da idéia de 1968 sem ver uma fila interminável de narcisistas querendo colocar a sua geração no centro da História. Não me impressionam as reclamações contra a juventude atual, supostamente apática: já na Ilíada o velho Nestor ficava dizendo que os guerreiros de antigamente eram melhores do que os de hoje, e Aristóteles, na Retórica, assinalou que essa premissa é própria da mentalidade dos velhos. Ou, como disse no século XV o poeta espanhol Jorge Manrique, "a nuestro parescer / cualquiera tiempo pasado / fué mejor". Mas esta geração parece ir um pouco além e clamar para si méritos praticamente inéditos - tudo por conta de meia dúzia de passeatas.

Contudo, naquele mesmo caderno especial de O Globo , uma cientista social aponta o que parece ser o legado mais verdadeiro e tangível de 1968: a politização de diversas questões. Naquela época popularizou-se a idéia de que "todo ato é político" e de que o tempo inteiro as suas atitudes confirmam ou questionam o establishment. Eu mesmo já ouvi da boca de um jornalista: "Quando você acorda de manhã, isso já é um ato político..." É só comparar a idéia da politização total de tudo com o senso comum de 25 anos depois para reparar que aquela idéia teve inúmeras aplicações, transformada na "tecnologia da informação" conhecida como "politicamente correto". Quem tiver uma certa idade conseguirá lembrar de quando, lá no início dos anos 90, ouviu pela primeira vez termos como "afro-americano" e "deficiente visual". É impossível não ficar ressabiado com as implicações contidas nessa reformulação da linguagem, porque, ao absolutizar certos termos, ignorando os contextos, ela mesma é ofensiva. Ser negro não é uma deficiência, como ser cego. E se eu falo que gosto de "Stevie Wonder, aquele músico negro e cego" não estou sendo ofensivo, nem me parece que o próprio Stevie Wonder, cuja carreira começou décadas antes do "politicamente correto", tenha ficado ofendido com estes termos. O que não os impede, é claro, de ser usados ofensivamente em alguns casos. Por isso, o maior legado do "politicamente correto" e, com isso, de 1968, foi a necessidade de manter diante de si uma platéia imaginária maliciosa e hipersensível, permanentemente disposta a atribuir más intenções e mesmo a prender e multar quem falar certas coisas - eis o espírito libertário de 1968.

Em seu favor, os 68tistas (também tenho direito aos meus neologismos) de ontem e politicamente corretos de hoje dirão que a linguagem já era politizada e que eles, assim como os personagens de Jornada nas Estrelas em situações de perigo, apenas inverteram a polaridade nos motores. Também acusam-nos, ao recusar essa dimensão totalizante da política, de servir a um sistema sem perceber. Ora, ninguém quer ser percebido como ingênuo ou trouxa, servindo a algum interesse que ignora, e é graças a este apelo à vaidade ferida que o 68tismo politicamente correto prospera. Você faz parte daqueles que são "conscientizados" ou "alienados"?

Um tratamento liberal dessa questão não pode simplesmente respondê-la. Não se trata de politizar a sociedade, a linguagem, as ciências, a intimidade e tudo mais no sentido "bom" ou "verdadeiro". Apesar de o liberalismo ser uma posição política, ele é a posição que pretende libertar todas as demais áreas da vida humana da tirania da política ou da politização, e esse é seu único ponto de contato com "todas as demais áreas da vida humana". Se a liberdade está em tudo, a consciência dessa liberdade também pode estar. Se a liberdade é a ausência de coerção por agentes externos, então a consciência da possibilidade de escolher o próprio caminho é a afirmação do liberalismo. Uma afirmação que pode ser discreta, mas da qual depende tudo.

O que digo pode parecer sutil, mas é fácil de demonstrar. Não existe, por exemplo, uma "teoria liberal da literatura", mas existe uma teoria marxista da literatura (para quem quer saber mais, o maior ícone das análises marxistas hoje é o inglês Terry Eagleton) e milhões de análises políticas de textos literários, transformando-os em metáforas para conflitos de classe ou em simples ataques retóricos a certas idéias. Essas análises podem até ser parcialmente verdadeiras - veja, por exemplo, que é impossível ler Jane Austen sem ficar chocado com a intensidade da "consciência de classe" dos personagens, ainda que ela sempre tente mostrar que é possível transcender essa consciência. Porém, seria possível uma "teoria liberal da literatura"? Talvez uma teoria que tentasse mostrar que os personagens dos romances na verdade buscam afirmar suas próprias decisões contra uma sociedade imóvel? Isso seria tão ridículo e limitado quanto ler romances buscando apenas a confirmação ou o questionamento das estruturas políticas vigentes.

Porém, toda vez que um crítico literário escolhe os métodos que utilizará, está praticando a liberdade intelectual. Essa liberdade de análise, que inclui a liberdade de fazer testes, é que permite os avanços do conhecimento (sejam eles avanços em qualquer direção). Até mesmo quando um crítico escolhe ler romances com um modelo marxista, ou politicamente correto, ele está praticando a liberdade. Por isso pode não existir uma teoria liberal da literatura - mas existe uma atitude liberal em relação ao estudo da literatura.

A diferença entre essa atitude liberal, universalmente praticada, e a atitude (pois a teoria politicamente correta / marxista também gera uma atitude) 68tista é que a primeira não se autodestrói. A segunda é apenas nominalmente libertária: diz que vai libertá-lo dos grilhões do sistema mas já sabe aonde pretende levá-lo. O mesmo acontece com a linguagem politicamente correta: se você queria libertar-se da suposta politização da linguagem, apenas vai passar a trabalhar para novos senhores. Assim como não existe, segundo o 68tismo, uma área livre na consciência em que a boa-vontade pode prevalecer, também não existe, na convivência, uma área em que as regras possam ser livremente ditadas pela conveniência das partes.

Por isso, mesmo que o liberalismo não se pretenda uma teoria total da realidade, admitindo que há áreas da vida humana que simplesmente não são governadas por leis políticas, ele pode estar por trás de cada uma dessas áreas, afirmando a liberdade da consciência de examiná-las da maneira que quiser, de olhá-las como se fosse a primeira vez. A negação da politização total de tudo se dá pela consciência da liberdade de não agir politicamente. Falta agora, para apagar o legado de 1968, tirar a impressão de que essa politização total é uma espécie de liberdade, quando não passa de um autoritarismo das consciências.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Se beber, não pense

por Guilherme Fiúza

Você aí, que estava preocupado com esses jovens que matam e morrem dirigindo bêbados por aí, ou com seu rebento tão bem criado que cismou de encher a cara em festa de adolescente: seus problemas acabaram.

Vem aí a proibição da propaganda de bebida alcoólica na TV entre 6 da manhã e 9 da noite. Projeto de lei do deputado Jorge Mudalen (DEM-SP), que está para ser votado na Câmara, resolve esse problema para você.

E o problema era tão simples, nem dá para entender como ninguém pensou nisso antes. Ou melhor, pensou. O então ministro da Saúde José Serra empreendeu uma autêntica cruzada nacional contra a propaganda do cigarro. O povo precisava aprender que fumar não o levaria “ao sucesso”.

Realmente, é um absurdo o sujeito ser levado a associar um gole de cerveja ao sorriso da Juliana Paes, quando se sabe que pelo menos 50% dos beberrões saem dos bares arrastando dragões. Talvez o projeto do deputado devesse obrigar a Antártica a substituir Juliana Paes por Andréia Albertine – com o slogan “reputação de bêbado não tem dono”.

É muito interessante essa idéia de salvar o consumidor indefeso dos males da propaganda. Claro: o produto existe, faz mal, pode ser produzido e vendido legalmente – o problema é o anúncio.

Nem dá para conceber como o deputado Mudalen e o ex-ministro Serra ainda não proibiram esses anúncios em que o carrão passa veloz e sacode o vestido da mulher bonita. Alguém tem que avisar correndo o idiota do consumidor de que sexo não se faz com o pedal do acelerador.

Mas agora vai ficar tudo bem. Juliana Paes só vai levar ao alcoolismo os jovens que ficarem acordados depois de 21h. Fica já aqui uma proposta de emenda à lei, determinando que menores de 21 anos vão pra caminha, inapelavelmente, depois do “Jornal Nacional”.

São realmente perigosíssimos esses anúncios de coisas que fazem mal apresentadas como se fizessem bem. A propaganda política na TV, por exemplo, já levou milhões de eleitores inocentes a cometer loucuras.

Mas nessa ninguém vai mexer. Claro, o mau caminho é a Juliana Paes.

Não use drogas...

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"Obrigado por fumar": a volta

por Antonio Fernando Borges

A vitória da democracia tem sido comemorada, mundo afora, toda vez que um mandatário fardado é deposto ou afastado. Regimes civis, conduzidos por governantes eleitos, seriam hoje maioria no mundo -- um indício (dizem os intelequituais) de que a Idade Contemporânea pode ser definida pelo aumento crescente das liberdades políticas, coletivas e pessoais.

Sério?!

Em face dos últimos acontecimentos, seria o caso de perguntar de onde essas pessoas tiram suas teorias esdrúxulas, e o que eles entendem, afinal, como liberdade?

(Liberdade = o "direito" de obedecer de bico calado?)

O titular deste blog (que não fuma) está de luto, ao ver a liberdade individual morrer mais um pouquinho...

É proibido fumar?! Então cabe a pergunta aos defensores da "liberdade de expressão": mas maconha pode?!!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Uma lição sobre crédito e moeda

Educação e capitalismo: aliados ou inimigos?

Gustavo Ioschpe, da Veja

Virou consenso no Brasil associar o nosso fracasso educacional com as maquinações do sistema capitalista/neoliberal. Segundo essa leitura, calcada em Marx, interessaria aos "poderosos", à "elite", que o proletariado não fosse instruído ou, no máximo, recebesse uma educação totalmente "alienante", para que não questionasse suas mazelas nem incomodasse o status quo e apenas continuasse fornecendo sua mão-de-obra barata para a manutenção do sistema. Essa leitura da situação se tornou absolutamente hegemônica: vai da imprensa à academia, dos mais louvados pensadores do tema à correspondência enviada a este articulista por professores dos grotões do Brasil. Vejamos alguns exemplos. De Emir Sader: "A educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: ‘fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes’. Em outras palavras, tornou-se uma peça do processo de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que torna possível a reprodução do injusto sistema de classes. (...) No reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital (...)". Lucyelle Pasqualotto: "Podemos analisar que a educação como vem sendo, historicamente, organizada está para atender ao capital, numa sociedade inerentemente excludente e contraditória. (...) Oferece diferentes níveis, modalidades, métodos educacionais, a fim de dar continuidade ao seu elemento diferenciador e, ao mesmo tempo, apregoando o discurso da unificação e universalização da educação. Discurso este que, em uma sociedade capitalista, onde os meios de produção, inclusive o conhecimento[,] são propriedade privada, quanto muito pode proporcionar uma educação mercantilizada, excludente e diferencial". Amelia Hamze: "Proporcionar a qualidade de ensino e a gestão democrática da escola levaria a invalidação da sustentação do poder amparada pelo estado capitalista".

Edward Gooch/Hulton Archive/Getty Images


Trabalho infantil na Inglaterra durante a Revolução Industrial

Essas teses, como de costume, são apenas frutos da verborragia dos "pesquisadores" que as produzem. Não vêm embasadas por nenhuma tentativa de comprovação quantitativa – até porque a maioria de seus autores se confunde com qualquer operação matemática ou estatística que requeira sofisticação maior do que calcular o troco do táxi e costuma, convenientemente, mascarar essas deficiências sob um discurso ideológico segundo o qual a própria quantificação, do que quer que seja, seria uma vitória da superestrutura neoliberal, mercantilista. É pena, porque essa teoria – de que o capitalismo requer a falta de educação, ou a educação de baixa qualidade – é facilmente conversível em uma hipótese testável. Se esses pensadores estiverem certos, espera-se que os países mais capitalistas sejam aqueles com os piores e mais excludentes sistemas educacionais, enquanto aqueles em que o capitalismo não conseguiu estender seus tentáculos malévolos deveriam ter populações formadas por cidadãos altamente instruídos e intelectualizados.

Em realidade, o que ocorre é exatamente o oposto: quanto mais capitalista o país, melhor e mais abrangente é o seu sistema educacional. Cruzei os dados referentes a educação e capitalismo de 167 países. Usando o instrumento da estatística de regressão, descobre-se que o desempenho educacional explica, por si só, 47% da posição de um país na escala do capitalismo. A relação é estatisticamente fortíssima: a probabilidade que a percebida ligação entre as duas variáveis seja fruto de erro é inferior a 0,00000001%. Essa robustez não é casual: indica que o sistema capitalista exige sociedades com alto nível educacional, e, quanto mais instruída é a população, mais capitalista o país tende a ser, e vice-versa.

Por que no Brasil ainda se acredita no oposto? É a junção do mofo intelectual com a vigarice. Marx já cometia erros de interpretação da realidade quando escrevia seu Manifesto Comunista e O Capital, há 150 anos. O que se aplicava àquela realidade histórica, porém, não se aplica à nossa – o capitalismo mudou, e muito, neste século e meio. O período do início da Revolução Industrial era, sim, uma época em que a competência necessária ao trabalhador era mínima e sua jornada de trabalho era desumana. Para apertar parafusos em uma linha de montagem esfumaçada por dezesseis ou vinte horas por dia, em repetição incessante, era apenas necessário alguém que soubesse ler, se tanto. O capitalismo do século XXI, porém, é outro. O conjunto de habilidades e conhecimentos necessários é muito maior – até para trabalhar em uma linha de montagem de uma fábrica é preciso capacidade analítica para lidar com um maquinário cada vez mais sofisticado. E, quanto mais capitalista e desenvolvido um país se torna, mais diminui a importância das áreas fabril e de produção de commodities e aumenta o peso de setores de serviço e de alta tecnologia, em que o principal insumo é o cérebro das pessoas. Não é por acaso que alguns campeões do capitalismo, como Coréia do Sul e Estados Unidos, hoje se aproximam da massificação da matrícula de ensino universitário, com taxas beirando os 90%. O profissional de sucesso do mercado internacional de hoje é a antítese do proletário da Inglaterra de Marx: precisa ser altamente capacitado em sua área e, ao mesmo tempo, ter uma formação multidisciplinar e abrangente. Enquanto isso, nossos pensadores continuam recebendo soldo dos nossos impostos para suas análises em que até hoje, quase vinte anos depois da falência do socialismo, tentam mostrar como Marx tinha razão. A essa incapacidade de alguns, soma-se o oportunismo de muitos. Esse tipo de análise reverbera no professorado porque o seu corolário é simples: o insucesso educacional é resultado de uma sociedade corrompida pelo capitalismo. Eu quero ensinar, mas a superestrutura não me permite. A única maneira de produzir uma mudança efetiva na educação é através da revolução social, e acreditar que o esforço individual de um professor ou diretor pode fazer qualquer diferença diante de forças sociais e históricas tão poderosas já seria uma rendição ao espírito atomista, ilusório, que é a marca do capitalismo. A falência intelectual pavimenta o caminho do conformismo e cinismo de cada um.

Jung Yeon-Je/AFP


Escola primária na Coréia do Sul: a educação como maior riqueza

Essa prisão mental em que nos encontramos acaba por prender em amarras o próprio país. Esperando pela revolução social, abandonamos a possibilidade da revolução mais maravilhosa que existe: a que se dá pelo conhecimento. Silenciosa e pacífica, é a verdadeira redentora: perto de dominar a eternidade representada pelo saber, desapropriar uma fábrica ou fazenda parece brincadeira de criança.

E essa é uma revolução em que não há perdedores. Todos os setores se beneficiam de uma população mais instruída. Em um mundo globalizado, a idéia de que a elite gostaria de confinar a população à ignorância para não ver sua posição ameaçada é fajuta. Se o empresário não tiver trabalhadores competentes, será destruído pela competição das empresas de outros países, com gente qualificada. Só há, estranhamente, um único tipo de organização, que eu saiba, que se beneficie de uma população iletrada: são os partidos de esquerda. Nas últimas eleições presidenciais, segundo o Datafolha, Lula só perdeu em um grupo: o dos eleitores com ensino superior. Entre eles, em pesquisa de 17 de outubro – doze dias antes da eleição, portanto – Lula tinha 40% das preferências, contra 50% de Alckmin. Felizmente, para ele, a maioria de nossa população só tem ensino fundamental, grupo em que o petista liderava por 57% a 28%.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Gente distraída

por Guilherme Fiúza

O ministro da Justiça, Tarso Genro, esse que faz vista grossa para as depredações do MST, sugeriu que a montagem/vazamento do dossiê FHC foi um “descuido”.

Claro que foi. Como se sabe, o PT do ministro Genro acabou com o caixa dois e inventou o “dinheiro não-contabilizado”.

Depois das trampolinagens de Vavá, o Grande Irmão, tráfico de influência passou a se chamar “ingenuidade”.

A ajuda aos empresários “desenvolvimentistas”, velhos amigos do Delfim e novos amigos do Lula, acaba de ser anunciada como “política industrial”.

Tarso Genro não dá ponto sem nó. Disse que descuido não é coisa que mereça investigação da Polícia Federal. Ou seja: afastem de mim esse cálice e esse Código Penal. Nada que um puxão de orelhas não resolva.

São precedentes muito interessantes. Como se sabe, a julgar pelas punições até agora, Delúbio, Valério e companhia não passaram de uns descuidados.

A Era Lula e seus eufemismos distraídos ainda vão provar, definitivamente, que não existe pecado do lado de baixo do Equador.

sábado, 10 de maio de 2008

Clube das Democracias - Pt. 2

do Blog do Bernardo Carvalho

Então, tem um concurso de desenvolvedores para saudar a chegada do Firefox 3 (bocejo).

A parte curiosa está aqui, na lista de países onde o concurso não é válido:

Contest is void in Brazil, Cuba, Iran, Iraq, North Korea, Puerto Rico, Province of Quebec (Canada), Sudan, Syria, Union of Myanmar, and where prohibited by law.


Deixa eu traduzir para você:

O concurso não é válido no Brasil, em uma ditadura comunista, em uma ditadura teocrática, em outra ditadura comunista, em uma possessão semi-autônoma, em uma província separatista, em uma ditadura cleptocrática de inspirações teocráticas, em uma ditadura ba'athista, em uma ditadura militar e onde mais for proibido por lei.


Em resumo:

* 7 ditaduras;
* 2 lugares que nem país são;
* Brasil.

Diga-me com quem andas, etc.

O Individualismo de Sólon

por Rodrigo Constantino


“O Estado deve abster-se de todo esforço por interferência positiva no bem-estar dos cidadãos, e não dar nenhum passo além do necessário para garantir-lhes a segurança mútua e a proteção contra inimigos externos, visto que nenhum outro objetivo deveria constituir motivo para a imposição de restrição à liberdade.”
(Humboldt)


Atenas deixou infinitamente mais ensinamentos ao mundo que Esparta, sua inimiga. O período de maior influência de Atenas estende-se até a Guerra do Peloponeso, iniciada em 431 a.C. Esparta saiu vitoriosa dessa guerra, que terminou em 404 a.C. A partir da derrota para Tebas em 371 a.C., entretanto, seu declínio foi vertiginoso, até desaparecer completamente numa terrível guerra civil. O legado de Atenas, por outro lado, brilha até os dias atuais.

Figura fundamental por trás dessa trajetória bem sucedida de Atenas foi Sólon, um grande reformador do sistema legal e introdutor da democracia. O individualismo de Sólon contrastava radicalmente com uma visão coletivista de Esparta. A vida dos espartanos era totalmente dedicada ao Estado, que decidia inclusive sobre o direito de sobrevivência dos bebês masculinos. Os funcionários públicos decidiam tudo, e a idéia principal era diminuir ao máximo os elos afetivos entre pais e filhos. Ao completar 12 anos, os garotos saíam de casa definitivamente, para morar num quartel. Esparta formava o ideal de uma sociedade coletivista dedicada apenas ao militarismo, como seriam as nações comunistas no século XX. A Atenas de Sólan era o oposto!

Em 594 a.C., com um grande conflito de interesses em Atenas, os cidadãos chamaram Sólon para arbitrar a questão. A escravidão por dívida, uma herança da influência mesopotâmica, era o cerne do problema. Sólon tomou seis medidas que foram muito importantes no que tange os direitos individuais. Ele, em primeiro lugar, perdoou as dívidas e aboliu a possibilidade da escravidão servir como garantia real. Depois, permitiu que todo cidadão ingressasse em juízo, caso se sentisse prejudicado. Deu também o direito a recorrer de uma decisão numa instância superior. Introduziu um sistema de votações por meio do qual poderiam ter acesso aos principais cargos públicos os cidadãos que tinham posses mas não pertenciam a famílias aristocráticas. Estabeleceu um conselho de 400 integrantes, que foi posteriormente aumentado para 500. Permitiu, por fim, legar bens em testamento. Plutarco, sobre essa última medida, afirmou que Sólon “fez a propriedade de qualquer homem verdadeiramente dele”.

O código de Sólon teve profundo impacto no Ocidente. Representa o básico sobre direitos individuais, isonomia de tratamento, propriedade privada. Coloca cada indivíduo como um fim em si, e não um meio para algo “maior”, visão coletivista que dominava Esparta e ainda hoje contamina a mentalidade de muitos. Depois de fazer as leis que mudariam para sempre o conceito de governo, e que muito contribuíram para pacificar Atenas, os cidadãos propuseram a Sólon que se tornasse seu rei. Sólon recusou, alegando que os atenienses deveriam ser capazes de resolver seus problemas valendo-se apenas de seu código legal. Afinal, Sólon não duraria para sempre, mas suas leis sim. Isso vai à linha de Aristóteles, que defendia um governo de leis, não homens. Algo completamente oposto à arbitrariedade dos modelos que concentram poder abusivo nos governantes, em nome de objetivos vagos e abstratos, como “justiça social”.

Infelizmente, essas lições, tão antigas, ainda hoje não foram assimiladas por todos. São milhões os inimigos da liberdade individual. São muitos os que ignoram a justiça das leis isonômicas. Não são poucos os que ainda hoje não entenderam o individualismo de Sólon.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Plebiscito é liberdade?

Democracia plebiscitária é a glória de todo totalitário que se julga forte o suficiente para submeter seu povo ao teste supremo da obediência canina – e que, garantido da certeza de que quanto mais seu povo é levado a interpretar essa especiosa liberdade de escolher entre coisas que não são do seu interesse nem de sua vontade, como demonstração de madura democracia, mais esse povo estará perto do fim de todos os seus direitos.

Carlos Reis

Edward Griffin - On Individualism vs Collectivism

Entrevista com Edward Griffin sobre o cisma ocidental entre Coletivistas e Individualistas. O texto completo pode ser lido traduzido aqui.

Al Gore's global warming debunked – by kids!

Winners announced in 'The Sky's Not Falling' video-essay contest
© 2008 WorldNetDaily

Al Gore's global warming philosophy has been debunked by many scientists and studies, and now it has met the same fate at the hands of children, in "The Sky's Not Falling" video/essay contest, sponsored by WND Books, formerly World Ahead Media.

The contest was launched early in 2008 and was designed to highlight the absurdities, untruths and downright lies that children are being taught daily about "climate change" in public school.

Russell Young, a Minnesota writer who captured first place in the essay competition, explained the importance of using celebrities such as Gore and the medium of movies to enhance the educational experience for students.

"Here are just a few other films schools might use for their teaching curriculums. 'The Polar Express' could be used for instruction on transportation systems. 'Borat' is a perfect teaching tool for understanding how the Democratic Party uses focus groups. 'Alien,' could be used to teach students about anatomy and homeland security, all at the same time," he wrote.

"'Far fetched,' you say. Maybe, but 'Moby Dick' taught me all I ever needed to know about whales, and I'm a marine biologist," he said.

"Kids across America are being victimized by global warming hysteria," according to Holly Fretwell, author of The Sky’s Not Falling: Why It’s OK to Chill About Global Warming.

"I wanted to know what kids just like mine are hearing in their classrooms," Fretwell said. "Running a contest was a fun way to go about it."

"All of us, and our children in particular, are being confronted daily with half-truths and falsehoods about global warming," noted Fretwell. "It's just plain wrong."

She said that was or inspiration for the book in the first place.

"I want kids to get excited about science and to understand that it’s human ingenuity and a can-do spirit, not government sanctions, that will lead us to a bright environmental future. I want kids to learn how to become critical thinkers," she said.

Contest winners will receive a cash prize, a copy of "The Great Global Warming Swindle" DVD courtesy of junkscience.com, and copies of "The Sky's Not Falling" for their local school library and their kids' science classroom.

In the video competition, the DiMarias from South Carolina submitted the winning entry, which is available through this link, or by watching the following:



In second place in the video competition was Warren Meyer of Arizona, whose winner can be seen at this link, or by watching the following



The first-place essay is titled "Al Gore Causes Global Warming in School Aged Brains" and is by Russell Young, of Minnesota:

If Al Gore's film "An Inconvenient Truth," is suitable for teaching about climatology, then Alfred Hitchcock's film the "The Birds," is a good candidate for teaching ornithology.

"Wait a moment," you say. What does a horror film which has been characterized as "extremely disturbing," where hoards of normally skittish, but peaceable birds, inexplicably attack and terrorize humans, have to teach our children about science? The answer, of course is that it could be used to anesthetize them to the frightening scenarios presented in Gore's "An Inconvenient Truth."

It's hard to decide which would be worse: frightening young students with scripted terror from a horror master, or frightening students with scripted propaganda from an environmental hypocrite. But think of the box office draw potential by making a double header out of these two movies. Plus, each film is steeped with enough gut wrenching scenes to keep even the most jaded students interested, making them a perfect antidote to typically boring science fare.

In "The Birds," one scene shows children helplessly driven to terrified flight as birds relentlessly descend upon them. A particularly graphic moment depicts a bird tearing at the face of a screaming boy of about 8 or 9 years of age. Such viewing should make an indelible impression upon the minds of our youth as to the importance of not interfering with nature.

In Gore's film we are treated to equally stomach turning cinematography as the director treats us to numerous close-ups of Gore, thus making it clear how serious minded he is about the environment. We know he is the man who can make a change because of the repeated shots showing adoring masses who seemingly follow him around the globe. Let's just hope they don’t all do it on their own personal jets.

All of this, however, got me to thinking. Maybe schools could begin to utilize more Hollywood offerings. Think about it. For only the cost of a Blockbuster rental our students minds could be opened up to myriad realms.

Here are just a few other films schools might use for their teaching curriculums. "The Polar Express" could be used for instruction on transportation systems. "Borat" is a perfect teaching tool for understanding how the Democratic Party uses focus groups. "Alien," could be used to teach students about anatomy and homeland security, all at the same time.

"Far fetched," you say. Maybe, but "Moby Dick" taught me all I ever needed to know about whales, and I'm a marine biologist.


The second-place essay is titled "Global Warming Basics For Beginners," and is by Dan Nagasaki of California:

The earth has had huge climate shifts with extreme warmth and extreme cold (remember reading about the ice age?) long before man could have possibly had any impact on the earth's climate. If man didn't exist on earth, these great climate shifts would still occur. There are two major questions regarding global warming. First, are we really in a long-term global warming trend and second, is man primarily responsible for this? The first may be true, but the second doesn't appear to be true.

If you ask an average person who is concerned about the environment to name the major factors affecting global warming, he'll probably fail to mention the two most important factors. First is the sun, which is actually quite volatile. Even small changes on the sun affect our climate. So, the most important factor affecting global warming, the sun, is not affected by anything mankind does.

In fact, other planets in our solar system are also getting warmer. Second is water vapor, which forms the cloud cover.

After the sun and water vapor come other, much less significant factors such as sulfur dioxide, methane, and carbon dioxide (CO2). To put this even further in perspective, more sulfur dioxide is spewed out through volcanoes and earth vents than by industrialization. Methane is produced by plant-eating animals, including man, so if you really want to make a serious dent in methane production, you need to resign yourself to the mass extinction of most plant-eating animals. As for CO2, which makes up less than 1/10th of 1 percent of the earth's atmosphere (Nitrogen and oxygen make up 99 percent of the earth's atmosphere), the average person, merely by existing, produces more CO2 than the average automobile. Even with the tremendous increase in CO2 in the atmosphere over the last 100 years, the average temperature of the earth has increased about 1 degree C, with most of that temperature increase occurring prior to the rapid increase in CO2 levels.

Many environmentalists believe that protecting the environment means keeping certain environmental conditions exactly the same, but the earth and its ecosystem are constantly evolving. The earth naturally goes through periods of warming and cooling, and some species die out, while others are created. And again – to add some perspective – some changes, such as CO2 increases and global warming, have some beneficial effects, such as increased crop yields and vegetation.


The third-place essay is titled "A Christmas Dinner Conversation" and is by Jim Lion of California:

At a recent Christmas dinner, I had a conversation with my niece, 16 and very smart, who just got into the University of Pennsylvania on early decision. When I showed her how rising global temperatures may have caused the increase in CO2 gases, rather than the opposite Algorism (i.e. that rising CO2 has caused Global Warming) she said, "But that doesn't make any sense."

She's a smart girl. She can figure things out. The reason she thought my assertion made no sense is simple. It runs counter to the doctrine she has heard repeated over and over again ad nauseum, and perpetuated without question or remorse by the mainstream media.

I'll tell you what I told her that night at dinner.

If you look at the graph that Al Gore used in his Oscar-winning movie "An Inconvenient Truth," something emerges decidedly inconvenient to Al Gore's thesis of man-made global warming.

At first, Al Gore appears to get it right. The graph shows a precise correlation between changes in global temperature and changes in atmospheric CO2 over thousands of years. This suggests that when carbon dioxide emissions increase, a rise in global temperatures will result. However, if you take a closer look, the data show an 800 year gap between the changes in global temperature and the changes in atmospheric CO2. 800 years! What's more, CO2 is a trailing indicator, which means, based on the Goracle's own data, that today's current rise in atmospheric CO2 was actually caused by the Medieval Warming Period that occurred 800 years ago!

These facts have not been lost on many reputable scientists, who are busy looking for ways to prove how a rise in global temperature 800 years ago could have percolated down through the ocean, and then rose to the surface, causing the oceans to release vast quantities of CO2. If the process took 800 years in would explain the facts.

Imagine that. An explanation that matches the facts.

It seems to me Al Gore should get out of the pseudo-science business, and go back into theology, which he studied at Vanderbilt University, since it appears that he wants to alter the doctrine of Original Sin, making people feel guilty every time they exhale, spewing harmful CO2 into the atmosphere.

Mr. Gore may change his mind when he learns about these important facts, but don't hold your breath.


"As a parent of two grade-schoolers and a natural resources policy expert, I've heard some whoppers about global warming," says author Holly Fretwell, whose book, "The Sky's Not Falling! Why It's OK to Chill about Global Warming," is specifically designed to set the record straight. "If you're as tired as I am of the environmental bill of goods our kids are being handed at school, now's your chance to tell the world!"

In her book, Prof. Fretwell shows kids 9-12 that it's human ingenuity and adaptability – not a mindless fear of change – that are most likely to guarantee the Earth a healthy future. Fretwell brings genuine educational credentials and practical experience to the environmental debate, giving kids the straight scoop about global warming – and the potentially devastating human and economic consequences of politically motivated responses to it.

Can it really be that human innovation and creativity, combined with individual choice, will yield better environmental outcomes than the draconian, self-congratulatory approaches advocated by Al Gore and his Hollywood friends? Yes!

Indeed, in her book, Fretwell gets kids excited about science and economics, and shows it's human ingenuity combined with an "enviropreneurial" spirit that will lead America to a bright environmental future, not government programs controlled by giant, growth-killing bureaucracies.

Contra a masturbação mental

É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós.

Franz Kafka

"Eminent Domain"

Drew Carey relata como que as políticas de desapropriação funcionam como violações do direito de propriedade nos Estados Unidos.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Em bosta seca não se cutuca

do Canjicas,

O ceticismo é a mãe do conservadorismo. Pessoas com afetações revolucionárias são sempre motivadas por uma crença cega em sua própria capacidade de compreender e mudar o mundo. O cético duvida de suas habilidades e não acredita na capacidade humana de compreender o mundo e fazer o bem de maneira voluntária. Daí porque todo cético demonstra uma certa hesitação em aderir a programas reformadores e filosofias revolucionárias, por mais coerentes e verdadeiras que elas possam parecer em um primeiro momento. O conservadorismo é, antes de tudo, uma demonstração de senso de proporção perante as coisas como elas são, enquanto a postura revolucionária nada mais é do que um egocentrismo histriônico.

Afinal, diria o cético: se o mundo é uma merda, melhor não cutucá-lo.

O Partido Comunista e o indivíduo

Louis Aragon, poeta oficial do Partido Comunista Francês, simplesmente constatou: “Perdi meu tempo”, ao verificar o desmoronamento do socialismo real.

"Quando alguém examina livros, revistas e folhetos comunistas verifica um fato surpreendente. Em nenhuma parte da interminável verborréia que pretende abordar o político-social se encontra qualquer referência ao indivíduo.

Página após página encontramos os termos massas, proletariado, burguesia, mercenários do capitalismo, reformistas, revisionistas, renegados e sempre, em toda a parte, referências à vanguarda revolucionária. Isto é, ao partido.

Sempre que se refere a qualquer membro do partido, ele é esterilizado psicologicamente e tirada a sua individualidade: é convertido no companheiro, kamarada ou quadro.

Não é, porém, por acidente que o ser humano está ausente dos escritos comunistas. O indivíduo não tem cabimento na teoria e no programa dos partidos comunistas. A ideologia só se interessa pelo homem como membro de uma classe e, no que se refere ao programa, os indivíduos são manejados como massa.

Na medida em que o indivíduo siga sendo ele mesmo, diz-se que está animado por interesses e esperanças pessoais: é sensível às dúvidas e ao otimismo; é capaz de ser tocado pelo mistério da vida; torna-se imprevisível e capaz de ater-se às suas próprias opiniões.

As mesmas qualidades que fazem dele um indivíduo o desqualificam para os fins partidários. Tende demasiado a não ser facilmente convencido, a mostrar-se cético, a aborrecer-se pelas reiteradas abstrações próprias da ideologia comunista, a duvidar do método, a manter uma opinião ainda mesmo depois de se ter convertido à linha partidária e a simpatizar ou antipatizar com uns semelhantes sem permissão do Comitê Central.

Em conseqüência, não é confiável. Necessita ser desenvolvido e integrado à massa, a fim de que o partido cumpra a sua missão histórica.

De acordo com a doutrina científica, todos os aspectos do ser humano que não se prestem à sua politização são burgueses."

segunda-feira, 5 de maio de 2008

"Tear down this wall!"

Que espécie de despotismo devem temer as nações democráticas

por Alexis de Tocqueville

Observei, durante minha temporada nos Estados Unidos, que uma situação social semelhante à dos americanos poderia oferecer singulares facilidades à implementação do despotismo, e mostrei, ao regressar à Europa, como a maior parte dos nossos príncipes já se tinham servido das idéias, dos sentimentos e das necessidades que essa mesma situação social fazia surgir, para estender a esfera do seu poder. Isso me levou a crer que as nações cristãs talvez acabassem por sofrer alguma opressão, semelhante à que outrora pesou sobre vários povos da Antiguidade. Um exame mais detalhado do assunto e cinco anos de meditações novas não diminuíram em nada os meus temores, mas mudaram o seu objeto.

Jamais se viu, nos séculos passados, um soberano tão absoluto e tão poderoso que tenha tentado administrar sozinho e sem recorrer a poderes secundários, todas as partes de um grande império; nem sequer um tentou submeter indistintamente todos os seus súditos aos detalhes de uma norma uniforme, nem desceu até junto de cada um deles, para regê-lo e conduzi-lo. A idéia de semelhante empreendimento jamais se apresentara ao espírito humano, e se a algum homem terá ocorrido concebê-la, a insuficiência de luzes, a imperfeição de processos administrativos e, sobretudo, os obstáculos naturais que a desigualdade suscita o teriam logo detido na execução de desígnio tão vasto.

Sabemos que, na época do maior poder dos Césares, os diferentes povos que viviam no mundo romano tinham ainda conservado costumes e hábitos diversos: embora sujeitas ao mesmo monarca, a maior parte das províncias era administrada separadamente; eram cheias de municipalidades poderosas e ativas e, embora todo o governo do império estivesse concentrado apenas nas mãos do imperador, e ele continuasse sempre, quando necessário, árbitro de todas as coisas, os detalhes da vida social e da existência individual fugiam ordinariamente ao seu controle. É verdade que os imperadores possuíam um poder imenso e sem contrapartida, que os permitia entregar-se livremente aos caprichos dos seus pendores e a empregar para satisfazê-los toda a força do Estado; muitas vezes, ocorreu-lhes abusar desse poder para arbitrariamente tirar de um cidadão os bens ou a vida; a sua tirania pesava prodigiosamente sobre alguns, mas não se estendia sobre um grande número; prendia-se a alguns objetivos principais maiores e esquecia o resto; era violenta e contida.

Parece que, se o despotismo viesse a se estabelecer nas nações democráticas de hoje, teria outras características: Seria mais amplo e mais brando, e desagradaria os homens sem atormentá-los. Não duvido que, nos séculos de luzes e de igualdade, como os nossos, os soberanos mais facilmente consigam concentrar todos os poderes públicos em suas mãos apenas, e penetrar mais habitual e mais profundamente no círculo dos interesses privados, como jamais o pode fazer qualquer daqueles da Antiguidade.

Mas essa mesma igualdade, que facilita o despotismo, torna-o mais suave; já vimos como, à medida que os homens se tornam mais semelhantes e mais iguais, os costumes públicos passam a ser mais humanos e mais suaves; quando nenhum cidadão tem um grande poder ou grandes riquezas, a tirania, de certa forma, fica sem ocasião ou teatro de ação. Como todas as fortunas são medíocres, as paixões são naturalmente contidas, a imaginação limitada, os prazeres simples. Essa moderação universal se faz sentir no próprio soberano e detém dentro de certos limites o impulso desordenado dos seus desejos.

Independentemente dessas razões, tiradas da própria natureza da situação social, poderia acrescentar muitas outras, fora de meu tema; desejo, porém, manter-me dentro dos limites que me fixei.

Os governos democráticos poderão tornar-se violentos e cruéis em certos momentos de grande efervescência e de grandes perigos; mas essas crises serão raras e passageiras. Quando penso nas pequenas paixões dos homens de hoje em dia, na brandura dos seus costumes, na extensão das suas luzes, na pureza da sua religião, na brandura da sua moral, nos seus hábitos laboriosos e ordenados, na austeridade em que se mantêm quase todos, no vício como na virtude, não temo que encontrem em seus chefes tiranos, mas antes tutores.

Não creio, pois, que a espécie de opressão de que povos democráticos se acham ameaçados se assemelhe a algo do que a precedeu no mundo; nossos contemporâneos não poderiam encontrar na lembrança a sua imagem. Em vão procuro uma expressão que reproduza exatamente a idéia que tenho e que a encerre; as antigas palavras, despotismo e tirania não convêm de maneira alguma. O fenômeno é novo; é preciso, pois, defini-lo, já que não posso dar-lhe um nome.

Procuro descobrir sob que traços novos o despotismo poderia ser produzido no mundo; vejo uma multidão inumerável de homens semelhantes e iguais, que sem descanso se voltam sobre si mesmos à procura de pequenos e vulgares prazeres, com os quais enchem a alma. Cada um deles, afastado dos demais, é como que estranho ao destino de todos os outros: seus filhos e seus amigos particulares para ele constituem toda a espécie humana, quanto ao restante dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-os e não os sente; existe apenas em si e para si mesmo, e, se ainda lhe resta uma família, pode-se ao menos dizer que não mais tem pátria.

Acima destes, eleva-se um poder imenso e tutelar, que se encarrega sozinho de garantir o seu prazer e velar sobre a sua sorte. É absoluto, minucioso, regular, previdente e brando. Lembraria os homens para a idade viril; mas, ao contrário, só procura fixá-los irrevogavelmente na infância; agrada-lhe que os cidadãos se rejubilem, desde que não pensem senão em rejubilar-se. Trabalha de bom grado para a sua felicidade, mas deseja ser o seu único agente e árbitro exclusivo; provê à sua segurança, prevê e assegura as suas necessidades, facilita os seus prazeres, conduz os seus principais negócios, dirige a sua indústria, regula as suas sucessões, divide as suas heranças; que lhe alta tirar-lhes inteiramente, senão o incomodo de pensar e a angústia de viver?

É assim que, todos os dias, torna menos útil e mais raro o emprego do livre arbítrio; é assim que encerra a ação da vontade num pequeno espaço e, pouco a pouco, tira a cada cidadão até o emprego de si mesmo. A igualdade preparou os homens para todas essas coisas, dispondo-os a sofrer e muitas vezes até a considerá-las como um benefício.

Depois de ter tomado cada um por sua vez, dessa maneira, e depois de o ter petrificado sem disfarce, o soberano estende o braço sobre a sociedade inteira; cobre a sua superfície com uma rede de pequenas regras complicadas, minuciosas e uniformes, através das quais os espíritos mais originais e as almas mais vigorosas não seriam capazes de vir à luz para ultrapassar a multidão; não esmaga as vontades, mas as enfraquece, curva-as e as dirige; raramente força a agir, mas constantemente opõe resistência à ação; nunca destrói, mas impede de nascer, nunca tiraniza mas comprime, enfraquece, prejudica, extingue e desumaniza, e afinal reduz cada nação a não ser mais que rebanho de animais tímidos e diligentes, dos quais o governo é o pastor.

Sempre acreditei que essa espécie de servidão regulada e pacífica, cujo retrato acabo de traçar, poderia conjugar-se mais facilmente do que imaginamos com algumas das formas exteriores da liberdade, e que não lhe seria impossível estabelecer-se à própria sombra da soberania do povo. Nossos contemporâneos são constantemente trabalhados por duas paixões inimigas: sentem eles a necessidade de ser conduzidos e o desejo de permanecer livres. Não podendo destruir nem um nem outro desses instintos contrários, esforçam-se por satisfazer ao mesmo tempo a ambos. Imaginam um poder único, tutelar, todo-poderoso, mas eleito pelos cidadãos. Combinam a centralização e a soberania do povo. Isso lhes dá algum descanso. Consolam-se por ser tutelados, pensando que eles mesmos escolheram seus tutores. Todo indivíduo suporta ser fixado, porque vê que não é um homem nem uma classe, mas o próprio povo, que segura a ponta da corrente.

Nesse sistema, os cidadãos por um momento abandonam a dependência, para indicar o seu senhor, e depois voltam a ela. Hoje em dia, há muitas pessoas que se acomodam muito facilmente a essa espécie de compromisso entre o despotismo administrativo e a soberania do povo, e que pensam ter garantido suficientemente a liberdade dos indivíduos, quando é ao poder nacional que a entregam. Mas isso não me basta. A natureza do senhor me importa muito menos que a obediência.

Entretanto, não quero negar que semelhante constituição seja infinitamente preferível àquela que, depois de ter concentrado todos os poderes, viesse a colocá-los nas mãos de um homem ou de um corpo irresponsável. De todas as diferentes formas que o despotismo democrático poderia tomar, essa seria sem dúvida a pior. Quando o soberano é eleito ou vigiado de perto por uma legislatura realmente eletiva e independente, a opressão que faz com que os indivíduos sofram às vezes é maior; mas é sempre menos degradante, porque cada cidadão, enquanto contido e reduzido à impotência, pode ainda imaginar que, obedecendo, só se submete a si mesmo, e que é a uma das suas vontades que sacrifica todas as demais. Compreendo igualmente que, quando o soberano representa nação e depende dela, as forças e os direitos que se tiram a cada cidadão não servem somente ao chefe do Estado, mas aproveitam ao próprio Estado, e que os particulares tiram algum fruto do sacrifício que fizeram da sua independência a bem do público. Criar uma representação nacional num país muito centralizado é, pois, diminuir o mal que a extrema centralização pode produzir, mas não é destruí-lo.

Bem sei que, dessa maneira, conserva-se a intervenção individual nas questões mais importantes; ela não é menos suprimida nas pequenas e nas particulares. Esquecemo-nos de que é sempre no detalhe que é perigoso escravizar os homens. Por minha parte, seria levado a julgar a liberdade menos necessária nas grandes que nas menores coisas, se pensasse que jamais se poderia ter a certeza de uma sem possuir a outra.

A sujeição nas pequenas questões se manifesta todos os dias e se faz sentir indistintamente a todos os cidadãos. Embora não os leve ao desespero, contraria-os constantemente e os leva a renunciar ao uso da vontade. Pouco a pouco, oblitera o seu espírito e enfraquece a sua alma, ao passo que a obediência, que é devida apenas em reduzido número de circunstâncias muito graves, mas muito raras, só de longe em longe denota a servidão, e só a faz pesar sobre certos homens. Em vão encarregaríamos aqueles mesmos cidadãos que tornamos tão dependentes desse poder central de escolher de vez em quando os representantes desse poder; esse uso tão importante, mas tão curto e tão raro, do seu livre arbítrio, não impedirá que percam pouco a pouco a faculdade de pensar, de sentir e de agir por si mesmos, e que não venham a cair assim, gradualmente, abaixo do nível da humanidade.

Frase do dia

"Mostre-me um altruísta e eu lhe mostrarei um filho da puta", Mencken.

domingo, 4 de maio de 2008

Roberto Campos vs. Marco Aurélio "Top Top" Garcia

Viver num país socialista é...

...ficar feliz da vida com a notícia de que o regime liberou, enfim, a venda de computadores para o cidadão comum.

Depois, ficar deprimido ao constatar que a) há um único modelo à venda e b) ele custa mais de 40 vezes o salário médio na ilha.

Ah, as maravilhas do socialismo!!!

retirado de Resistência

sábado, 3 de maio de 2008

Raízes da Liberdade: uma reivindicação pelo liberalismo radical

por Lucas Mendes, no Austríaco

Introdução

A demonstração da inviabilidade econômica do socialismo foi uma das grandes contribuições apresentadas pelos liberais para combater a doutrina preconizada por Karl Marx. A primeira refutação do socialismo, ao menos de modo sistematizada, foi apresentada pelo economista austríaco Ludwig von Mises, principal expoente da Escola Austríaca de Economia, em seu livro Socialism de 1922. Verdade que Eugen von Bhöhm-Bawerk, professor de von Mises e um dos fundadores da Escola Austríaca junto com Carl Menger, havia refutado a teoria econômica de Karl Marx apresentada em seu O Capital, mas essa refutação não seria propriamente uma refutação do socialismo per si, mas da teoria econômica apresentada por Marx naquele trabalho.

Diferente de Marx, que apenas criticou o capitalismo mas não descreveu como funcionaria o seu regime redentor, em 1927 Mises publicou seu livro intitulado Liberalismo: segundo a tradição clássica onde expôs a maneira como funcionaria um regime de livre mercado conforme defendido pelos liberais clássicos que se opunham ao socialismo.

O debate socialismo x capitalismo permeou a história do século XX não só na academia, mas no mundo, quando a guerra fria concretizou a luta político-ideológica entre essas duas formas de organização social. De um lado os EUA e os países ocidentais representando o capitalismo e, de outro, a URSS e alguns países orientais representando o socialismo.

Mas a idéia inerente ao liberalismo clássico desde seus pais fundadores, os filósofos políticos do século XVIII e XIX (Hobbes e Locke especialmente), é a defesa determinante do Estado mínimo como a instituição reguladora da ordem e da segurança social. Por sua vez, a doutrina econômica do liberalismo clássico, inaugurada por Adam Smith e seguida por Ricardo, Say, Bastiat entre outros, demonstrou a vantagem social de uma economia laissez-faire.

Contudo, como imperativo para que a ordem econômica vigore com toda sua força e gere seus frutos de eficiência produtiva e do bem estar geral, os economistas absorveram os ensinamentos dos filósofos políticos e defenderam igualmente um papel ao Estado, essencialmente como fornecedor de proteção, segurança, justiça e ordem.

Neste artigo tentaremos mostrar a inerente contradição na idéia do Estado Mínimo defendida pelos liberais clássicos e mostraremos que a batalha por uma sociedade livre e virtuosa incontornavelmente requer a abolição do Estado.

O Estado como agressor

Numa economia de mercado as relações econômicas são voluntárias e contratuais. Isso quer dizer que quando duas partes realizam trocas, ambas esperam ganhos, pois cada uma percebe que aquilo que recebe em troca vale mais que aquilo que dá, caso contrário, não haveria intercâmbio. As instituições numa sociedade livre não possuem o poder de coerção ou o direito a iniciação da violência sobre a propriedade ou a pessoa do outro. Caso alguma pessoa ou grupo de pessoas inicie agressão contra outra pessoa ou sua propriedade, tal ato logo é visto como um ato imoral e um crime.

Contudo, na economia de mercado tal qual defendida pelos liberais clássicos, existe um instituição que subsiste exatamente da agressão e a intervenção não requerida à propriedade privada: o Estado. O Estado se caracteriza por seu poder monopolístico sobre uma área territorial. Segundo os teóricos do liberalismo, o fornecimento de segurança, proteção, justiça e ordem devem ser exercidos pelo Estado. Ou seja, todos os habitantes sobre uma determinada delimitação territorial, comumente chamada Nação, deverá recorrer ao Estado e, somente a ele, para obter tais serviços.

Além disso, o Estado é a única entidade social que se caracteriza por obter sua renda através da taxação sobre os súditos donos de propriedades privadas. A diferença essencial entre o Estado e todos os demais cidadãos e entidades sociais em uma sociedade livre é que o Estado obtém sua renda através da exploração impositiva de taxas sobre os cidadãos e organizações privadas, enquanto que estas obtêm sua renda da produção e das trocas voluntárias. Essa entidade que os liberais clássicos atribuem necessária para manter a paz e a ordem social, sobrevive da exploração da propriedade alheia, ou seja, do uso da força e de seu poder de polícia. Portanto, não é exagero dizer que o Estado vive da agressão e da opressão. Então, uma pergunta se impõe: como pode gerar a ordem e a paz uma entidade que nasce e vive da exploração e da agressão à propriedade? A natureza estatal nos sugere exatamente o contrário do que os liberais clássicos afirmam: o Estado é uma engrenagem social inerentemente propensa à guerra, não à paz.

O Estado como desperdiçador

Mas a fragilidade da teoria do Estado Mínimo não se revela apenas nesse aspecto. Quando olhamos mais de perto a natureza do Estado, outra contradição é possível enxergar. Uma questão irrespondível, quando se atribui ao Estado o fornecimento de segurança e proteção, é quanto de proteção ele deve fornecer e a que preço. A lógica do Estado é idêntica a do socialismo. Mises mostrou que o socialismo é impossível porque nele não existe propriedade privada, e se não existe propriedade privada, não pode haver trocas, e se não existem trocas, não existem preços. Sem preços, é impossível fazer o cálculo de lucros e perdas. Portanto, o socialismo, na ausência do mecanismo de preços, tende a se auto-destruir. Sendo um monopolista público, com o Estado ocorre o mesmo. Conforme Rothbard:

On the free market, decisions on how much and what quality of any good or service should be supplied to each person are made by means of voluntary purchases by each individual; but what criterion can be applied when the decision is made by government? The answer is none at all, and such governmental decisions can only be purely arbitrary.[1] (Rothbard, 1998, pág 181).

Mas, além disso, a noção de que o serviço de segurança é um bem que só pode ser fornecido exclusivamente pelo Estado é uma falácia. Porque o governo não poderá saber quanto de segurança fornecer para cada indivíduo. Será uma arma por família? Duas espingardas? Ou um canhão? Como ele resolverá essa questão? Desse modo, fica evidente que a segurança não é um “bem público”, ou seja, não é um serviço possível de ser fornecido adequadamente pelo Estado. Segurança é um serviço como outro qualquer, e como tal, deve ser ofertado e negociado no mercado entre as partes interessadas. Cada pessoa tem uma necessidade de segurança e o Estado não terá como saber qual a necessidade de cada pessoa, família, empresa, instituição ou bairro. Necessariamente, serão de modo arbitrário e irracional as decisões estatais para o fornecimento de segurança. Não é por acaso que o sistema de segurança pública é um caos e via de regra impera a ineficiência.

O Caráter Expansionista do Estado Mínimo

Seguindo adiante, não há razões para admitir que uma agência com o monopólio compulsório da violência, permanecerá limitada apenas aos serviços de proteção da propriedade e da vida. Ao longo da história, nenhum governo se manteve limitado. De fato, existem excelentes razões para crer que ele jamais permanecerá. Como alerta Rothbard:

First, once the cancerous principle of coercion – of coerced revenue and compulsory monopoly of violence – is established and legitimated at the very heart of society, there is every reason to suppose that this precedent will be expanded and embellished. In particular, it is in the economic interest of the State rulers to work actively for such expansion.[2] (Rothbard, 1998, pág. 176).

A questão é que a natureza humana nos informa que o homem age sempre de acordo com seus interesses. Uma vez que os governantes são também seres humanos, não há razão para acreditar que seu monopólio não se expandirá ao longo do tempo. Além disso, a história mesma nos revela esse princípio teórico. A história do estado moderno é a história de sua sistemática e persistente expansão sobre à propriedade e à liberdade do homem. Peguemos um exemplo ilustrativo que serve de regra geral: Nos EUA que é um país caracteristicamente reconhecido pela sua origem liberal, a percentagem da tributação no início do século XX não superava os 5% do PNB. Em 50 anos a fúria arrecadatória do Estado aumentou tanto que a percentagem do PNB abochava pelo Estado já atingia ao redor de 50% da renda nacional e o Estado estava metido nas mais diversas instância da vida econômica, tais como: controle da moeda (não por acaso viveu-se a era da inflação), questão ambiental, agrícola, previdenciaria, estradas etc. etc. Se observarmos a trajetória dos mais diferentes países democráticos modernos veremos que este fenômeno expansionista se repetiu.

Uma vez legitimado o Estado na sociedade, os grupos governantes tenderam sempre a maximizar o seu poder e a sua renda, encontrando, às vezes, apenas uma oposição frágil, incapaz de impor limites ao crescimento e a expansão do Estado. Nem mesmo os teóricos do governo mínimo mostraram os mecanismos institucionais que assegurassem a limitação dos tentáculos do Estado. Nem mesmo a Constituição, como mostra Hoppe (2001, cap. 13). Essa é outra lacuna encontrada na teoria do Estado Mínimo. Desse modo, a própria noção do Estado Mínimo não passa de uma utopia.

Lei x Estado

Outro erro fatal é a idéia da necessidade do Estado para a criação e desenvolvimento da Lei. A noção de que não pode haver leis e justiça sem a existência do Estado é uma noção teórica e historicamente incorreta. Como mostra Rothbard (1998), em primeiro lugar, as primeiras leis não surgiram do Estado, mas de instituições não-estatais, tais como, costumes comunitários, juízes e cortes de lei comum (common law), e as leis e cortes mercantis. Quando havia conflitos entre tribos ou comunidades, os juízes não criavam leis para resolver os litígios, mas sim, encontravam leis ou princípios em vigor pelas comunidades e as aplicavam para os casos específicos. A Irlanda é um exemplo de história de milênios sem justiça estatal que, no entanto, foi encerrada quando da conquista de Cromwell. Segundo Rothbard (1998), na antiga Irlanda a interpretação e aplicação das leis eram feitas por juízes privados, que concorriam entre si, e aplicavam as leis de acordo com os costumes, princípios e valores enraizados nas comunidades, com base na lei natural, descobertas pela razão humana. E disso não se segue que a Irlanda era uma ilha isolada que vivia no primitivismo social. Durante este período anarquista (ou anarco-capitalista, pois havia o respeito à propriedade privada) a Irlanda era a sociedade mais avançada, erudita e civilizada de toda a Europa ocidental [3].

Dois Pesos Duas Medidas

Outro elemento que revela a inerente imoralidade do Estado é no tocante à justiça. Randy Barnett[4] mostra que o Estado pela sua própria natureza não pode obedecer as suas próprias leis e códigos legais. Decorre que se o Estado é incapaz de obedecer as suas próprias leis, então ele é necessariamente ineficiente e auto-contraditório como legislador. O Estado falha completamente porque ele se outorga os mesmos direitos que proíbe aos demais cidadãos. Atos que se forem realizados por indivíduos comuns constituem-se crime, como o roubo (taxação) e a confiscação da propriedade alheia, no entanto, o Estado vive exatamente por meio desses atos. Agora, se um cidadão comum agir assim, imediatamente deverá responder por crime. Ou seja, o Estado é uma instituição criminosa por natureza e vocação e ainda requer o monopólio desse ofício sobre certas operações sociais. Da falsa justiça estatal se agrava a corrupção, a injustiça, o consumo de capital, o estímulo à orientação das pessoas para o presente e a própria degradação dos valores morais, culminando no declínio civilizacional, conforme brilhantemente demonstrado por Hans Hermann-Hoppe [5].

Considerações Finais

Traçando essas linhas sobre alguns problemas inerentes ao Estado, quero deixar claro que não estou criticando os méritos na luta travada pelos liberais e conservadores objetivando o Estado mínimo. É louvável a luta que empreendem, ainda mais nesse país em que forças políticas cada vez mais potentes querem um Estado máximo. Apenas tenho a intenção de alertar nossos liberais e conservadores que não encerrem sua luta na idéia do Estado Mínimo, pois essa batalha já foi perdida a tempo. Lutem pela legítima e única sociedade livre e virtuosa possível. Enfim, atentem-se que essa luta passa necessariamente pela deslegitimação do poder estatal.
_______________
[1] Rothbard, Murray N. The Ethics of Liberty. NY Press, 1998.
[2] Ibdem.
[3] Peden, Joseph R. Property Rights in Celtic Irish Law. Journal of Libertarian Studies 1, primavera de 1977. Para um resumo ver: Peden, Joseph R. Stateless Societies: Ancient Ireland. The Libertarian Forum, abril de 1971. Ambos citados por Rothbard em For a New Liberty, capítulo 12.
[4] Barnett, Randy E. Fuller, Law, and Anarchism. The Libertarian Forum, fevereiro de 1976.
[5] Hoppe, Hans Hermann. Democracy: The God That Failed. Transaction Publishers. 2001.

Vamos banir o monóxido de dihidrogênio

A liberdade de uma humanidade passiva

por Diogo Costa, Ordem Livre

O filósofo escocês Thomas Reid derivava a noção de liberdade moral dos conceitos de poderes intelectuais e poderes ativos – poderes intelectuais constituídos por propósitos da mente, e poderes ativos que, quando realizados, produzem efeitos na realidade. Ambos os poderes se confundem num agente único: o ser humano.

Algumas ideologias políticas modernas caracterizam-se por separar esses dois poderes do ser humano e, com paralela sofisticação esquizofrênica, por separá-los um do outro. Essas ideologias costumam ser aquelas criticadas por Frédéric Bastiat como proponentes da idéia de “humanidade passiva”, substituindo a autonomia intelectual e ativa dos indivíduos pela atuação de agentes sobre-humanos.

O marxismo serve de exemplo da idéia da humanidade passiva. Marx explicava o cosmos pela atuação de forças históricas, e as sociedades humanas como movidas por relações de produção. O poder intelectual por excelência não está nos homens em si, mas nas relações existentes entre eles, que não são determinadas por eles. São as forças históricas que moldam a humanidade e que fazem as classes entrechocar-se.

Rousseau também vê uma humanidade corrompida por instituições, como se não fossem os homens que criassem as instituições. O contrato social que pode justificar a corrupção da sociedade ocorre quando “cada um de nós põe em comum sua pessoa e toda a sua autoridade sob o supremo comando da vontade geral”. Em Rousseau, essa “vontade geral” não é simplesmente a soma das vontades individuais, mas uma expressão coletiva da sociedade. A sociedade, para Rousseau, possui um poder intelectual próprio.

Há, nesses dois exemplos, um problema óbvio na conversão da teoria em prática política. Se os homens não são os agentes intelectualmente autônomos, como eles poderão executar esses propósitos que os transcendem?

Para que essas ideologias possam ser postas em prática, a execução dos poderes ativos deve ser removida dos agentes intelectuais (a história, a sociedade) e transferida para agentes verdadeiramente ativos. Como, na realidade, não há agentes ativos externos à mente, a liberdade pregada por essas teorias deve ser “ativada” por meio de homens. Homens investidos com o poder do Estado. No contratualismo de Rousseau, é o soberano que executa a vontade geral. No socialismo de Marx, é o partido proletário que deve servir de meio de transporte para as forças históricas.

A liberdade passa, assim, a significar a concentração de poder em líderes políticos operadores da sociedade. O resultado é, como não poderia deixar de ser, a própria negação da liberdade individual, e os crimes de opressão que passam a ser cometidos em seu nome.

Assim como não pode existir cor sem um objeto material colorido, também não pode haver liberdade em um corpo puramente passivo, mesmo que não haja obstrução sobre esse corpo, o que significa dizer que o corpo livre necessariamente possui a faculdade de agir propositadamente. Enquanto o filósofo pode se perguntar se há som onde não há ouvidos para ouvir, não há dúvidas de que não há liberdade onde não há agentes para agir.

A defesa da liberdade depende do reconhecimento do livre arbítrio e do poder ativo dos indivíduos. A liberdade depende do individualismo metodológico. Quando se tem a idéia de uma humanidade passiva, explicada e causada por fatores exteriores à mente de cada indivíduo, separa-se o poder de agir e de pensar da humanidade, e a defesa da liberdade torna-se no melhor dos casos uma metáfora, e, no pior deles, um crime de tirania.